Orlög
10 Turbilhão
Notas iniciais
Frigga permitiu-se ser deixada para trás naquela breve caminhada que travava com Odin e Thor.
Seu ritmo, programado à uma maior lentidão, logo permitiu à Deusa-Mãe observar de trás a postura rígida de seu filho mais velho e do esposo, ainda rei de Asgard embora o posto já devesse pertencer a Thor se não fossem... Os últimos acontecimentos. Ambos levavam enorme austeridade em suas passadas, vencendo com rapidez o caminho até Bifrost num silêncio arrasador e tão taciturno quanto.
O peito da deusa se apertou conforme os dois deuses entraram no ambiente circular que era o posto de vigilância de Heimdall, e por um breve momento seus olhos celestes se esconderam por baixo das pálpebras, implorando em silêncio por alguma clemência naquela conversa.
Apesar de ainda estar afastada, ouviu se perpetuar o vozerio marcante de seu consorte, o teor de suas palavras ainda mais incisivo do que os movimentos ágeis de seu machado em guerra.
— Heimdall! — Chamou com urgência, num timbre potente que combinava com sua posição de realeza. O deus negro de pronto curvou respeitosamente a cabeça, saudando-os com um baixo "Meu rei. Meu príncipe!", e apesar de saber exatamente o que lhe seria requisitado, aguardou que Odin tornasse a falar — Onde está Loki?
Frigga chegou a tempo de vislumbrar a consternação que se estampou nas íris douradas do deus da luz, brilhantes e tão dinâmicas quanto a infinitude do próprio universo, nenhum detalhe por menor que fosse escapando à sua potente visão. Todo o significado reverberante daquele olhar em luto já seria capaz de dar a resposta que a família real procurava, contudo o breve silêncio fez Thor se pronunciar, e quando o fez, Frigga reparou na força com que segurava seu martelo.
— Onde está meu irmão, Heimdall?
— Thor... Desde o incidente na sua coroação, eu fiz uma varredura completa pelos reinos, e nem mesmo o alcance de meus olhos pôde encontrá-lo... — Respondeu ao príncipe, porém era o rei quem encarava, sabendo que o Pai-de-Todos imediatamente entenderia a sugestão incutida naquelas falsas palavras. Naquela trapaça, criada pelo próprio Loki.
Heimdall repudiou ao máximo a desagradável sensação que veio junto à mentira, e por aquele instante sentiu-se tão vil quanto o próprio deus trapaceiro ao enganar seu soberano. Apesar de todo o conflito que albergava em si, obrigou-se a manter o contato visual com o rei, apegando-se não aos termos de seu acordo com Loki, mas ao que receberia em troca. Laura. Aquela que descendia de Singrid, a filha híbrida que há muito lhe fora tirada.
O vigilante de Asgard viu o brilho raivoso no olho azul de Odin dar lugar a uma dor distante, o semblante agora dominado por uma negação que lhe trouxe um amargor ao fundo da garganta.
— O que isso significa? — O deus do trovão questionou com certa inocência, revezando olhares preocupados entre o pai e Heimdall. O deus da guerra permaneceu encarando o deus negro, e nenhum dos dois respondeu à pergunta de Thor.
— ...Como? — A voz do Pai-de-Todos ameaçou falhar, aquele murmúrio baixo carregado de um sentimento que jamais demonstrou a Loki em vida e que agora, na sugestão de sua morte, aflorava.
— Não sei dizer, Majestade. Não vi o momento que aconteceu. — Empertigou-se, incomodado com a confiança cega que o Pai-de-Todos dava às inverdades que contava.
Odin passou uma das mãos pelos fios alvos de sua barba, o orbe azulado se refletindo numa discreta película úmida e, ao mesmo tempo, rude. Pareceu guerrear com os próprios sentimentos numa fração de segundo, e por fim virou-se para ir embora, dizendo:
— Ele fez suas próprias escolhas.
O Pai-de-Todos saiu, indisposto a prorrogar o assunto daquela conversa embora Thor o seguisse cheio de perguntas, o deus do trovão ainda incapaz de entender por si mesmo o que acontecera. Ou incapaz de aceitar sem que se dissesse as palavras definitivas.
Frigga aguardou até que os dois se perdessem de sua vista, abaixando o capuz que escondia seus fios dourados enquanto entrava no posto de Heimdall, seu caminhar bem mais silencioso se comparado ao estardalhaço que Thor e Odin faziam, sempre anunciando sua chegada de forma brusca. A Deusa-Mãe, no entanto, prezando por meios mais sorrateiros.
— Me leve até ele, Heimdall — Falou com calma, notando o sobressalto do deus da luz que até então não havia percebido sua presença. Ele virou-se em sua direção, quase assustado, aparentando confusão diante dos dizeres da mulher.
— Levá-la até quem, Majestade? — Inquiriu, ainda que soubesse com precisão a quem ela se referia, e temendo que sua suspeita se concretizasse.
— Loki. — Fitou-o com alguma sugestão de desafio em seus olhos de um profundo azul, que em momento algum deixaram de perscrutar as íris douradas — Leve-me até meu filho.
— Minha Senhora... Não sei se me ouviu conversando com...
— Ouvi perfeitamente cada palavra! — Interrompeu-o, a voz firme despontando com um traço de decepção — Mas, ao contrário de meu marido, aprendi a não subestimar as capacidades de Loki. Meu filho é ardiloso, e tem seus próprios meios audaciosos de conseguir o que quer! Desde que não passava de um menino foi conquistando o título de deus da trapaça, e não serei eu a cair em mais um de seus contos. Nem mesmo me surpreende que Loki tenha conseguido convencê-lo a trair a confiança de seu rei.
Heimdall tencionou falar, porém a voz decidida de Frigga o cortou, novamente reverberando com intensidade pelo ambiente. Seu timbre, quase afável, fez com que o deus da luz se sentisse ainda mais indigno de seu posto.
— Não vim aqui para julgá-lo. — Avisou, aproximando-se o suficiente de Heimdall para segurar sua mão de forma a intensificar ainda mais sua súplica — Peço-lhe apenas que me dê a chance de falar com meu filho. De dar a Loki um pouco de conforto aos seus pensamentos certamente tormentosos.
— Me perdoe, minha rainha... — Olhou-a com desalento, odiando-se pela tristeza que reconheceu tão prontamente nos orbes celestes, o tipo de sentimento que era íntimo ao deus da luz... A tristeza de perder um filho — ...mas não posso. Fiz um juramento de sangue de que manteria em segredo sua localização. — Contou, percebendo que dissimular com Frigga de nada adiantaria. A deusa partilhava da mesma astúcia refinada de Loki, porém em si não havia o apelo cruel que se desenvolvera no deus da trapaça ao longo de sua maturidade.
Ela, apesar de todas as piores expectativas de Heimdall, sorriu-lhe, os orbes permitindo-se marejar no mesmo segundo, tão verdadeiros em sentimento quanto a ascensão dos lábios finos. Seus lábios tremeram por um instante em que foi tomada pela emoção, a expressão agora exultada.
— Era tudo o que eu precisava saber! — Agradeceu, comovida pela confirmação de sua suspeita. Acima de tudo, aliviada, ainda que o deus da luz não tivesse sido em nada específico.
Heimdall, antes mesmo que pudesse esboçar qualquer reação, já teve o vislumbre da Deusa-Mãe saindo apressada pela ponte Bifrost, fazendo ecoar por Asgard o vigor de sua esperança renovada.

A mundos de distância, um curioso grupo se reunia na calada da noite dentro das dependências de uma das instituições mais bem protegidas de toda a Terra. Ou pelo menos costumava ser, até a invasão do peculiar homem que se auto declarava deus.
Fury, rodeado por seu típico humor sorumbático, esperou com paciência que todos chegassem à sua presença no espaçoso ambiente, capaz de acomodar com conforto aquelas tantas pessoas, donas dos mais exímios talentos.
Coulson e Maria Hill estavam mais próximos do diretor, enquanto o restante do recinto se dividia um pouco mais afastado. O Capitão América se posicionava à extrema direita, perto de um agente Coulson que parecia extasiado com sua presença. Laura estava entre o arqueiro Clint Barton e Tony Stark, duas das pessoas com quem melhor se relacionava. Hulk ocupava o espaço ao lado do Gavião Arqueiro, acompanhado pela Viúva Negra, enquanto que o deus invasor estava mais afastado, isolando-se do grupo.
Laura, por mais que evitasse olhá-lo diretamente, conseguia disfarçar cada vez menos a curiosidade que se acendia em suas íris à presença do jotun. A Pistoleira lutou contra a vontade gritante de se aproximar do homem, ciente de que Fury vinha calculando até mesmo suas menores ações, e certamente esse gesto acabaria por alimentar ainda mais a desconfiança que o diretor vinha demonstrando pela agente.
Cada um dos Vingadores espreitava Loki com olhares em que a cautela predominava, com exceção dos negros orbes de Laura, estes afogados em genuíno interesse e alguma confusão. Olhos de intensidade perturbadora, que se cravavam no deus da trapaça com um magnetismo tão íntimo quanto irritante.
— Gostaria de poder dizer que é bom revê-los — O diretor da S.H.I.E.L.D. iniciou seu discurso quando todos se uniram, revezando a atenção entre os presentes —, mas infelizmente as circunstâncias não me permitem. Sei que a maioria de vocês está cansada, a viagem até Nova York foi realmente longa para alguns, mas creio que quanto antes tivermos essa conversa, melhor! Para todos! — Relanceou um olhar pouco amigável a Loki, que sustentou o peso imaterial daquele contato visual com serenidade.
— Por que fomos requisitados, Fury? — Steve Rogers, paramentado com seu característico collant estampado com as formas da bandeira estadunidense, questionou com traços brutos, o semblante carregado de uma devoção tão servil que parecia quase fora de contexto.
A postura do soldado era tão rígida que a Pistoleira por um instante acreditou que o Vingador bateria uma continência, e a imagem mental fez o canto de sua boca arquear de leve num meio sorriso travesso.
Laura voltou-se para Clint, levando os lábios à proximidade de seu ouvido esquerdo e destilando ao Gavião Arqueiro um pouco da antipatia anunciada que nutria por Steve.
— Qual o problema do Capitão Hino? A gente nem 'tá em missão ainda e ele já querendo pagar de Tio Sam...
— De repente o cara gosta de valorizar as curvas... — Clint replicou com certa maldade, fitando a amiga de soslaio, sorrindo quando a percebeu disfarçar o riso com um breve pigarro seco — Sabe, Polegarzinha, sei que você engana bem a sua idade com a baixa estatura, mas você não acha que já está um pouco velha demais 'pra esse bullying com o coitado?
— Vá se foder, Katniss. E ele pede. Imagina o trabalho que dá tirar tudo isso toda vez que ele tiver que mijar...
— Não posso argumentar contra isso. E pra constar, prefiro a Merida! — Replicou de modo propositadamente infantil, fingindo desagrado. Laura abriu um sorriso leve, encerrando o assunto ao notar o olho rígido de Fury desaprovando a sussurrada conversa paralela.
Ela percebeu, ainda, com um frio cortante na barriga, que Loki mantinha-se encarando-a, o brilho irritadiço em seus olhos verdes parecendo julgá-la. Em resposta, a mulher ergueu uma sobrancelha desafiadora, obrigando-se a não demonstrar o quanto ele era capaz de perturbá-la.
"Qual é a desse cara?" — Pensou, exasperada, tentando em vão ignorar a agitação na boca de seu estômago, completamente confusa com os extremos oscilantes do deus. Num minuto ele era capaz de se prostrar à sua frente, defendendo-a com unhas e chifres numa demonstração clara de quem se importava, no outro a avaliava como se visse um inseto nojento em seu lugar, digno de uma sola que o esmagasse.
A voz endurecida do diretor se projetou alta, eliminando qualquer burburinho e restaurando a atenção perdida pela questão levantada por Steve.
— Foram tomadas as devidas precauções para que vocês retornassem porque alguns contratempos alarmantes ocorreram. Ao ponto de me fazer restaurar a Iniciativa Vingadores com a pressa que vocês testemunharam.
— O que exatamente é essa nova ameaça? — O doutor Banner inquiriu, uma calmaria tão amena em seu timbre que de fato era difícil associá-lo ao irascível Hulk.
— Não sabemos ao certo ainda — O modo com que Fury encarou Loki parecia desmentir suas palavras, contudo, a expressão do deus da trapaça se manteve inabalável, ainda mais difícil de ler do que a do próprio diretor — Todavia, analisando a situação, decidi que todos os Vingadores seriam necessários. Este é Loki, o invasor que se proclama deus e que nos trouxe questões no mínimo... preocupantes, eu diria.
— Não tão preocupantes quanto o que os espera se não começarem a agir, eu asseguro. Se não acreditarem naquilo que digo — Loki fez o alerta, atraindo todos os olhares que pairaram ensimesmados sobre ele. Exceto um. Um olhar específico que o deus da trapaça esforçou-se ao máximo para ignorar.
— Loki não é um ser mitológico? — Banner observou, tentando entender a situação.
— A menos que eu lhe pareça uma lenda, não. — O jotun replicou, calmo — Muitas criaturas daquilo que vocês chamam de mitologia de fato existem, contudo vivem muito além de seus olhos e compreensão.
— Sendo assim, o que te trouxe à terra dos mortais, afinal? — Natasha pronunciou-se, e Loki percebeu o ceticismo endurecido no olhar da mulher ruiva.
— Como já adiantei o assunto a alguns, por toda minha existência fui refém do palácio de Asgard. Odin, o Pai-de-Todos, roubou-me de meu verdadeiro lar quando eu ainda dependia de cuidados maternos e me levou para longe de meu reino, apenas pelo desejo de se impor contra uma raça que é inimiga natural dos Æsires, também conhecidos como os deuses nórdicos de suas lendas. O rei de Asgard não mede esforços para conseguir chegar a seus próprios intuitos tirânicos, e os mortais têm sido seu alvo mais recente.
— Esse cara é real? — Stark perguntou baixo à Pistoleira que se dispunha ao seu lado.
— Vai por mim, você ainda não viu nada... Mas com o tempo se acostuma... — Laura deu de ombros, sorrindo travessa. O Homem de Ferro manteve-se sério ao perceber a afeição que de leve despontava da voz da mulher, não tendo boas intuições sobre aquele que discursava.
— Eu consegui escapar de sua monarquia soberba e egocêntrica, e vim alertá-los do perigo que cada vez mais os espreita. O Pai-de-Todos planeja destruir Midgard e extinguir não só aqueles que vê como uma potencial ameaça, mas até o último humano.
— Segundo Loki, existem alguns humanos que descendem de linhagens divinas — Nick Fury contribuiu com a explicação do jotun, seus traços brutos ainda mais rígidos por conta da preocupação que aquele assunto lhe gerava.
— Exato. E justamente pelo sangue etéreo diluído entre os mortais, o Pai-de-Todos busca pela retaliação de sua espécie. Odin nunca demonstrou qualquer tolerância pelos semideuses, e se os humanos tiverem que ser destruídos no meio desse processo, não será algo com que o rei de Asgard se importe. — Loki concluiu, analisando com cuidado cada expressão incrédula que era direcionada a si.
Foi Tony Stark quem quebrou o silêncio.
— Um momento, deixa eu ver se entendi... — O empresário ergueu uma mão como se pedisse que ninguém interrompesse seu raciocínio, os olhos profundos cravados em Loki enquanto falava — Então esse suposto deus nórdico Odin, que a propósito por sua explicação me pareceu ser o pai de todos menos o seu, está disposto a nos destruir porque se sente ameaçado por humanos que vivem vidas medíocres a mundos de distância? Que nem mesmo desconfiam que são considerados uma ameaça? — Perguntou, e sua voz se elevou ainda mais quando tornou a falar — E mais importante de tudo... eu sempre soube que tinha um quê de divino.
— Vai sonhando, Lata-Velha! — A Pistoleira replicou, risonha com as considerações do Homem de Ferro — No máximo você é uma mistura bizarra entre homem e anão, já que leva a vida forjando armas e é mesquinho com sua fortuna... — Zombou, arrancando uma expressão entediada do Vingador.
— "Pai-de-Todos" é o título designado ao monarca de Asgard — Loki acresceu, parecendo agora irritado —, não há qualquer relação com a paternidade em si. Odin é insano, e não precisa de grandes motivos para dar voz às suas loucuras. Todos aqui estão prestes a enfrentar um perigo inenarrável, de proporções imensuráveis se não se dispuserem a me ouvir!
— Viu, eu disse! — Laura murmurou a Tony, um sorriso discreto querendo crescer em seu rosto — É louco. Me deve cem pratas!
— Ainda não... — O bilionário resmungou de volta ao ouvir a Pistoleira citar a aposta que fizeram na surdina, fitando Loki com desagrado — Esse cara pode ser muitas coisas, Laura, mas louco definitivamente não é uma delas.
●•●•●
A lua já despontava alta no céu pouco estrelado de Nova York, o delinear fino do satélite natural prestes a minguar por completo em poucos dias. O breu da noite se alargava pela infinitude de nuvens cinzentas, carregadas para longe por tufos de ar esporádicos.
A Pistoleira, maldizendo a si mesma em pensamento, percorria com cuidado os corredores já desérticos da S.H.I.E.L.D., capaz de se mover sem qualquer ruído que anunciasse sua pequena incursão noturna dentro do ambiente adormecido.
Sabia com exatidão qual seria o destino pretensioso de seus passos, contudo não deixou de xingar-se quando estancou defronte ao aposento que servia de cela velada ao deus nórdico, que trouxera consigo todos os maus presságios imagináveis.
Abriu a porta com cautela, perscrutando o ambiente com olhos vívidos, acurados até mesmo na escuridão. Viúva Negra saltou de seu ponto de vigilância, percebendo o movimento de Laura com perfeita sincronia, atenta a qualquer mudança que se instalasse ali em seu turno.
— Laura! Algum problema? — Natasha estreitou as sobrancelhas, confusa pela visita insidiosa da Pistoleira.
— Por enquanto nenhum... — Sorriu com simpatia, não evitando um olhar rápido ao rosto adormecido de Loki, os orbes logo retornando à feição interrogativa da russa — Só vim te substituir no cargo de babá.
— Ainda faltam umas duas horas pro meu turno acabar. — Replicou, parecendo não entender — Na verdade, ele mal começou.
— Eu sei. Mas achei mancada o caolho pedir pra você vigiar a figura aí. A viagem até a S.H.I.E.L.D. foi longa, você deve estar exausta.
A agente ruiva deu um sorriso leve, evidenciando em seu rosto todo o cansaço que de fato sentia.
— Não vou dizer que não, mas estou acostumada, posso lidar com algumas noites mal dormidas. E eu mesma me voluntariei 'pra ajudar aqui... Não é justo deixar só você e o Clint se revezando no trabalho chato.
— Não foi cansativo. — Deu de ombros, honesta em mais sentidos do que gostaria — Hill e Coulson ajudaram bastante, na verdade. Melhor que você e os outros descansem bem hoje 'pra que a gente comece a se revezar direito amanhã. Não temos muita noção do que está por vir a partir de agora, e se começar a cair mais deuses como esse do céu, é bom que todos estejam na sua melhor forma. Quem diria que a música "It's raining men" ia se concretizar um dia... Aleluia! — Brincou, arrancando um riso divertido da mulher russa.
— Certeza? Dá 'pra aguentar até o fim do turno! — Garantiu, embora a proposta de descanso fosse tentadora.
— Se manda! — Apontou a saída com o queixo, sentindo crescer em si uma satisfação que não ousaria admitir.
— Bom, caso se arrependa, fique à vontade 'pra chamar outra pessoa. — Troçou, sua expressão acima de tudo grata.
— Caso eu me arrependa você vai ser a última a saber, pode deixar! — Assumiu o lugar da agente, prestando atenção enquanto a via se afastar num caminhar gracioso — Natasha? — Chamou um segundo antes que a ruiva sumisse por trás da porta.
— Não vai me dizer que já mudou de ideia... — Seu rosto reapareceu, inconformado apesar de zombeteiro.
— Não... — Negou entre risos, embora os olhos se mantivessem sérios — Só queria saber o que achou disso tudo... dele...
— Surreal demais! — Escorou-se ao batente com uma sensualidade natural, longe de ser programada — Se não confiasse minha vida a cada um de vocês, não teria acreditado numa única palavra do que contaram hoje...
Laura assentiu, compreendendo muito bem aquele sentimento controverso.
— Eu, que vi tudo com meus próprios olhos, mal acredito...
— Ainda acho que tem grande chance de eu acordar de manhã e ficar na dúvida se tudo isso não passou de um sonho...
— Pode apostar. Vai ser estranho 'pra cacete acordar com todos esses pensamentos na cabeça, vai por mim... — A Pistoleira reforçou, ela mesma já sendo vítima da enorme confusão após a chegada inquietante do deus. "Ainda mais se você já sonhou com o infeliz a vida inteira e ele de repente cai do céu bem na sua frente" — Mas é melhor que você descubra isso sozinha... — Encerrou o assunto, percebendo os ares exautos da Viúva Negra, que se apoiava com moleza junto à porta — Boa noite, Natasha!
— Certo, eu vou aceitar sua oferta então! Boa noite, Laura, e obrigada! De verdade! — A ruiva sorriu cheia de gratidão, enquanto a Pistoleira apenas levantou a palma da mão num gesto que dizia "Não foi nada", dispensando os agradecimentos. Natasha fechou a porta, deixando Laura a sós com Loki.
Ela, vendo-se finalmente sozinha, abaixou a cabeça, tentando encorajar a si mesma enquanto brincava com os próprios dedos que começavam a suar frio. Naquela noite, já percebera que não conseguiria dormir antes que tirasse uma questão a limpo com o deus, e apesar de desconfiar da resposta que buscava, não lhe agradava em nada a ideia de se expor.
Não chegou a ter noção dos preciosos minutos que se perderam enquanto se mantinha na tarefa de ponderar suas opções. Loki estava sempre rodeado por agentes que vigiavam constantemente cada passo do deus. Se Laura queria mesmo abordar aquele assunto, não havia hora melhor do que aquela.
Suspirou, caminhando com leveza até o leito do jotun, se permitindo reparar na expressão pacífica e bela que o engolfava durante o sono solto. Sua respiração era tão calma e profunda, que de algum modo foi capaz de dar à Pistoleira o restante da coragem que lhe faltava.
Ela se ajoelhou de frente ao deus, repudiando o efeito hipnótico que ele causava em si, mesmo estando desacordado.
— Loki... — Chamou baixo, pronunciando aquele nome pela primeira vez enquanto empurrava com leveza o ombro do trapaceiro.
Antes mesmo que os dedos de Laura de fato chegassem a tocá-lo, íris verdes se abriram despertas em sua direção. A Pistoleira achou ter visto dentro do olhar direcionado a si um brilho interessado, entremeado por cobiça e reconhecimento, porém as íris logo tornaram a se camuflar em frieza, e todas as certezas da agente ruíram.
— O que quer, humana? — Questionou de uma forma que faria Laura rir em outra situação, erguendo-se com agilidade imprópria a alguém que acabara de acordar.
— Foi mal ter te acordado, mas eu preciso falar com você. Sem a S.H.I.E.L.D. inteira escutando, de preferência... — Sentou ao lado do jotun, encarando-o com firmeza quando se permitiu ir direto ao assunto — Loki, há quanto tempo você me conhece?
Os músculos do deus se retesaram brevemente, algo que não poderia ser percebido pelos olhos lentos dos mortais, porém Laura de algum modo foi capaz de notar o ínfimo milésimo de segundo em que o deus hesitou, seus lábios escuros se forçando a não sucumbir ao sorriso vitorioso que queria se formar em seu rosto de ébano.
O deus reprimiu a forte fúria que se propagou em ondas pelo seu corpo, a raiva querendo dominá-lo tanto pelas pequenas reações irritantes que vinha experimentando na presença da midgardiana, quanto pela percepção mais acurada que Laura demonstrava a respeito do deus da trapaça.
Manteve-se encarando os grandes olhos negros que o fitavam de volta, usando de toda sua exímia capacidade de dissimulação para aquela resposta.
— Se bem compreendi a contagem do tempo de Midgard, a conheço a cerca de uma semana, eu diria. — Disse, o tom desinteressado.
O corpo de Laura se afastou um pouco, como que empurrado por tais palavras. Seu rosto demonstrava uma mágoa profunda, apesar de bem camuflada, o tipo de expressão que Loki não poderia suportar por muito tempo. Não nela. Não na ninfa que sempre veio como um alento às suas próprias feridas. Detestou, acima de tudo, a compreensão de que machucá-la era igualmente doloroso ao deus.
— Não é verdade... — Ela contestou, sem muita confiança — Se fosse, você me trataria como trata os outros, distante, frio, não chegando a se importar. Você tenta, mas não consegue. Não totalmente, pelo menos...
— Me foi alertado que vocês, midgardianos, têm uma imaginação febril. Eu só não podia imaginar que se estendia a tanto... — Prosseguiu, odiando Laura quase tanto quanto odiava a si mesmo — Antes de vir a Midgard nunca tive qualquer vislumbre de nenhum de vocês.
— Para! Eu não sou estúpida. — Exaltou-se, recebendo em resposta um olhar desdenhoso que a irritou ainda mais — Você me olha como se me reconhecesse na maioria do tempo! Tomou minhas dores quando os seguranças começaram a me revistar, me defendeu como se me conhecesse há anos, sem contar que às vezes me encara de cima a baixo com decepção, outras vezes com desejo quando sabe que ninguém está reparando. São muitos olhares diferentes 'pra uma mera desconhecida, não acha?
Laura cortou o contato visual, pondo-se de pé e por um momento ficando de costas para Loki. Quando tornou a encará-lo, seus olhos pareciam inchados, e sua voz de leve embargada.
— Mas eu reparo. Reparo tudo em você, e sabe por quê? — Hesitou, as sobrancelhas se unindo e formando um vinco raivoso no meio de sua testa — Porque eu tenho sonhos com você desde que... — Parou de falar subitamente, não querendo entrar nos detalhes do seu passado. Sem que pudesse mais controlar, as lágrimas começaram a correr solta por seu rosto, as narinas tremendo em espasmos rápidos conforme fracassava em conter os soluços — Desde sempre! Sonho com você desde sempre! E não importa quantas mentiras você me conte, eu sei que de alguma forma você também já me conhece! É um ator foda 'pra caralho, tenho que admitir, mas eu sei! — Reiterou, ainda chorando com desconsolo, olhando o deus com coragem e desafio.
Loki levantou-se da cama, indo até a Pistoleira com um incômodo crescente. Um turbilhão de sentimentos se alojava no jotun, batalhando entre si. Sentimentos que iam desde a melancolia até o profundo rancor que o guiara ao reino dos mortais, além de alguma satisfação cruel por ver sua ninfa tão exposta, tão verdadeira a ele. Por mais que sua razão lhe dissesse não passar de mais uma humana estúpida e sentimental, contra todas as suas vontades seu peito se comprimia por causar aquele tipo de dor à mulher que sempre veio a ele trazer alguma paz ao seu espírito atormentado.
Viu-se de frente a ela, sem reservas, percebendo a mágoa profunda em seu rosto como a mais perigosa trapaça do destino, fazendo de Loki a maior de suas vítimas.
— Por que então perguntar aquilo que você já sabe? — A voz de Loki saiu macia, tão suave quanto Laura jamais imaginara ouvir. O polegar pálido do deus foi de encontro ao rosto da humana, secando uma das tantas lágrimas já corridas. Um último soluço escapou da garganta de Laura enquanto ainda o encarava, um pouco perplexa.
Buscaram, com perfeita sincronia, um pelo outro, e antes que a Pistoleira se desse conta, seus lábios já estavam sobre os de Loki, a maciez da pele alva roçando em si e desprendendo um odor convidativo. O deus a prensou contra a parede com alguma brutalidade enquanto suas línguas se provavam com afã, há tempos sedentas por aquilo.
Loki apertou a nuca da mulher contra si, à mercê de um prazer ainda maior quando a sentiu estremecer. Ainda mais tentado a tê-la quando era tão fácil sentir o ruído estrondoso do frágil coração humano, que entregava ao jotun o quanto a mulher o desejava. Ele aprofundou o beijo, já tomado por uma luxúria que há muito vinha reprimindo sem grandes sucessos, sua mente completamente anestesiada ao desprezo que nutria por aquela espécie.
Laura levou as mãos até as costas de Loki, suas unhas pressionando a pele por baixo da roupa como um convite para que avançassem. Ela se apoiou em seus ombros, dando impulso necessário para que as pernas rodeassem com agilidade o quadril do jotun, pressionando a pélvis do deus com a constrição imediata de suas coxas. O beijo tornou-se repicado pelos arfares, que em meio ao silêncio soavam quase escandalosos.
Laura rompeu brevemente o contato entre seus lábios, tirando a própria regata quando percebeu as mãos de Loki vagando por baixo de sua blusa, deixando à mostra toda a extensão de sua pele, apenas o top de ginástica que usava por baixo ainda cobrindo os seios. O deus deslizou as mãos pelas curvas marcadas de sua cintura, o deleite em seus olhos agora totalmente desprotegido de qualquer dissimulação.
Laura tornou a beijá-lo com uma sombra de sorriso nos lábios, mais uma vez sentindo o baque de suas costas na parede quando Loki novamente foi dominado pela necessidade de aproximar ainda mais seus corpos. Uma necessidade que ela, em todos os aspectos, compartilhava.
Loki começou a conduzi-los às cegas até a cama, nenhum dos dois se dando conta dos passos silenciosos que cada vez mais se aproximava do quarto. Apenas quando Gavião Arqueiro entrou assoviando no recinto, os dois perceberam já ser tarde.
Clint arregalou os olhos para a cena flagrada, não conseguindo desviar os orbes do peito arfante de Laura, que o fitava com íris banhadas em culpa, as pernas ainda rodeando Loki com intimidade. O deus, por outro lado, o encarou com fúria, necessitando de todo o seu pouco auto controle para não atacá-lo ali mesmo.
— Bom, parece que meu turno já foi ocupado... — Tentou parecer calmo, mas Laura o conhecia melhor do que qualquer um. Por baixo do timbre tranquilo, estava furioso, quase na mesma intensidade que o deus da trapaça — Quando for preciso um vigia, me avise — Bateu a porta com estrondo, e imediatamente Laura se pôs no chão, afantando-se do jotun e vestindo a blusa recém tirada com pressa.
— Merda! — Praguejou, desacreditando de seu próprio azar — Merda, Clint! Vive atrasado 'pra tudo, logo hoje chega cedo, antes do turno começar... — Reclamou consigo mesma, voltando a atenção apressada para Loki — Não saia daí! — Avisou, já na porta.
— Nem que eu quisesse... — Replicou num tom rude, quase um rosnado, e Laura percebeu a forma dolorida com que ele se encurvava de leve sobre a própria pélvis, como se algo estrangulasse seus testículos.
"Pode até ser um deus, mas algumas coisas não mudam!" — Pensou enquanto saía, contendo o riso, e correu atrás de Clint, tentando alcançar os passos apressados do homem.
— Clint, espera! — Pediu, conseguindo segurar o ombro largo do homem depois de uma breve corrida — Não vou dizer que posso explicar porque eu não posso, mas porra, não precisa agir feito um louco.
— Eu sou o louco? — Virou-se, esbanjando uma raiva atípica — Pego você quase dando pra'quele babaca e eu que sou o louco? Laura, esse homem é perigoso até que se prove o contrário. E mesmo que se prove o contrário...
— Eu sei... — Interrompeu-o, ciente de que ele estava com a razão.
— Sabe? E se fosse o diretor entrando por aquela porta? — Questionou, deixando a Pistoleira sem resposta — Fury está cada dia mais desconfiado de você, e agora eu finalmente entendi o motivo! Que merda foi essa, Laura? Você por acaso conhece esse cara?
— Não exatamente... É complicado, mais do que você imagina.
— Se isso é mais um dos seus descasos pelas regras da S.H.I.E.L.D., você foi longe demais, menina. A segurança de todos nós foi comprometida quando esse cara apareceu, e num momento em que todo cuidado é pouco, em que cada passo pode ser decisivo, você... — Não terminou a frase, balançando a cabeça em negação — A vida é sua, Laura, faça o que bem entender dela. Só toma cuidado quando a de outras pessoas também estiver em jogo. — Fez menção de se afastar, contudo a Pistoleira se pôs à frente, a mão em seu peito impedindo que avançasse.
— Acabou? Posso falar? — Perguntou, porém o Gavião Arqueiro se manteve de expressão fechada, sem responder — Eu 'tô vivendo um inferno desde que ele apareceu aqui, minha cabeça está um nó e tudo o que eu menos preciso agora é de alguém me dizendo que eu fiz o que fiz por ser mimada, entediada, ou sei lá o que se passa nessa sua cabeça. — Confidenciou, um pouco irritada pelos julgamentos precoces do amigo — Agora me escuta, criatura. Lembra quando eu vim pra S.H.I.E.L.D. e você dizia que algumas noites eu parecia ter pesadelos? — Recordou o amigo de quando ainda eram crianças, nos episódios recorrentes em que Laura se esgueirava em segredo ao quarto do Gavião Arqueiro em busca de companhia para dormir, não suportando passar as noites sozinha depois do que lhe ocorrera.
Clint assentiu, parecendo um pouco mais disposto a ouvi-la.
— Lembro. Você ficava toda trêmula e às vezes chorava dormindo.
— E lembra que você dizia que eu mesma me acalmava logo em seguida?
— Não tem como esquecer, era esquisito 'pra cacete. Num segundo você parecia assustadíssima, no outro já estava relaxada, dormindo feito o bebê que era. — Desdenhou, mas havia algum afeto em sua voz.
— Não era eu que simplesmente me acalmava sozinha. Era ele... — Sussurrou seu segredo pela segunda vez naquele mesmo dia, arrependendo-se por nunca tê-lo confiado antes a Clint.
— O quê?
— É medonho demais, eu sei. Mas esse cara me visita em sonhos desde que eu me conheço por gente. Não sei se era uma premonição ou algo do tipo, eu nunca nem acreditei muito nessas coisas paranormais, até o dia em que ele apareceu... Até descobrir que ele é real... Pode imaginar como venho lidando com isso? É de testar a sanidade de qualquer um!
— Laura, qual é... Você com certeza está confusa, só isso. Não é possível que seja a mesma pessoa.
— São imagens tão nítidas quanto a realidade, Clint. Eu sempre o vi em sonhos com a mesma clareza com que te vejo nesse exato momento, acordada. Minha única certeza nesse monte de merda é que é a mesma pessoa, quanto a isso não me resta qualquer dúvida. Não precisa acreditar em mim, só não me julgue sem entender pelo que eu venho passando nesses últimos dias. Você é a pessoa que mais me conhece aqui dentro... Acha mesmo que eu não me preocupo com a segurança de vocês? Com a sua segurança?
— Claro que não... — Suspirou, a irritação diminuída, sua expressão um pouco mais branda, embora ainda preocupada — Mas não gosto nem um pouco disso, pequena. Me preocupo com você, e esse Loki é chave de cadeia. Você entende isso? De qualquer forma, mesmo que ele seja uma boa pessoa que realmente veio na intenção de nos ajudar, se Fury sequer desconfiar que vocês dois estão juntos, muito provavelmente você pode dar adeus à S.H.I.E.L.D. — Alertou, segurando o ombro da mulher com carinho — Vale a pena arriscar?
— Não importa se vale ou não, Clint. A grande questão é que não posso deixar essa desconfiança doentia do diretor definir meus próprios passos, ditar e impor como devo me portar. Isso eu não aceito nunca mais. Fury tem que entender que eu sou dona de mim, e se tão pouco é capaz de fazer a confiança dele no meu serviço se abalar desse jeito... Bom, significa que provavelmente ele nunca chegou a me dar algum crédito alto aqui dentro.
— Talvez só seja difícil ver o quanto você cresceu... Figurativamente falando, é claro! — Disse com um sorriso ligeiramente triste, puxando a Pistoleira para um abraço que foi de imediato correspondido — Só tome cuidado, menina. Eu quero que você seja feliz, Laura, e se seus instintos te dizem que esse é o caminho, não posso te impedir, mas não preciso gostar. — Soltou-se do abraço, ainda a segurando pelos ombros — Só fique atenta. Não confie plenamente nesse figurão, e ao menor sinal de qualquer enrascada, esteja pronta pra pular fora.
— Eu sei defender meus interesses, não se preocupe. E aliás, da próxima vez que você falar comigo como se eu fosse uma puta, algumas dessas suas flechas vão entrar direto pelo seu buraco negro, meu chapa. Bem na zona em que o sol não bate.
O Gavião Arqueiro riu um pouco mais descontraído, bagunçando o cabelo de sua pequena amiga com carinho escancarado.
— Esse Loki tirou todo seu bom senso e juízo, mas pelo menos a delicadeza continua intacta. — Beijou-lhe a testa, dando à amiga um último olhar desacreditado antes de sair.
Clint se afastou, refazendo o caminho de sua vigília para retomar seu turno. Laura pegou um rumo oposto, indo em direção ao próprio aposento a fim de recuperar as horas de sono que erroneamente dera por perdida naquela noite turbulenta. Sentiu seus passos soarem confiantes pelos corredores da S.H.I.E.L.D., um sorriso involuntário se abrindo em seus lábios ainda com o gosto de Loki.
Dormiria tranquila pela primeira vez desde que toda aquela confusão começara.
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