Robert Baratheon acordou no meio da noite, suando frio, o hálito ainda pesado de vinho azedo. Seus olhos correram pelas sombras da câmara, mas tudo estava em silêncio, exceto pelo som abafado do vento lá fora e o murmúrio das ondas contra a costa de King’s Landing. A noite ainda estava viva em todo seu esplendor, mas a escuridão parecia pesar mais que o habitual, como se estivesse impregnada de algo antigo e vingativo.

Os sonhos tinham se tornado mais frequentes. Sonhos de sangue e fogo, de espadas e gritos. Às vezes ele ainda revivia a Batalha do Tridente, sentia o peso do martelo em sua mão e refazia o golpe no peito daquele maldito Rhaegar e, mesmo em sonho, Robert se deleitava ao ver a chuva de rubis cair na água. Mas este... este era diferente. Não era um campo de batalha com aço retorcido e gritos de homens morrendo, nem Rhaegar sendo atingido pelo martelo. E infelizmente, não era o corpo estirado de Rhaegar, com alguns poucos rubis ainda presos em seu peito quebrado. Não era sequer o olhar vazio de Lyanna, murchando em um leito de sangue e muito menos o olhar caloroso de Lyanna em campos de verão.

Era uma garota.

Ele não sabia como sabia disso, mas tinha certeza. Ela era jovem, mal uma mulher, mas em seus olhos havia algo antigo, um peso que Robert não conseguia definir. Aqueles olhos... um lilás claro, como lavandas tingidas de melancolia, refletindo as chamas das tochas ao redor dela. Ela estava sozinha, ou quase. Um homem estava ao seu lado, alto, mais robusto que qualquer Targaryen que Robert já tivesse conhecido. Seus ombros eram largos, sua postura poderosa, mas seu rosto permanecia nas sombras, indistinto, como um espectro que o próprio sono não conseguia revelar, a única coisa que o rei conseguia enxergar desse homem era a ponta de seus cabelos claros como prata. Robert sentia o peso de sua presença, como uma ameaça velada, silenciosa, mas mortal.

A garota estava assustada, podia ver no modo como seus dedos finos se apertavam em torno de algo, talvez um colar ou uma adaga pequena, algo indistinto, um gesto quase imperceptível. Ela estava em um lugar familiar, e ao mesmo tempo, completamente estranho. As paredes eram de pedra negra, e o ar cheirava a maresia e morte. Um calor sinistro penetrava sua pele. Pedra do Dragão, pensou o rei, com um aperto no peito.

A espada na bainha do homem ao lado dela chamou a atenção de Robert. Era uma lâmina conhecida em livros, com uma história tão antiga quanto o próprio fogo. "Irmã Negra", murmurou, quase sem perceber. Ele a conhecia de contos, de sussurros, de cantores e dos olhos do velho Barristan Selmy. Uma espada de assassinos e guerreiros, de sangue derramado em nome de reis loucos e dragões extintos, empunhado por uma conquistadora e por um príncipe rebelde.

O que diabos isso significava? Robert se sentia envolto em uma névoa densa de confusão e inquietação, como se o mundo estivesse se despedaçando ao seu redor, cada pedaço revelando uma sombra do passado, um reflexo distorcido do que ele pensava ter conquistado. Seus dedos grossos e calejados apertaram os lençóis com força, tentando ancorar-se no presente, mas o sonho era forte demais, os rostos e as figuras queimavam em sua mente.

A garota era importante, ele sabia disso com uma certeza inabalável. Ela era o que restava da tempestade que ele achava ter passado. Um fantasma de cabelos prateados e olhos lilases, perseguindo-o, não pelos campos de batalha ou pelos salões do trono, mas nas profundezas de seu sono, onde nenhuma espada ou escudo poderia protegê-lo, onde não podia chamar a guarda real. Seus mantos brancos não o protegeriam de um fantasma.

Robert se forçou a levantar, a se afastar da cama como se pudesse escapar do sonho simplesmente se movendo. Ele agarrou uma jarra de vinho, ignorando o fato de que já havia bebido demais naquela noite, e tomou um longo gole. O líquido quente queimou sua garganta, mas não apagou a imagem da garota, ou do homem com a espada de Visenya na bainha. Ela estava lá, em algum lugar, em algum canto obscuro do mundo. E de alguma forma, ele sabia que ela estava vindo.

— Eles estão mortos — disse a si mesmo, a voz rouca, quase um rosnado. Ele balançou a cabeça, como se aquilo fosse apagar toda e qualquer imagem em sua mente — Os dragões estão mortos. Eu acabei com eles — mas a certeza que uma vez o havia sustentado agora vacilava. Ele sentia a ameaça nos cantos de sua mente, uma lembrança incômoda de que nada jamais estava completamente morto. Nem o fogo. Nem o sangue.

Robert olhou para o horizonte, onde o céu escuro começava a dar lugar a um tom mais claro, anunciando a chegada do amanhecer. Mas mesmo quando a luz viesse, ele sabia que o sonho permaneceria. Assombrando-o. Lembrando-o.

E em algum lugar, a garota estava esperando.

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Robert Baratheon estava sentado em sua cadeira no salão da Fortaleza Vermelha, o peso da coroa nunca tão presente em sua cabeça como naquele momento. Os ecos do sonho ainda ressoavam em sua mente, como o bater distante de tambores de guerra. Ele girou o anel em seu dedo grosso, impaciente, enquanto esperava pelos seus informantes. O homem olhou as grandes tapeçarias, lembrando de como derrubou cada estandarte dos Targaryen daquelas paredes e em como se sentiu alegre ao ver cada um sucumbindo ao fogo.

Quando finalmente chegaram, o olhar de Robert estava sombrio, as sombras do sonho ainda pairando sobre ele. Os homens, experientes em lidar com reis de temperamento volátil, sabiam que qualquer palavra mal colocada poderia acender a fúria que rugia dentro do Demônio do Tridente. Robert parou o olhar neles, como se esperasse que aqueles homens fossem trazer algo para acalmar sua mente perturbada.

— O que sabem dos malditos dragõezinhos? — Robert rosnou, sem rodeios. Ele não queria saudações cerimoniosas, não queria discursos. Queria respostas. Queria algo para acalmar sua alma. O informante mais velho deu um passo à frente, inclinando-se ligeiramente em deferência.

— Majestade, Viserys Targaryen permanece em Essos, segue sendo o homem obcecado com um trono que nunca terá. Ele mendiga favores entre mercadores e lordes exilados, mas nenhum deles o leva a sério. Ele não passa de um tolo — Robert não pareceu aliviado. A simples menção do nome "Targaryen" era como um cutelo na mente do Rei. Ele esperava que Viserys tivesse encontrado uma espada no escuro, mas ao invés disso, ele vivia, e a mera existência do último dragão irritava Robert profundamente.

— E a garota? — a voz de Robert saiu em um tom baixo, quase hesitante, como se temesse a resposta que estava por vir.

— Dany— Daenerys — o informante corrigiu rapidamente ao ver o olhar impaciente de Robert, — Ela está em Pentos, sob a proteção de Illyrio Mopatis. O plano é casá-la com um Khal Dothraki, Khal Drogo. Um homem poderoso entre os Dothraki, mas…— o informante hesitou por um segundo, observando a reação de Robert antes de continuar. Ele arrumou a postura para parecer mais confiante. — Mas os Dothraki temem o mar, majestade. Mesmo que Drogo se case com ela, ele nunca lideraria seus homens além do Mar Estreito. Westeros está segura.

Robert absorveu as palavras, mas a ansiedade em seu peito não se dissipou. Drogo. O nome era novo para ele, mas o título "Khal" não era. Guerreiros selvagens e brutais, cavaleiros livres com corações de ferro e sangue quente. Mesmo assim, eles nunca cruzaram o mar, o temiam como um pecador teme aos Deuses. A segurança de Westeros, por enquanto, estava intacta. Mas as palavras "por enquanto" pesavam em sua mente, como se completasse a frase dita pelo homem.

— Esses selvagens não atravessam água — disse Robert, mais para si mesmo do que para os homens diante dele. — Mas esse Mopatis... sempre há alguém tramando em Essos. Dinheiro e promessas são moeda corrente, e homens que não devem nada ao Trono de Ferro podem se sentir inclinados a fazer um acordo com um rei sem coroa.

Robert fechou os olhos por um momento, a imagem da garota com olhos lilases e do homem ao seu lado, tão robusto e tão diferente de qualquer Targaryen, voltando para assombrá-lo. O sonho e a realidade se misturavam em sua mente, um enredo intrincado que ele não conseguia desvendar. A simples ideia de sonhar com aqueles olhos grandes e lilases o arrepiou.

— Continue a vigiá-los — ordenou Robert, sua voz endurecendo. — Quero saber de cada movimento que fazem. Se essa garota pisar fora de Pentos, se Viserys sequer mencionar uma frota, vocês me informam. Imediatamente — Ele olhou fixamente para o homem mais velho, como se pudesse intimidá-lo e assim garantir que nada escapasse ao olhar de seus informantes.

— Sim, Majestade — respondeu quase temeroso, inclinando-se novamente antes de sair do salão.

Robert ficou sozinho, seus pensamentos girando como um redemoinho. Ele sabia que deveria estar satisfeito. Westeros estava segura. Viserys era um tolo, Daenerys estava para se tornar uma esposa entre bárbaros, mesmo um Khal ainda era um selvagem. Mas o pressentimento que o sonho havia deixado nele não o abandonava.

— Que os sete infernos me levem antes de eu ver um Targaryen pessoalmente, ou levaram eles — murmurou, erguendo a taça de vinho para tomar um longo gole. Mas mesmo o vinho parecia amargo e incapaz de afastar seus medos.

A ameaça parecia distante, mas ainda assim, ela estava lá, pulsando como o sangue em suas veias. E até que os últimos Targaryens fossem varridos da face do mundo, ele não teria paz. Não enquanto sonhos com olhos lilás e aço valiriano o assombrassem.

A sala do trono na Fortaleza Vermelha estava envolta em sombras profundas, assim como a mente do rei, o brilho fraco das tochas lançando padrões dançantes nas paredes de pedra. Robert, sentado no Trono de Ferro, parecia menos um rei e mais um homem esmagado pelo peso de sua própria coroa, esmagado por seus sonhos e por sua vingança. Seus pensamentos vagavam, os sonhos perturbadores e os informes sobre os Targaryens atormentando sua mente. Ele segurava a taça de vinho, mas, mesmo com a bebida, o amargor de sua inquietação persistia. Suas mãos fechadas na taça como se aquilo fosse o segurar no mundo real

— Ah, que visão desoladora, o grande Rei Robert sozinho no Trono de Ferro — a voz de Cersei, rasteira cortou o silêncio, suave e sibilante, carregada de uma malícia que poderia rivalizar com qualquer lâmina afiada, rasteira como uma serpente, deslizou para dentro da sala, sua presença tão silenciosa e insidiosa quanto uma brisa fria. Ela se aproximou, seus passos praticamente inaudíveis no piso de pedra, seus olhos brilhando com uma crueldade calculada. — Diga-me, majestade, será que a irritação que vejo em seu rosto é fruto de alguma frustração com uma prostituta? Ou será que Lyanna finalmente decidiu parar de visitá-lo em seus sonhos de bêbado?

As palavras de Cersei, assim como uma mordida de cobra, encheram o ar de veneno. Robert, atordoado pela provocação, sentiu o impacto daquelas palavras como se fosse um golpe físico. Seu rosto, antes sombrio de preocupação, tornou-se uma máscara de ira instantânea. Seus olhos, normalmente turvos de vinho, clarearam com um brilho feroz.

A menção de Lyanna, sempre seu ponto fraco, queimou como sal numa ferida aberta. Sua mão grossa apertou a taça com tanta força que o vinho derramou sobre seus dedos, escorrendo como sangue.

— Você ousa falar dela? — Robert rosnou, sua voz profunda e carregada de ameaças veladas. Ele levantou-se do trono, sua figura imponente projetando uma sombra ameaçadora sobre Cersei, amava ver como era fácil perturbar Robert. — Lyanna não é um nome que você tem o direito de pronunciar, sua víbora maldita.

Cersei, imperturbável diante da fúria crescente do rei, permitiu-se um sorriso fino, quase imperceptível. Ela sabia que havia tocado um nervo exposto, e o prazer de ver o Rei Robert, o homem que derrubara dinastias, reduzido a um animal enraivecido, era um deleite que ela saboreava.

— Mas é claro, majestade, como ouso? — ela respondeu, com falsa deferência, inclinando-se ligeiramente como se fosse se desculpar. — É só que... o que mais poderia perturbar tanto o grande Robert Baratheon? Certamente não é a simples menção de dragões mortos e reis sem coroas que tira o seu sono — Robert deu um passo à frente, mas Cersei permaneceu imóvel, sem recuar, encarando-o com olhos que pareciam duas esmeraldas traiçoeiras.

— Eu já avisei você, Cersei — ele rosnou. — Aproveite sua língua enquanto ainda a tem. Continue a cuspir veneno e eu a cortarei fora, uma palavra de cada vez.

— Ah, mas Majestade — Cersei respondeu, com doçura venenosa —, se eu não posso falar do passado, do que mais poderia falar? Talvez, então, eu deva deixá-lo em paz com seus fantasmas... E quem sabe, em seu próximo sono, Lyanna decida lhe fazer uma visita. — o sorriso dela alargou — Mas cuidado, meu rei, pois mesmo os sonhos podem se tornar pesadelos.

Com um último sorriso cheio de veneno, Cersei se afastou, deixando Robert sozinho, sua raiva queimando ainda mais ferozmente. A presença dela havia trazido à tona uma dor que ele mantinha enterrada, e agora, com cada batida de seu coração, ele sentia o peso de suas palavras como uma lâmina envenenada cravada em sua alma.

Sozinho no salão do trono, com apenas o eco de suas próprias respirações e o sussurro distante do vento para lhe fazer companhia, Robert Baratheon se sentou novamente, esmagado pela dor e pela fúria, um rei atormentado por fantasmas e cobras, tanto do passado quanto do presente.