Os órfãos de Nevinny Vol.2
34 A lógica do caos
⌚️ 09:33 a.m.
— E aí, como foi na convenção de eleitos do pai da Cynthia? Tudo tranquilo? — Max pergunta enquanto abocanha seu sanduíche.
— Foi tudo muito horrível. No final teve tiros, pessoas invadiram o local. Com certeza foram eleitores de outro candidato e até furaram o cartaz com o nome do senhor Delano. Nossa, nunca vou esquecer disso — Lavínia comenta.
— Sério?! E aí, o que mais aconteceu?
— Não é nada disso. Ela só tá brincando, Max — Allison afirma enquanto Lavínia dá umas gargalhadas — Na verdade, não teve nada demais. Só aquelas coisas básicas de política mesmo.
— É, mas mesmo assim foi horrível. Uma chatice só. Nunca mais quero ir pra um lugar desses. Por favor, S/N, nunca mais me faça um pedido desse — Lavínia diz.
— Hum, sei. E por que você foi, então? Você não é obrigada a ir só porque uma pessoa quer te obrigar, não é? — Max sorri debochadamente.
— Nós fomos pra apoiar S/N. Não fomos pela Cynthia. Acontece que o pai de S/N é aliado do senhor Delano — Cris comenta.
— Er, na verdade, não. Não diretamente. Eles só tem algo em comum. Uma pessoa na parte dos negócios — você diz.
— S/N tá bolando um plano pra eliminar essa pessoa. Na verdade pediu nossa ajuda. Estamos bolando criar uma pequena inverdade sobre essa pessoa na internet pra ela parar com as ameaças — Lavínia dispara.
— Uma fake news. Vocês vão criar uma fake news sobre uma pessoa e espalhar na internet? Vocês sabem que a polícia vai atrás de vocês outra vez, não é? — Max questiona, incrédulx.
— Eu avisei isso. Já disse que não quero participar de nada — Allison fala.
— Eu também não — Rebekah apoia.
— E vocês fazem muito bem. S/N, você não acha que já tem problemas demais, escândalos envolvendo seu nome e de seu pai? Você ainda é vistx como alguém com envolvimento no ataque de Suzanne. Sabe disso, não é? Quer responder por mais um crime antes dos dezoito?
— Eu não vou. Meu pai também está envolvido. É por ele que vou fazer isso. E por mim também. Eu preciso tirar essa pessoa do nosso caminho. Ela pode destruir tudo o que a gente tem — você diz.
— Espera, o seu pai sabe do plano? — Lavínia questiona, surpresa.
Você nada responde.
— E Cris e Lavínia concordam com uma loucura dessa? — Max pergunta.
— Eu, sim. Por que não? — Lavínia diz.
— Eu também. Sempre apoio S/N. Por mais que seja perigoso. Mas é algo que eu adoro — Cris fala lhe olhando.
— Bom, vocês não são muito normais mesmo, não é uma surpresa toparem isso — Max alfineta — Eu entendo o seu ponto de vista, S/N, mas prejudicar alguém com uma fake news? Talvez isso prejudique mais a você do que a vítima. Podem existir outros métodos de fazer alguma coisa, mas espalhar uma fake news talvez não seja uma boa opção.
De repente, Cris pigarreia arregalando os olhos para uma direção. É Stefan que chega por trás de Max com um sorriso no rosto.
— E aí, grupo? Tudo bem? — ele diz.
— Oi, Stefan — Cris cumprimenta.
— Como vocês estão?
— Oi, Stefan. Como vai você? — Lavínia fala forçando um sorriso enquanto entrelaça seus dedos — O que faz aqui?
— Oi também, Lavínia. Eu vim falar com vocês. Quero saber como estão.
— Nós estamos muito bem. E você também pelo visto, já que voltou a namorar com aquela azeda da Cynthia. O que aconteceu? Hoje ela liberou você pra falar com os amigos? Achei que ela tinha feito sua cabeça e tivesse pintado a imagem que nós somos um grupo de assassinxs.
— Que isso? Que imaginação a sua. Não foi nada disso — Stefan diz.
— Sei.
— Agora, confesso que fiquei surpreso. Eu ouvi vocês falando, que história é essa de espalhar fake news sobre o Henrique? Isso é verdade? Vocês vão mesmo fazer isso?
— Mas do que é que ele tá falando? Alguém sabe? — Lavínia fala fingindo desentendimento olhando para todos.
— Ah, não adianta desconversar. A Cynthia me contou do plano de vocês. S/N, oi. É isso mesmo? Você teve a ideia?
— É, quer dizer, ainda estou pensando. Muita gente tá comprando a ideia de que o Arthur é um perfeito candidato pra campanha, com muitos elogios, mas não conhecem a pessoa por trás dele. O Henrique é uma pessoa perigosa. Andou fazendo algumas provocações e ameaças. Até na casa do meu pai ele foi. Como alguém pública que está ligada a política faz uma coisa dessa? Por isso que eu quero expor a verdadeira identidade do Henrique e fazer com que toda a idolatria por ele acabe de vez — você explica.
— E assim o senhor Delano ter mais chances de ganhar, não é? — Stefan pergunta.
— Não sei se aumentaria tanto depois que expuseram algumas coisas sobre ele, mas talvez aumente bastante. Quem garante que não foi o próprio Henrique que fez isso com o senhor Delano. Só seria chumbo trocado. Nada mais justo — você diz.
— Eu juro que não estou te reconhecendo, S/N. Você sempre foi uma pessoa tão doce — Rebekah comenta.
— Mas eu continuo sendo a pessoa que vocês conhecem. Mas vocês precisam entender que eu preciso defender a minha família. Eu não posso ficar paradx olhando tudo acontecer. Esse cara declarou uma guerra contra o meu pai e quem tá do lado dele.
— Mas você deveria deixar isso para o seu pai resolver, S/N. Você não tem nada a ver com isso — Stefan diz.
— Foi o que nós dissemos, mas S/N tá se mostrando uma pessoa muito cabeça dura — Rebekah fala.
— Até parece que você tem poder de dar algum conselho, Stefan. Nós que estamos com S/N no meio desse turbilhão todo. S/N tem que fazer alguma coisa, sim, e nós vamos ajudar. Tanta coisa já aconteceu e tenho certeza que você não faz nem ideia já que vive no seu mundo mágico ao lado da Cynthia — Lavínia dispara enquanto que Stefan apenas a observa balançando a cabeça em forma de negação.
— Chega de lavar roupa suja — Cris intervém, cortando o tom ácido da conversa antes que Lavínia e Stefan comecem uma discussão sem volta — Se é pra fazer isso de verdade, precisamos de uma narrativa que o público engula sem desconfiar. Alguma coisa que mexa com a opinião pública de um jeito que a polícia e a imprensa não possam ignorar.
— A ideia não é só inventar uma mentira aleatória. Precisa ter base em coisas que já aconteceram. Se ligarmos o Henrique ao que aconteceu com a Suzanne e ao sumiço do João, o estrago é irreversível — você diz.
Stefan cruza os braços, demonstrando total interesse:
— E como você pretende conectar as pontas?
— Eu não sei. Preciso de ajuda. Preciso pensar mais sobre isso — você responde.
Lavínia se ajeita na cadeira, os olhos brilhando com a perspectiva do caos, enquanto os outros na mesa parecem prender a respiração. Você respira fundo, encarando cada um deles antes de soltar o peso das suas ideias sobre a mesa.
— Pensem bem. Se for divulgada uma história solta, ninguém vai acreditar — você começa, inclinando-se um pouco mais para frente e baixando a voz — Mas se for usado os pontos cegos que a investigação deixou pra trás, fica impossível de desmentir rápido.
— Que tipo de pontos cegos você tá falando? — Stefan pergunta, em tom baixo.
— No caso da Suzanne... todo mundo sabe que o ataque dela teve motivações estranhas, mas a polícia nunca achou o mandante real nem quem executou — você explica, articulando com as mãos — E se for vazado um boato de que o Henrique ‘tava financiando o executor do ataque por debaixo dos panos? Pode ser criado uma narrativa de que a Suzanne tem algum podre do Henrique que tentava esconder a todo custo. Dizemos que o ataque não foi uma violência aleatória, mas uma tentativa explícita de silenciamento comandada por ele. A internet ama uma teoria de conspiração que faz sentido.
— Caramba... — murmura Max, ajeitando os óculos, visivelmente impressionado apesar da reprovação — O público já está sensibilizado com o que aconteceu com a Suzanne. Se você coloca o Henrique como o monstro por trás do ataque, a comoção popular vai engolir ele vivo.
— Mas como explicar a relação do Henrique com a Suzanne? Como ela poderia conhecer ele? — Allison questiona.
— Isso não importa. É só uma notícia aleatória. Ninguém vai dar importância pra isso — você diz.
— Você que pensa — Max fala — Quando começaram a investigar, qualquer pessoa pode querer ligar os pontos e pesquisar tudo a fundo. Vão querer saber cada detalhe.
— E o João? Onde você pretende encaixar ele nessa história? O João sumiu sem deixar rastros logo depois da simulação do táxi voador naquela noite. Por que o Henrique teria interesse em sumir com ele? — Rebekah pergunta.
— Por que não dizer que o Henrique foi a última pessoa a ter contato com ele? A notícia pode dizer que o João ‘tava sendo chantageado por ele ou que descobriu a ligação do Henrique com o ataque da Suzanne e, por isso, "desapareceu".
— Minha nossa, S/N… você deve estar assistindo série adolescente demais, não é possível. Tem muitas questões nessas suas teorias. Você acha mesmo que isso daria certo? — Rebekah coloca a mão sobre a boca, horrorizada — Você tá criando um monstro. Bem pior do que ele se mostrou até agora. Se isso cai na rede, o Henrique vira um suspeito público de homicídio e sequestro do dia pra noite!
— Mas essa é a intenção. Bekah, você não ouviu nada do que S/N falou? O Henrique quer destruir a família de S/N — Lavínia intervém, dando uma risadinha abafada e vitoriosa — É genial! A gente não precisa inventar um crime novo do zero. A gente só pega as tragédias que já aconteceram e pendura todas na conta dele. Quem é que vai defender um cara acusado de mandar esfaquear uma garota e sumir com um jovem?
— Mas isso é extremamente perigoso! — Stefan se manifesta, dando um passo à frente com a fresta dos olhos cerrada — S/N, se a polícia investigar e rastrear de onde surgiu esse boato de que o Henrique tá envolvido, você não vai só responder por calúnia. Eles vão achar que você tá tentando obstruir a justiça ou plantar pistas falsas pra cobrir o verdadeiro culpado!
— Deixa que da parte técnica a gente cuida, Stefan — Cris rebate, encarando-o com firmeza — Dá pra usar fóruns anônimos, contas de vazamentos falsas e bots de engajamento pra espalhar em perfis de fofoca da cidade. Em duas horas, a bomba estoura e ninguém vai saber de onde veio o primeiro tuíte.
— Então quer dizer que nós estudamos com integrantes de criminosos da internet agora? — Stefan diz com repulsa.
— Vocês estão brincando com fogo — Allison balança a cabeça negativamente, afastando sua bandeja da mesa como se quisesse se distanciar fisicamente daquela conversa — Se o Henrique já era perigoso antes, imagina o que ele vai fazer quando descobrir que o nome dele tá sendo jogado na lama desse jeito? Ele vai vir com tudo pra cima de você, S/N. E do seu pai também. E de quem tiver incluído — elx finaliza olhando para Cris e Lavínia.
Você olha para as reações divididas ao seu redor: a empolgação perigosa de Cris e Lavínia, o choque de Rebekah e Allison, a análise fria de Max e o olhar carregado de reprovação e preocupação de Stefan.
— Ele já declarou guerra no momento em que pisou na minha casa e fez ameaças — você diz com a voz firme — Ele quer destruir a gente. Eu só estou me antecipando. Já disse, não precisa se envolver quem não quiser, desde que não me atrapalhem.
Allison solta um suspiro pesado, cruzando os braços e lhe encarando fixamente:
— E você realmente acha que apagar fogo com gasolina vai proteger a sua família, S/N? Ou você só tá deixando o ódio cegar você?
— Eu não sei. Igual nas séries adolescentes: temos que esperar pra ver o que acontece nos próximos episódios.
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