Os órfãos de Nevinny Vol.2
11 Visitas à matriarca
O sol de domingo entra generoso pelas janelas de vidro do chão ao teto da mansão dos Mollins, iluminando cada detalhe da decoração impecável. No salão principal, o clima é uma mistura de expectativa e aquele relaxamento típico de fim ou começo de semana, para muitos, embora ninguém ali esteja realmente relaxado.
Meghan está no auge de sua elegância magnética, ajustando pela terceira vez a posição de uma bandeja de prata sobre a mesa de centro. Ela dá uma última ajeitada em sua roupa que está casual, porém elegante e descontraída ao mesmo tempo combinando com o clima frio e solar, mas seus olhos, sempre atentos, trazendo uma leve ansiedade.
— Eles devem estar dobrando a esquina agora — comenta Meghan lançando um olhar para o relógio de pulso — Nat é britânicx na alma quando se trata de horários, assim como a família Ferguson, mas com Ash no grupo, sempre há uma margem de manobra.
Lavínia, sentada em uma das poltronas de veludo, folheia uma revista de arte, embora não tenha virado a página nos últimos cinco minutos. Ela solta um riso anasalado, fechando a revista e logo comenta sobre sua expectativa...
— Vocês ricos ligam tanto pra esse negócio de chegar na hora, né? Relaxa, Meghan. Daqui a pouco Nat chega aí. Aliás, hoje promete ser um dia agitado.
Você está perto da janela, observando o pátio de entrada. Dá pra sentir o peso gostoso daquela reunião. Não é apenas um brunch, é o encontro de mundos que, de alguma forma, agora fazem parte de uma mesma órbita.
— Estão aqui — você anuncia, vendo um grupo de quatro pessoas vestidas de casacos pretos e longos se aproximando pelo portão principal.
O som do sistema de segurança perto da cozinha foi o sinal.
Meghan se empertiga, Lavínia se levanta em um movimento fluido e você caminha em direção à porta ficando um pouco afastadx deixando Meghan tomar a frente.
Sem demora, a porta é aberta e o silêncio da mansão é imediatamente substituído por uma onda de vitalidade.
Nat Ferguson entra primeiro, exibindo aquele sorriso carismático que parece iluminar o ambiente. Elx carrega uma aura de quem finalmente está em casa, de volta a família.
Logo atrás, vem o senhor e a senhora Ferguson trazendo o caos adorável de um domingo de manhã, com vozes sobrepostas e abraços iniciados antes mesmo de passarem pelo hall.
E por fim, fechando o grupo, está Ash. Elx entra por último carregando um grande bouquet de flores exóticas com expressão de alguém lamentando a perda de alguém próximo.
Todos se cumprimentam cordialmente, mensagens de apoio e solidariedade à Meghan e sua família são dirigidas da forma mais pacífica existente. Dona Zanelda ainda não deu as caras pela sala para as visitas, pois ainda descansa em seu quarto. Então, para passar o tempo, decidem criar uma dinâmica de conversa interessante o suficiente pra arranjarem algum tipo de enredo até que a aparição da matriarca ocorra. O que seria melhor do que uma breve explicação da noite do ocorrido do acidente e o que rolou depois pra dar ênfase no tópico de uma conversa?
— Oh, que coisa horrível! Com certeza isso deve ter tido uma carga pós-traumática gigantesca pra Zanelda. Que experiência mais horrível de ter — Avery, a mãe de Nat comenta visivelmente perplexa.
— Ela está e isso foi horrível pra mim também. Fiquei a noite acordada no hospital a todo momento do lado dela com medo de alguma coisa acontecer — Meghan fala.
— Eu nem sei nem o que dizer. Eu sei que isso não foi minha culpa, mas como o táxi voador foi enviado pra festa pelo meu pai eu meio que me sinto com uma parcela de culpa pelo ocorrido. Aliás, é o nome da família que fica em risco. Então, se isso atinge ela acaba atingindo a mim também — você fala com a tentativa de defesa a respeito do ocorrido. Afinal, de fato, o que aconteceu não foi responsabilidade de Joseph.
— Isso é muito problemático e desafiador de se lidar. Como pode um veículo que vai ser lançado pro mercado explodir assim do nada? Eu sei que são feitas revisões e testes antes de ser usado assim por qualquer pessoa, mas uma situação dessas é muito séria. Olha o estado que a mãe da Meghan ficou. Poderia ter sido bem pior. Segurança em primeiro lugar, sempre! — Ash comenta propriamente.
— Que bom que não ficou. Eu não sei como ficaria se o pior tivesse acontecido — você fala em resposta.
— Aliás, S/N, como está Joseph? Uma hora dessas ele deve estar em reuniões e ligações com todo esse processo chato, não é? — o senhor Grant lhe pergunta.
— Chato, porém necessário. S/N, eu adoro o seu pai e sempre estive ao lado de sua família, mas como o responsável por ter levado esse veículo pra esse evento do senhor Svidetel foi o Joseph, eu espero e sei que ele o fará de se comprometer em ajudar no estado da Zanelda e provar pra sociedade que o táxi voador é um veículo seguro de se manusear — Avery fala.
— Totalmente. Isso não pode deixar de ser feito. Seria uma incompleta irresponsabilidade e se assim fizesse, pessoas entrariam com uma ação judicial e isso seria horrível pros negócios. Eu não sei de muita coisa, mas meus pais estão me ensinando sobre advocacia e até posso sugerir soluções para o caso.
Ash termina de falar deixando todos da sala sem palavras. Nat fica explicitamente um pouco incomodadx ao abaixar a cabeça e franzir a testa rapidamente meio que não aprovasse o que acabara de escutar. Já Lavínia e Meghan se olham por alguns segundos sem dar uma palavra e depois olham para você para ver a sua atual expressão com tais palavras. Mas não é só por isso que o clima de silêncio toma conta da sala.
De repente, um som de passos rítmicos e firmes veio do topo da escadaria de mármore. Para a surpresa de todos, não era uma enfermeira ou uma dona Zanelda debilitada que aparece. No topo da escada, ela surge deslumbrante, estranhamente vestida em traje de gala bem à luz do dia usando um conjunto de seda em tons vibrantes e brilhantes que parece desafiar qualquer lei da medicina ou do envelhecimento. Sua pele está viçosa, e o sorriso, radiante como se nunca tivesse visto um táxi voador na vida.
— Ash, queridx. Agradeço a sua preocupação, mas acho que isto não será necessário — Zanelda desce os degraus com uma graça quase sobrenatural, os olhos brilhando ao ver a sala cheia — Mas o que é isso? Eu estava ouvindo o jeito que vocês falavam. Alguém morreu por acaso? Porque eu me sinto mais viva do que nunca!
Assim que dona Zanelda desce as escadas, Ash vai rapidamente em direção da matriarca da mansão segurando seu bouquet de flores aparando-a com todo cuidado, certificando-se de que ela poderia então receber um abraço.
— Cuidado, Ash. Ela ainda pode estar um pouco debilitada — avisa a senhorita Ferguson.
— Avery, querida, olha pra mim. Por acaso eu estou com cara de que estou debilitada? — diz dona Zanelda — Ash, queridx, que flores lindas! Você tem cuidado tão bem de mim todas as vezes que vem me visitar. Eu fico feliz que esteja preocupadx comigo e que está aqui. Nat pelo visto não tem mesmo do que reclamar. Eu disse isso e volto a repetir. Está em ótimas mãos.
— Eu que tenho sorte de ter vocês por perto de mim. Vocês são as pessoas mais incríveis que eu conheço. Dona Zanelda apesar de ser mãe de Meghan ela também é praticamente da família. Já vivemos e compartilhamos tantas coisas, estamos sempre juntxs. Não teria como eu não vir dar meu apoio — Ash diz.
— Obrigada, Ash — diz dona Zanelda estranhamente olhando para você.
— Não tem de quê. Agora, vamos, junte-se à gente ali no sofá. Estávamos esperando pela sua presença iluminada.
— Espera. Mãe, você tá bem mesmo? Você parece radiante, o que é ótimo, mas e suas dores? Não tá sentindo mais nada?
— Filha, eu estou me sentindo ótima. Seria muita má educação da minha parte se eu deixasse todos esperando por mim assim desse jeito.
Mesmo sem precisar, tanto Meghan e Ash conduzem a dona Zanelda até o centro da sala para sentar-se ao sofá com todos. Durante algum tempo ficaram conversando sobre o estado de recuperação e todo o resto e nisso, em algus momentos a matriarca não mencionou o nome de Joseph e também não falou tanto com você sobre nada. É meio como se você não estivesse lá.
— Acho que sua mãe tá com raiva de mim. Ela nem me olha direito. Se for pra ficar me sentindo excluídx eu prefiro ir embora — você fala prontamente para Meghan.
— Não, você não vai embora. Ela não tá com raiva de você. De onde tirou essa ideia? Nat está aqui junto com Ash. Eu achei que se você quisesse ir embora seria mais por esse motivo do que qualquer outra coisa — ela diz.
— O quê? Do que você tá falando? Nada a ver.
— S/N, queridx. Me desculpe. Eu mal falei com você. Falei agora sobre deselegância e acabei cometendo o erro — dona Zanelda fala.
— Tudo bem. Eu no seu lugar não sei nem o que faria se visse o parentesco de alguém que quase poderia ter tirado sua vida na sua sala — você fala diretamente deixando a senhorita Avery surpresa levando as mãos sobre a boca.
— S/N! — Lavínia exclama.
— Ué, mas é sério. Pra falar a verdade, se me permitem, acho que vou embora. Não quero parecer estranhx, mas eu não me sinto confortável agora.
— Oh, não! Não vá agora, S/N! Agora que acabou de chegar — dona Zanelda diz rapidamente levantando-se do sofá indo em sua direção.
— Isso. Não leve ao extremo. Falando assim parece fazer sentir que você tem algo a ver com tudo isso, mas você não tem nada. Não foi culpa sua — o senhor Grant fala.
— Exato. O senhor Grant está certo.
— Mas é que...
— Ouça, você não vai a lugar nenhum. Aliás, eu tenho certeza que não tem nada melhor pra fazer hoje — dona Zanelda fala segurando com um pouco de firmeza em seu braço.
Olhando nos olhos dela, que estão bem expressados por sinal, você nota como se ela quisesse dizer algo, como se implorasse pra você ficar. E ela está de fato certa. Pois nada disso tem a ver com sua pessoa.
— Nossa, eu fico lisongeadx com a atitude e gentileza da sua mãe, Meghan. Olha isso! Se fosse outra pessoa não ia nem querer que S/N pisasse na porta de casa. Uma pessoa evoluída é outra coisa — Ash diz tirando a atenção de Zanelda que no mesmo instante abre um grande sorriso.
— Isso tá começando a me enjoar — diz Lavínia baixinho para você.
Você nada diz, apenas arregalando os olhos como forma de repreendê-la.
— … e quanto a Joseph, S/N? Ele não me veio fazer uma visita? Ele está mesmo em uma reunião a essa hora? Eu não quero julgá-lo nem nada, eu sei que foi um contratempo o que aconteceu naquela festa, mas eu quero esquecer isso. São águas passadas. Mas eu quero saber dele, isso deve estar sendo difícil pra ele também por causa dos processos que ele pode enfrentar — Zanelda pergunta.
— Sim, ele está vendo tudo isso. Como eu já disse: nada foi de responsabilidade dele. Eu sei que o aconteceu foi sério e o nome da família pode estar em risco se isso ganhar uma proporção maior. Mas vocês sabem que pra tudo tem um jeito. Meu pai sempre dá um jeito — você afirma.
— Sabemos que sim — o senhor Grannt diz.
— Nós estávamos falando há pouco justamente sobre isso. Sobre segurança e como essas coisas podem acontecer. Infelizmente não há desculpas para o erro, mas foi um acidente. É triste e preocupante, mas o que fazer? — Ash fala.
— É, mas que bom que não foi nada pior do que foi, não é? Vocês estão vendo por si mesmos. Dona Zanelda está ótima e radiante. O pai de S/N como investidor está tentando resolver as coisas. Não precisamos ser tão carrascos — Nat dispara na tentativa de pôr fim ao assunto.
— Apesar do susto, o importante é que todos estão bem — Grant complementa.
— S/N, apesar de tudo, saiba que sempre estivemos aqui para “segurar as suas quedas”, com ou sem táxi voador. Estamos aqui ainda com você que nada tem a ver com essa história.
— Isso mesmo, filhx — complementa o senhor Grant — S/N, você tem nosso apoio. Assim como a família Mollins que também precisa desse apoio.
Com os olhos sorridentes e com um leve sorriso no rosto Ash fala enquanto acaricia os braços de Nat:
— Por isso que tenho orgulho de fazer parte da família de Nat. Pessoas assim amáveis não são fáceis de encontrar hoje em dia.
— Bom, já que todos estão aparentemente felizes, creio que depois disso ficarão mais ainda. Como eu não sou boba nem nada, antes, mas bem antes mesmo de vocês chegarem eu me adiantei e pedi uma ajuda às meninas para prepararem algo pra vocês, meus convidados. Por favor, eu peço a todos que se dirijam ao meu espaço gourmet aos fundos porque tem uma ceia divina esperando por vocês.
O clima é de pura descontração (e um pouco de ostentação) enquanto o grupo atravessa os jardins impecáveis da mansão de dona Zanelda em direção ao luxuoso espaço gourmet. O som dos saltos no mármore e o burburinho da conversa preenchem o ar.
Durante a caminhada, dona Zanelda vai se gabando das suas mais novas decorações pelos corredores para os Ferguson. Ash e Nat ficam de beijos e abraços enquanto seguem a direção. Lavínia observa tudo com toda preciosidade e admiração como se estivesse em um museu de artes. Meghan observa a mãe com todo o cuidado e fica de olho em você esperando que se sinta incomodadx pela presença de Ash.
Isso não causa nem um efeito em você. Praticamente não é nada.
Alguns minutos já a postos à mesa….
— … e então eu disse ao prefeito: "Se não houver tulipas, não haverá doação!". Todos rimos muito. Grant, querido, mais um pouco de presunto de cordeiro?
— Por favor, Zanelda. Está impecável — ele responde.
— Isso tá muito bom. Eu nunca comi uma comida tão gostosa assim há um tempo. Isso é um café da manhã dos deuses! Zanelda, me adota como irmã da Meghan? Eu adoro a comida da minha mãe, mas isso aqui tá uma coisa de outro mundo — Lavínia comenta.
— De que mundo você acha que eu vim, senhorita? É bom se acostumar com essas coisas, pois temos disso todos os dias — Zanelda fala com um grande sorriso arrancando gargalhadas de todos, porém os olhos dela ficam fixos em você dois segundos a mais do que o necessário — É fascinante como certas pessoas conseguem disfarçar as origens pelo estômago, não é mesmo, S/N?
— Perdão? — você fala franzindo a testa.
— Ah, me desculpe. Eu quis reproduzir uma piada que eu vi ontem em uma rede social. Acho que não tive êxito em fazê-lo. Mas sendo direta, eu quero dizer que pedi pra prepararem doces diferenciados para vocês. Como eu conheço cada um de vocês como a palma da minha mão e sei dos seus gostos, pedi pra prepararem alguns doces que eu sei que vocês gostam bastante. Mas olha, tenho que confessar, uma das receitas que eu mais gostei e me chamou atenção foi a do doce preferido de S/N.
— Espera, não acredito que você fez…
— Não acredito. Esse doce é maravilhoso. Um dos mais gostosos que eu já comi na vida. Amor, você tem que provar — Nat fala para Ash.
— Ah, é? E que doce é esse? Como ele se chama? Do que é feito? — Ash pergunta.
— Bom, se for o que eu tô pensando, pode ser que vocês possam não gostar. Ele é muito excêntrico. Nunca mais eu tinha comido — você diz.
— Diz logo o nome! Que doce é esse que você nunca me mostrou, S/N? — Lavínia pergunta parecendo indignada.
— Macarons de pó de estrela. Ele é perfeito. Dizem que são doces feitos com pigmentos extraídos de meteoritos onde cada cor representa uma constelação diferente — Nat fala.
— Olha, Nat, já que você vai pra NASA, agora você vai poder estudar esse doce e descobrir se ele tem partículas de meteoritos mesmo — Meghan dispara.
— Ahh, parece que você conhece bem esse doce, né? Ele é do quê? Não tem castanhas, não é? Eu sou alérgicx — Ash pergunta.
— Por isso eu pedi pra fazerem sobremesas diversas cada uma especificamente pra cada um de vocês. Nos macarons contém castanhas, então Ash, é melhor ficar bem longe. Esse foi feito especialmente pra S/N — Zanelda diz lhe olhando dando uma piscadela — Mas tenham calma, tem muitos outros feitos pra vocês. Vamos se servir?
— Só se for agora! Eu tô doida pra saber que doce foi feito pra mim já que vocês não sabem tanta coisa de mim. Eu vou amar se a senhora tiver acertado — Lavínia fala, convencida.
— Você que pensa que eu não sei de nada, senhorita Velasquez. De fato não sabe com quem tá mexendo — Zanelda ri e com isso faz todos gargalharem também.
Em todo esse tempo ainda de conversa e degustação dos doces diferentes que a matriarca e anfitriã havia mandado preparar, a atmosfera no espaço gourmet praticamente se tornou num deleite quase hipnótico. O último pedaço do macaron de pó de estrela ainda derrete na língua — um gosto efervescente, gelado e quente ao mesmo tempo. Tão bom de sentir que lhe faz ficar sem palavras durante um bom tempo e praticamente completamente imóvel por sentir tal gosto.
— S/N, tá tudo bem? Você começou a comer esse macaron e não parou mais. Quer dizer, até parou. Por isso que vim falar com você. Tá tudo bem? — Lavínia pergunta meio preocupada.
— Isso tá bom demais. Você sentiu o gosto? Eu não consigo parar de comer — você diz.
— Eu sei. Eu também nunca tinha comido algo parecido. É viciante, mas tem calma aí. É só um doce. Você tá fazendo isso parecer como uma…
Prestando atenção nas palavras de Lavínia e não só nas palavras como na feição de seu rosto, algo lhe chama a atenção quando ao observar os olhos dela vê que eles brilham de outra cor. Verde esmeralda pra ser mais preciso.
Também olhando para o lado, os olhos dos outros também não estão comuns. Cada vez que eles piscam, cores vibrantes emanam de suas retinas, exatamente nos tons dos doces que haviam ingerido.
— Eu não sei se isso é mais um dos meus sonhos doidos ou se isso realmente tá acontecendo. Por que os olhos de todo mundo estão de cores diferentes? Os seus estão verdes mas não é um verde comum.
— Do que você tá falando, S/N? Tá doidx?
— Vocês todos comeram dos macarons que foram feitos pra mim também? Os olhos de vocês estão brilhando. Por acaso você comeu o macaron verde? Os meus olhos também estão de outra cor? — você pergunta, assustadx.
— Sim, todos nós comemos. E sim, eu comi um verde. E não, seus olhos não estão de outra cor. Eu acho que você tá me assustando.
Mais uma vez olhando para os amigos dos olhos brilhantes, você vê dona Zanelda e Ash se abraçando. Não é nítido o motivo, mas ambxs param o ato e no mesmo instante olham para você seriamente de um jeito como se fossem lhe devorar de longe. Porém percebe que Ash não está com os olhos de coloração alterada.
Lavínia, por sua vez, na companhia de Meghan toca o seus braços lhe fazendo voltar a si. Essa última franze a testa em uma mistura de preocupação e diversão contida.
— Até você tá assim também? — você pergunta.
— Assim como? — Meghan pergunta, rindo.
— S/N parece que tá vendo coisa. Tem certeza que você não comeu ou bebeu nada diferente? Ou “deu um tapa na pantera” escondidx? Tá começando a me preocupar — Lavínia dispara.
— Quando isso passou a acontecer?
— Depois que eu comi os macarons — você diz — Tem certeza que não estão vendo?
— S/N, nós todos comemos o mesmo que você comeu e ninguém tá vendo luzes coloridas nos olhos de ninguém. Ou você tá endoidando ou…
— Por que sua mãe fica olhando assim pra mim, Meghan? Por que ela fica me olhando com um jeito estranho?
— O quê?! Ela não tá — Meghan fala imediatamente olhando para dona Zanelda que está conversando com Ash, Nat e os senhores Ferguson — É melhor você dizer logo o que você tomou porque seja o que for eu também vou querer pras noites que eu me sentir entediada.
— Vem cá, você é daquelas patricinhas que curtem esse tipo de coisa, é? Sinceramente eu vou te dizer que eu não esperava. Se quiser um contato, eu vou te apresentar um…
— Não! Nem precisa terminar a frase. Eu só estava brincando, garota! — Meghan diz, boquiaberta, querendo rir impressionada com a fala de Lavínia — Nunca fale uma coisa dessa perto da minha mãe. Ela vai ter um troço se souber que você é macon…
— Eu não disse que sou. Só conheço uma pessoa.
— Espero que não seja algum amigo de Cris. Nunca vou me esquecer quando eu passei algumas horas com eles. Eu me senti fazendo parte de um grupo de rebeldes e delinquentes — você fala.
— Hmm, eu acho que você exagerou nessa fala. Parece um tanto problemática — Meghan comenta.
— Tem certeza que a sua mãe não tá com raiva de mim? Parece que ela não tá feliz com a minha presença.
— É claro que está feliz, S/N! Por que você tá com isso na cabeça?
— Então por que eu fico achando que ela tá sempre falando de mim quando ela tá com alguém? Principalmente com Ash?
As duas olham em direção à Zanelda e suas reações parecem deixá-las mais preocupadas ainda. Tanto que por tal motivo, Meghan imediatamente começa a pôr as mãos sobre sua testa.
Lavínia solta uma risada nervosa, balançando a cabeça. Ela cutuca um macaron com o garfo, desconfiada.
— S/N, para de brincadeira. É só açúcar e corante. Você está querendo chamar atenção ou a Dona Zanelda realmente colocou 'poeira de cometa' nessa massa?
— Ei, como assim? Você tá brincando comigo, não é? — Meghan dispara.
— Eu não sei. Eu não deveria estar aqui. Alguma coisa me diz que eu não deveria estar aqui, Meghan. Sua mãe deve tá chateada. Eu…
Enquanto a tensão evolui trazendo questionamentos e preocupações, Nat se aproxima, deixando o calor da companhia de Ash para mergulhar no frio da confusão que envolve o trio.
Colocando a mão no ombro de Meghan, com a voz baixa e firme elx pergunta:
— O que está acontecendo aqui? Eu vi S/N recuar como se tivesse visto um fantasma. Meghan, Lavínia, por que elx está olhando para a dona Zanelda desse jeito?
— Nat, ainda bem... Eu não sei o que o macaron de estrela fez com elx. S/N parece que está tendo algum tipo de surto! Elx jura que a minha mãe está… estranha e que os olhos de todo mundo estão brilhando ou algo assim. S/N jura que a minha mãe quer fazer algo de ruim — Meghan sussurra, aflita.
— É, elx não para de dizer que nossos olhos estão de outra cor e que a gente não é a gente — Lavínia afirma.
— S/N parece muito estar daquele jeito. Daquele mesmo jeito antes de… ir embora da cidade — Nat afirma ficando de cócoras em sua frente antes dando uma breve olhada para Ash ao longe que observa toda a cena. Em seguida dá um suspiro fundo bloqueando a sua visão para o restante das pessoas no espaço — Ei... S/N. Olha para mim. Esquece a Zanelda por um segundo. Foca aqui, nos meus olhos.
Assim você faz.
— Esse lance desses macarons causarem esse efeito nos olhos das pessoas não é real. Você bem sabe disso. Não é a primeira vez que você come. É seu doce favorito. Talvez só não esteja mais acostumadx a comê-los.
— Pode ser mas… por que eu fiquei com essas imagens na cabeça? Só eu? Você pode me explicar? — você pergunta um pouco assustadx.
— Eu não sei. Talvez você esteja apenas cansadx… ou apenas se sentindo desconfortável por estar aqui presente com a dona Zanelda após ela ter sofrido aquele tipo de tragédia causada pelo seu pai.
— O quê?! — você diz.
— É, S/N, Nat tem razão. Você deve estar cansadx, mas como eu te falei, você conhece a minha mãe. Ela não tem nada contra você. Você tem que tirar isso da cabeça e entender que não foi culpa sua — Meghan declara na tentativa de lhe acalmar.
— Mas ela ficou sorrindo pra mim, Meghan. Sua mãe nunca iria fazer isso de um jeito tão estranho. Você mesmo disse, Nat, a lenda dos macarons diz que quem os come passa a ver os olhos dos outros brilhando e NÃO FOI só isso que eu vi. Vocês todos comeram. Será que só eu tô ficando loucx nessa história?
— Isso não foi culpa sua, S/N. Foi do seu pai — Nat afirma.
— Por que você tá dizendo isso, Nat? Não foi culpa dele. Meghan, você sabe. Por favor, me defende. Fala alguma coisa — você fala já um tanto incomodadx e, ao olhar para Meghan e Lavínia, você vê nitidamente as expressões preocupadas de ambas.
De relance enquanto mantém a cabeça baixa você nota alguém vindo em suas direções e junto à isso, um cheiro adocicado que cresce cada vez mais. É dona Zanelda que, para sua surpresa, se materializa bem em sua frente.
— Mas o que é que está acontecendo aqui entre vocês? De longe eu não pude deixar de perceber um clima de velório nessa região do meu espaço gourmet. Me digam, o que é que está acontecendo?
— Nada, mãe. S/N não tá muito bem — Meghan fala.
— Mas o que aconteceu? Todos estavam radiantes e alegres? Foi alguma coisa que comeu?
— É, pode ter sido. Mas o engraçado é que todo mundo comeu a mesma coisa, menos Ash. Será que S/N comeu algum ingrediente que não devia? — Lavínia dispara.
— S/N precisa de descanso. Eu acho que é o melhor a se fazer — Nat afirma.
— Tem certeza? Não querem que eu ajude com nada? Filha, leve S/N para o seu quarto pra descansar — Zanelda sugere.
— T…tá. S/N, você aceita? — Meghan pergunta.
— N não… eu… acho melhor ir pra casa. Não quero incomodar ninguém — você diz já levantando-se.
— Ah… tem certeza? Eu ‘tava gostando tanto de ficar aqui nesse café — Lavínia comenta.
— Você pode ficar, se quiser. Eu moro aqui do lado. Não precisa ir junto.
— É claro que eu vou. Se não quer ficar, vamos pra sua casa. Eu só preciso avisar minha mãe antes, porque quando ela chegar e não me ver aqui pode dar um negócio nela.
— Tá.
— Bom, então se é assim, vamos todos. Não vamos deixar você só. Vai que tem um desmaio no meio do caminho. Aliás, você precisa de um loongo descanso — a senhorita Mollins diz.
— Pode deixar, dona Zanelda. Eu vou com a Lavínia. Você não pode deixar seus convidados aí e preocupá-los por minha causa. Aliás, não sei se vou querer tanta gente assim na minha casa. A senhora sabe. Ultimamente meu pai anda reservado demais. Não iria gostar de uma grande movimentação.
— Joseph e suas manias. Tudo bem, eu respeito, então — ela fala.
— Se vocês me dão licença, eu vou agora. Nat, muito obrigadx pelo apoio. Eu consegui me acalmar agora. Não tô mais vendo nada estranho em volta.
— Por nada. Fico feliz em ter ajudado e… espero que fiquei bem. É uma pena você sair tão cedo — Nat fala dando um sorrisinho meigo.
— S/N, se cuida. Eu prometo que quando eu terminar aqui eu passo na sua casa. Ou então você vem pra cá de novo, sei lá — avisa Meghan — Lavínia, muito obrigada pela companhia. Depois conversamos mais como amigas. Vai me contando tudo pelo telefone como está S/N, tudo bem?
— Com certeza. Pode deixar comigo.
O ar fresco e gélido é a solução que necessitava para refrescar a sua mente e se livrar de todas as cenas que havia visto anteriormente longe de imagens psicodélicas e distorções. É como se o mundo que praticamente estava girando em sua mente finalmente encontrasse seu eixo, se pondo no seu devido lugar.
Não fez questão de se despedir de ninguém nem falar o motivo pelo qual estava indo embora para o restante dos convidados. Dona Zanelda, ao observar de longe pela porta de entrada, ainda parece confusa e quer saber o que de fato tinha acontecido. Ela está aparentemente confusa.
— Respire — diz Lavínia com sua voz soando finalmente clara na tentativa de lhe acalmar — Já passou. O céu ainda tá no mesmo lugar. Veja, meus olhos ainda estão brilhando?
Você não responde com nenhuma palavra, somente com um aceno de cabeça em afirmativo seguido de um singelo e tímido sorriso. E, finalmente, se sente aliviadx ao ver que os olhos de sua colega não se encontram mais alterados.
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