Os órfãos de Nevinny Vol.2
33 O comitê
“Se tínhamos alguma dúvida do porquê o Henrique Vance está rondando a mim e a minha família, agora temos certeza. Só alguém suspeito o bastante ou com completa loucura iria na casa da vítima pra fazer alguma ameaça ou coisa do tipo. Os motivos reais estão aparecendo pouco a pouco e agora ele quer mais se metendo no centro da história toda. Ele quer briga, confusão. Mas eu sei e garanto que meu pai tem alguma carta na manga. Ele não vai deixar o Henrique estragar os negócios e por fim ainda comprovar que ele tem algo a ver com o ataque à Suzanne e o sumiço de João. Assim eu espero.”

A vinheta do noticiário ecoa no celular de um homem que está presente bem perto cortando para a imagem do repórter posicionado em frente ao imponente edifício da Câmara Municipal de Nevinny:
— “E o cenário político em Nevinny esquenta a poucos dias do início oficial da campanha eleitoral. O atual favorito nas pesquisas, o influente empresário e figura pública senhor Delano segue consolidando sua base com um discurso voltado à estabilidade econômica e ao desenvolvimento urbano. No entanto, sua trajetória até aqui não é isenta de turbulências: o candidato carrega a sombra de questionamentos sobre favorecimento em licitações passadas e a acusação, por parte da oposição, de gerenciar a cidade com braço de ferro.
Ainda na disputa, figuram nomes tradicionais da política local, como a vereadora Helena Rios, apelando para o eleitorado conservador, e o independente Marcos Sterling, que tenta angariar votos prometendo reformas na segurança pública. Porém, a grande reviravolta desta corrida eleitoral acaba de ser anunciada. Em um movimento que promete estremecer as estruturas do pleito, surge uma candidatura surpresa: a entrada oficial do jovem economista Arthur Manoreta. Apoiado e publicamente financiado pelo investidor Henrique Vance, o novo concorrente surge com uma plataforma agressiva focada em inovação e modernização. Resta saber se o peso do capital de Vance será suficiente para desbancar o favoritismo consolidado do senhor Delano. Continuamos acompanhando.”
📍 07:35 p.m., Comitê do senhor Delano
Está uma aglomeração daquelas e todos os apoiadores — ou pelo menos uma parte — do senhor Delano pra candidatura à prefeitura estão presentes na maior festa e toda torcida fazendo o evento ganhar vida e proporções depois que rumores que uma nova candidatura surgiria pra disputa.
Cris chega na roda aproximando o celular aumentando o volume exatamente na hora em que anunciaram oficialmente a eleição do candidato surpresa Arthur Manoreta, patrocinado diretamente pelo Vance.
Algumas pessoas em volta parecem confusas, até reclamam pelo fato. Não é comum alguém se juntar à uma eleição assim do nada e competir no páreo. Não é comum uma figura desconhecida ser jogada de paraquedas na reta final do jogo político com o peso financeiro de um império por trás.
— Arthur Manoreta? De onde o Henrique tirou esse… garoto? — Cris indaga, deslizando o dedo para fechar o vídeo — Ele apareceu do nada e já chega com a máquina do Vance por trás.
— Isso é permitido? Tipo, é válido uma pessoa fazer isso? Ninguém nunca ouviu falar sobre esse Arthur. Ele parece que ainda tá cursando a disciplina de política, caso tivesse faculdade disso — Lavínia diz.
— Bom, as eleições ainda estão no período pré. Nós já conhecemos os candidatos, mas se eles têm uma regra que permite a entrada de mais eleitos, então podem — Allison explica.
— Imagina como deve estar a Cynthia depois que ela souber dessa — você diz, olhando a movimentação intensa.
— Que tal descobrirmos agora? Ela tá vindo bem ali — Rebekah fala apontando para frente indo ao encontro de Cynthia que está posando no meio do salão.
Vestindo um conjunto de alfaiataria impecável em tom azul-marinho, com alguns pontos de glitter pintados ao redor dos olhos e um broche com a foto de seu pai colado na alça do vestido, Cynthia mantém o sorriso treinado para os fotógrafos da imprensa local, mas os olhos revelam a fúria contida. Logo depois que ela termina de posar para os fotógrafos, ela faz um sinal imperceptível com a cabeça para que se juntem a ela num canto mais reservado, longe das câmeras.
— Viram o circo que o Vance montou? Meu pai acabou de desligar o telefone gritando com a assessoria — ela fala visivelmente irritada — Colocar um garoto recém-formado em economia como bucha de canhão para peitar meu pai... Ele acha mesmo que Nevinny é um tabuleiro de brinquedo. O Henrique jogou baixo. Jogou muito baixo.
— Calma, Cynthia. Não tem a mínima chance do Henrique ganhar relevância nessa eleição. Os outros candidatos já são conhecidos e estão sendo falados há mais tempo. Como que alguém que apareceu agora de surpresa vai conseguir surpreender a população assim do nada? — Allison explana.
— É, você tá certx. Meu pai é quem lidera o ranking de intenção de votos nessa primeira semana. É claro que ele tem mais chance — Cynthia diz — Olha, gente, muito obrigada por vocês estarem aqui apoiando meu pai. Eu juro que não esperava que vocês fossem fazer isso por mim. Sinto que julguei vocês de forma errada por muito tempo.
— Bom, teria milhões de outros lugares que eu queria estar agora, não é? Política definitivamente não é a minha cara. Eu estou fazendo isso por S/N que insistiu bastante — Lavínia diz.
— De você eu não esperaria tanta coisa. Não tem a veia culta e política mesmo.
— E o arrependimento já foi embora rápido não, é? — você fala — O que seu pai tá achando disso, Cynthia? O que mais ele falou?
Ela olha para os lados, certificando-se de que nenhum assessor ou repórter curioso está ao alcance de sua voz.
— Eu ouvi a conversa do meu pai com Joseph. Ele contou o que o Henrique foi fazer na sua mansão mais cedo — diz ela, em um sussurro tenso — Ele não foi lá para negociar. Foi para tripudiar. O Vance apareceu sem avisar só para avisar que tinha acabado de fechar o financiamento dessa nova candidatura. Ele disse na cara dele que o Arthur Manoreta é o "Perfil Perfeito": um garoto sem passado podre, com discurso moderno, totalmente alinhado à tecnologia, que promete liberar as licenças dos táxis voadores sem a burocracia que a prefeitura impõe hoje. E o pior…
Cynthia faz uma pausa, engolindo em seco. Suas mãos tremem levemente ao segurar a alça da bolsa.
— O pior é que o Vance deixou implícito que vai arrastar o nome do seu pai na lama, reabrindo as polêmicas antigas, os processos por favorecimento e a época em que ele quase foi preso. Ele quer vender o Arthur como o "salvador da pátria" que vai limpar Nevinny de qualquer tipo de corrupção. Ele disse que tem “munição pesada” guardada, S/N.
— Os pais de vocês precisam fazer alguma coisa. Principalmente o seu pai. Cynthia. Você precisa fazer com que ele fale pra impedir qualquer surgimento de aclamação pro lado do Henrique. Esse cara tá se mostrando bem calculista. Se o seu pai quer se manter na frente e evitar que qualquer coisa vinda do Henrique atrapalhe as ideias e discurso dele, alguma coisa tem que ser feita antes — Rebekah sugere com certa preocupação em seus olhos.
— Meu pai não precisa se pronunciar sobre um fantoche — Cynthia rebate com altivez, ajustando o broche da campanha — Se alguém tem que fazer isso é Joseph. Aliás, o Henrique tá entrando nessa por causa dele. Então, eu sugiro que ele faça alguma coisa rápido, pois a situação já tá indo pra um caminho que nem deveria ter começado.
— Alguma coisa em mente, S/N? — Cris pergunta.
— Bom, eu sei que não era o que eu queria, pois se trata de algo ilegal, mas na urgência a gente acaba fazendo qualquer coisa pra defender quem tá do lado da gente — você diz.
— Então já teve uma ideia. Eu conheço essa cara — Lavínia afirma.
Sua mente trabalha em forma rotatória, meio caótica até. A imagem de Henrique abraçando Arthur Manoreta no telão, ambos rindo presunçosamente mistura-se com as memórias e pensamentos que vão se embaralhando na sua cabeça. O sumiço de João, o ataque à Suzanne, a visita surpresa de Henrique à Joseph. Todo esse tempo, principalmente esses últimos dias atrás de pistas e suspeitos para serem a explicação e a resposta para alguns questionamentos sendo que ela poderia estar bem próxima esse tempo todo, a diferença é que agora ela é explícita e palpável o suficiente.
Por um momento sente um frio na espinha e a sensação de estar sendo observadx reaparece. Olhando por cima dos ombros e também ao redor, parece que alguns rostos no meio da multidão parecem desfocados e, de alguma maneira, por um instante parece ver a silhueta de João ao fundo, lhe encarando, encostado em uma pilastra com olhos vazios. Porém, ao piscar rapidamente vê que é só um apoiador passando normalmente, mas tal cena lhe fez se perder no tempo.
— S/N, fala alguma coisa. Você tem alguma ideia do que seu pai pode fazer nesse momento? Vocês podem estar correndo perigo com esse cara rondando por perto — Lavínia diz lhe fazendo voltar a si.
— Er, sim… eu… só ‘tava tendo certeza. Como eu disse é algo ilegal, que pode não pegar bem, mas se é o que precisa ser feito pra afastar Henrique e o candidato dele, acho que é a melhor maneira — você explica.
— E essa coisa seria…
— Eu não sei. Eu pensar em divulgar informações não oficiais sobre Henrique ou sobre o eleitor dele. Informações que podem ser vistas como boatos, mas que tem alguma fonte de verdade fazendo as pessoas pensarem que não são só boatos e tenham algum fundamento. Pode ser feito como um relato elaborado ou só alguma informação solta.
— Tá. Então você quer soltar uma fake news sobre o Henrique? — Cynthia pergunta.
— Não! Isso é errado! S/N, você não vai fazer isso. Nós tivemos uma aula de campo sobre esse assunto outro dia — Rebekah exclama, repreendendo.
— Não sei se isso é uma boa ideia — Allison fala.
— Eu adorei — Lavínia fala — Pode contar comigo pra isso.
— Nós ficamos obcecados em procurar respostas dentro da escola. Ficamos criando teorias sobre alunos, teorias de corredor, tentando achar um culpado entre garotos de quinze anos enquanto que o verdadeiro culpado tá tentando seduzir a cidade inteira com pose de bom moço. A gente tá correndo atrás do próprio rabo dentro de salas de aula enquanto a resposta tá bem debaixo do nosso nariz. O foco nunca deveria ter sido a escola. O foco tem que ser o Henrique Vance. Cada passo dele, cada investimento, cada podre que a gente puder achar sobre ele ou qualquer coisa que podemos inventar.
— Eu não sei. Acho isso muito perigoso, S/N. Pensa bem. Você pode estar querendo que Henrique seja o responsável de alguma forma, mas se as pessoas comprarem essa história, o verdadeiro culpado pelo ataque à Suzanne e pelo desaparecimento do João vai estar livre já que todas as acusações vão estar voltadas pro Henrique. Isso pode atrapalhar a investigação da polícia — Allison declara.
Cynthia lhe encara, os olhos brilhando com uma mistura de pavor e validação. O fato de você estar direcionando toda a paranoia e agressividade contra o inimigo mortal de suas famílias parece ser o único consolo que ela procura no momento.
— S/N tá certa — Cynthia apoia já com a voz firme — O Henrique tá por trás de tudo. Ele é o principal suspeito pelos ataques dos alunos da nossa escola. Ele é o famoso lobo em pele de cordeiro, dissimulado e psicopata que entrou pra política e tá usando uma marionete pra disfarçar sua real essência. Se a gente não parar esse homem, meu pai vai perder a eleição, podendo até ser preso, se for comprovado alguma coisa ilícita plantada pelo Henrique, levando junto o pai da S/N e alguém de nós ser a próxima vítima.
— Agora, a pergunta é: como vamos fazer essa fake news ser divulgada? Não podemos simplesmente criar uma coisa e publicar. Pelo menos não através de um aparelho que possa ser identificado e sermos pagos depois — Lavínia fala.
— “Vamos” é uma ova. Eu não vou participar em nada do que vocês tramando — Allison dispara.
— Bom, então se manda daqui. Se não quer ajudar, também não vai atrapalhar. É melhor dar o fora o quanto antes — Cynthia ordena.
— Vocês vão mesmo levar isso adiante? S/N? Vai mesmo fazer isso?
— Desculpa, Allison. Foi o melhor que eu pude arranjar agora. Eu sugiro que não fale nada pro seu pai. É um pedido que eu gostaria de fazer se você puder — você fala.
— Eu também acho isso muito precipitado. Gente, vocês estão falando de cometer um crime. Vocês não acham que nós já se envolvemos em confusão demais? Se descobrirem que fomos nós que fizemos isso, vão achar que fizemos só pra despistarmos algo de errado que fizemos. Isso não vai ser legal — Rebekah comenta.
— Olha ela falando em “nós”. Então quer dizer que está oficialmente fazendo parte do nosso esquema, não é? — Cris fala — Relaxa, Bekinha. Nós vamos dar um jeito de fazer isso sem deixar rastros. Ninguém vai nem desconfiar de que fomos nós que cometemos uma “atrocidade” dessas pra salvar a pátria.
— Cris, você ainda tem o contato daquele seu amigo hacker? — você pergunta fazendo o grupo lhe olhar de imediato.
— Eu não sei de qual deles você tá falando, mas, sim, eu ainda tenho. Mas, lembre-se que da primeira ele fez por cortesia, agora não sei se ele vai querer trabalhar de graça. Ainda mais numa situação dessas.
— Dinheiro não é problema — você intervém de imediato — Se esse garoto conseguir espalhar o material certo sem criar uma linha de rastro até a gente, ele consegue até o dobro do que ele pedir.
— Quem são vocês? Eu entrei pra uma gangue e não tô sabendo? — Allison dispara.
Rebekah cobre a boca com as mãos, arregalando os olhos.
— Vocês enlouqueceram... Isso é insano! Se o seu pai descobre isso, Cynthia, ou se a polícia rastreia esse hacker…
— A polícia não vai rastrear nada se não soubermos como fazer e como fazer. E também se alguém não entregar a gente — você fala olhando diretamente para Allison que lhe encara por alguns segundos, desaprovando em silêncio.
Logo, Allison sai sem dizer uma palavra abrindo caminho entre a multidão. Rebekah hesita por um instante lhe olhando com uma mistura de pena e pânico, antes de correr atrás de Allison.
— Deixa elxs irem — Lavínia desdenha, acompanhando com o olhar até sumirem perto da saída de emergência — Menos pessoas pra dar palpite moralista.
Um silêncio denso cai sobre o pequeno grupo. Ao fundo, o jingle político do senhor Delano começa a tocar o refrão entusiasmado somado a explosões de fogos de artifício criando um contraste bizarro com a aura de conspiração envolvente. O primeiro passo está traçado e só precisa de estratégias concretas pra dar prosseguimento com o plano. Porém, a preocupação sobre Allison ter reprovado a ideia e até ter abandonado o grupo é maior sobre qual será o rumo pra evitar que Henrique dê o próximo passo.
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