Os últimos dragões

8 Capítulo VIII


Viserys Targaryen caminhava pelas ruas poeirentas de Vaes Dothrak, o som dos passos dos cavalos dothraki ecoando à sua volta, misturado ao murmúrio constante dos mercadores e comerciantes que preenchiam a cidade. Ele estava mal-humorado, frustrado com sua vida de exílio, vivendo à sombra do que acreditava ser seu direito de nascença. O calor da cidade o irritava, mas era o fogo dentro dele que realmente queimava – a chama implacável de sua vingança.

Enquanto passava por uma tenda onde mercadores de diferentes regiões se reuniam para trocar histórias e bens, suas orelhas captaram algo que o fez parar, algo que Daenerys não ouviu, pois caminhava decidida e gloriosa a frente, como se o bebê em seu ventre fosse capaz de dar o mundo para ela.

— Dragões… — sussurrou um homem, sua voz baixa, mas carregada de reverência. — Eles dizem que foram vistos sobrevoando as ruínas de Valíria.

Viserys sentiu seu coração pular no peito. Ele se aproximou, fingindo estar desinteressado, mas com cada palavra, ele se prendia mais à conversa.

— Sim, enormes, dizem — continuou o comerciante. — Rodeando as torres caídas e os vulcões adormecidos. Alguns pescadores os avistaram, juro por R'hllor.

— Bah, contos de tolos — disse outro, balançando a cabeça. — Valíria é uma terra maldita. Ninguém voltaria de lá para contar histórias se fossem verdadeiras.

Mas o primeiro comerciante sacudiu a cabeça, teimoso.

— Não, não é a primeira vez que ouvimos esses rumores. Há quem diga que as ruínas ainda guardam segredos... e talvez, apenas talvez, os dragões tenham sobrevivido ao cataclismo. Ou talvez... novos tenham nascido.

As palavras tocaram Viserys como um sopro de vida em suas brasas quase extintas. Dragões. Sua mente começou a correr com imagens – as criaturas magníficas de sua linhagem, cuspindo fogo, destruindo inimigos, reivindicando tronos. Se os dragões estavam vivos... se ele conseguisse encontrar e domá-los...

Seu punho se fechou ao lado do corpo, e ele quase não notou que começara a tremer. Não de medo, mas de excitação. O destino parecia estar sorrindo para ele. Se ele tivesse dragões, poderia finalmente reivindicar o que era seu por direito, poderia marchar sobre Westeros e esmagar qualquer um que ousasse se opor a ele. A chama da vingança dentro dele, sempre presente, agora queimava com uma intensidade renovada, alimentada pelos boatos dos mercadores.

— Meu trono, meu trono por direito — murmurou ele para si mesmo, com os olhos brilhando de fúria e desejo. A ideia de dragões vivos, prontos para serem reivindicados, inflamou uma esperança há muito esquecida. Ele iria a Valíria se fosse preciso. Ele os encontraria, os controlaria, e então, ninguém – nem Robert Baratheon, nem os usurpadores de sua casa – poderia resistir ao verdadeiro rei dos Sete Reinos.

E com esse pensamento, Viserys se virou, sua mente já maquinando o próximo passo. Ele não seria um rei sem coroa por muito mais tempo. A vingança dos dragões estava próxima, e com ela, o retorno dos Targaryen ao poder.

Naquela noite, enquanto as chamas das fogueiras dothraki dançavam ao redor, Viserys Targaryen estava sentado sozinho, afastado da celebração para seu futuro sobrinho, “O garanhão que monta o mundo”, parecia um título estranho, a mente dele estava fervilhando com as humilhações que havia sofrido. A visão de Daenerys, sua própria irmã, devorando o coração de um cavalo sob o olhar aprovador de Khal Drogo e seus homens, revirava seu estômago. Cada gargalhada, cada olhar de desprezo que recebeu, o corroía por dentro. Ele estava cansado de ser visto como nada, como um rei sem coroa, um leão sem garras.

À medida que a noite avançava e as sombras se estendiam, Viserys tomou uma decisão. Ele não iria implorar mais uma vez, não se arriscaria a sofrer outra humilhação pública. O caminho de volta para o poder não seria ao lado de um khalasar que nunca o respeitaria, o chamavam de “Rei Carroça”. Se os boatos dos dragões em Valíria acenderam uma chama de esperança, então a memória do poder dos Targaryen em Essos, onde ainda havia cidades que temiam o nome de sua família, o empurrou para uma nova direção.

Enquanto os dothraki se embebedavam e se entregavam aos seus rituais, Viserys esgueirou-se pela escuridão, deixando para trás a fogueira central e a sua irmã, que, por um breve momento, ele viu como a responsável por sua miséria. Seu ódio por Daenerys queimava quase tão forte quanto seu desejo de recuperar o trono. Ele não olhou para trás enquanto se afastava, o ruído das celebrações se tornando um murmúrio distante.

Viserys sabia que havia um homem, um comerciante de Vaes Dothrak, que não fazia perguntas, desde que a prata fosse abundante. Encontrá-lo não foi difícil. O comerciante era um homem de Lhazar, com olhos velhos e pele curtida pelo sol. Seu sorriso era de um desdém educado, quase cortês, mas Viserys pouco se importava com as nuances daquele momento. Despejou as moedas nas mãos do homem e exigiu que fosse levado para fora daquele maldito lugar, longe dos Dothraki, longe de Drogo e sua irmã ingrata.

— Você me levará até Lhazar, não importa o custo — disse ele, tentando infundir sua voz com a autoridade de um rei.

O comerciante, vendo um homem desesperado, mas ainda reluzindo com um ar de nobreza, aceitou a oferta. O coração de Viserys batia como um tambor enquanto ele se esgueirava para dentro da carroça, envolto em mantos para se proteger do frio da noite. Ele não se permitiu pensar na segurança de Daenerys ou no que Khal Drogo faria quando percebesse sua fuga. Sua mente estava fixada no futuro, um futuro onde ele renasceria com o apoio de novas alianças.

A carroça partiu antes do amanhecer, as rodas rangendo suavemente na terra enquanto se afastavam do acampamento dothraki. Viserys observava pela fresta da carroça, as colinas e os desertos que passavam por ele, sentindo uma mistura de medo e excitação. Ele estava fugindo, sim, mas também estava avançando em direção a um novo destino. Astapor o chamava, e talvez lá, entre os mercadores e os traficantes de escravos, ele encontrasse o poder que tanto almejava, até porque precisava de um navio, um navio para levá-lo à Valíria.

Na mente de Viserys, a imagem de dragões voando sobre Valíria misturava-se com a visão de escravos em Astapor, forjando exércitos e poder. Ele sussurrou para si mesmo, com uma voz cheia de rancor e esperança:

— O dragão não está morto. Apenas adormecido.

E enquanto a carroça balançava suavemente em direção ao leste, ele fechou os olhos, sonhando com o dia em que todos aqueles que riram dele queimariam em nome dos Targaryen.

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Na manhã seguinte, quando a luz do sol nascente banhou as vastas planícies de Vaes Dothrak, Daenerys Targaryen sentiu uma inquietação crescendo em seu peito. Algo estava errado. Ela olhou ao redor do acampamento, vendo os dothraki despertando lentamente de suas celebrações, mas não avistou Viserys em lugar algum. Um frio se instalou em seus ossos enquanto o sentimento de abandono se infiltrava em sua mente. Onde estava seu irmão?

Daenerys caminhou entre as tendas, perguntando a alguns dos guerreiros e mulheres do khalasar se haviam visto Viserys, mas ninguém tinha respostas. Com um nó na garganta, ela encontrou Sor Jorah Mormont, que estava verificando os preparativos para a jornada que logo começaria. Quando Dany perguntou se ele tinha visto seu irmão, o cavaleiro franziu a testa, uma sombra escurecendo seu olhar.

— Não, minha senhora — ele respondeu com gravidade, observando a preocupação nos olhos dela. — Não o vi desde ontem à noite.

Mas Jorah não revelou tudo o que estava em sua mente. Durante a noite, enquanto ele montava guarda, os ventos haviam trazido até ele sussurros. Não eram sussurros humanos, mas algo mais profundo, mais antigo, que parecia emergir das próprias raízes da terra. Sussurros que rugiam como chamas ardentes, sussurros que falavam de dragões despertando de um sono milenar. Ele havia ignorado esses sons como produtos de sua imaginação, talvez os ecos do coração do mundo que Vaes Dothrak encarnava. Contudo, agora, com o desaparecimento de Viserys, aquelas vozes retornavam à sua mente, preenchendo-o com um pressentimento sombrio.

— Você acha que algo aconteceu com ele? — Daenerys perguntou, sua voz pequena e cheia de medo. Jorah hesitou, escolhendo cuidadosamente suas palavras.

— Viserys sempre foi impetuoso, minha senhora. Pode ser que tenha saído para algum lugar sozinho. Ou... quem sabe... os deuses antigos têm planos diferentes para ele — ele sabia que essas palavras pouco fariam para confortá-la, mas não tinha como prever onde Viserys poderia estar agora, ou o que ele poderia estar tramando. Daenerys olhou para o horizonte, a inquietação em seu coração crescendo.

— Ele estava tão obcecado — ela murmurou, mais para si mesma do que para Jorah. — Obcecado com a coroa, com o poder... E agora ele desaparece.

Jorah assentiu, colocando uma mão protetora sobre o ombro dela, para a acalmar.

— Se Viserys se meteu em encrenca, minha senhora, nós saberemos em breve. Mas você, Daenerys Stormborn, é quem importa agora. A herdeira legítima dos dragões.

Dany sentiu o peso da responsabilidade recair sobre ela, mas também a incerteza de seu futuro. Com Viserys desaparecido e os sussurros do vento brincando em sua mente, ela não sabia o que esperar dos dias que viriam. Mas uma coisa era certa: o mundo estava mudando, e os dragões, de uma forma ou de outra, estavam voltando para o cenário de Westeros e Essos.

♚♚♚

Na ilha, Rhaella acariciava as escamas reluzentes de Merax, a dragão que parecia refletir toda a graça e beleza de sua cavaleira. Os olhos de Daemon acompanhavam cada movimento de Rhaella à distância, do alpendre do castelo, a proteção e o amor visíveis em seu olhar, mas também a preocupação constante. Ele queria dar-lhe espaço, mas ao mesmo tempo mantinha-se perto, sempre vigilante. Seu pai sempre o lembrava que deveria amar e proteger sua irmã como se fosse ele mesmo, mas seu pai havia errado nisso, ele amava e protegia sua irmã-esposa como jamais faria por si. Rhaella era o sol das suas trevas. O meistre do castelo, um homem que há muito abandonara Westeros, ainda jovem, com Eamon e Saerane, aproximou-se cautelosamente, carregando consigo a sabedoria dos anos, mas também uma pergunta que despertaria a fúria de Daemon, mesmo que fosse inocente.

— Será que no próximo ano Lady Rhaella dará à luz um herdeiro? — a pergunta simples saiu de maneira ingênua da boca do velho, mas carregada de expectativas, inflamou a raiva de Daemon.

— Ela não dará — Daemon respondeu com um tom sombrio, o controle sobre sua raiva evidente em cada palavra. — Continue a dar-lhe os chás e preparados que evitem uma gestação.

— Mas, meu lorde, sua linhagem…o sangue do dragão…

— O corpo dela não suportaria, não agora — uma sombra de preocupação cobriu a irritação que a pergunta havia causado. — Perder Rhaella é a única coisa que me assombra. Sem ela, eu seria um dragão sem cavaleiro: sem inimigos, sem aliados, apenas a destruição.

Essas palavras ressoaram na mente do meistre, e ele soube que era inútil insistir. Daemon protegeria Rhaella de tudo, até mesmo da própria natureza, se fosse necessário.

Daemon se aproximou de Rhaella com passos cuidadosos, como se cada um deles o aproximasse de um santuário sagrado. Sua expressão, tão cheia de intensidade momentos antes, suavizava a cada passo até que ele finalmente estivesse ao lado dela. Ele estendeu a mão e acariciou o focinho de Merax, bem perto de onde estava a mão de Rhaella, os olhos da dragão refletindo a confiança que tinha nele. Em seguida, Daemon inclinou-se para Rhaella, depositando um beijo demorado em sua testa, um gesto que carregava tanto amor quanto proteção, ou para alguns, possessividade.

Rhaella, que nos últimos dias tinha ouvido o meistre conversando com a septã sobre o casamento ainda não ter dado frutos, sentiu um peso se acomodar em seu coração, como um espinho em seu corpo. A preocupação de que Daemon, ou mesmo os outros na ilha, esperassem um herdeiro a qualquer momento a assombrava. Mas o que realmente a apavorava era a ideia de gestar tão jovem, de submeter seu corpo a algo que mal conseguia imaginar.

— Daemon — sua voz era suave, quase um sussurro — , espera que eu lhe dê um herdeiro no próximo ano?

Daemon, ao invés de responder de imediato, a estudou por um momento, sua expressão se tornando ponderada. Ele sabia que a pergunta dela vinha de um lugar de insegurança e medo, e ele se recusava a pressioná-la, como havia se recusado desde a noite de núpcias. Em vez disso, ele inclinou a cabeça ligeiramente, um pouco incomodado por ela não o olhar nos olhos.

— E o que você deseja, Rhaella? — ele devolveu a pergunta com a mesma suavidade dela.

Daemon aproximou-se de Rhaella com uma graça selvagem, sua expressão endurecida pelo aço das batalhas suavizando ao tocar o rosto delicado dela. Seus dedos acariciaram o focinho de Merax com a mesma reverência que dedicava à esposa. Ela enfim o olhou, os olhos lilases brilhavam com anseio e temor.

— Desejo dar a você vários filhos, guerreiros e cavaleiros de dragão como você. Mas quero estar pronta para isso — ela deu um sorriso plácido, mas sincero, como se fosse a única resposta que ela conseguiria dar para ela. Daemon sorriu, um sorriso que misturava orgulho e carinho. Ele encostou a testa na testa dela, sentindo o calor suave que emanava nela.

— Mais do que guerreiros e cavaleiros — ele disse, seu tom envolto em afeto— , desejo uma filha tão bela e doce quanto você. Se a vontade dos deuses nos conceder um dia, que seja ela a herdeira do amor que temos um pelo outro.

Eles trocaram um sorriso sincero, algo que eles compartilhavam desde antes de se casarem.

♚♚♚

Naquela noite, enquanto a lua lançava sua luz pálida sobre a ilha do castelo de obsidiana, Rhaella encontrou-se mergulhada em um sonho inquietante. No reino etéreo da sua mente, ela viu uma jovem mulher valiriana, de cabelos prateados e olhos lilases, semelhante a si mesma, mas com uma aura de tristeza e desespero. A mulher estava de pé em um quarto real, estava suada, em desespero.

Enquanto o silêncio pesado envolvia o cenário, a mulher começou a parir, seu rosto contorcido em agonia e esforço. O parto parecia interminável, e o ambiente se tornava mais opressivo a cada momento. Finalmente, o bebê foi colocado em seus braços — uma criatura deformada, com a pele pálida e marcada por uma estranha aberração. O choro do recém-nascido era um lamento baixo e angustiante, ecoando pelos corredores vazios da câmara, até que subitamente cessou. Rhaella ouviu a mulher gritar “Eles roubaram minha coroa e minha filha”

Rhaella acordou com um sobressalto, o coração batendo forte contra o peito. O pesadelo ainda parecia real, e o medo a envolvia como um manto pesado. Ela se voltou para Daemon, que estava ao seu lado, o rosto sereno em sono profundo. A visão da mulher e da bebê deformado persistia em sua mente, uma imagem perturbadora que parecia carregar um presságio sombrio, ou um passado doloroso. Rhaella se aconchegou mais perto de Daemon, buscando consolo na presença dele, mas o medo deixado pelo sonho parecia não querer se dissipar.

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Joffrey desceu as escadas de pedra que levavam aos corredores escuros e frios do subsolo da Fortaleza Vermelha, seus passos ecoando pelos corredores desolados. Com um gesto pomposo, ele conduzia Sansa e seus puxa-sacos, o orgulho estampado no rosto. As tochas lançavam sombras dançantes nas paredes enquanto Joffrey guiava o grupo para os aposentos onde os crânios dos dragões repousavam em um silêncio eterno. Ele fez uma pausa diante de cada crânio, desdenhando da grandiosidade dos antigos monstros.

— Olhem para isso — ele dizia, com um tom de desprezo que era quase uma marca registrada. — Aqui estão os restos de lendas. Esses monstros, que costumavam ser temidos por todos, agora não são mais do que ossos secos e poeira.

Os puxa-sacos riam nervosamente, como se o riso pudesse afastar a sensação incômoda de estar diante de tais relíquias. Sansa, por sua vez, observava com uma mistura de curiosidade e apreensão, seus olhos fixos nos crânios que uma vez pertenceram a criaturas imensas e majestosas. Tyrion, que havia descido novamente à procura de informações sobre Eamon e Saerane, olhou para aquilo com repulsa.

— Mostre um pouco mais de respeito — ele ordenou, sua voz fria e incisiva. — Esses ossos são de criaturas que governaram o céu e dominaram a terra. Eles não merecem o seu desprezo.

— Eu não temo fantasmas, tio. São apenas ossos, nada mais — respondeu o príncipe, desdenhoso. Tyrion, com uma expressão que misturava frustração e desgosto, observou Joffrey com um olhar que parecia pesar cada palavra que diria, tentando escolher mais simples para que ele compreendesse.

— Você pode não temer fantasmas, mas há coisas que não deveriam ser menosprezadas apenas porque você não consegue ver o valor nelas. Há um legado aqui que você parece incapaz de compreender — olhou o sobrinho da cabeça aos pés. — Você é incapaz de compreender tantas coisas…

— Quando eu for rei, quebrarei cada pedacinho desses ossos — Joffrey rosnou.

— Claro, faça isso, vá em frente — Tyrion balançou a mão. — Siga sendo esse merdinha e será um rei tão repugnante quando Aegon IV.

O silêncio que se seguiu parecia carregar um peso invisível, enquanto os puxa-sacos trocavam olhares nervosos e Sansa sentia o frio da câmara mais intensamente do que antes. Os crânios dos dragões, silenciosos e imortais, continuavam a olhar para baixo, testemunhas silenciosas da disputa entre o respeito e a irreverência.

Joffrey subiu as escadas com passos apressados e furiosos, seus calcanhares batendo contra as pedras como uma tempestade que avança. Sua expressão estava contorcida em um misto de raiva e ressentimento, e suas mãos estavam cerradas em punhos. O eco de seu descontentamento reverberava pelos corredores da Fortaleza Vermelha enquanto ele avançava em direção aos aposentos de sua mãe.

Ao chegar à porta do quarto de Cersei, Joffrey a abriu sem cerimônia, suas feições distorcidas em uma carranca.

— Mãe! — ele exclamou, a voz cheia de indignação e raiva. — Tyrion teve a audácia de me repreender diante dos meus próprios homens. Ele teve a ousadia de dizer que eu deveria mostrar mais respeito pelos ossos dos dragões, sendo que são só ossos!

— Eu me certificarei de que Tyrion entenda onde está o seu lugar — foi tudo que Cersei respondeu para o filho, achando um tanto engraçado o fato do garoto estar tão incomodado com as palavras de Tyrion.

♚♚♚

Tyrion estava absorto em um emaranhado de livros e pergaminhos empoeirados, seus olhos analisando com atenção as páginas amareladas e o texto embaçado pela idade. O quarto estava impregnado com o cheiro de papel envelhecido e poeira, e a luz das velas lançava sombras dançantes nas paredes. Havia um livro particularmente promissor em suas mãos quando o silêncio foi abruptamente interrompido. Cersei entrou com um semblante de irritação que não podia ser ignorada. Ela se aproximou de Tyrion com passos firmes e um olhar cortante, mas não sem o ar de desdém.

— Tyrion — ela disse, a voz carregada de uma frieza que indicava sua crescente irritação. — O que você pensa que está fazendo?

Tyrion ergueu os olhos do livro, seu rosto exasperado, mas ainda mantendo uma expressão de calma estudiosa. Ele sabia o quão mimado seu sobrinho era e já estava esperando que sua irmã viria em defesa do filhote.

— Ah, Cersei. Estou apenas tentando encontrar alguma informação útil. Se eu soubesse que você viria, teria procurado um lugar mais isolado — Cersei franziu a testa, seus olhos afiados penetrando os dele.

— Não é o momento para brincadeiras, Tyrion. O que foi que você disse para Joffrey? — ela ergueu uma sobrancelha estudiosa, como se medisse o pequeno irmão. Tyrion soltou um suspiro, deixando o livro de lado e esfregando os olhos cansados.

— O que eu disse? Que ele é um garoto mimado e que será um rei tão repugnante quanto Aegon IV, é isso? Deveria eu ter mentido para agradá-lo?

O rosto de Cersei endureceu, suas mãos se fechando em punhos ao seu lado.

— Joffrey é o futuro rei, e você deve aprender a tratá-lo com o respeito devido ao seu título. Sua tendência para desdenhar dele não é apenas impertinente, é perigosa — Tyrion levantou-se, a expressão séria contrastando com seu tom mordaz.

— Respeito é algo que se ganha, Cersei, e o nosso jovem herdeiro ainda não fez nada para merecê-lo. Joffrey é uma força de destruição disfarçada de realeza, e eu não tenho intenção de incentivá-lo ou de alimentar suas ilusões.

Cersei deu um passo mais próximo, a tensão palpável entre os dois.

— Se você deseja manter sua cabeça sobre os ombros, é melhor ajustar seu comportamento. Joffrey pode não ser um governante perfeito, mas ele será o rei, e você deve se lembrar disso.

Tyrion olhou para Cersei, um sorriso irônico curvando os lábios.

— Sim, claro, Cersei — o sorriso aumentou. — Como sempre, suas palavras são uma verdadeira fonte de sabedoria e orientação. E enquanto eu continuo aqui, cercado por livros antigos e sem importância, eu me esforçarei para lembrar que minha opinião, como sempre, é irrelevante.

Cersei lançou um último olhar cortante para Tyrion antes de se virar e sair da sala, seu passo firme e decidido. Tyrion permaneceu ali, a ironia e o cansaço estampados em seu rosto, enquanto se debruçava novamente sobre os livros, imerso em seus pensamentos e na busca incessante por respostas.

No silêncio profundo, agora do seu quarto, Tyrion se instalou confortavelmente em uma poltrona confortável, segurando o livro antigo com uma combinação de curiosidade e ceticismo. A luz da vela lançava uma luz tênue sobre a capa empoeirada, revelando o título que prometia detalhes preciosos sobre a linhagem Targaryen: todos os nascimentos e mortes, cada casamento e título. Ele folheou as páginas com cuidado, suas mãos habilidosas tratando o livro com o respeito que apenas um verdadeiro amante da história poderia entender.

Quando Tyrion chegou ao capítulo sobre os filhos do Rei Jaehaerys II, seus olhos se estreitaram ao notar uma lacuna perturbadora. Entre o nascimento de Aenys, o futuro Rei Louco, e o nascimento de Rhaella, as páginas estavam visivelmente ausentes. Era uma ausência gritante, como se alguém houvesse removido os registros com intenção deliberada. Tyrion virou as páginas com mais atenção, e a lacuna se estendia além do nascimento de Rhaella, engolindo as páginas seguintes como se uma parte significativa da história tivesse sido intencionalmente apagada.

O duende sentiu uma onda de frustração e desconfiança. Ele folheou as páginas restantes com mais cuidado, examinando cada linha e nota marginal, mas a continuidade do texto estava abruptamente interrompida. O livro estava, de repente, repleto de lacunas e silêncios que eram tão eloquentes quanto perturbadores. Não era apenas uma questão de páginas faltantes, mas a sensação clara de que alguém havia tomado medidas deliberadas para obscurecer uma parte crucial da história.

Tyrion ponderou sobre o motivo por trás desse apagamento. Havia algo sobre o nascimento de Eamon e Saerane, e possivelmente outros eventos relacionados, que alguém não queria que fosse conhecido. Os registros de uma linhagem perdida e de eventos proibidos eram frequentemente escondidos por aqueles que tinham algo a perder com a revelação. E, claro, o enigma que envolvia Eamon e Saerane parecia estar profundamente entrelaçado com o mistério da atual situação política e os próprios temores de Robert.

O pensamento de que alguma verdade crucial poderia estar escondida nas páginas que faltavam apenas aumentava a determinação de Tyrion. Ele se encostou na poltrona, com os olhos fixos nas páginas mutiladas, e fez uma promessa silenciosa para si mesmo: descobrir o que realmente estava escondido, não importa o quão obscuro ou perigoso o caminho pudesse ser.

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Robert estava novamente imerso nas trevas do sono, a mente atormentada por visões cada vez mais vívidas. No silêncio gélido da noite, ele se encontrava em um corredor interminável da Fortaleza Vermelha. A brisa fria que adentrava pelas janelas abertas fazia o vestido da garota valiriana esvoaçar como uma névoa etérea, seu tecido leve ondulando com um movimento hipnótico. Seus cabelos prateados e seus olhos lilases refletiam uma luz fantasmagórica, tornando-a uma figura quase etérea, como se sua presença não fosse completamente real.

A cada passo, ela olhava para trás, suas expressões misteriosas e enigmáticas, como se procurasse por algo que estava sempre à espreita. Robert tentava segui-la, mas o corredor parecia se alongar e se torcer, como se estivesse mudando a cada instante. Sua respiração se tornava mais pesada, e a sensação de ansiedade crescia com cada curva e porta fechada que passavam.

Finalmente, a caminhada os conduzia ao Salão dos Crânios. Mas, em vez das ossadas antigas dos dragões, o salão estava repleto de dragões vivos, suas escamas reluzindo em cores brilhantes e metálicas sob a luz das tochas. As bestas, com suas asas imensas e olhos flamejantes, eram uma visão aterrorizante. Robert sentiu seu coração acelerar, e seu instinto de sobrevivência entrou em ação. Ele se agarrou a uma espada próxima, a lâmina fria e pesada em suas mãos trêmulas.

À medida que as criaturas se aproximavam, suas bocas abertas emitiam rugidos profundos e ameaçadores, Robert sabia que não poderia lutar contra elas. A sensação de impotência e medo era esmagadora. Com um grito de desespero, ele tentou atacar, mas o ataque nunca se concretizava. O mundo ao seu redor começou a se desfazer em uma mistura de sombras e luz.

Ele acordou abruptamente, seu corpo suado e o coração batendo forte. A visão dos dragões vivos e da garota valiriana desapareceu com o rompimento do sonho. Mas a sensação de medo e a estranha aura de verdade que envolvia a visão permaneciam. No silêncio da manhã, Robert ficou parado em sua cama, a mente ainda tumultuada pela intensidade do pesadelo, as sombras da noite começando a se dissipar, mas a inquietante sensação de algo iminente nunca o abandonando por completo.