Orquídeas Roxas
1 Vigésimo quinto dia.
Ravena estava contando os minutos para o vigésimo quinto dia começar. Usava roupas menos arrumadas do que das últimas vezes, pois estava dormindo enquanto a chuva molhava novamente todas as roupas bonitas penduradas no varal. Parecia irritada, mas ainda sim determinada para mais uma de suas tentativas de tirar algo além de um “oi” de Emiya.
A barraquinha de flores de Emiya sempre abria às 10h, mas Ravena evitava ir no começo do dia para ele não pensar que ela acordava cedo apenas para vê-lo. O encerramento do expediente do rapaz era 18h, e ela também jamais saía esse horário, temendo que ele tivesse decidido fechar mais cedo por razões pessoais. Levando em consideração todos os fatores, a garota decidiu mentalmente que o melhor momento para vê-lo todos os dias era das 13h até ás 14h.
O relógio bateu 13h e fez a garota correr em disparada até a porta, carregando consigo uma cesta de palha que fingia ter alguma coisa dentro para ele definitivamente não acreditar que ela só saía para vê-lo. O contexto era perfeito: “fui ao mercado fazer compras e vim aqui comprar uma orquídea para minha mãe, porque são as favoritas dela e gosto de como ela sorri”. Não que em algum momento Emiya perguntasse a razão de Ravena comprar flores todos os dias, mas no dia que ele o fizesse, ela estaria pronta para responder.
Ravena lembrava-se perfeitamente do dia em que passou pela praça para ir até a casa de Taita e avistou Emiya organizando alguns arranjos de flores para casais. E, puta que pariu, aquele sorriso fez o mundo dela virar de cabeça pra baixo. Comprou a primeira orquídea alguns minutos depois de ter limpado o rosto vermelho de vergonha. Desde então, outras vinte e quatro já foram parar em suas mãos e, consequentemente, no vaso de sua mãe.
Os passos de Ravena eram rápidos e apressados até chegar à rua da praça, quando decidia sempre se acalmar e fingir que a razão do seu coração explodir não estava casualmente vendendo flores para idosas solitárias e fofas. Fez-se de distraída, prestando atenção em borboletas que certamente ninguém mais se importava, mas que certamente era outro ótimo pretexto para não parecer estar ali por ele.
Após os minutos se passando por uma lunática que se importa com borboletas, Ravena delicadamente caminhou até a barraquinha de flores de Emiya, sorrindo com doçura e cumplicidade. Eram necessárias horas de meditação para não travar enquanto apreciava sua beleza.
— Oi! Senhor Emiya, gostaria de pedir as mesmas de sempre. – Seu tom de voz saía quase como uma canção de amor de uma adolescente apaixonada, exceto pelo fato de que ela queria parecer natural.
— Ah. – Emiya parou o que estava fazendo ao escutar a voz da garota, se virando para esta e olhando-a de cima abaixo. Aquilo causava um formigamento na barriga de Ravena, que permanecia com uma expressão gentil e meiga – Desculpa, eu vendi todas as orquídeas de manhã para um casal.
Ok. Pânico. Aquilo não estava nos planos de Ravena. Como assim teriam acabado as orquídeas? Quem mais as compraria? E seu incrível pretexto de que elas eram as flores favoritas de sua mãe?!
— S-Sério? Bem, é uma pena... – Admitiu, desfazendo o sorriso para observar outras flores bonitas. Não sabia o nome de absolutamente nenhuma.
— Não tem nenhum outro tipo de flor que queira levar?
Ravena piscou algumas vezes, desolada. Outro tipo de flor? Que outros tipos poderiam existir? Céus, quanto mais se esforçava para pensar em botânica, mais sua mente fugia para os olhos lindos e lábios atraentes de Emiya. Queria fugir de tanta vergonha.
— N-Não sei...? Pode me mostrar outros tipos?
Sim. Ótimo. Perfeito. Aquela era a fuga perfeita e ainda teriam um diálogo sobre flores, mesmo que ela não entendesse nada sobre o assunto.
— Claro. Orquídeas são flores do outono, e tenho outras bonitas dessa estação que talvez chamem sua atenção.
Flores eram exclusivas de estações?! Droga, ele era tão lindo e falava coisas que pareciam tão inteligentes.
— Que tal uma tulipa? Tenho algumas amarelas que são muito bonitas. O significado delas é muito bonito. Tulipa é o “amor perfeito”, por assim dizer.
Ravena ficou em silêncio durante sua fala. A princípio, estava admirada sobre o conhecimento deste de ter noção até mesmo dos significados das flores. Achava que elas serviam apenas para serem bonitas, mas soava muito mais profundo quando saía da boca de Emiya.
— São... Bonitas, é! Mas... Tem alguma... Roxa? Como as minhas orquídeas!
— Suas orquídeas roxas representam a dignidade, acho isso muito interessante. – “Eu também, levando em consideração no quanto eu piso na minha todos os dias desde que te conheci.” — Outra roxa, uh? Apenas margaridas... O significado é o mesmo das orquídeas, na verdade, mas soa como uma dignidade pura. Roxo é a cor da dignidade.
— Sério? B-Bem... Não sei se margaridas... Uh... O que você sugere?! – Falou num tom apressado, olhando-o com um brilho capaz de entregar qualquer um. Ela iria acabar se entregando facilmente.
O rapaz parecia intrigado com aquele tipo de reação, porém soltou um sorriso sapeca, inclinando o corpo para frente para encarar a garota com maior precisão, fascinado por suas reações.
— Bem, seu namorado é realmente sortudo por você pensar tanto nas flores por ele, mas por que exatamente são sempre orquídeas? Ajude-me a pensar... – Emiya parecia estar disposto a ser sedutor, e Ravena não se preparou para aquilo, tombando um pouco. Só não caiu no chão, pois conseguiu se apoiar discretamente na mesa.
Espera. Namorado?

— As orquídeas não são para meu namorado! Eu não tenho namorado. Digo, estou solteira. Completamente solteira e livre. Faz muito tempo até que não beijo alguém, sabe?! E-Elas são para minha mãe. Ela ama orquídeas! Principalmente as roxas!
Ela não parava de falar.
— A mamãe ela, sabe, planta orquídeas roxas, mas ela é péssima nisso, então decidi presentear uma por dia pra ela nunca ficar triste. E-Eu sempre passo aqui depois do mercado porque costumo deixar algumas compras na casa dela, junto com a flor. Ela fica muito feliz está fazendo um vaso cheio. Você quer foto? Ela teve um gato uma vez chamado Orquídea, era pra eu ter esse nome também se não fosse pela amiga dela, e... E... Ela realmente gosta muito.
Por favor, pare de falar.
— N-Não me ache estranha, eu só gosto de ver a mamãe feliz e se ela fica feliz com orquídeas roxas eu não posso fazer nada. O sonho dela era casar com orquídeas roxas por todos os cantos, até no vestido. Se fosse o melhor sabor do mundo, ela não comeria, apenas ia apreciar a beleza e o cheiro. Não sei a razão de serem orquídeas! Principalmente as roxas! Mas se a mamãe gosta, é... Tudo bem!

Emiya a encarava com uma expressão brincalhona na face, escutando cada palavra com certo interesse. Era divertido ver a garota desesperada para explicar aquilo. Ravena tinha criado um pretexto tão básico e decidiu estendê-lo até demais, criando coisas ridículas como a possibilidade de sua mãe querer se casar de roxo. Talita gostava de orquídeas, mas não era apaixonada por esse tipo de flor, nem nunca tentou plantar, nem nenhuma das outras coisas que a garota falou em seu monólogo.
— Tudo bem. Eu entendi. Sua mãe realmente ama muito orquídeas roxas.
— Sim! Com certeza! Ela ama muit-
— Não precisa começar novamente, eu já entendi. – O garoto soltou mais uma risadinha tranquila, olhando-a com uma curiosidade nítida. – Tenho uma recomendação de flor, na verdade. Mas é um segredo. E o preço é diferente também, uma promoção para uma cliente especial e bem falante.
O coração de Ravena se apertou imediatamente, sem conter em corar ligeiramente ao ser definida como especial, apoiando uma das mãos na própria bochecha.
— P-Pode dizer.
— Bem, como hoje é o vigésimo quinto dia que a senhorita vem comprar uma bendita orquídea roxa sem saber o significado de dignidade que ela tem, eu venho oferecer uma flor secreta em troca de você aceitar me dizer seu nome e sair comigo para eu te explicar alguns significados de outras flores bonitas.
Ravena sentia que iria cair em desespero. Ele tinha a chamado para sair. Indiretamente, mas ainda era um encontro. Um encontro de verdade. Algo que ela não sonhou que aconteceria em nenhum dos outros vinte e quatro dias anteriores.
Pensou em dizer mil coisas sobre a fala de Emiya, que aguardava uma resposta com um sorriso interessado. Ela ia explodir antes de conseguir dizer algo. Sua cabeça era uma confusão. Cheia de incertezas, Ravena disse a única coisa que conseguia achar minimamente coerente naquele momento.
— Ravena.
— Senhorita Ravena. – Emiya repetiu aquele nome como um saboroso doce que provava, então retirou a mão de debaixo da mesa, revelando uma flor que havia colhido sem que a garota percebesse. – Aqui, eu guardei para você.
E foi naquele gesto que Ravena se deu conta que ele também sabia há quantos dias eles haviam se encontrado, e que ele também prestava atenção nela e que talvez, só talvez, ela não fosse tão doida assim.
Ravena sorriu ao avistar a orquídea roxa mais bonita dentre todas as outras que teria comprado. E, dessa vez, ela iria parar no próprio vaso de casa, e não no da mãe.
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