Orquídeas Azuis.
1 Capítulo Único. — Um amor raro.
Notas iniciais
Ele se olhou no espelho. Então para baixo, para sua mão que sentia o tecido suave da gravata que lhe fora dada.
Da cor preta, combinando com seus cabelos, contrastando com sua pele branca e os olhos de um tom tão escuro que chegavam a ser azul marinho.
Soltou o ar pela boca, por baixo da gravata, pressionou a mão em seu peito.
Podia escutar seus próprios batimentos com clareza, sentir o pulsar de seu coração em seu peito, em sua mão, e se alastrando por todo o seu corpo, acabando por se transformar em um embrulho em seu estomago. Ciente de seu próprio nervosismo, ele viu sua respiração se acelerar aos poucos, suas maças do rosto começavam a ganhar uma tonalidade avermelhada, se lembrando que estava prestes a se casar com a garota a qual se apaixonara tão profundamente.
Não era muito novo.
Mas também não era muito velho.
Tinha se graduado havia pouco mais de um ano, quase um dois para falar a verdade, e apenas dois meses que passara ao lado de sua amada. Se confessara nessa mesma graduação, tivera uma resposta positiva.
Um onda de um sentimento novo para ele o fez ter um pouco mais de confiança ao ver clara em sua mente a lembrança de Nana ao ouvir seu “eu te amo” em um tom forte e rápido. Com seu costumeiro carisma, ela dera um sorriso genuíno, com os olhos fechados, mas com a cabeça um pouco inclinada para baixo, uma lagrima lhe escapara e tampando aquele mesmo sorriso com uma mão e com a outra apertando o lugar um pouco acima de seu seio esquerdo, ela soltou uma risada fraca e abafada. Depois de se recuperar e dar uma risada gostosa ao reparar em seus olhos desesperados, a risada o acalmou e o fez dar um de seus raros sorrisos bonitos e carinhosos, tranquilizante, fez com que sua carranca usual desaparecesse e ela pudesse lembrar que ele era, além de tudo, extremamente bonito.
Ela saiu de seu encanto e correu para os braços dele, acariciou suavemente a lateral de seu rosto com os dedos e lhe deu um beijo. Não fora algo muito sensual ou de tirar o fôlego. Esse não fora o propósito do beijo, mas havia ali mais sentimento do que podia haver posto em palavras, e conseguira ser mais avassalador do que se tivesse simplesmente dito: “eu também te amo”.
Yachi e Hinata saíram extremamente corados de seus esconderijos, haviam programado para que ele e Nana se encontrassem e torceram escondidos para que aquele ar tenso de “eu te amo mas não vou falar nada” acabasse rápido, e seus amigos pudessem ser felizes juntos — o que de acordo com Hinata, era jogarem muito vôlei, casarem, terem filhos, e jogarem ainda mais vôlei.
Apertou a gravata ao lembrar do que ocorrera depois daquilo, com os dois meses de namoro recém completados, Kageyama descobrira o outro porque das lágrimas de Nana no dia de sua confissão além da felicidade de ser correspondida. Ele fora ingênuo ao sequer pensar na possibilidade, para falar a verdade.
Nana era uma intercambista no Japão, havia se graduado no ensino médio, então teria que ir embora.
Aquela paz que permanecera por meses havia se quebrado em seu coração, aquela era a realidade, foi o que ela dissera com seu olhar conformado voltado para o horizonte, ele reparara ainda em choque que ela estava pronta para voltar ao seu pais natal, com lágrimas que não caiam mais nos olhos, os fios escuros cacheados voando ao redor de seu rosto laranja pelo por do sol.
“Então case comigo” , dissera de supetão.
Ela o mirou com seus olhos verdes então surpresos e apoiou a testa nos braços encima dos joelhos, deu uma única risada e o olhou novamente com carinho.
Aceitara daquela vez, mas era uma pessoa prudente, por mais estranho que parecesse. Ela respondeu escondendo o rosto, mas não impossibilitando Tobio de ver seu sorriso.
“Quem sabe, agora eu realmente devo voltar à Europa. Devemos ser realistas quanto à isso e realmente pensar no que devemos fazer. Me desculpe se estou parecendo egoísta, mas agora que não estamos no ensino médio, você vai poder ser um jogador de vôlei profissional, e jogar na Seleção masculina de vôlei do Japão, e eu vou fazer carreira na Seleção feminina de vôlei da Itália. Eu aceito casar com você Tobio, mas eu não prometo — e acho que você sabe disso — que serei uma 'boa esposa' que cuida do lar e da família, eu tenho um sonho, e vou atrás dele”.
Aquela era Nana, indomável em vários níveis, mas não era como se Kageyama fosse simplesmente querer que ela deixasse tudo de lado para cuidar da casa, não se encaixava com ela. O modo como seus olhos inteligentes acompanhavam cada jogador e jogada em uma quadra era o que havia chamado sua atenção em primeiro lugar, não havia como negar, seu lugar era lá, tendo contato com a bola, sentindo a partida, lutando pela vitória, assim como o dele próprio.
No dia de sua partida, eles trocaram anéis, para simbolizar seu noivado, ambos se despediram, já mais recuperados, estavam bem. Ele iria para Tókio e ela para a Itália.
Aqueles dois anos foram repletos de saudades, mas realizações por parte de ambos. Se assistiam na TV, seus jogos eram emocionantes, eram os dois conhecidos, jovens talentos, mentes brilhantes.
As coisas estavam bem, mas, incrivelmente, considerando que histórias com completos finais felizes não existem na vida real, ficaram melhores.
Nana recebeu uma proposta de um time japonês e aceitou, já havia dado o que podia na Itália, agora aquela mudança a faria bem, sem falar no fato de que muitos de seus amigos queridos estavam lá, e claro, seu noivo.
Desembarcou em narita, sem falar à ninguém. Havia programado tudo para que chegasse em Tókio em um jogo de Kageyama. Eles ganharam, uma performance excelente, seus olhos treinados notaram o quanto o ele havia evoluído como jogador.
Enquanto saíam do estádio para o ônibus, ela já esperava em um dos bancos, curtindo o ar condicionado, havia até mesmo feito amizade com o motorista, que a reconheceu de seus jogos e ficou mais do que feliz em ajudá-la a realizar seu plano de reencontro dramático. Esperava havia algum tempo, em uma postura que irritaria qualquer pessoa louca por ordem ou limpeza, mas tinha os braços cruzados, os pés pendurados no encosto para a cabeça do banco da frente e um capuz. Estava quase dormindo, na realidade, o vôo fora cansativo.
Acordou apenas com as exclamações de surpresa dos jogadores. Uma estrangeira bonita, de lábios cheios, cabelos negros com cachos caindo sobre seu rosto, apenas iluminado pela luz prateada da lua e as luzes coloridas da cidade grande era algo incomum, mas agradável de se ver, pelo que supunha.
Uma exclamação foi mais alta que a das outras e ela acordou definitivamente a mulher, Tobio tentava passar empurrando os colegas e ambos acabaram sem que percebessem como, abraçados, enquanto ele dobrava seu corpo e ela esticava o seu ainda sentada no banco.
O tempo depois daquilo foi reservado para eles e para os preparativos do então realmente oficial casamento.
Kageyama soltou sua respiração que nem percebera que prendera, um tapa lhe foi dado nos ombros e ao virar a cabeça, se deparou com uma cabeleira com fios laranjas postos para trás, naturalmente bagunçados, nem mesmo gel parecia garantir totalmente que o cabelo de Hinata ficasse perfeito, mas ele sabia que o resultado aceitável que via so era possível graças a Yachi. Ele lhe estendeu um lenço.
“Toma”, disse com um sorriso, “Nana disse que você precisaria, ou deixaria o terno mais suado do que quando joga vôlei.”
Apesar do claro olhar de escárnio, ele pegou o lenço, o levou ao pescoço e foi secando em seu rosto os vestígios de seu nervosismo de alguns minutos atrás que agora quase não existiam devido a presença do alaranjado, era engraçado o fato de que eles tinham uma amizade tão natural que surgiu de uma rixa.
Nunca admitiria, mas Shouyou era seu melhor amigo.
Sentiu o cheiro de Nana no lenço, um arrepio que veio como um choque, em uma única fisgada atingiu seu pescoço, deixando seu corpo em um estado de quase dormência. Calmaria, foi o que o atingiu.
Estava pronto. E bem na hora.
Haviam optado por um casamento ocidental, no estilo cristão, já que exigia menos rituais da parte da mulher, algo que aliviou a noiva.
Ele se sentia levemente pressionado. Talvez por ver os familiares de Nana de um lado, alguns o encarando como se dissessem “Você acha que é bom o suficiente para ela, hein?”, em sua maioria, familiares homens.
Felizmente, não durou muito, assim que ela entrou, as atenções mudaram de foco, seu vestido branco puro liso, com uma renda que formava desenhos florais até seu busto, os braços cobertos apenas pela mesma renda, contrastando lindamente com a pele morena.
Ela caminhava segurando o buquê de orquídeas azuis e brancas, caminhou elegantemente, mesmo usando um salto que tornava isso um desafio. Não tirou seus olhos dos de Kageyama, subiu uns degraus das escadas, sorriu-lhe.
No final da cerimônia, ele abriu um sorriso com o ato da então esposa.
Ela colocou uma orquídea azul em sua lapela de modo lento, terminando e no final lhe dando um sorriso que chegou aos olhos.
“’Então você decidiu usar uma orquídea?’, perguntou confuso, ‘pensei que iria tentar cerejeiras, você gosta tanto delas.’
Ela virou sua cabeça na direção da voz de Kageyama, sorriu e disse então.
‘Eu adoro cerejeiras, mas entre as duas, gosto mais do significado de uma orquídea azul’, girou a bela flor entre os dedos, ‘Uma cerejeira significa a fragilidade e a beleza da vida, uma orquídea a beleza exótica e o orgulho feminino.’
A levantou na altura dos olhos e apontou uma azul que parecia iluminar as coisas ao seu redor com sua elegância para Tobio, que a pegou para analisar mais de perto.
‘E uma orquídea azul significa amor raro, tranqüilidade, harmonia, lealdade e confiança.’
Apoiou seu queixo na mão enquanto analisava o noivo olhando a flor, o modo como seus cabelos ônix contrastavam com o azul pálido e elegante das pétalas da flor já eram um bom motivo para escolhe-las.
‘Achei que elas combinariam mais com a gente.’, seus olhos estavam cheios de carinho não contidos, ‘Amor raro, né?’”
Kageyama aprendera a amar o estilo ocidental.
Fale com o autor