Orlög
2 Uma Identidade Redescoberta
Notas iniciais
Asgard jazia em farta prosperidade.
Mesmo soterrada por camadas cada vez mais espessas de neve, o reino dos deuses ainda conservava toda a majestade de suas altivas construções, e por mais que o branco gélido se depusesse insistentemente em seus verdejantes campos, era o dourado que mantinha a predominância naquele que era o mais nobre dos reinos, quase como um prelúdio acolhedor de Valhalla — o destino final das deidades cujos corpos pereciam em combate, ascendendo suas almas divinas ao mais alto prestígio.
Aqueles eram tempos abastecidos de glória e honra, regendo o reinado do Pai-de-Todos de uma autoridade que era apreciada pela unanimidade de seus súditos, que dispensavam ao deus da guerra sua mais profunda confiança e indiscutível respeito pelas diretrizes instauradas naquela duradoura monarquia.
Odin aspirou profundamente o ar puro de seu reino, sentindo-se especialmente revigorado naquela manhã nublada pelas nevascas invernais. Frigga e seus dois meninos estavam junto a ele na sala do trono, ambos fitando com prazer juvenil a neve que caía por fora do estonteante palácio.
A deusa-mãe da dinastia Æsir vestia o rosto num belo sorriso que irradiava o imensurável amor que nutria pelos seus dois filhos. As mechas de seu longo cabelo pareciam tecidas do mesmo ouro que iluminava Asgard em meio à farta trança que caía por seus firmes seios, o azul de seus olhos brilhando como a mais rara joia do infinito. Odin observava, num amor resoluto, Frigga acariciar os sedosos fios loiros e negros de Thor e Loki, os dois meninos sorrindo-lhe com indiscutível adoração enquanto a mãe ocupava-se em endireitar suas espessas madeixas do modo como apenas ela era capaz.
— Podemos brincar lá fora? — Os verdes olhos interrogadores de Loki brilharam em sua típica e singular intensidade, tendo que erguer o rosto para conseguir encarar a mãe e parecendo extremamente excitado pela neve que caía cada vez mais vultosa sob os domínios de Asgard.
— Claro que sim, meu pequeno príncipe! — Frigga disse docemente, mal conseguindo conter um sorriso ao vislumbrar a crescente expectativa nos olhos travessos de seu filho, já ansiosos por diversão — Assim que você e Thor concluírem suas obrigações com seu pai! — Decretou, vendo um pouco daquele brilho se atenuar nos olhos de Loki e, proporcionalmente, se potencializar nos de Thor.
— E o que faremos hoje, pai? — O menino loiro correu em direção ao deus, a admiração dançando evidente por seu semblante de menino — Vai nos contar mais sobre suas batalhas e vitórias? — Mimetizou com um dos braços os movimentos que já vira dos espadachins e guerreiros de Asgard, criando golpes desajeitados com sua espada imaginária e arrancando um sorriso contido de Odin.
— Por ora não, meu filho. As histórias de minhas guerras terão de esperar. Hoje instruirei vocês a respeito dos Nove Reinos ligados pelos ramos de Yggdrasil e sobre as criaturas que os habitam — avisou, chamando-os com um aceno autoritário da cabeça. — Venham! Tenho muito a discursar hoje e vocês têm ainda mais a ouvir.
Frigga deu um amoroso tapa nas costas de Loki, incitando-o a cortar a distância que ainda havia entre ele e Odin. O menino fitou a Deusa-Mãe por um momento, ainda capaz de vislumbrar uma espirituosa piscadela de seus belos olhos azuis antes que ela se retirasse do salão, deixando-os a sós para suas lições diárias.
O Pai-de-Todos já se acomodava de modo rígido no trono que lhe pertencia, Thor adiantando-se em sentar aos seus pés, ainda com aquele eterno vislumbre de adoração direcionado ao pai. Loki caminhou até os dois, assentando-se ao lado do irmão em completo silêncio, encarando o deus com mais pudor e cuidado do que a expressão aberta de Thor.
— Muito bem. Qual dos dois pode me dizer qual a ordem que os Nove Reinos ocupam nos ramos de Yggdrasil? — Odin questionou, revezando sua atenção entre os dois garotos até que ela se decidiu e se demorou no primogênito — Thor?
— Asgard...! — O garoto loiro respondeu imediatamente, calando-se com a mesma rapidez impulsiva com que começara a falar, uma expressão franzida pelo extremo empenho criando vincos profundos em suas feições do mais denso esforço. Por fim olhou para o irmão como que pedindo ajuda, e Loki sequer pôde evitar o revirar de seus olhos com a resposta um tanto insatisfatória.
— Asgard fica no topo! — Loki principiou, sedento por um olhar aprovador que fosse de seu pai, ainda que se mostrasse apenas um mínimo relance de orgulho — Logo abaixo está Ljossalfheim. Hel se localiza no nível mais profundo, na base da árvore, e acima fica Svartalfheim... No centro de Yggdrasil fica Midgard, e de seu núcleo saem quatro ramos que levam a Muspelheim, Vanaheim, Niflheim e... — Suas verdes íris se estreitaram por apenas um segundo duvidoso, buscando em sua memória pela resposta que ainda faltava, o júbilo fazendo tremer seu vitorioso timbre assim que concluiu o último reino que restava em sua lista — ...Jotunheim! — Sorriu de modo ainda mais radiante do que Thor, esperançoso por qualquer sinal de aprovação do Pai-de-Todos.
Contudo, o que recebeu foi uma resposta severa que fez a empolgação de seu sorriso esmorecer de imediato.
— A pergunta foi incumbida a Thor, Loki! — Odin o repreendeu carregado de dureza na imponente voz, seu único olho despejando apenas desaprovação pela intromissão do caçula, o supremo deus tentando disfarçar seu enorme incômodo ao ver o filho adotivo citar Jotunheim com tamanho entusiasmo. A feição do pequeno menino tornou-se intimamente ferida com a reprimenda, e em seu íntimo Loki se perguntou mais uma vez por que seus feitos aborreciam tanto o pai, se tudo o que tentava fazer era agradá-lo, sem nunca obter grandes sucessos naquele intuito — Da próxima vez, limite-se às questões que lhe concernem e dê a oportunidade para que Thor possa fazer o mesmo!
— Sinto muito, pai... — Desculpou-se, amuado, encarando seus próprios pés com indisfarçada amargura, disposto a se manter em silêncio até que estivesse liberto da presença soberana do deus.
— Está perdoado. — Odin arriscou soar um pouco mais brando, seu discurso professoral ecoando com propriedade pelo salão do palácio quando retomou o assunto de sua lição — Loki está certo, Thor. A disposição dos Nove Reinos em Yggdrasil segue esta exata conformação, e Asgard habita o cume da Árvore dos Mundos como um plano elevado e evoluído da consciência. E, estando nessa posição privilegiada, nossa primordial função é proteger os reinos que se erguem, menores, abaixo de nós, atendendo aos apelos que nos são feitos! — explicou pacientemente, recostando-se melhor em seu trono de longas datas num ar contemplativo. Odin pareceu refletir durante um longo instante, e por fim ergueu-se num rápido movimento, o timbre nobre ecoando com ainda mais propriedade — Quero mostrar-lhes uma coisa. Vistam-se de acordo com a rigidez deste inverno e me encontrem na entrada do palácio assim que estiverem prontos. E nem um minuto a mais, entenderam?
— Sim, pai! — Disse Thor num rugido inflamado de empolgação, levantando-se avidamente e já correndo em direção aos seus aposentos, ao passo que Loki apenas assentiu sem muito entusiasmo e seguiu o irmão. Seus passos pelo magistral salão do trono de Odin ecoavam tão pequenos quanto ele mesmo se sentia, e a voz do soberano reverberou com força enérgica pelas paredes douradas do palácio real.
— Loki! — O deus chamou quando Thor já estava longe de vista, certamente ávido por concluir a ordem do pai o mais rápido que pudesse. O timbre imperioso do deus da guerra soando de modo nato a liderar e nunca a obedecer, esperando apenas que seu comando fosse acolhido. O caçula se virou para o pai, e em seu rosto Odin pôde ver o medo que o pequeno garoto sentia de novamente ser repreendido de forma injusta — Vista suas luvas. Está nevando muito lá fora. — Ordenou, ele mesmo se retirando dali sem qualquer outra palavra que visasse abrandar a diferença gritante de tratamento que ele mesmo criara, mesmo que sem total consciência, entre o primogênito e o caçula.
Loki foi o último a deixar para trás a sala do trono, os verdes orbes astutos de súbito desanimados e infelizes. Nem mesmo seu momento mais brilhante de talento seria capaz de equiparar-se ao orgulho que Odin sentia pelas mais crassas tolices de Thor...
...Mas Loki ainda faria o possível para descobrir o porquê daquela visível preferência.
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O Pai-de-Todos conduzira os garotos aos grossos ramos de Yggdrasil de modo a ilustrar melhor as lições daquele dia, e tanto Thor quanto Loki trajavam expressões embasbacadas do mais puro espanto ante a grandiosa e estonteante beleza da Árvore da Vida. Apenas nas histórias ouviram falar de seu imponente e misterioso encanto rústico, contudo palavra alguma poderia equiparar-se ao vislumbre hipnótico de vê-la com os próprios olhos e testemunhar que nenhuma das histórias ouvidas fazia jus à realidade. O rosto de Thor se iluminou com um de seus sorrisos sempre fáceis, enquanto o olhar curioso e esperto de Loki imaginava em quais pontos da árvore os mundos se ligavam.
— Esta, meninos, é Yggdrasil! — Odin avisou retoricamente, ele mesmo parecendo entorpecido pelo encanto natural da árvore mesmo após observá-la tantas vezes — É este ponto que torna possível toda a comunicação dos mundos menores sob nossa proteção. Prestem atenção na tríade de raízes da árvore... — Apontou com precisão os três pontos, sorrindo de leve com as expressões fascinadas de seus filhos — Ela representa as três dimensões que Yggdrasil segrega; os deuses, os homens... E os mortos. Asgard, como vocês bem sabem, é o lar dos deuses Æsir. Em seguida temos Ljossalfheim, o reino dos elfos claros, regido pelo deus Frey e pela deusa solar Sunna. — Anunciou, e conforme falava, seu indicador em riste ia descendo os níveis da árvore correspondente aos reinos citados — Midgard é a morada dos mortais, e suas atribulações mundanas exigem um crescimento intelectual para que os humanos possam almejar subir de plano. Svartalfheim é habitado pelos elfos escuros e anões, sendo este o nível especializado em modelar a matéria bruta em objetos de maior requinte. É guardado pelo anão Modsognir, e não há lugar melhor para se obter uma arma, todavia nada além disso. Hel, o mundo mais extremo da base de Yggdrasil, é o reino dos mortos, e lá habitam os deuses que não morreram com honra nos campos de batalha, e portanto não ascenderam até Valhalla, assim como os próprios humanos. O mundo subterrâneo é regido por Hela, e vocês jamais vão querer conhecer os seus domínios, isso eu lhes garanto.
— É verdade que a deusa Hela tem metade do corpo decomposto? — o menino de olhos verdes não conteve sua curiosidade, o deslumbre dançando pelos tons oliva de suas íris sedentas por conhecimento.
— Sim, é verdade. A metade decomposta de seu corpo é o prelúdio da morte que semeia. É lá que as almas sem dignidade na morte esperam pelo renascimento. — Concluiu, apontando agora para o centro da Árvore dos Mundos por onde saíam os quatro galhos de Midgard — Aquela é Muspelheim, o reino do fogo, antagônico a Niflheim na diagonal oposta, um reino nevoento e frio. Ambos os mundos contribuíram na criação de Midgard com o poder antagônico do gelo e do fogo. Muspelheim abriga os antigos gigantes que são governados por Surt, enquanto que Niflheim abriga o dragão Nidhogg, que diariamente investe contra Yggdrasil. — Mostrando agora a direção oeste, Odin prosseguiu — Lá fica Vanaheim, a casa das divindades Vanir, deuses da fertilidade e prosperidade, e que possuem um profundo conhecimento das artes mágicas. Por fim, na direção leste salienta-se Jotunheim, onde se abrigam os Gigantes de Gelo. Este é um mundo estagnado, tão afundado em suas próprias guerras que não se percebe qualquer indício de crescimento mental ou espiritual. Até mesmo Midgard tem maior capacidade de evolução se comparada à terra dos Jotuns.
— Foi lá que o senhor matou todos aqueles gigantes, pai? — Thor fez a pergunta que, aos olhos de Loki, parecia retórica pela obviedade da resposta, porém Odin a respondeu do mesmo modo, parecendo estranhamente desconfortável em abordar o assunto.
— Sim, filho. Os Gigantes de Gelo e os Æsir tendem à inimizade natural, e muitos conflitos já se desencadearam entre nós em tempos mais difíceis.
— Nós podíamos lutar juntos contra eles! — Thor bradou ao seu melhor modo estúpido — Lado a lado, pai, poderíamos dar um fim a essas aberrações.
— Já basta disto! — Advertiu o deus, com uma sugestão de irritação na voz, embora seu timbre sempre fosse um tanto acalentado quando direcionado a Thor — Temos vivido em paz com Jotunheim, e não serei eu a quebrar nosso armistício. — Ele se ajoelhou em frente ao filho, segurando-o pelos ombros e o fitando intensamente com a determinação de seu único olho — Entenda uma coisa, Thor, filho de Odin... Quando você ocupar meu lugar como rei de Asgard, jamais deverá principiar uma batalha em vão. Um rei sábio deve prezar acima de tudo pela paz entre os reinos, e apenas mover-se para a guerra quando estritamente necessário. Jamais se esqueça de que as guerras apenas têm como intuito restabelecer a paz perdida, e nenhum outro motivo deve anteceder ou justificar o levante de armas.
Thor assentiu devagar, sempre fascinado com a sabedoria que o pai emanava mesmo que ainda não compreendesse muito de seus atos ou das responsabilidades de gerir um reino.
Loki, por sua vez, se encolheu, angustiado com os dizeres de Odin. Tanto pela afabilidade com que sempre se dirigia a Thor — e que Loki jamais experimentara por si mesmo —, quanto pelo teor do que foi dito, já tendo por certo a ascensão de Thor ao trono... Deixando claro que Odin, mesmo ainda longe do momento de decidir qual dos filhos seria coroado, já desprezava as chances de Loki como seu sucessor. O menino limitou-se a baixar a cabeça, cansado do favoritismo sempre evidente de Odin pelo seu irmão mais velho.
— Espero que tenham absorvido as lições de hoje! — Odin novamente ergueu-se, dando uma longa olhada na Árvore da Vida, contemplando-a em despedida — A próxima vez que eu lhe perguntar sobre os Nove Reinos saberá me responder, Thor? — Questionou, olhando de relance o primogênito.
— Saberei, pai! — Respondeu cheio de confiança, mas Odin nutria suas dúvidas a esse respeito. A cabeça do menino era repleta de sonhos infantis e cheia das histórias heroicas de seus antepassados, sem muito espaço para as teorias da vida.
— Ótimo! — Respondeu simplesmente — Agora vamos, por hoje vocês estão dispensados. — Avisou, e Thor lançou seu típico sorriso radiante para Loki, que apenas conseguiu repuxar sutilmente os lábios em resposta.
Contudo, antes que pudessem utilizar novamente a passagem que os levaria de volta a Asgard, Thor soltou uma sonora exclamação ao apontar para uma das raízes de Yggdrasil, correndo na direção do que via antes que Odin fosse capaz de freá-lo, esgueirando-se rápido e estrondoso como o trovão que um dia representaria.
— Veja, pai! Uma menina! — apontou para o corpo infantil como o seu, a cascata de cabelos prateados caindo longos até o fim de suas costas. Tocou-a gentilmente no braço, usando de um tom galante que fez Loki gargalhar fartamente com mais aquele equívoco para a vasta coleção de imbecilidades de seu irmão, enquanto Odin o encarava com um misto de incredulidade e profundo desagrado — A senhorita não deve andar por estes trechos desacompanhada... São estradas perigosas! Permita que nós a escoltemos até sua morada em segurança! — O menino loiro lhe ofereceu o braço robusto, seus olhos azuis extravasando uma superioridade heroica e cavalheiresca tão ampla quanto seu engano. A deusa do destino o observou com extremo desprezo, uma única sobrancelha arqueada numa expressão que apenas se traduzia em aversão.
— Vejo que seu filho não ficou mais esperto desde a última vez que Urd, Verdandhi e eu sentamos sobre as raízes de Yggdrasil para fiar seu destino... — Skuld, indolente, falou, pouco se importando se tal comentário poderia soar ofensivo ao rei de Asgard.
— Peço perdão por isso, poderosa Norne... — Desculpou-se Odin ao modo mais humilde que lhe cabia, indo até o confuso Thor e segurando com força seu braço para que dessa vez ele não escapasse — Meu filho ainda preserva a inocência pueril da tenra idade.
— Não se engane, Pai-de-Todos. Thor Odinson será sempre regido pela tolice, ainda que a sabedoria dos milênios o cerquem — Advertiu, lançando um olhar demoradamente interessado em Loki como se cogitasse falar algo a mais, porém nada disse e retornou à sua morada na fonte Urdh da Árvore da Vida, unindo-se às demais Nornes em suas confabulações silenciosas.

Finalmente livres de suas obrigações diárias, os filhos de Odin divertiam-se sobre a camada agora mais espessa de neve, travando alegremente uma disputada batalha com as bolas alvas e gélidas que lançavam um contra o outro. Loki ainda se divertia à custa do mais velho pelo episódio recém-ocorrido na Árvore dos Mundos, seus verdejantes orbes brilhando tão profundamente como se acompanhassem o iluminado sorriso em seu rosto.
— Você se superou hoje, irmão! — o caçula disse, tentando conter o riso e falhando — Flertar com a deusa Norne do futuro... Isso ainda há de entrar para os registros de Asgard! — Zombou, lançando a Thor um olhar cúmplice e terno — Sabe que Skuld é ainda mais velha do que o nosso pai, não sabe?
— Eu não podia adivinhar que aquela menina era uma das deusas mais poderosas dos Nove Reinos... — Thor defendeu-se, enrubescendo no mesmo instante, uma expressão culpada e envergonhada fazendo seu rosto corar, perdendo uma fração do tradicional orgulho — Acha que o pai ficou aborrecido? — Questionou, subitamente preocupado.
— É provável! — Loki disse, fingindo seriedade, quase não conseguindo conter a expressão trocista quando percebeu o irmão estancar e empalidecer — Talvez isso lhe custe o próprio trono de Asgard, aliás, caso Skuld tenha se ofendido... A menos, é claro, que consiga desposá-la! — Gargalhou, vendo a expressão de pânico de Thor paulatinamente retomar a cor ao entender que o menino apenas caçoava de si.
Sorrindo, Thor moldou uma enorme bola de neve de proporções intencionalmente exageradas, mas antes que pudesse atirá-la contra Loki, seu pequeno e talentoso irmão criou várias réplicas perfeitas de si mesmo, rodeando-o. Thor orgulhava-se e encantava-se com as notáveis habilidades do mais novo, e por um instante seu deslumbre prevaleceu à vontade de acertá-lo.
— Você está ficando muito bom nisso... — Admitiu, não sabendo exatamente qual Loki encarar. Todos eles lhe sorriram em resposta, convencidos — Mas nem mesmo todas as ilusões dos Nove Reinos são páreas para o grande e poderoso Thor! — esbravejou, lançando com admirável velocidade várias bolas de neve contra as miragens conjuradas de Loki, cada uma delas se esvaindo com um último rastro de fumaça quando acertadas.
Até que restou apenas um, e Thor não demorou a correr atrás do verdadeiro, alcançando-o com facilidade pelo melhor preparo físico de seus músculos. Lançou-se contra Loki num pulo certeiro e derrubou o caçula nas dependências macias da neve, sorrindo vitorioso quando prendeu os pulsos do risonho irmão com as próprias mãos, surpreendentemente fortes para sua pouca idade.
— Peça latrina, irmão! — Ordenou num tom de voz ao mesmo tempo altivo e brincalhão.
— Nunca! — Replicou, a diversão crepitando em seus olhos de um verde profundo.
— Peça! Ou não haverá clemência!
— NUNCA! — Repetiu com ainda mais força e determinação, e riu de surpresa e agrado quando Thor começou a, gentil e firmemente, soterrá-lo sob a neve como um merecido castigo pela subversiva desobediência. Prendeu-o lá por apenas um breve instante, o sorriso vacilando em seu rosto duvidoso quando finalmente o emergiu de volta.
— Você está azul! — Thor brilhantemente constatou, fitando maravilhado os olhos agora vermelhos e flamejantes de Loki que, aos poucos, retornavam ao verde habitual, assim como sua própria pele que ia perdendo o tom índigo para dar passagem ao típico pálido rosado. O próprio caçula mostrava-se pasmo ao observar boquiaberto as mãos desnudas mudarem de cor, porém Thor pareceu não notar a aflição do irmão, e sua feição cintilou em expectativa — É mais um de seus truques, Loki?
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