Os órfãos de Nevinny Vol.2
29 Palácio de vidro - Parte II
Parece que por dois segundos o tempo parece ter parado desde o momento em que viu as duas figuras paradas no jardim. Jennifer mantém uma postura ereta, as mãos cruzadas suavemente à frente do corpo, enquanto Cynthia sustenta um olhar calculista e sem piscar, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha com uma calma evidente.
— Mas o que significa isso? — Jared pergunta olhando para as garotas — Vocês são donas desse drone? Por acaso ele não é o mesmo da festa?
— Er, sim… é… meu pai nos concedeu esse por alguns minutos. Ele é investidor da estrela da noite. Só uns minutinhos não faz mal, não é? — Jennifer fala toda sorridente e simpática. Olhando assim nem parece o poço de amargura e soberba que tem.
— Ah, oi Cynthia. Jennifer! — você fala indo em direção às duas logo partindo para um abraço.
Tanto Cynthia quanto Jennifer lhe olham com uma expressão de estranheza sem entender nada da cena. Allison arregala os olhos como se tudo fosse tudo alegria, porém sabendo que não é bem assim.
— Oi, S/N. Que abraço caloroso! Até parece que você gosta dessas coisas — Jennifer diz dando uma risada.
— Cynthia. Que surpresa você aqui. Está tudo bem? — Jared pergunta.
— Tudo bem. Bom em ver o senhor por aqui. Pra mim é uma surpresa — Cynthia responde.
— Sabe como é. Um convite dessa grandeza não dá pra recusar não, é?
— Sei sim.
— Bom, então acho que não tenho mais nada pra fazer aqui. Vocês estão em família. Posso dizer assim. Eu acho que vou me retirar. Vou ver se estão precisando de mim pra alguma coisa na festa. Devem querer tirar fotos e… com licença.
— Tchau, pai.
O senhor Padalecki sai de cena meio desconfiado e sem graça. Jennifer observa o afastamento de Jared ainda sorridente dando um tchauzinho enquanto ele se afasta. Mas foi só alguns segundos após ele desaparecer que, com ele, o sorriso forçado dela evapora. A simpatia fingida dá lugar a um vinco de desdém e ela dá um passo atrás, desfazendo a proximidade do abraço com uma lentidão calculada.
— Pronto. A plateia já foi embora — Cynthia dispara com o tom de voz gélido enquanto ajusta o casaco pesado sobre o vestido rosa cintilante e os olhos semicerrados fixos em você — Quer explicar o show, S/N? Desde quando a gente se abraça como amigxs de infância?
Allison dá um passo a frente com o olhar fixo para o drone que está nas mãos de Jennifer.
— Posso pegar?
— Ah, claro — Jennifer concede.
— Sem distrações. Responde a pergunta, S/N — Cynthia ordena — Eu não estou aqui pra brigar. Principalmente depois do que aconteceu. Da ameaça que você me fez. Enfim…
— Eu também não. Eu só ‘tava facilitando as coisas pra gente parecer pessoas civilizadas na frente do senhor Padalecki — você responde firme e diretx — A última coisa que a gente precisa é de um interrogatório sobre o que um drone de vigilância privada tá fazendo no jardim de uma propriedade particular durante um evento fechado. E a propósito, você me ameaçou primeiro. Várias vezes.
— Ah, não leve isso pro pessoal. Acho que já resolvemos essa questão. Esse drone é tanto seu quanto meu, eu sei. Mas o pai da minha querida amiga Jennifer também é dono. É o senhor Elliot se não lembra o nome dele. Então, chega de ameaças contra o mandato do meu pai.
— Amigas? Já estão nesse nível? Vocês acabaram de se conhecer.
— Se é o que você diz — Jennifer fala.
— Eu descobri uma maneira de não ficar na mão dos Montenegro pra apoiar a candidatura do meu pai. Sabemos que o senhor Joseph tem alto culhão pra mandar e desmandar nessa empreitada toda, mas a minha grande descoberta foi em saber que o senhor Elliot também tem suas regalias nesse meio de poder e aquisição. Então foi só eu juntar o útil ao super agradável.
— E aí se juntou com a família Elliot e agora deve estar implorando pra ele apoiar a eleição do senhor Elliot, não é? — você fala dando uma gargalhada debochada.
— Ela não precisa implorar nem se humilhar pra isso, S/N. Não é o que grandes amigas fazem — Jennifer dispara — Eu simplesmente pedi ajuda ao meu pai e ele topou. É uma questão de amizade mútua e também cooperatividade. Mas não precisou de tanto pra isso acontecer. Só em grandes e verdadeiras amizades acontecem esse trunfo de união. Allison, se eu fosse você te aconselharia a não deixar o seu pai se unir com os Montenegro. Ele pode se dar mal. Seria bem melhor seu pai se unir com a gente que é do bem, que fazem as coisas certas e que certamente terão mais progresso. Bem melhor do que viver numa incerteza de futuro e no meio de um monte de escândalos e fofocas.
— Meu pai não precisa fazer aliança com ninguém pra se dar bem. Ele é policial. Chefe da polícia de Miríade e um dos chefes da polícia geral de Nevinny. Meu pai nunca se envolveria em qualquer coisa tendo política no meio.
— Uhh, tão honesto e certinho — Cynthia fala — Tá, se não é sobre política, sobre o que é, então? O que o senhor Padalecki tá fazendo num evento desse exclusivo pra alta sociedade? Pra fazer a segurança do Palácio que não é. Tem seguranças de outros países e até do FBI aqui se duvidar. Pessoas bem mais treinadas e eficientes caso qualquer coisa aconteça por aqui.
— O que poderia acontecer aqui? — você pergunta.
— Não sei. Vai que tem algum assassino ou assassina entre a gente. Nunca se sabe. Nunca conhecemos as pessoas direito.
— Vou fingir que não entendi essa indireta. Mas, respondendo a sua pergunta, o senhor Padalecki veio prestigiar e representar Miríade. Se vocês não viram, tem pessoas revoltadas lá fora.
— Meu pai não compactua com essas coisas. Ele é um homem íntegro e do bem — Allison fala.
— O que eu não entendo é vocês duas juntas. Como se conheceram?
— Longa história. Mas você deve saber que nesse mundinho dos negócios não é difícil as pessoas se cruzarem — Jennifer diz.
— É, e foi um erro da gente ter se cruzado com vocês. Vamos embora, Allison.
— Espera. As duas guiaram o drone até a gente e nós o seguimos de volta e viemos parar aqui. Você não quer saber o motivo delas terem chamado nossa atenção? — Allison questiona.
— Você não vê, Allison? Elas só querem incomodar a gente. Vamos embora.
— Espera, S/N. Parece ser tão óbvio, mas não é por isso que chamamos vocês — Cynthia fala.
— Ah não? E qual seria o grande motivo da vez?
— Assim como na escola, poderíamos ficar nesse evento todos juntos. Onde está o restante de vocês? O seu grupinho? — Jennifer pergunta.
— Eles não vieram. Somos só Allison e eu.
— O quê? Vocês não chamaram alguns dos seus amigos? Lavínia, Rebekah? — Cynthia questiona.
— Lavínia, não. Nem me fale esse nome. Por favor, me diz que você não chamou a selvagem da escola de vocês — Jennifer diz fazendo, de repente, uma expressão de medo.
— Calma, essa é a Lavínia. É outra selvagem. A garota que te deu uma surra se chama Micaella.
Allison começa a gargalhar incessantemente tirando Jennifer e Cynthia do sério.
— É verdade. Eu já tinha esquecido disso. A Micaella deu uma baita surra… Espera, foi em você? Eu nem acredito.
— É, foi nela sim. E acho que foi um erro terrível eu não ter chamado a Lavínia pra vir também. Ela se sairia melhor que a Micaella — você comenta.
— Espera. Não queremos violência nessa noite — Cynthia diz — Estamos super aliviadas que nenhuma das vacas vieram. Mas… vocês não trouxeram seus amigos mesmo? O que aconteceu com o grupo ultra-mega-unido de S/N?
— Não ia ficar bem chamar tanta gente assim. Poderia virar uma bagunça e o pessoal grande poderia ficar incomodado. Vocês sabem que é uma festa exclusiva.
— É, mas o seu pai é um dos investidores. Você poderia chamar quantas pessoas quisesse — Jennifer fala.
— S/N fez certo. Só está protegendo os nossos amigos. Se todos do grupo viessem poderia ter mais chances de algo acontecer. Tipo, alguém sumir — Allison declara.
— Alguém sumir? Vocês acham mesmo que alguém poderia sumir assim de repente numa festa repleta de seguranças treinados como esses? Aliás, porque alguém do grupo de vocês iria sumir? Não tem nada de impactante nisso — Cynthia dispara dando uma gargalhada debochada.
— Concordo. Alguém do nosso grupo sumindo não ia ter graça. Seria bem mais divertido ser uma patricinha sumindo ou duas até. Ia ficar bem mais interessante. Se eu fosse vocês não ficaria muito tempo sozinhas nesse vasto jardim. Sabe-se quem possa estar atrás desses arbustos e dessas árvores vigiando a gente — você diz — Vamos embora, Allison.
— Esperem! Fiquem aqui. Por que não podemos nos unir numa noite como essa? Vocês poderiam conhecer nossos amigos e poderíamos andar que nem um grupo decente — Cynthia sugere.
— Poderíamos? Esqueceu que eu sou assassinx? Não era o que você ‘tava espalhando pela escola? Por que você iria querer ser vista comigo?
Cynthia vacila por uma fração de segundo, os lábios entreabertos como se estivesse prestes a rebater com o habitual sarcasmo, mas logo recupera a postura rígida. Ela cruza os braços, ajustando os ombros sob a luz fraca dos postes do jardim.
— Porque aqui fora a reputação se joga com outras regras, S/N — responde Cynthia, abaixando o tom de voz para que o som não cruze as sebes — Na escola, um boato destrói uma reputação. Aqui, a imagem de uma trégua entre famílias poderosas vale muito mais do que qualquer fofoca de corredor. Se nos virem conversando de forma amigável, tudo pode ser bom para a imagem. Assim não haverá nenhum boato de inimizades e sabotagens entre nossa família. O valor de mercado das ações dos Elliot subindo ao lado das dos Montenegro cala qualquer rumor de 'assassino' ou 'ameaça'. E o meu pai… ganha mais força pra eleição dele.
— Ou seja, pura conveniência — Allison intervém, dando um passo à frente enquanto segura o drone com as duas mãos, examinando a carcaça do aparelho — Vocês usam as pessoas como peças de xadrez até quando estão num evento social. E sobre o que você disse, Cynthia... meu pai pode ser chefe de polícia, mas ele me ensinou a ler pessoas. S/N, muito obrigadx por não ser assim.
— “Não ser assim"? Se S/N quiser pode ser bem pior do que a gente — Jennifer comenta, rispidamente ajeitando a estola sobre os ombros com uma risada curta e amarga — Vocês adoram se pintar como os santinhos incompreendidos da história, mas todo mundo sabe do que você é capaz, S/N. Não venha dar de moralista.
Olhando para o lado você vê uma névoa se formando nos altos das colinas. A luz amarela dos postes decorativos piscam sutilmente como se a iluminação estivesse falhando. A orquestra de violinos do salão do palácio ecoa ao longe lhe trazendo de volta para o jardim ao ouvir tal comentário esnobe e hipócrita de Jennifer.
— O que você tá procurando? Alguma resposta pra dar? Não precisa. Eu sei que você não tem uma. É a verdade, não é? — Cynthia alfineta.
— Não. Eu só… tô vendo aquela névoa. Ela apareceu de repente. Mas… respondendo sua pergunta: sim, eu posso ser bem pior do que você tá vendo. Pelo menos eu não preciso inventar alianças falsas ou usar drones de vigilância pra rastrear alguém. Eu só não tenho tempo pra ficar de teatrinho com vocês.
— Um teatrinho onde a história principal é a sua vidazinha de drama. Mas não se preocupe, eu tenho a minha própria, mas sejamos sinceras, a sua superou e muito um roteiro básico de cinema, não é, Jennifer?
Jennifer dá uma risada debochada, acompanhando Cynthia, e cruza os braços com ar de superioridade. O som da orquestra ao fundo parece cada vez mais distante, abafado pela neblina densa que, ainda, aos poucos, começa a alcançar lentamente a grama do jardim, cobrindo a base dos arbustos e trazendo consigo uma aparente queda súbita na temperatura.
— Com certeza — concorda Jennifer, o tom destilando sarcasmo — Uma tragédia completa. Mas sabe qual é o seu maior erro, S/N? Achar que esse joguinho de ser "independente" vai te proteger aqui fora. Nevinny não liga pra quem é bom ou ruim. Nevinny liga pra quem tem relevância.
— E vocês duas acham que têm alguma só porque usam a influência dos pais de vocês como escudo? — rebate Allison, dando um passo à frente e apontando para o drone — Esse aparelho aqui... não estava só voando por acaso. Ele tem uma câmera de espectro térmico e um gravador de áudio de longo alcance. Eu sei reconhecer equipamento tático da polícia quando vejo um. O que vocês duas estavam realmente tentando captar?
Cynthia pisca, visivelmente desconcertada por um milissegundo antes de retomar a compostura. Ela troca um olhar rápido e tenso com Jennifer.
— Isso é paranoia da sua cabeça — dispara Cynthia, embora a voz não tenha saído tão firme quanto antes — Era só um teste de sinal que estávamos fazendo. Essa festa ‘tava tão chata, então decidimos fuçar com o drone por aí e daí encontramos vocês. E como duas mosquinhas sempre atrás de alguma sujeira vocês vieram rapidinho.
— Não era, não — você intervém, mantendo o olhar fixo em Cynthia. — Vocês queriam algo contra o meu pai. Ou contra o meu grupo, não era? Queriam munição pra garantir que a aliança entre os Elliot e os Montenegro saísse por cima a qualquer custo.
— Caramba, que coisa chata! Não se pode mais nem brincar com um drone. Existe sempre uma conspiração de alguém que está fazendo algo errado. Você deveria tomar alguma coisa pra relaxar — Jennifer diz.
De repente, um dos postes de iluminação ao fundo do jardim apaga com um estalo seco, mergulhando uma parte do caminho em escuridão. O vento sopra mais forte, fazendo as folhas das árvores agitarem-se violentamente. Um calafrio percorre a sua espinha — não apenas pelo frio repentino da névoa, mas pela estranha sensação de estar sendo observadx de algum lugar além das sebes.
Jennifer olha ao redor, sobressaltada, desfazendo a pose refinada.
— Que luzes péssimas... O que tá acontecendo com a energia desse lugar? — ela murmura, dando meio passo para trás.
— O Palácio tem geradores próprios pra emergências — Allison diz, analisando os arredores com o olhar atento de quem cresceu entre policiais. — Isso não devia estar oscilando assim.
— Como você sabe disso? — você pergunta.
— Eu pesquisei bastante antes de vir pra esse lugar. Sei o que tem e o que não tem aqui em volta.
— Até atalhos e lugares escondidos? — Jennifer pergunta.
— O quê?!
— Talvez… seja melhor a gente voltar para o salão principal — sugere Cynthia, tentando disfarçar a oscilação em seu tom de voz enquanto ajusta o casaco sobre o peito.
— O que foi, Cynthia? Ficou com medo do que pode estar atrás dos arbustos? — você alfineta, devolvendo o sorriso irônico.
Antes que Cynthia possa responder, um som abafado — como o estalo de um galho grosso se quebrando seguido por um ruído metálico distante — ecoa na parte mais escura do jardim.
— O que foi isso? — Jennifer sussurra, os olhos arregalados enquanto recua e esbarra em Cynthia.
— Viram? Não fomos só nós que fomos atraídxs pra cá — diz Allison, ajeitando a postura e ficando em alerta máximo ao lado de você — Tem mais alguém neste jardim.
O silêncio que se segue é cortado pelo som seco de passos pesados esmagando as folhas secas sobre a grama úmida. Um pouco longe surge a figura de um homem de meia-idade, vestindo um terno impecável, mas com o nó da gravata ligeiramente afrouxado. Um sorriso amargo e ostensivo estampa seu rosto.
— Ora, ora... Vejo que a nova geração da elite de Nevinny está toda reunida — diz o homem, revelando-se sob a fraca luz amarela que resta — Ah, me desculpem, deixa eu me apresentar. Sou Henrique Vance. Também sou investidor pra esse evento dessa noite. Aliás sou muito amigo dos pais de vocês, senhores Lino Elliot e, claro, não menos importante, senhor Joseph Montenegro.
— Desculpa, eu não sei quem você é — você fala estranhando a situação, porém dando a mão para cumprimentar o tal homem.
— Me desculpa pela indelicadeza mas acho que nunca vi o senhor com o meu pai — Jennifer diz — Cynthia, você o conhece?
— Se vocês que têm os pais investidores não conhecem, quanto mais eu que sou filha do futuro prefeito da cidade — Cynthia dispara.
— Ah, então você é a filha do senhor Norberto. Sabia que seu rosto não me era estranho — Henrique fala também cumprimentando Cynthia.
— Tudo bom? — ela diz toda simpática.
Henrique se vira para Allison olhando diretamente de cima a baixo como se fizesse uma análise minuciosa. Allison, por sua vez, acaba acompanhando o olhar de Henrique chegando até checar a roupa pensando que algo poderia estar rasgado ou sujo.
— Olha, eu costumo ter uma memória surpreendente pra pessoas, mas você eu tenho certeza que nunca tinha visto antes. Como se chama?
— Eu sou Allison. Sou amigx de S/N. Estou aqui acompanhando meu pai — Allison responde.
— Allison veio acompanhar o pai miridiano policial. Disseram que ele veio representar o “povo de Miríade”. Não é, S/N? — Jennifer insinua com certo deboche.
— Ah, então o policial que está andando pra cima e pra baixo com o senhor Montenegro é seu pai? Curioso — Henrique diz.
— Curioso por quê? — você pergunta — Na verdade, por que tá aqui?
— O mesmo que vocês. Observando o circo. Ou melhor, o palácio. Está uma noite muito linda e agradável. Não pude deixar de prestigiar essa festa. O que tá acontecendo hoje pode, na verdade, vai mudar e muito a realidade da nossa cidade — Vance diz.
— Disso nós temos certeza. Mas… eu ainda quero saber por que não nos conhecemos antes. Eu nunca ouvi falar do seu nome. Eu tô sempre por dentro dos nomes dos investidores e dos amigos do meu pai — você fala.
— Tá legal. Eu não vou demorar. Vou ser reto e direto com vocês. Na verdade, o que eu vim fazer agora nesse jardim é entregar um recado pessoal para a descendência dos Montenegro.
— O que você quer dizer com isso? — Allison pergunta.
— Seu pai é um verdadeiro covarde que se esconde atrás de um terno caro e da influência que possui — Vance cospe as palavras com um rancor antigo. Ele dá um passo lento em sua direção, reduzindo a distância entre vocês — Mas você... você não mudou nada. Continua a mesma criança intrometida de anos atrás.
Cynthia cruza os braços e solta uma risada curta e debochada ao lado de Jennifer.
— Por favor, senhor Vance, não me diga que tem rixa pessoal com S/N? Isso já tá ficando cada vez mais patético — provoca Cynthia, divertindo-se com a situação.
— A situação dos Montenegro já está no chão há séculos, não precisa jogar uma pá de cal — Jennifer dispara dando uma risadinha.
Vance nem sequer olha para as duas. Ele mantém o foco fixo em você e o tom de sua voz fica mais cavernoso:
— Elas acham engraçado porque não sabem do que seu pai é capaz. Mas você lembra, não lembra, S/N? Daquela tarde no escritório da sua casa, quando você tinha o quê? Oito, nove anos?
A menção faz seu estômago dar um nó. Memórias confusas da infância começam a borbulhar na sua mente.
— Você me pegou aos beijos com a sua mãe na biblioteca — dispara Vance, sorrindo de forma macabra — E, como a criancinha leal que era, correu para contar pro papai. Sabem o que o nobre e íntegro Joseph Montenegro fez quando descobriu? Ele não pediu divórcio. Ele usou a influência na polícia para forjar provas de fraude e desvio de verbas contra a minha empresa. Eu perdi anos da minha vida tentando limpar meu nome por um crime que nunca cometi, tudo para que o seu pai se livrasse de mim sem dar escândalo!
O riso de Jennifer e Cynthia morre instantaneamente no ar. O silêncio que se instala no jardim torna-se denso e sufocante.
— Desculpa, mas eu não sei quem você é — você mente. A memória começa a despertar, aos poucos as lembranças de tal pessoa — Eu era pequenx e se fiz isso foi pra proteger o meu pai. Quem está errado na história é você. Beijar a minha mãe dentro da nossa própria casa? O que você queria que meu pai fizesse?
— Em nenhum momento eu disse que foi na mansão de vocês. Isso só prova que sabe muito bem do que tô falando — ele fala com o sorrisinho sarcástico estampado no rosto — Mas não importa, o jogo virou — ele fala dando mais um passo e te encarando bem de perto — Eu só quero que saiba que eu voltei para retomar o que é meu e destruir os Montenegro peça por peça. E se você estiver no caminho, S/N, vai pagar o preço junto com ele. Essa noite é só o começo do fim da sua família.
Vance segura seu olhar por mais um segundo tenso, desfrutando da mudez estupefata que deixou no ar, antes de dar meia-volta. Ele caminha com passos calmos e calculados em direção ao caminho iluminado do palácio até sumir por completo.
O silêncio que ele deixa para trás é avassalador. Allison olha para você com preocupação, pondo uma mão em seu ombro como forma de apoio como quem processa a gravidade da situação, enquanto Jennifer e Cynthia trocam olhares alarmados, a soberba e o deboche que demonstravam evaporam de uma vez.
— Espera aí... — murmura Jennifer, a voz tremendo ligeiramente enquanto o pânico começa a se instalar — O pai da Cynthia e o meu pai acabaram de fechar uma fusão de capital com a família Montenegro. Todo o capital da campanha está atrelado a essa garantia!
— Se o Vance jogar uma bomba dessas na imprensa ou abrir um processo de retaliação que exponha o Joseph com uma denúncia ou qualquer coisa do tipo por vingança pública... — Cynthia completa, engolindo em seco, com a palidez visível no rosto — Os negócios das nossas famílias caem junto e o meu pai perde o financiamento da eleição antes mesmo de começar.
— Exatamente — Jennifer sussurra, olhando para Cynthia com os olhos arregalados — Nós nos amarramos no mesmo barco que eles. Se o Joseph Montenegro afundar por causa desse fantasma do passado, a gente vai pro buraco junto.
Cynthia vira-se para você. A postura rígida continua lá, mas o olhar calculista agora está tomado por uma inquietação genuína.
— Você tinha noção disso, S/N? — Cynthia questiona, a voz cortante, porém sem o sarcasmo de antes — Você sabia que o seu pai tinha um podre desse tamanho guardado na gaveta?
— Eu era uma criança. Como é que eu ia lembrar de um negócio desse? — você responde friamente, ajustando a postura e encarando as duas sem recuar — Como que eu ia adivinhar que um homem do passado do meu pai apareceria assim de repente pra me ameaçar?
— E, pelo visto, o jogo de poder que vocês tanto orgulham de jogar acabou de virar uma armadilha pra vocês mesmas, não é? — Allison comenta.
— Isso não é brincadeira, gente — dispara Jennifer, dando um passo à frente, bem nervosa — Esse Henrique não pareceu o tipo de cara que faz ameaças em vão. Se ele veio até aqui, no meio de um evento desse porte, é porque já tem alguma coisa em andamento. Vocês não acham?
— Você precisa falar pro seu pai agora. S/N. E se homem tentar alguma coisa contra ele? — Allison sugere.
— Se bem que não seria má ideia. Com o pai de S/N fora dos negócios do investimento seria um acordo sem polêmicas e ninguém sairia prejudicado nessa história toda — Cynthia diz.
— Caramba, que pessoa horrível que você é!
— Existe alguém bem pior do que ela, Allison. Pode apostar — você diz olhando diretamente para Jennifer que retribui seu olhar cerrando os olhos — Mas não se preocupem, esse cara não vai fazer nada contra o meu pai. Pelo menos não essa noite. Como vocês disseram, se duvidar, tem gente do FBI aqui. Se ele tentar alguma coisa ele sai preso… ou morto.
— Eu que não vou ficar aqui esperando alguma coisa acontecer — Cynthia fala olhando para Jennifer tenso e direto.
As duas ajeitam seus vestidos às pressas assim caminhando rapidamente com os braços entrelaçados uma na outra seguindo pela elevação do jardim. Você e Allison observam o movimento das duas com o som abafado da orquestra ecoando ao fundo e o peso da ameaça de Vance pairando no ar.
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