Naquela noite, o crepúsculo lançou um véu dourado sobre o oceano, tingindo as águas com reflexos de fogo e sangue. As janelas abertas do quarto permitiam que o som suave das ondas quebrando nas rochas abaixo entrasse, enchendo o ambiente com uma melodia natural e calmante. Rhaella estava imersa em uma banheira de água quente, o vapor subindo lentamente ao seu redor enquanto ela observava o horizonte, perdida em pensamentos. Seus olhos, de um lilás claríssimo, estavam fixos no ponto onde o céu encontrava o mar, mas sua mente vagava muito além, para Westeros, para as terras que ela mal conhecia, mas que, de alguma forma, sentia que lhe pertenciam.

Daemon entrou no quarto com passos silenciosos, seus olhos captando cada detalhe da cena à sua frente. As criadas, ao vê-lo entrar, rapidamente saíram, deixando os dois a sós. Ele começou a se despir, peça por peça, seus movimentos lentos e deliberados, como se estivesse se preparando para um ritual antigo. Quando finalmente se juntou a ela na banheira, a água morna acolheu seu corpo forte, e ele puxou Rhaella para mais perto, envolvendo-a em seus braços. O contraste entre a firmeza do corpo dele e a delicadeza do dela era palpável, e ele a segurou com uma mistura de ternura e posse, como se quisesse protegê-la de todas as tempestades que pudessem surgir.

— O que te prende tanto ao horizonte, minha amada? — Daemon perguntou, sua voz um sussurro profundo que reverberou na quietude do quarto. Ela demorou a responder, ainda olhando para o oceano.

— Westeros — finalmente falou, sua voz baixa, quase inaudível. — Penso nas terras além do mar... nas pessoas, nas histórias, no que o futuro guarda para nós — Daemon a puxou ainda mais para junto de si, seus lábios tocando suavemente a testa dela.

— Westeros pode esperar — ele murmurou, quase para si mesmo. — Agora, estamos aqui, e este é o nosso mundo — ele fez uma pausa, permitindo que o silêncio confortante se estabelecesse antes de continuar, sua voz agora mais animada, carregada de histórias antigas e glórias passadas. — Sabia que Aegon, o Conquistador, também olhava para este mesmo oceano? Ele, com suas irmãs-esposas, Rhaenys e Visenya, conquistou o continente. Três dragões, três cavaleiros, e juntos eles moldaram o destino de Westeros — contava com alegria, seu pai havia contado muitas histórias de Westeros para ele. — Aegon amava profundamente Rhaenys. Ela era sua luz, sua alegria... e também a mais bela das rainhas. Ele sempre dizia que, se não fosse rei, teria sido feliz com ela, longe de tudo, vivendo uma vida simples.

— E você, meu senhor? Busca uma segunda esposa para dividir os seus dias e noites? — Rhaella virou a cabeça para encará-lo, seus olhos brilhando com uma mistura de curiosidade e brincadeira. Daemon riu, uma risada baixa e rouca, e sua mão subiu para acariciar o rosto dela, seus dedos percorrendo a linha suave de sua mandíbula.

— Não preciso de outra esposa, Rhaella — ele respondeu, a intensidade em seus olhos, deixando claro que suas palavras eram sinceras. — Você é tudo o que desejo. Não há outra que possa ocupar o lugar que é teu, no meu coração ou na minha cama — Rhaella sorriu, mas havia um toque de incerteza em seus olhos.

— Aegon amava duas mulheres. E se... se você mudasse de ideia? — Daemon inclinou-se para mais perto, seus lábios roçando os dela, numa promessa silenciosa.

— Aegon não amava as duas — contou suavemente. — Ele amava Rhaenys, mas Visenya era sua obrigação — depositou um suave e curto beijo nos lábios corados dela. — Além disso, Aegon era um homem diferente. Eu, minha doce esposa, sou devoto a ti e apenas a ti. Nada, nem mesmo o trono, me fará dividir o que sinto por você. Você é minha rainha, minha única companheira.

Ela fechou os olhos, permitindo-se acreditar nas palavras dele, sentindo-se segura nos braços que a envolviam. O mundo lá fora, com todas as suas incertezas e perigos, parecia distante enquanto ela se aninhava contra o peito de Daemon, ouvindo o som constante e reconfortante de seu coração. Naquele momento, com o calor da água ao redor e o amor de Daemon a protegendo, Rhaella permitiu-se esquecer os temores do futuro e simplesmente se deixar envolver pelo presente.

Rhaella deixou-se levar pelas lembranças, as memórias flutuando na superfície de sua mente como reflexos na água. O casamento, o início de tudo, parecia tanto uma vida passada quanto um momento que poderia ter ocorrido ontem. Ela era tão jovem na época, ainda sem ter florescido, uma menina em corpo de mulher, entregue a um homem que já era conhecido por sua bravura e determinação.

Ela recordava da noite de núpcias, as tochas iluminando o quarto com uma luz suave e dourada, as sombras dançando nas paredes de pedra enquanto o som abafado da celebração chegava até eles. Seus dedos apertavam nervosamente as dobras do vestido, o tecido luxuoso pesando sobre seus ombros como uma responsabilidade que ela ainda não compreendia totalmente. Aquelas eram as noites em que os pais entregavam seus filhos ao destino, e seu pai tinha dado ordens claras a Daemon: a união devia ser consumada, o sangue real selado com uma promessa de descendência.

Mas Daemon, que já era um guerreiro experiente e implacável em combate, mostrou-se um homem de surpreendente ternura naquela noite. Ele a olhou com uma gentileza que desmentia sua reputação, seus olhos buscando os dela como se precisasse de sua permissão para seguir adiante.

— Você não precisa temer, minha doce Rhaella — ele dissera, sua voz tão suave quanto o toque de suas mãos ao acariciar seu rosto. — Nada será feito esta noite que você não deseje.

Ela se lembrava do alívio que a inundou, uma onda de calor espalhando-se por seu corpo, dissipando parte do medo que a mantivera rígida. Ele a protegera naquela noite, ignorando as exigências do pai deles e garantindo que sua primeira noite como esposa fosse marcada por carinho e não por dor. Mesmo quando o sangue finalmente veio, semanas depois, Daemon a cuidou com uma devoção que poucas vezes vira nos casamentos arranjados. Ele permaneceu ao seu lado, limpando seu rosto úmido de lágrimas e a tranquilizando com beijos suaves e promessas de que o mundo não era tão assustador quanto parecia.

Quando o sangue parou, e o momento da consumação se aproximou, Daemon a tomou com uma paciência e um cuidado que ela jamais esqueceria. Ele a preparou para o ato, seus toques habilidosos garantindo que ela não sentisse mais dor do que o necessário. Ela se lembrava de como ele murmurava palavras de conforto ao seu ouvido, seus lábios tocando sua pele em uma dança lenta e delicada que a fez sentir-se desejada, segura, e acima de tudo, amada. Aquele momento, há exatos seis meses, havia selado o que era mais do que uma aliança política; havia selado a união de seus corações.

Agora, enquanto ela refletia sobre o caminho que haviam trilhado juntos, as mãos de Daemon se moviam sobre sua pele com uma familiaridade que acendia o desejo dentro dela. Ele a acariciava com a mesma intensidade que sempre demonstrara, o calor de seus toques como fogo fluindo por suas veias. A chama entre eles nunca tinha se apagado, apenas crescido, alimentada pela proximidade e pelo amor que, dia após dia, se aprofundava.

Daemon a girou, e a risada surpresa de Rhaella encheu o quarto, clara e melodiosa como o toque de um sino. Ele a puxou para seu colo, e ela sentiu o calor do corpo dele contra o seu, uma sensação que não era apenas física, mas emocional. Ali, nos braços de Daemon, Rhaella sentia-se completa, preenchida de uma forma que ia além da carne e do sangue. Ela se entregou àquele momento, a todas as emoções que ele despertava nela, sabendo que, com ele, estava segura, amada e, acima de tudo, inteira.

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Jon estava envolto pelo manto gélido da noite na Muralha, os ventos cortantes do Norte como lâminas afiadas contra seu rosto. A vastidão da escuridão se estendia diante dele, o silêncio do mundo coberto de neve apenas interrompido pelo ocasional som de passos de seus companheiros de vigia. A Muralha era uma presença constante, uma entidade antiga e imponente, e nas noites mais frias, parecia respirar sob o peso do gelo acumulado.

Ao lado de Jon, um dos guardas, um veterano endurecido pelo frio e pela solidão, quebrou o silêncio com uma história antiga, uma daquelas que passavam de boca em boca, mais mito do que verdade.

— Dizem que Asaprata, a dragão da Boa Rainha Alysanne, se recusou a voar para além da Muralha. Mesmo as grandes feras têm seus limites, parece.

Jon ouviu, mas sua mente estava longe, presa em pensamentos mais profundos. Ele sabia sobre Asaprata e a rainha, conhecia as histórias, mas naquele momento, algo muito mais urgente chamou sua atenção. Ao virar o rosto, seus olhos se fixaram em uma figura que não deveria estar ali. Lá, na neve, destacando-se contra a brancura do mundo, estava a garota valiriana de seus sonhos. Seus cabelos prateados e olhos lilases brilhavam como estrelas distantes, sua pele pálida como a lua cheia, e cada detalhe de sua forma era tão claro, tão definido, que Jon quase se esqueceu de onde estava.

A incredulidade tomou conta de seu ser. Ela era real? Tão nítida, tão perto e ainda assim tão intangível. Seus traços delicados eram etéreos, como se ela pertencesse a outro mundo, um sonho distante que de alguma forma se materializara ali, no frio mortal da Muralha. O coração de Jon acelerou, não pela beleza dela, mas pelo terror silencioso que a visão provocou. Se ela era real, ela morreria ali, congelada antes do amanhecer.

Sem pensar, sem uma palavra, Jon deixou sua posição e começou a segui-la. Seus pés afundavam na neve, o frio se infiltrando em seus ossos enquanto ele avançava, mas nada disso importava. Tudo o que ele sabia era que precisava alcançar a garota, precisava salvá-la de seu destino certo.

Mas à medida que ele avançava, a garota parecia se afastar, seus passos leves quase não deixando rastros na neve. Ele chamou por ela, mas sua voz foi levada pelo vento, perdida no vasto vazio do Norte. Jon correu, o pânico crescendo dentro dele, mas cada passo que ele dava parecia levá-lo mais longe. E então, sem aviso, ela desapareceu. Um momento ela estava ali, tangível e real, e no instante seguinte, havia apenas o ar frio e o silêncio da noite.

Jon parou, o coração batendo em seu peito como um tambor. Ele olhou ao redor, tentando entender, mas a realidade do que acabara de presenciar era tão escorregadia quanto a neve sob seus pés. A garota sumira, como se nunca tivesse existido, deixando Jon sozinho com o frio e o silêncio. E naquele silêncio, ele se perguntava se ela havia sido real ou se os mitos e lendas do Norte estavam começando a invadir sua mente.

♚♚♚

Rhaella repousava contra o peito de Daemon, o som do coração dele batendo de maneira calma e compassada. Ela olhava para o teto, o olhar distante.

— Lembro-me de nossa mãe dizendo que você recebeu o nome em homenagem ao Príncipe Rebelde — começou Rhaella, a voz suave quebrando o silêncio. — O príncipe Daemon, irmão de Viserys I, esposo de Rhaenyra e pai de Aegon III. Até a espada dele você usa — Daemon sorriu, aquele sorriso genuíno que só ela conhecia. Ele a beijou na testa demoradamente.

— A mãe ficou surpresa ao descobrir que estava grávida de você tanto tempo depois que eu nasci. Ela, desde o primeiro instante, declarou que seria uma menina e que se chamaria Rhaella, em homenagem à irmã, rainha de Westeros — O sorriso de Daemon começou a desaparecer quando notou a expressão de Rhaella. Ela se afastou ligeiramente, o olhar carregado de um peso triste. — Seu nome lhe incomoda?

— Não é o nome que me incomoda — disse Rhaella, sua voz carregada de um lamento sutil. — É a história que vem com ele. A rainha Rhaella... A maneira como Aerys a tratava, a quantidade de filhos que perdeu, e sua morte durante o parto da caçula. Eu não quero ser lembrada apenas como uma sombra de uma história triste.

Daemon a observou com preocupação. Ele levantou a mão para acariciar seu rosto, tentando suavizar o peso que ela carregava.

— Meu amor, você não é uma sombra — disse ele com ternura. — Você é uma luz em seu próprio direito, com uma força e uma bondade que nenhuma história pode diminuir. Não deixe que o passado defina quem você é. Você é única, e isso é o que importa.

Daemon puxou Rhaella para mais perto, envolvendo-a em seus braços com uma intensidade que parecia querer fundir seus corpos em um só. O calor do toque dele era um contraste acolhedor com o frio da noite.

Rhaella permaneceu ali, os olhos fixos no mar iluminado pela lua pálida, a superfície das águas cintilando com um brilho prateado. No céu noturno, dois dragões voavam com graça, suas asas lançando sombras fugidias sobre o oceano abaixo. O som das asas batendo era um sussurro distante, quase como um lamento encantado.

Enquanto contemplava a cena, um misto de sentimentos atravessava Rhaella. Havia um desamparo melancólico ao pensar nas histórias que assombravam seu nome, mas também um sentimento profundo de pertencimento e conexão com a beleza ao seu redor. Os dragões, assim como ela, eram parte de uma era passada, mas ainda tinham seu lugar no presente, desafiando o esquecimento com sua majestade e poder.

Daemon, sentindo a tensão e o pesar em seus ombros, beijou suavemente a cabeça de Rhaella. Ele sabia que, embora o passado não pudesse ser alterado, o presente era seu para moldar. Com um gesto protetor, ele a abraçou ainda mais forte, como se pudesse oferecer a ela um refúgio seguro contra as sombras do passado e as incertezas do futuro.

A lua continuava a sua vigília silenciosa, enquanto os dragões se afastavam, levando consigo o peso de histórias antigas e as esperanças de um novo começo.

Daemon a girou suavemente, deitando-a de costas enquanto pairava sobre ela. Seus olhos, cheios de uma intensidade inconfundível, percorreram cada detalhe do rosto delicado de Rhaella, como se quisesse gravar cada linha, cada curva em sua memória. O desejo em seu olhar era inconfundível, mas também havia ali uma profunda admiração.

— Você seria a rainha mais linda que Westeros já viu — ele murmurou, a voz rouca com um misto de devoção e desejo. Rhaella, com um sorriso brincalhão, levantou as sobrancelhas, seus olhos brilhando com uma diversão tímida.

— Mais do que Rhaenys? — perguntou, provocando-o.

— Muito mais — Daemon respondeu sem hesitação, a sinceridade em suas palavras evidente. Sem esperar mais, ele quebrou a distância entre eles, inclinando-se para tomar seus lábios em um beijo urgente e desesperado, como se o tempo pudesse escapar deles a qualquer momento.

O beijo foi como fogo, queimando com uma intensidade que acendeu algo profundo dentro deles. Daemon a invadiu com uma urgência palpável, o desejo que o consumia refletido em cada movimento. Rhaella arfou, sentindo cada centímetro do corpo dele contra o seu, uma mistura de necessidade e entrega total. Seus braços envolveram Daemon, puxando-o para mais perto, como se precisasse daquela proximidade para respirar, para viver.

Os sons da noite ao redor desapareceram, deixando apenas o ritmo descompassado de seus corações e o murmúrio do mar distante. Naquele momento, não havia passado, nem futuro — apenas a presença avassaladora um do outro, tão íntima e intensa quanto os próprios dragões que voavam sob a lua.

♚♚♚

Robert despertou abruptamente no meio da noite, o coração martelando no peito. Ele ouviu risadas femininas ecoando ao longe, ressoando pelos corredores da Fortaleza Vermelha. Por um momento, ele pensou que ainda estivesse sonhando, mas a realidade do som era inconfundível. Levantou-se da cama, o corpo ainda pesado pelo sono interrompido, e abriu a porta de seu quarto, esperando encontrar seus guardas em posição. Mas não havia ninguém.

A risada voltou, mais próxima, mais provocativa. Robert olhou para a esquerda e lá estava ela, a garota valiriana de olhos lilases, meio escondida na esquina do corredor. Ela o observava com um brilho malicioso nos olhos, uma risada baixa escapando de seus lábios enquanto se escondia novamente. Robert sentiu a fúria ferver dentro de si. Era ela, a aparição que o atormentava, o demônio valiriano que parecia não querer deixá-lo em paz. Ele pegou sua espada sem hesitar, o metal frio trazendo um conforto amargo, e partiu em perseguição.

A cada passo que dava, a garota parecia se afastar ainda mais, como um fantasma que se desfaz na névoa. Sua risada, no entanto, permanecia clara, ecoando pelos corredores sombrios da Fortaleza. Ela o guiou até a sala do trono, onde a luz débil da lua entrava pelas janelas altas, iluminando o Trono de Ferro em toda a sua glória ameaçadora.

Lá, sentado no trono, estava um homem valiriano. Sua presença era imponente, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar. Usava a coroa de Maekar, e suas mãos descansavam sobre a lâmina da Irmã Sombria, a espada lendária que parecia brilhar com um propósito sombrio. O valiriano ergueu o olhar para Robert, um sorriso desafiador e divertido curvando seus lábios.

Antes que Robert pudesse reagir, o homem pegou a garota pela cintura, puxando-a para junto de si. Ele a girou com um movimento elegante, quase carinhoso, antes de depositar um beijo em seus lábios. A visão incendiou a raiva de Robert. Ele ergueu a espada, a fúria consumindo cada pensamento coerente. Estava pronto para acabar com aquele homem, para erradicar a ameaça que o assombrava. Mas quando golpeou, sua lâmina não encontrou nada além do ar.

O valiriano levantou a Irmã Sombria em um gesto de desafio, mas antes que qualquer confronto pudesse se materializar, tudo se desvaneceu. Num piscar de olhos, o homem e a garota desapareceram, deixando Robert sozinho na sala do trono vazia, com a espada inútil em sua mão e o eco da risada ainda reverberando em sua mente.

Robert permaneceu parado no meio da sala do trono, a respiração pesada e a espada ainda firmemente empunhada em sua mão. O brilho prateado da lua iluminava as bordas do Trono de Ferro, mas não oferecia nenhuma resposta ao que ele acabara de testemunhar. Seu coração ainda martelava no peito, o eco da risada da garota valiriana se desvanecendo lentamente em sua mente.

Foi então que um dos guardas apareceu na porta, o rosto pálido de surpresa e preocupação.

— Majestade? — ele perguntou, a voz hesitante enquanto observava o rei parado no centro da sala vazia. — O que aconteceu? Está tudo bem?

Robert olhou para o homem, sentindo o peso da realidade cair sobre ele novamente. Por um instante, considerou contar o que havia visto, mas logo desistiu da ideia. Quem acreditaria em fantasmas valirianos, em aparições que riam e desapareciam como a névoa? Não, ele preferia manter isso para si mesmo, trancado em sua mente como mais uma lembrança amarga que o assombrava.

— Não é nada — respondeu Robert com voz áspera, sua expressão endurecendo. — Volte ao seu posto — Ele não deu ao guarda qualquer explicação, apenas virou-se e caminhou lentamente para fora da sala, cada passo ecoando pelos corredores vazios.

Quando finalmente chegou ao seu quarto, o cansaço e o desespero o envolveram como um manto pesado. Fechou a porta atrás de si e, em silêncio, deixou a espada cair ao chão. Suas mãos tremiam, mas ele não sabia se era de raiva ou de uma profunda tristeza que não conseguia expressar.

Sem forças para resistir, Robert afundou na cama, com o rosto enterrado nas mãos. As lembranças vieram como uma maré implacável—Lyanna, sua beleza selvagem e os sussurros de um amor que nunca foi correspondido; Rhaegar, o príncipe dourado que lhe roubou tudo; e os malditos Targaryen, cuja sombra ainda pairava sobre ele, mesmo depois de todos esses anos.

As lágrimas surgiram sem aviso, quentes e dolorosas. Robert, o Rei Robert, o homem que derrubou uma dinastia, chorava em silêncio, sentindo o peso de todas as perdas, de todas as batalhas travadas e das que ele nunca pôde vencer. Pensava em Lyanna, na promessa quebrada, e em Rhaegar, o príncipe que deveria ter morrido por suas mãos, e em todos os Targaryen que causaram tanto sofrimento.

Mas nada disso mudava o fato de que o passado era um fantasma que ele não podia derrotar, uma lembrança dolorosa que não podia esquecer. E naquela noite, Robert Baratheon, o Rei dos Sete Reinos, chorou sozinho, com o nome de Lyanna nos lábios e o ódio pelos Targaryen queimando em seu coração.

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Viserys Targaryen estava de pé no convés do pequeno navio, o vento chicoteando seus cabelos prateados enquanto ele olhava para o horizonte nebuloso. As ruínas de Valíria se aproximavam lentamente, envoltas em névoa e lendas antigas. O mar ao redor parecia escuro e inóspito, como se até as águas soubessem da maldição que pairava sobre a terra devastada.

Curioso e impaciente, ele se aproximou de um dos marujos, um homem de rosto marcado pelo tempo e pelos perigos do mar, mas que não conseguia esconder a inquietação ao cruzar por perto das ruínas de Valíria.

— O que resta em Valíria? — perguntou Viserys, a voz cortante como uma lâmina fina. — Quais segredos ainda estão enterrados lá?

O marujo lançou um olhar nervoso para as ruínas distantes antes de responder, e quando o fez, a voz era baixa e cheia de superstição.

— Nada além de ruínas, milorde. Vermes de fogo rastejam entre as pedras antigas, e as praias estão cheias de pessoas marcadas pela escamagris. Valíria caiu, inteira e para sempre. Não há nada lá para os vivos, apenas morte e maldição.

As palavras do homem alimentaram a raiva latente em Viserys. Ele apertou os punhos até que seus nós dos dedos ficassem brancos, os olhos brilhando com um fogo sombrio. A queda de Valíria era um lembrete doloroso de tudo o que sua família conquistou e perdeu—poder, glória, dragões. E tudo isso culminava na figura de Robert Baratheon, o usurpador, o homem que destruiu a última esperança dos Targaryen de recuperar o Trono de Ferro.

Ele sentia o ódio crescer dentro de si, fervendo como magma prestes a explodir. Robert havia roubado tudo dele—sua casa, seu legado, seu destino como rei. A imagem do rei usurpador, com seu rosto rude e seu desprezo pelas tradições dos Targaryen, era como um espinho cravado na alma de Viserys.

Enquanto o navio se aproximava das ruínas amaldiçoadas, Viserys prometeu a si mesmo que um dia, de alguma forma, ele vingaria a queda de sua casa. Os ossos de Valíria poderiam estar sepultados no passado, mas ele, o último herdeiro verdadeiro dos dragões, ainda queimava com a chama da vingança. E um dia, ele faria o mundo lembrar do verdadeiro poder dos Targaryen, mesmo que precisasse caminhar sobre as cinzas de Valíria para alcançar seu destino.

♚♚♚

Rhaella estava na varanda de seus aposentos, o vento crescente da tempestade que se aproximava jogando seu vestido leve para trás como um estandarte de seda. Seus cabelos prateados, tão finos quanto fios de luar, chicoteavam ao redor de seu rosto, emoldurando seus olhos pensativos que fixavam-se no horizonte tumultuado. As ondas do mar abaixo batiam com força contra os rochedos da ilha, e o céu ameaçava desabar sobre eles a qualquer momento.

Daemon a encontrou ali, observando-a em silêncio por um instante, como se quisesse absorver cada detalhe de sua figura solitária contra o pano de fundo das águas revoltas. Então, ele se aproximou por trás, envolvendo-a com seus braços firmes e puxando-a suavemente para mais perto. Seus lábios desceram com devoção ao longo do pescoço dela, traçando um caminho de beijos quentes sobre sua pele fria. Quando ele chegou aos ombros, ela sentiu o peso de sua presença reconfortante, uma âncora contra a tempestade iminente.

— O que você está olhando? — ele perguntou, sua voz baixa e rouca, quase um sussurro levado pelo vento.

Rhaella manteve o olhar fixo no horizonte, onde o mar e o céu se encontravam em um turbilhão de escuridão e movimento. Seu rosto, iluminado pelos relâmpagos que piscavam à distância, permaneceu enigmático quando ela finalmente respondeu, com uma serenidade que contrastava com a fúria dos elementos ao redor.

— O mar e a tempestade trazem coisas inesperadas — disse ela, sua voz calma, mas carregada de significados ocultos, algo que nem Daemon conseguia decifrar. — Coisas que não podemos prever, não importa o quanto tentemos. Algumas boas, outras... nem tanto.

Daemon apertou-a um pouco mais, tentando captar o que estava por trás dessas palavras, mas Rhaella apenas sorriu levemente, um sorriso que ele conhecia bem, aquele que guardava segredos que ela não estava pronta para compartilhar. O vento uivava ao redor deles, e a primeira gota de chuva caiu, fria e pesada, sobre a pele aquecida dos dois, anunciando que a tempestade estava finalmente ali, trazendo consigo todas as promessas e ameaças que Rhaella sentia no ar. Daemon, sentindo a primeira gota de chuva, puxou Rhaella para mais perto, mantendo-a segura em seus braços.

— Venha, minha rainha. Vamos nos aquecer. Só nós dois — Ele sussurrou em seu ouvido, a voz baixa, suave como o toque do vento, mas firme como uma ordem cheia de carinho. Ele deu um passo para trás, virando-a gentilmente em sua direção, os olhos brilhando com uma promessa que somente ela podia decifrar.

Rhaella deixou-se guiar por ele, os dois desaparecendo lentamente na penumbra do quarto iluminado pelas chamas da lareira. O som da tempestade lá fora ecoava nas paredes de pedra enquanto Daemon a conduzia até a banheira cheia de água quente, o vapor subindo e se misturando ao ambiente, trazendo uma calma acolhedora ao espaço. Ali, sob o suave calor, o mundo parecia distante, a tempestade era apenas um murmúrio do lado de fora, enquanto o casal se entregava ao silêncio íntimo e ao conforto de estarem juntos.

♚♚♚

Enquanto isso, a centenas de milhas, Viserys se encontrava no centro do caos. A bordo de um pequeno navio, ele enfrentava uma tempestade que parecia saída das próprias lendas de Valíria. A embarcação era um brinquedo insignificante diante da fúria do mar, cada onda um golpe que fazia o casco ranger e ameaçava despedaçá-lo a qualquer momento.

Viserys, agarrado às amuradas do convés, sentia o medo que crescia em seu peito, um pavor primal que nenhuma chama de vingança poderia apagar. O vento gritava em seus ouvidos, como se zombasse de sua linhagem nobre, e a chuva caía como agulhas, cegando-o. Seus olhos, arregalados em pânico, captaram o que parecia ser uma parede de água se erguendo diante do navio, alta como uma montanha líquida. Ele teve apenas um momento para gritar, um som que se perdeu no rugido da tempestade, antes que a onda colossal caísse sobre eles, engolindo o navio e tudo que havia a bordo.

No instante em que a água os cobriu, o mundo de Viserys se tornou escuridão e desespero, um turbilhão gelado que o arrastava para as profundezas, enquanto o grito de Daemon chamando por Rhaella se dissolvia no calor aconchegante de sua banheira. O destino parecia brincar cruelmente com o sangue dos dragões, oferecendo o calor da intimidade a um e a gélida morte no abismo ao outro.