Os órfãos de Nevinny Vol.2
28 Palácio de vidro - Parte I

O som abafado dos gritos e slogans anti-progresso que ecoavam pelas avenidas de Nevinny ainda permanece em sua mente que constantemente fica em alerta achando que a qualquer momento uma nova rebelião pode acontecer. Tudo parece se movimentar em câmera lenta em alguns momentos, com a sensação de que uma bomba pode cair no Palácio Dakota e que tudo acabaria de vez.
Do lado de dentro, a atmosfera exala um perfume adocicado dos champanhe mais caros e tilintares cristalinos de taças que celebram o amanhã. Para onde quer que olhe, o povo da alta sociedade desfilando seus looks mais caros parece infinito. Já do lado de fora, logo depois da calçada que cerca o Palácio, a segurança está bem reforçada com tecnologia. Há drones passando pelo ar, pelo jardim e até um passando por cima da cabeça de todos, monitorando o evento. Há uma barreira impedindo a invasão e proximidade de qualquer pessoa que está contra o evento e também pra proteger os dois táxis voadores bem posicionados como porta de entrada, que são sem dúvidas, as estrelas da noite.
— Eu não tô com uma sensação boa. A todo instante eu fico achando que tudo aqui vai ser invadido e colocado abaixo — você fala observando um ponto de luz se movendo bem rápido pelo jardim, apreensivx.
— Não esquenta, S/N. Isso não vai acontecer. O povo de Miríade não vai ter chance nem de colocar um mindinho sequer dentro de qualquer perímetro dessa fortaleza — Allison fala também observando — Eu fico com medo e com uma certa dó do pessoal de Miríade, mas estão batalhando pelo que é seu de direito. Eu vejo um ponto de vista nisso.
— Foi de muita esperteza do grupo de investidores do meu pai chamar alguém de Miríade pra simbolizar que o povo miridiano deve ficar despreocupado em relação ao lançamento desse táxi. Atribuir uma paz, uma união pra que algo grave não aconteça. Eu achei bem esperto da parte deles — você fala tomando um gole do seu champanhe rosé sem álcool — Nossa, isso aqui tá muito bom. Tem certeza que você não quer experimentar?
— Não, S/N. Muito obrigadx — Allison rejeita dando uma leve risada.
— Fiquei feliz por seu pai ter aceitado o convite. Eu tinha certeza que ele ia recusar.
— Eu fiquei mais ainda que eu vim acompanhadx dele. Eu achei que eu ia ficar em casa sobrando, lendo meus livros ou estudando, mas a namorada do meu pai disse que teve um imprevisto de última hora e não pôde vir. Acabei vindo no lugar dela, quase que forçadx. Só não foi porque eu estava com uma ponta de curiosidade pra ver isso tudo de perto. Não é todo dia que alguém de Miríade tem a oportunidade de fazer parte de um evento exclusivo e luxuoso desse jeito, já que somos sempre excluídos.
— E tá gostando? Não tá achando chato e cansativo? Acho que Max faria falta pra você.
— Max ficou super irritadx por não ter acompanhado a gente, mas infelizmente eu não pude fazer nada, já que quem recebeu o convite foi o meu pai — Allison declara — Mas respondendo a sua pergunta: não, eu não estou achando chato e cansativo. Na verdade, estou achando bem agradável. Tem um clima leve e…bom, eu acho.
— Ah, é porque você não conhece os bastidores. Ele é o oposto. Super pesado e cheio de intrigas. Essa é a verdade.
— Então o resto do nosso grupo não vem mesmo? Você não pediu ao seu pai que eles pudessem vir? A Lavínia, a Rebekah e os outros? Seria super legal se pudesse.
Você fica nervosx pela pergunta de Allison, logo pensando em uma resposta para dar.
— Ah, é que isso é uma festa exclusiva, Allison. Não fica bem em ficar pedindo pra mais gente entrar. E além do mais eu tô fazendo uma boa ação — você diz.
— Boa ação? Como assim? — ela pergunta sem entender.
— Mesmo se eu pudesse chamar quem eu quiser eu não iria fazer isso. Eu ia tá colocando as vidas dos nossos amigos em risco. Você não vê? Seria um lugar perfeito pra um deles sumir.
— Continuo sem entender.
— Não ainda? — você fala — Um jardim desse tamanho seria ideal pro assassino sumir com algum de nossos amigos.
— V-você acha que ele tá aqui?
— Exatamente isso. Como a gente vai saber? — você fala mas ri ao ver a expressão de Allison com preocupação — Mas fica tranquilx. Isso não vai acontecer aqui.
— Eu só fico pensando em como estão dando tanta importância pra esse evento enquanto tem um aluno desaparecido na nossa escola. Os jornais literalmente pararam de falar disso e só focaram nos táxis. É como se a vida do Joaquim não importasse.
— De uma certa forma é assim que acontece. Você já deveria saber.
— Toda essa gente idolatrando um veículo que vai passar por cima de nossas cabeças tendo a chance de cair — Allison se sacode como se despertasse — Eu não gosto nem de pensar nisso.
— Não pense. Esses veículos foram testados e estão ótimos. Claro que já tiveram alguns imprevistos, mas umas melhorias já resolve tudo — você fala ao lembrar do episódio no réveillon em Atelis.
— Desde que um desses não se parta e caia por cima de nossas cabeças está tudo ótimo.
— Meu pai ajudou muito nesse investimento. Nada pode dar errado, senão a culpa vai cair pra ele… de novo. E você sabe o quanto as pessoas procuram qualquer motivo pra apontar o dedo. Principalmente pra alguém com um sobrenome como o meu. A segurança do Palácio tá ótima. Nem a polícia entrou sem passar por três checagens de biometria. Vai dar tudo certo.
Olhando para a tela de seu celular, você vê um vídeo em preto e branco postado mostrando manifestantes a favor dos miridianos com cartazes nas mãos. A sensação de desconexão é muito evidente. É uma sensação de conforto mas uma constante e ciência de um caos acontecendo lá fora.
De repente, suas atenções são tomadas pelo som suave, porém imponente, de gongs eletrônicos ressoando pelos alto-falantes de altíssima fidelidade espalhados. A iluminação principal começa a se apagar gradativamente, deixando apenas a luz suave dos hologramas flutuantes que moldam o ambiente.
— Senhoras e senhores — a voz amplificada da mestra de cerimônias ecoa, fazendo com que os burburinhos e as risadas gradualmente se calem — Sejam bem-vindos ao alvorecer de uma nova era para Nevinny. Por favor, direcionem sua atenção para a plataforma externa.
A multidão se aproxima em massa do painel de vidro blindado. Perto do palco, você enxerga Joseph. Ele ajusta a gravata, ostentando um sorriso confiante e impecável enquanto conversa rapidamente com alguns outros investidores antes de se posicionar para o discurso.
Allison dá um leve toque no seu cotovelo, apontando para a plataforma elevada onde não há apenas dois, mas doze táxis voadores estão alinhados como jóias tecnológicas sob os holofotes.
— Bom... lá vai o show do seu pai — elx murmura, embora os olhos ainda transmitam uma sutil desconfiança.
Seus olhos se fixam na figura de Joseph subindo os degraus do palco sob palmas entusiasmadas e flashes de câmeras. O orgulho e a angústia travam uma batalha silenciosa dentro do seu peito. Tudo parece perfeito, desenhado nos mínimos detalhes para o sucesso absoluto.
E é exatamente essa perfeição toda que te deixa com um pé atrás.
O público silencia quase por completo quando Joseph tomou o microfone. A postura dele é firme, exalando a autoridade de quem não apenas investira milhões naquele projeto, mas também apostara a própria reputação na virada tecnológica da cidade e mundo.
— Boa noite a todos — a voz de Joseph ressoa limpa e cristalina pelos alto-falantes, ecoando até as vigas de aço do Palácio Dakota — Há quem diga que o progresso é um luxo perigoso. Há quem tema o futuro porque prefere a segurança sufocante do passado. Mas o que estamos presenciando aqui, hoje, não é apenas o lançamento de um meio de transporte... É a prova de que a nossa cidade não pode e não vai ser parada pelo medo.
Pausas entusiasmadas ecoam por todos os lados. Pessoas se entreolham, algumas delas balançando a cabeça em aprovação. Allison mantém as mãos nos bolsos observando o espetáculo, mas de alguma forma sem esconder um pouco da admiração.
— Hoje, mostramos que o céu não é mais um limite, mas sim o nosso novo caminho — Joseph continua, abrindo os braços enquanto os holofotes se direcionam para a frota — E para provar que a segurança e a precisão do Projeto Áquila são inquestionáveis, convidamos vocês a testemunharem a nossa primeira demonstração ao vivo em frota.
Ao comando de Joseph, um murmúrio de fascínio toma conta da multidão.
No jardim, doze táxis ganham vida simultaneamente. Não há barulho ensurdecedor de turbinas, eles ainda mantiveram o padrão de silêncio para todos os veículos. Um a um, os veículos elevam-se no ar em uma subida vertical impecável.
Luzes azuis e douradas cortam a noite enquanto as aeronaves começam a executar uma coreografia perfeita cruzando o espaço formando um V como em um bando de pássaros no céu com uma fluidez hipnotizante, totalmente automatizadas, sem que esteja visível através do vidro fumê das cabines dos veículos que possuem a vidraça desse estilo.
Ao seu lado, Allison dá um suspiro preso. Parece de alívio, talvez.
— Tenho que admitir... a engenharia por trás disso é impressionante — elx murmura, sem tirar os olhos do céu — É quase poético. Se a gente não soubesse o caos que tá acontecendo lá fora, daria até pra acreditar que a cidade tá em paz.
— Essa é a ideia — você diz — Tudo tem que parecer lindo. O caos não pode existir. Pelo menos por uma noite.
O ápice da apresentação chega quando a frota principal abre espaço para o modelo executivo — a nave-insígnia do projeto. O táxi faz uma aproximação lenta em direção à plataforma de vidro onde os convidados acompanham tudo de perto, pousando com uma suavidade absurda sobre os amortecedores magnéticos.
A porta asa-de-gaivota se abre para revelar o interior moderno, porém simples, em couro sintético claro, e a multidão prorrompe em aplausos efusivos. Joseph, então, desce do palco com um sorriso vitorioso e acena para a plateia, sendo imediatamente cercado por repórteres e empresários ansiosos para cumprimentá-lo.
Tudo havia saído perfeito. Sem falhas de sistema, sem invasões de protestantes, sem nenhum sobressalto. O evento fora um sucesso retumbante, exatamente como seu pai planejara. Vários drones que passam entre as pessoas capturam através de vários disparos de flashes cada momento e todas as reações possíveis para o que acabara de acontecer.
— Bom, pelo menos dessa vez deu tudo certo. Não teve imprevistos. Acontecer qualquer coisa fora do comum já seria muito e clichê — você fala observando a alegria e entusiasmo nos olhares dos convidados presentes.
— Por que haveria? Essas coisas devem ter sido testadas milhares de vezes antes de serem exibidas. O máximo que poderia acontecer seria uma sabotagem, mas tudo aqui está em jogo. Ninguém faria uma baixaria dessa. Nem mesmo um miridiano — Allison fala dando uma risadinha.
Logo, você lembra do episódio do réveillon e as suspeitas sobre Victor Svidetel que até hoje não foram totalmente afirmadas nem negadas.
— É, você tem razão — você fala um pouco sem graça — Allison, onde está o seu pai agora? Ser o único policial de Miríade aqui nesse mar de gente desconhecida deve tá sendo um sufoco pra ele.
— Eu não sei. Preciso encontrar ele. Ele deve tá odiando tudo isso. De primeira ele não quis vir. Só veio por causa de tanta insistência da minha parte. Eu não poderia perder a oportunidade de um evento como esse. Não sou besta nem nada, não é?
— Erradx você não tá. O senhor Jared é um pai e tanto só por ter aceitado isso tudo só pra estar com você. Eu tenho orgulho dele.
— É… ele é um cara maneiro — Allison fala dando um sorriso enquanto mexe no celular — Quanto mais tempo ele passar sozinho no meio dessa muvuca, mais ranzinza ele vai ficar. E cá entre nós, Jared irritado é um perigo público.
— Eu nunca vi seu pai irritado. Isso vai ser uma grande novidade pra mim.
Allison solta uma risada curta, mas o olhar rapidamente volta a percorrer as pessoas com uma ponta de apreensão. O barulho de conversas, músicas misturadas e risadas parece aumentar a cada minuto, tornando a tarefa de achar uma única pessoa quase impossível.
— Você tá esperando alguém? — você pergunta.
— Meu pai. Eu enviei uma mensagem pra ele de onde nós estamos. Ele ficou super aliviado. Já tá vindo pra cá, mas já era pra ter chegado — Allison fala — Se eu conheço meu pai, ele provavelmente encontrou um canto de sombra com um café horrível só para ficar encarando todo mundo com cara de poucos amigos.
Jared não é apenas um pai presente; é o policial encarregado de manter a ordem quando coisas estranhas começam a acontecer em Miríade. E o fato de ele estar presente na festa, desconfortável, faz você se perguntar se sua presença é puramente a favor para Allison... ou se ele está de olho em algo. Ou alguém.
— Ei, olha lá! — Allison interrompe seus pensamentos, cutucando seu braço e apontando em direção a um quiosque de madeira um pouco mais afastado da aglomeração principal.
De pé ao lado de um poste de iluminação, de braços cruzados e com a expressão exatamente tão dura quanto você havia imaginado, está Jared. Ele segura uma taça de cristal com uma das mãos, os olhos atentos varrendo o movimento das pessoas como se escaneasse uma cena de crime. Porém, ao seguir o trajeto do olhar fixo do policial, você percebe que ele não está apenas observando a multidão em geral. Jared está encarando, a poucos metros de distância, uma drone piscando que vem lentamente em sua direção.
O zumbido mecânico corta o ruído da multidão antes mesmo que qualquer um consiga reagir. O pequeno drone, com luzes vermelhas e azuis piscando em um ritmo hipnótico, vem descendo lentamente na direção de você e de Allison.
— Ih, eu acho que ele tá perdendo altitude. Será quem tá controlando? — Allison pergunta, curiosx, quase pondo a mão no objeto — Mas o que é isso...? — elx pergunta ao ver um tecido branco inserido em uma brecha no detalhe do drone.
— É um papel. Será que é um bilhete pra alguém? — você pergunta.
O drone emparelha na altura dos olhos, pairando no ar com uma precisão quase incômoda. Preso à sua base por um pequeno clipe metálico, há um pedaço de papel dobrado. Você, sem pensar, com curiosidade, decide puxar a ponta do papel que, ao abrir vê uma mensagem escrita em vermelho.
“ME SEGUE”
— Tem um cheiro… de morango. Eu acho que é batom — você fala ao encostar seu nariz na folha.
No mesmo instante, o drone dá uma leve guinada para trás, girando no próprio eixo e começando a se afastar em velocidade moderada, como se esperasse ser seguido.
Do nada, Jared aparece, e, percebendo a aproximação repentina do objeto, abandona a postura firme ao lado de um dos postes posicionados no ambiente. Ele larga a taça de cristal na mureta mais próxima — o som do vidro batendo na pedra ecoa seco — e se coloca rapidamente à frente de vocês. Logo ele puxa o papel da sua mão e, em expressão super séria ele questiona:
— Quem escreveu isso? Que cheiro é esse? Não parece sangue.
— Sangue? Pai, por que alguém ia escrever um bilhete com sangue? — Allison pergunta, incrédulx.
— Fiquem atrás de mim — Jared ordena em um tom baixo, irrestrito, que não deixa margem para discussão. O olhar dele alterna entre o bilhete amarrotado e a luz vermelha do drone, que agora corta o caminho por entre uma alameda mais vazia do evento — Não saiam do meu lado por nada.
O clima festivo parece evaporar por completo. O barulho das risadas e da música ao fundo vira apenas um zumbido distante enquanto vocês três começam a seguir o trajeto do aparelho. É como se tudo tivesse sumido e o seu mundo agora é apenas o foco em seguiro o drone.
Jared caminha na frente, o corpo rígido, passando apressadamente entre as pessoas na festa até chegar nos pontos cegos entre as árvores. Cada passo parece pesado, carregado pela incerteza do que está por vir.
O drone seguiu por um caminho de pedras portuguesas, afastando-se do tumulto principal e adentrando uma área mais isolada. A vegetação fica mais densa, abafando o som do evento, até que as luzes do pequeno aparelho começam a desacelerar num ponto atrás de um portão verde onde logo atrás há poucas árvores no jardim. O drone simplesmente perde a força, caindo na grama fofa com um baque seco.
O silêncio do lugar é quase ensurdecedor. Paradas, de trajes de gala onde uma delas segura um controle remoto nas mãos posicionadas no centro do gramado de pé ao lado de um chafariz desativado e com expressões impassíveis que tornam impossível adivinhar suas intenções, estão Cynthia e Jennifer.

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