Orlög
11 Veja O Demônio Em Mim
Notas iniciais
O romper da aurora daquele dia foi anunciado não apenas pelo brilho dourado e ainda anêmico dos primeiros raios solares, mas também por um estrondo grave que de imediato impregnou um forte odor de fumaça pela S.H.I.E.L.D.
Assim que o alarme de segurança prontamente iniciou seu alarde sonoro, Laura já estava totalmente desperta e fora da cama, empunhando suas pistolas para nenhum alvo em específico enquanto perscrutava a integridade de seu quarto. Apenas quando se deu por satisfeita de sua solidão, permitiu-se baixar a guarda pelo breve instante em que se vestia.
Com as pistolas fazendo mira à sua frente e os olhos bem atentos ao redor, a mulher correu em disparada à procura do significado de mais aquela quebra de segurança em tão pouco tempo desde a última. O ruído insuportável que ecoava pela S.H.I.E.L.D. imediatamente remeteu a Pistoleira à sua primeira visão verdadeira de Loki, caído desacordado e rodeado por uma poça do próprio sangue com aquele mesmo efeito sonoro irritante anunciando sua chegada.
"Que não seja outro pirado com síndrome de deus ou parte do clube ‘Orgulho dos Cornos’, por favor. Só se aguenta um maluco desse nível por vez e olhe lá..." — Considerou em pensamento, quase se perdendo da gravidade da situação ao se permitir um meio sorriso cheio das mais dúbias intenções — "Se bem que eu podia fazer maravilhas com mais de um daquele, só ia precisar de um fone ou tapa ouvidos 'pra aguentar toda a tagarelice sem sentido..."
Laura freou sua corrida, os pensamentos impróprios transformados em tensão assim que vislumbrou os semblantes taciturnos de alguns membros já reunidos da equipe.
— Laura, que bom que chegou! — O diretor a saudou não parecendo de fato feliz, seu único olho saudável relampejando sua típica dureza, que naquele inicio de manhã parecia redobrada e ainda mais azeda. Fury pousou uma das mãos no ombro da Pistoleira, conduzindo-a alguns passos enquanto falava — A H.Y.D.R.A. de alguma forma nos descobriu aqui. Nosso paradeiro já não é mais secreto, mas há alguns segredos que ainda podemos preservar. — Disse, sugestivo, e Laura imediatamente entendeu a mensagem.
— Não vou deixar que ninguém o encontre, senhor...!
— Não. — Interrompeu-a, a mão espalmada erguida em frente ao próprio rosto — Da segurança do objeto cuido eu. Estou incumbindo você de deixar Loki afastado da batalha. Até onde sei, ele poderia ser aliado da H.Y.D.R.A., eu não ficaria surpreso se viesse a descobrir que ele tem algum tipo de envolvimento com este ataque.
Laura estancou, seu semblante de súbito rígido fitando o diretor com profunda decepção. Mais uma vez ele a afastava do trabalho que fora treinada a fazer. Mais uma vez a afastava do serviço imprescindível. Um serviço que lhe fora ensinado pelo próprio Fury.
— Você só pode estar de sacanagem com a porra da minha cara.
— Não temos tempo para discutir os assuntos estratégicos agora, Laura. As barreiras de segurança da S.H.I.E.L.D. estão se rompendo uma por uma, e é coincidência demais que tenha sido logo em seguida à chegada de Loki. Eu o quero longe daqui quando esse combate começar.
— Então vigie você mesmo! — Exaltou-se, tentando dar as costas ao diretor e se afastar, ciente de que começava a ficar fora de si com o tratamento que Fury vinha lhe dispensando.
Ele recolocou a mão sobre o ombro de Laura, um toque que ao mesmo tempo oscilou entre o firme e o gentil, novamente se pondo à frente da Pistoleira com expressão desagradada. Os músculos de sua face estavam tensos, e a Pistoleira percebeu o breve tremor em sua mandíbula quando se pôs a falar.
— Não me force a questionar ainda mais sua fidelidade. Vá além, e me mostre que minhas suspeitas não têm fundamento. Mas não queira me testar agora.
— Você é a porra de um babaca filho da puta. Está tão cego pela preocupação de onde foi parar a merda da minha lealdade que poderia usar esse adereço nos dois olhos, não faria diferença. — Desafiou, indicando o tapa-olho que cobria o lado esquerdo de sua visão perdida — A H.Y.D.R.A. na nossa porta, preparada 'pra um ataque que pegou a todos nós de surpresa e você aí, dividindo a equipe como um fraco. Deixando de usar o único trunfo que temos e eles não sabem.
— Não posso deixar que Loki participe disso. Ainda tenho dúvidas muito sólidas sobre suas intenções aqui, e o fato de você não enxergar isso é uma das questões que vêm me incomodando.
— Se toca, Nick! Se ele quisesse já tinha destruído tudo sem precisar da ajuda da H.Y.D.R.A. 'pra isso, sem precisar da ajuda de ninguém! Não é possível que você realmente ache que ele está sob o nosso controle. Esse cara vai fazer o que quiser na hora que quiser.
— Eu tenho minhas razões, Laura. Agora vá. Se você ainda quiser fazer parte da S.H.I.E.L.D. como nossa aliada, faça exatamente o que instruí. — Ordenou com rigidez, irredutível em sua decisão.
— Seu escroto! — Rosnou entre dentes, sentindo a raiva esquentar seu rosto como brasa pela forma com que o diretor jogava consigo. Não podia sair da S.H.I.E.L.D., e Fury, melhor do que ninguém, sabia disso. E a desarmonia entre eles chegou a um ponto tão insustentável, que o diretor agora usava da condição desfavorável da mulher contra ela mesma, se valendo do seu posto de autoridade ali dentro para intimidá-la com ameaças que a mulher verdadeiramente temia.
Laura saiu sem trocar qualquer outra palavra com Fury, sentindo-se humilhada pela manipulação aberta e canalha do diretor, e o sentimento de impotência que há muito não experimentava, retornou de um só golpe, nada brando. De tão absorta, nem chegou a perceber que ainda segurava com força os cabos de suas pistolas, estas oscilando junto ao movimento brusco de seu andar.
Embora caminhasse rápido, travar aquele trajeto lhe pareceu incrivelmente demorado, dada a inquietação de sua mente, os pensamentos dominados apenas pelo alvoroço que não parecia disposto a se calar tão cedo.
Ainda perdida dentro das suas próprias considerações, Laura escancarou a porta, e a fúria imediata logo tratou de se abrandar com uma cena simples, mas que fez o coração da Pistoleira dar um pinote tolo. Loki estava sentado com as costas muito eretas em sua cama, os tornozelos cruzados ao longo de pernas bem esticadas em que repousavam as mãos, estas dando suporte a um livro que o deus lia atentamente.
Laura soltou o ar devagar, finalmente guardando as armas no coldre e se perguntando com frustração se algum dia se acostumaria a ver aquele homem fora dos limites de seus sonhos, se algum dia aquela visão se tornaria um pouco menos perturbadora...
...Desconfiava de uma resposta pouco agradável.
— Onde conseguiu isso? — Laura interrompeu a leitura do deus com a pergunta, aproximando-se devagar.
— Trouxeram-me alguns exemplares impressos de Midgard. — Loki ergueu olhos que pareciam decepcionados para Laura, virando a página com a mesma elegância que era tão típica de todas suas ações — Até mesmo o entretenimento de seu reino deixa a desejar.
— Que maravilha. A base sendo destruída e eu no clube do livro. — Bufou ao se jogar na cama com violência, fazendo o colchão oscilar, e franziu a testa quando teve um relance da capa — "A Lista de Schindler"? — Pegou o livro das mãos de Loki, saboreando a expressão irritadiça que o jotun lhe lançou — Não vai me dizer que você aceitou uma sugestão de leitura do Steve? — Pôs uma mão solícita no ombro do homem, encarando-o com diversão — Meu bom deus, temo dizer que foi ludibriado por um mortal...
— O que quer dizer?
— Que aqui você não vai encontrar entretenimento nenhum, meu caro. Só fatos reais e vergonhosos que nós, humanos, gostaríamos que nunca tivessem acontecido. Uma péssima primeira leitura de Midgard, como você mesmo diz. — Avisou, dedicando-se a analisar a pilha de livros sob as íris interessadas do deus. Manteve o olhar compenetrado enquanto descartava todas as opções que surgiam à sua frente. Até que um sorriso discreto elevou seus lábios escuros, e os orbes brilhantes tornaram a encará-lo — Esse aqui, vai por mim. É perfeito 'pra você! — Sentou ao lado do jotun, entregando um exemplar surrado e grosso de "O Senhor dos Anéis" — É um livro fantástico. Narração rica e detalhada que combina perfeitamente bem com seu vocabulário de mordomo inglês educado, o enredo é cheio de referências mitológicas que vão fazer você se sentir em casa, e claro, o mais importante, o ilustre Aragorn...
— O que seria isso? — Perguntou, uma faísca de interesse crepitando nos olhos verdes, as íris incapazes de esconder o agrado em compartilhar com alguém o gosto pela leitura. Em Asgard, poucos se interessavam pelos cenários imaginativos dos livros, os deuses em sua maioria guerreiros que preferiam viver as batalhas ao invés de lê-las. Apenas Frigga compartilhando com ele esse mesmo gosto em comum, tão desprezado por Thor e Odin.
— Aragorn? Só o cara mais gostoso do livro. — Sorriu desafiadora diante do olhar subitamente desagradado de Loki, jamais se cansando de provocá-lo.
Porém, o fácil sorriso sumiu rapidamente quando os sons do início da batalha se iniciaram, e a Pistoleira sentiu o peso simbólico daquele livro, "A Lista de Schindler", triplicar ainda sobre seu colo. O mundo ainda conservava algo daquela loucura fascista, e a H.Y.D.R.A. era um ótimo exemplo disso. Algumas vezes, essa loucura se expunha tão abertamente que era possível vê-la tentando se infiltrar. Outras vezes, mais velada e contida, tornando-se ainda mais perigosa pelo seu avanço insidioso.
Ela meneou a cabeça, inconformada.
— Isso é ridículo...
— De acordo. O que seria um "hobbit"? — Lançou o deus, já explorando as primeiras páginas da ficção fantasiosa à medida que tentava demonstrar desprezo por qualquer manifesto daquela cultura menor de Midgard. Contudo, a mera percepção de que era capaz de se interessar pelos gostos daquela humana já o importunavam numa irritante controvérsia de sentimentos.
Resposta alguma veio ao seu comentário, ao invés disso Laura pôs-se de pé de um salto, os passos hesitantes levando-a de frente à porta enquanto Loki reparou que a mulher segurava com desnecessária força suas armas mortais, como se existisse entre os dedos um amuleto capaz de trazer a si alguma tranquilidade. O semblante feminino recriava traços duvidosos, parecendo pesar opções que não lhe soavam minimamente favoráveis.
O deus, repudiando a si mesmo pela pontada de compaixão que nutriu diante da visível angústia de Laura, pousou com cuidado o livro ao seu lado, encarando a protagonista de seus sonhos com uma centelha desgostosa dentro das verdes íris. Ao som de um suspiro baixo, inaudível à audição humana, Loki foi até ela, tentando convencer a si mesmo que apenas tomou aquela atitude em prol de seus planos...
...Que nenhuma outra razão poderia levá-lo a se aproximar daquela inútil humana.
("Da ninfa de seus sonhos"), uma parte de sua mente o corrigiu, fazendo crescer ainda mais a fúria de se sentir exposto. O pensamento quase custou os passos que já o haviam aproximado de Laura, contudo o olhar triste da mulher não permitiu ao deus retroceder.
"Faço isso apenas por meus planos!" — Repetiu, permitindo-se enganar de uma forma simplória.
— Lhe confortaria ver a batalha? — Perguntou, baixo e suave como as brisas noturnas de Asgard.
A Pistoleira estremeceu, surpresa pela aproximação que ela nem ao menos chegou a notar. A mão pequena se fechou sobre a maçaneta fria, e apesar do leve sorriso, os olhos eram tristes.
— De que adianta querer? No fim das contas eu não posso nem ver e nem participar... Fui deixada 'pra trás sem nenhuma droga de consideração, e do jeito que anda minha situação com o desgraçado do Fury, daqui a pouco nossos papeis se invertem, eu serei a prisioneira e você o agente que vigia...
— Eu posso conceder a você um vislumbre do que acontece através desses concretos. — Alertou, o olhar espantado da mulher que de súbito se dirigiu a ele trazendo ao deus enorme satisfação — Sem que seja necessário sair daqui e desacatar seu líder, já que não dispõe de coragem para tanto — Complementou com certo veneno, o meio sorriso arteiro ascendendo muito de leve seus lábios finos.
— Vai me dizer que além de tudo você tem uma super visão de raio X estilo Clark Kent? — Estreitou os olhos, parecendo vacilar entre a descrença e o desafio. As mãos foram de encontro à cintura, e o sorriso cínico provocava Loki com mais aquele discurso incoerente ao seu entendimento.
— Os sentidos de um deus são muito mais apurados do que os seus, humana. Posso facilmente discernir os rumos do conflito apenas me valendo do conjunto de meus sentidos... — Gabou-se, criando em tamanho real todo o cenário dinâmico e cruento da batalha bem à frente da mulher, como se de fato estivessem no meio de toda a confusão. Ela deu um salto surpreso, arfando de admiração e satisfazendo Loki ainda mais pelo espanto que viu dentro dos olhos femininos — ...E mostrá-lo a você!
Laura tocou receosa a projeção musculosa e extremamente dinâmica de Clint, percebendo com fascinação inegável que nada pudera sentir, porém o contato teve suas implicações na imagem falsa — no local em que os dedos da Pistoleira encostaram, um perímetro pequeno em torno do toque fez desfalecer a imagem, logo retornando a preencher a falha quando a mão de Laura se afastou.
A mulher sorriu radiante para Loki, levemente atordoada pelas capacidades do deus que estavam em constante revelação. Os orbes, cheios de um sentimento desejoso, criaram uma antítese de sentimentos no jotun. O olhar cúmplice vindo a si de uma espécie inferior o enfurecia, contudo, ao mesmo tempo, deliciava-se com a forma cada vez mais aberta que se demonstravam as reações de Laura.
O desejo, acima de tudo, a cada dia se tornando mais evidente e ganhando um espaço que antes era majoritariamente ocupado por deboches. O tipo de tolice que Loki até então julgou totalmente midgardiana, mas que agora percebia instalar-se, sorrateira e peçonhenta, dentro de si mesmo contra sua vontade.
Ao final das contas, a humana sempre seria sua ninfa de ébano, e nela até mesmo aquilo que Loki facilmente julgaria como fraqueza parecia fazê-la mais forte.
Os grandes olhos agradecidos da mulher deixaram de observar o jotun para analisar o caos que se instalava para além daquele cômodo, o rosto no segundo seguinte tornando-se grave e absorto nas ilusões criadas por Loki...
...Alguém que se mostrava cada dia mais capaz de fazer murchar cada dúvida acerca da divindade autoafirmada.
●•●•●
O Caveira Vermelha foi o primeiro a ultrapassar a falha que criara dentro da S.H.I.E.L.D.
Sua feição, deformada com os traços desconcertantes de um crânio escarlate, exultou-se num sorriso vil quando vislumbrou o interior da S.H.I.E.L.D. e seus inimigos já a postos para a batalha. O sorriso se alargou quando as cores da bandeira estadunidense destoaram dos membros menos chamativos do grupo de agentes.
— Capitão América! — Saudou, irônico — Há tempos que nossos caminhos não se cruzam...
— E o esqueleto e sua trupe finalmente invadem o castelo de Grayskull — Stark comentou com deboche, seu meio sorriso escondido pelo envoltório dourado e vermelho de sua armadura. Jarvis de pronto identificou todos os invasores que adentravam a instituição até então secreta, apenas Tony ouvindo o relato de sua fiel criação.
— Engraçado, como sempre, Stark... — Olhou-o com repúdio, o sorriso perdido em sua face tomada pelo desagrado.
— Como nos acharam aqui? — Fury foi direto, o polegar sobre a trava do revólver já pronto para o momento da ação.
— Permitam que eu responda esta questão, meus bons amigos! — O Barão von Strucker foi o último a entrar, até mesmo o caminhar sofisticado contribuindo para a calmaria polida da voz. Os lábios se repuxaram com simpatia quando se dedicou a analisar todos aqueles que adoraria exterminar. Seus traços tranquilos pareciam apreciar o momento como se estivesse entre grandes amigos — Durante décadas eu busquei esse lugar, como vocês devem saber já que o esconderam tão bem. Por mais anos do que sou capaz de recordar, estive à busca das coordenadas exatas da S.H.I.E.L.D., sem nunca obter sucesso... Até algumas semanas... — Seus dedos foram de encontro ao monóculo que revestia seu olho direito, um gesto que parecia inconsciente e dotado de alguma elegância à medida que passava o mindinho distraidamente pela armação.
O Barão, após um breve instante de silêncio, prosseguiu:
— Vocês podem imaginar minha consternação quando, de bandeja, essa informação surgiu até mim?
— Como? — Steve questionou, as mãos já buscando o escudo que jazia nos músculos de suas costas.
— É uma explicação mais voltada aos cientistas da casa, não se chateie se não compreendê-la... — Troçou, rindo maldosamente ao encarar os presentes, como se fosse incapaz de crer que finalmente estava ali, cara a cara com seus maiores inimigos pegos de surpresa — Não faz muito tempo, meus cientistas notaram uma atividade cósmica pouco... usual, eu diria. — Sorriu, cortês.
Fury, apesar da expressão imutável, praguejou mentalmente ao compreender toda a situação. A voz do Barão retornou, suprimindo os pensamentos do diretor e deixando-o num estado de completo alerta.
— Mandei que meus cientistas pesquisassem mais a fundo sobre essa agitação percebida para além de nossa atmosfera, e que se aproximava da Terra numa velocidade espantosa. No começo, achamos que podia se tratar de algum meteoro que por alguma razão teve sua rota alterada, mas o perfil comportamental desse fenômeno era diferente de tudo o que já havíamos visto, a começar por sua trajetória perfeitamente retilínea e inabalável. Em resumo, ele não condizia com nenhuma de nossas teorias, algo que fez meu humor oscilar bastante entre um sentimento frustrado e completa excitação pela descoberta, eu assumo. Contratei os astrofísicos mais brilhantes de que se tem notícia, e a partir dessa pesquisa eles conseguiram calcular a trajetória dessa perturbação espacial, e adivinhem só? Cá estamos, no solo sagrado da S.H.I.E.L.D. — Riu, satisfeito. Quando começou a investigar o estranho fenômeno, achou que poderia usá-lo para seus propósitos de destruição, porém jamais imaginou que pesquisar sobre acabaria levando a H.Y.D.R.A. diretamente aos seus maiores inimigos — E toda essa história nos leva à pergunta mais importante, que não quer calar. O que a S.H.I.E.L.D. anda aprontando, afinal?
O Barão ficou sem resposta, mas mesmo assim mantinha o sorriso vivo.
E lá estavam eles, encarando-se de forma perigosa na preliminar da batalha; de um lado, Caveira Vermelha, Víbora, Rei do Crime, Cabelo de Prata e o Barão von Strucker. Do outro, Viúva Negra, Capitão América, Gavião Arqueiro, o Homem de Ferro, Nick Fury e Hulk, ainda na pele do cientista. Coulson e Hill vigiavam o perímetro da S.H.I.E.L.D., buscando por qualquer intruso que tivesse a intenção de surpreendê-los no momento da batalha.
Fitaram-se longamente, esperando pelo gesto que daria início ao embate. O silêncio prolongado foi quebrado por Tony em seu típico tom zombeteiro.
— Que tipo de imbecis são vocês? — Questionou, sincero, sem saber como interpretar as feições tranquilas de seus oponentes — Bruce, fica verde logo e vamos dar um fim nisso. Eu estarei bem aqui, comendo pipoca enquanto o meu amigo toma seu anabolizante sabor "Aspargo Radioativo" e se livra de todos vocês com um peteleco.
— Ah sim... — o Barão bateu na própria testa num gesto teatral, parecendo rir de sua tolice — Sobre nossa pequena desvantagem, temos algo que creio estabilizar o jogo. Víbora, por favor! Queira fazer as honras.
— Com prazer! — A mulher de longas mechas esverdeadas anuiu com um sorriso pouco amigável, enviesado no bote que tinha preparado. Seus movimentos, rápidos como os de uma serpente, tornaram qualquer revide por parte da S.H.I.E.L.D. impraticável.
Víbora lançou uma espécie de dispositivo metálico na direção de Banner, que fez o cientista cair ao som dos próprios gritos quando a estrutura hexagonal grudou certeira em seu peito e começou a disparar ondas de choque que eram todas direcionadas ao coração do homem.
— Bruce! — Natasha ajoelhou-se ao seu lado, sentindo o próprio peito afundar em desespero quando viu o rosto do cientista tomado pelo suor frio que banhava uma expressão dolorida. Os olhos arregalados pareciam querer saltar das órbitas, os lábios entreabertos não emitindo qualquer som mais coerente do que um grunhido. Numa tentativa afoita e impensada, a mulher de origem russa tentou retirar o dispositivo fortemente aderido do peito de Bruce, ela mesma sendo alvo de um forte choque que a fez recuar.
— Isto, meu caro, custou muita pesquisa e investimento de nossa parte, feito sob medida para você! — Avisou o Barão num tom satisfeito — Vou dar um resumo de como o dispositivo vai funcionar em seu corpo, doutor Banner. O ponto principal é que as descargas elétricas são condizentes com a massa muscular. Na sua condição normal, você é perfeitamente capaz de sobreviver a elas, mas à medida que seu corpo se modifica à versão do Hulk, a eletricidade que chega ao seu coração se eleva numa progressão geométrica na dependência do aumento de músculo. A voltagem passa a ser tão grande que você vai morrer antes que consiga completar a transformação no "outro cara". Então, rapaz, é bom que não tente mudar de cor. Não vai ser nada fácil, é verdade, o perigo à sua integridade física é o meio mais eficaz de transformá-lo naquela besta verde, mas sugiro que resista à tentação.
Natasha acariciou o rosto do homem, para seu horror vendo que os olhos do cientista já se esverdeavam.
— Calma, Bruce! Eu estou aqui com você... — Sussurrou, os olhos do homem completamente focados na Viúva Negra, sua maior fonte de tranquilidade. A única que fora capaz de conquistar não apenas Bruce Banner, o pacato cientista, mas também o próprio Hulk em toda a sua irracionalidade violenta e instável.
— Que bela cena! E parece que isso nos equilibra, não é mesmo, agentes...?
Antes que o Barão pudesse concluir seu comentário, um objeto circular veio até ele, rodopiando com perfeita estabilidade em pleno ar. O escudo nacionalista de Steve acertou com precisão a têmpora esquerda do homem, fazendo fluir um grosso filete de sangue perto do olho.
— Vejo que vocês já se cansaram da diplomacia... Não posso culpá-los! — Von Strucker disse, dessa vez sem o sorriso debochado, incitando sua equipe contra os agentes da S.H.I.E.L.D.
O Homem de Ferro lançou-se no ar, sobrevoando o inusitado campo de batalha. Clint, também em altura mais elevada do chão pela plataforma que o sustentava, fazia a mira de seu arco rebuscado no líder, o Barão von Strucker, ciente de que se tratava provavelmente do inimigo mais perigoso. Atirou uma flecha, porém o líder da H.Y.D.R.A. pegou-a a centímetros de atingi-lo, partindo-a no meio.
O Rei do Crime, um homem de estatura sobre-humana e força incomparável, ergueu apenas com auxílio de sua própria capacidade física, um enorme bloco de alvenaria que foi desprendido da parede da S.H.I.E.L.D. quando se iniciou o ataque. Com uma mira pouco calculada porém precisa, arremessou-o em direção à armadura de Tony, que com a força do impacto foi jogado contra os destroços.
"Houve dano nos propulsores, senhor!" — Jarvis avisou prontamente após o baque, mal dando tempo a Tony para se recuperar — "Capacidade reduzida a 27%".
"Ótimo..." — Respondeu com ironia, suspirando — "Jarvis, redirecione a energia de todos os propulsores para o Reator Arc! Já que esse palhaço me quer no chão, vamos ver o que ele acha do Unibeam".
"Realocando energia...” — Deu-se uma momentânea pausa até que a voz informativa de Jarvis ressurgisse — “Energia transferida com sucesso. Capacidade do Reator Arc em 200%"
"É isso aí, gracinha! Vem 'pro papai!"
Tony levantou, vendo o Rei do Crime — que sabidamente era um dos mafiosos mais poderosos de sua época —, caminhando até ele com o olhar fixo em seu alvo. O empresário preparou o reator que se ajustava bem no meio de seu peito, aguardando que toda a energia estivesse disponível àquele golpe. Uma explosão brilhante de luz cegou todos os presentes quando a energia foi drenada para além da armadura, lançando seu oponente para longe ao atingi-lo diretamente na altura do diafragma.
Víbora, alinhada atrás dele, foi jogada tanto pela força do golpe quanto pela velocidade com que o mafioso a atingiu, sendo esmagada entre ele e o concreto.
“Dois em um” — Tony comemorou, o tom de voz pouco surpreso soando quase arrogante — “Aposto que por esse bote a Víbora não esperava”
“Desempenho excelente, senhor!”
Após o ataque, uma fumaça sutil passou a subir do corpo enorme do criminoso, agora desacordado. Tony não pôde deixar de reparar que o Rei do Crime, ao se chocar na extremidade oposta do recinto e levar Víbora consigo, deformara o concreto com sua própria silhueta estupidamente grande. Tony, achando que se livrara de seu oponente, vislumbrou mais abertamente o conflito, procurando pelo aliado que mais precisasse de ajuda...
Foi quando a mão enorme do Rei do Crime pousou pesada em seu ombro, já recuperado do golpe. A outra mão se fechou num soco forte o bastante para abalar a consciência de Tony mesmo dentro da armadura.
Cabelo de Prata, trajando seu exoesqueleto ciborgue, travava uma batalha que ao seu ponto de vista estava totalmente desfavorável ao Capitão América, este pouco conseguindo rebater contra a resistência do exoesqueleto. O escudo protegia quase a totalidade de seu corpo agachado, porém o capitão perdia cada vez mais espaço em meio à luta, aguardando por uma brecha nas investidas do gângster para que pudesse revidar.
Nick Fury enfrentava o Barão, líder contra líder numa disputa que parecia quase infrutífera. O diretor da S.H.I.E.L.D., sem outros meios além de seu próprio revólver, sentia dificuldade em acertar o espadachim, que usava sua katana de forma formidável com o intuito de destruir os projéteis que vinham em sua direção. Dono de uma velocidade invejável, obteve sucesso em praticamente todas as balas destruídas, falhando apenas quando um dos fragmentos penetrou seu bíceps, mas o homem sequer pareceu notar.
"Laura certamente faria um trabalho bem melhor do que o meu aqui..." — Fury considerou, irritado. Jamais conhecera alguém tão habilidosa com o manejo de armas de fogo, e começava a se arrepender da decisão de afastá-la da luta. Ainda mais sem Hulk e Natasha no combate, membros valiosíssimos de sua equipe.
Caveira Vermelha se direcionava à Viúva Negra, vulnerável enquanto se mantinha disposta a não permitir que Bruce se transformasse no Hulk, sussurrando suavemente em seu ouvido sem se preocupar com mais nada à sua volta. O Gavião Arqueiro saiu da plataforma elevada em que estava, saltando com precisão entre Natasha e o nazista que buscava por um confronto facilitado, tão covarde quanto o holocausto que um dia ajudou a disseminar na comunidade judia.
— Esses dois não, meu chapa! — Avisou, usando a extremidade inferior de seu arco para golpear o grotesco crânio escarlate à sua frente, sentindo a mandíbula vermelha crepitar com a brutalidade do golpe.
●•●•●
A rigidez no corpo de Laura mostrava o estado tenso em que se encontrava ao testemunhar os rumos do embate. Apesar da preocupação que nutria por cada agente, sua atenção foi atraída para alguém que lhe era um completo estranho, cuja presença se manteve silenciosa.
Todos, completamente envolvidos com suas batalhas individuais, não se deram conta do homem que passava, sorrateiro, pela periferia da confusão. O cabelo de uma tonalidade bem peculiar entre o loiro platinado e o branco, as vestes caricatas parecendo fugir da realidade daquele mundo. O lábio inferior era dividido ao meio por uma risca preta, uma das tantas características que o fazia destoar da normalidade.
— Quem é esse infeliz? — Laura encostou brevemente na projeção do estranho homem, por um instante se esquecendo de que tocar perturbava a imagem — Será possível que ninguém vai perceber um híbrido de Justin Bieber e Lady Gaga caminhando por aí?
Loki não disse nada de imediato, porém havia um brilho de compreensão e reconhecimento em suas íris que mimetizava a enorme cobiça que o deus passou a sentir. A expressão inclusive dando a entender que o deus começava a compreender as razões por trás daquele inesperado ataque.
— Existe algo de valor imensurável aqui? Algo considerado... raro? — O deus voltou a atenção para a Pistoleira, a feição instigada, adornada por aquela esperteza tão típica e refinada que por vezes aparecia num lapso de sinceridade.
— Tudo aqui tem um valor alto... — Deu de ombros — A começar pelos equipamentos que são caríssimos.
— Não foi o que perguntei. Quero saber se aqui tem algo único, que vocês nunca viram em qualquer outro lugar e provavelmente sequer sabem como usá-lo ou qual utilidade possui.
Laura passou a encará-lo com desconfiança, os orbes semicerrados analisando-o com minúcia.
— Como você sabe? — Sussurrou a pergunta, como se as falsas imagens ainda em batalha pudessem ouvir a conversa.
— Este homem que se esgueira para longe da luta há muito tempo recebeu a alcunha de Colecionador. Ele busca artefatos raros e únicos ao longo dos reinos e galáxias, e toma para si na intenção de resguardar esses objetos em seu acervo. É provável que a própria batalha seja uma distração armada para que Tivan consiga o que quer.
Uma pontada de pânico atravessou a face da mulher, e sem se permitir pensar, ela segurou o punho de Loki com urgência, o breve toque criando no deus ondas de repúdio e irritante satisfação. Apenas uma humana afundada em tolice seria capaz de aproximar-se dele sem se envenenar pelo asco de suas origens. O mesmo asco que vislumbrou no olhar de cada asgardiano quando se mostrou como de fato era. O mesmo asco que invariavelmente se instalaria nos olhos de sua ninfa caso ela o visse sob sua forma jotun.
— Vem comigo! — Escancarou a porta, conduzindo-o pelos corredores da S.H.I.E.L.D. com pressa.
Travaram todo o caminho em silêncio, o deus atento ao rumo mais restrito que faziam e Laura compenetrada nas informações que Loki dera acerca do Colecionador, preocupada que não fosse capaz de proteger o objeto que estava há algum tempo sob os cuidados da S.H.I.E.L.D.
Preocupada, sobretudo, que algo potencialmente poderoso caísse em mãos erradas.
A Pistoleira o conduziu até um andar ainda mais subterrâneo do que era o costumeiro na instituição secreta, praticamente correndo agora que se aproximava de seu objetivo. Sentiu um frio na espinha ao ver que o dispositivo de segurança fora violado, a entrada para a sala de segurança máxima escancarada como uma afronta à tecnologia mais avançada do lugar.
Tivan, o Colecionador, passava os dedos de forma sonhadora por sobre um cetro que descansava num elegante suporte, a gema azul brilhando intensamente em sua extremidade superior enquanto murmúrios de "Bela" escapavam de seus lábios.
Laura retirou as pistolas do coldre, sem hesitar atirando uma bala próximo ao pé do invasor para chamar sua atenção, que ainda residia totalmente no cetro até aquele momento.
— Se afaste. Agora! — Alertou, ajustando a mira para a testa do homem, que virou um rosto surpreso em direção aos dois.
— Ora, não esperava por companhia tão cedo... — Comentou, tranquilo, sem se distanciar um único passo do cetro — Pretende usar isso contra mim, menina? Armas humanas nunca me assustaram, devo avisar.
— Bom, 'pra tudo tem uma primeira vez nessa vida, não é o que dizem? — Avançou com cautela programada, disposta a pressionar o gatilho assim que fosse preciso.
— Abaixe isso, humana. Ou você pode acabar se machucando.
— Não se preocupe comigo. O recuo da arma só é um problema relevante para leigos. O tiro, no entanto... — Sorriu, deixando a frase no ar.
— Se conseguir atingir o alvo pretensioso dessa mira, vai perder uma ótima oportunidade de entender o que este valioso item faz.
— Algo me diz que, de um jeito ou de outro, você só vai me enrolar. Foi mal, esquisito, 'tô sem tempo! — Disse, de fato disposta a atirar. As pistolas já destravadas se alinharam com mais firmeza à mão de Laura, e o indicador sobre cada gatilho chegou a se mover alguns milímetros antes que Loki interviesse.
— Espere um pouco mais! — Interrompeu a ação da Pistoleira, fitando o Colecionador com interesse vivo — Ele pode vir a ser útil.
— Não sei como, e acho que prefiro não arriscar. — Discordou, porém seu indicador se manteve inerte dessa vez, pesando a situação.
— Tivan possui o maior acervo de objetos que sua espécie consideraria dotados de magia. Por certo seria vantajoso tê-lo como um aliado.
— Não acho que uma aliança que começa com uma tentativa de roubo tenha muito futuro.
— Mas talvez seu líder ache — Rebateu, o sorriso dúbio crescendo em seu rosto quando percebeu Laura desfazer de leve a mira, realmente levando em conta aquelas palavras. Loki, com a expressão recomposta quando se colocou ao lado da mulher, prosseguiu — Vocês têm tido desavenças, e é notória a sua preocupação com elas. Entregar-lhe o Colecionador pode amenizar isso, e talvez até mesmo resgatar a confiança abalada de seu líder.
Laura o fitou de canto de olho, o brilho interessado nas íris escuras tão evidentes quanto fosse possível.
— Já basta. Eu tenho um horário apertado, senhores. Não posso gastá-lo como espectador de suas conjecturas. Com licença — Com um único movimento do punho, Tivan reduziu as duas pistolas de Laura a nada mais útil do que um punhado de cinzas, que escorreu por entre seus dedos. Laura olhou boquiaberta para a poeira que restara, manchando a palma de sua mão como um lembrete vergonhoso de sua falha.
Não satisfeito, o Colecionador disparou uma bola flamejante em direção aos dois, que voava rápida e certeira na direção de Laura, ainda mantendo o olhar chocado sobre as próprias mãos numa espécie de transe. Loki a envolveu com os braços, afastando-a do perigo e sentindo-a despertar para a realidade.
— Eu posso derrotá-lo, se me der o cetro! — Sussurrou num tom sedutor, ainda protegendo sua ninfa com o próprio corpo.
— Que conveniente... — Replicou, desconfiada, porém sua fala foi cortada pela nova investida de Tivan, o corpo atingido do jotun cambaleando sobre o seu e o protegendo do impacto — Loki! — Seu peito se apertou ao ver a dor concentrada naquele rosto que lhe significava tanto, fazendo a Pistoleira entender que o objeto, invariavelmente, acabaria em posse de um dos dois. Cabia a ela escolher a quem.
Laura se esgueirou para além dos braços de Loki, ficando entre ele e o Colecionador.
— Chega. Eu te dou esse pedaço de pau, se é um item tão indispensável 'pra sua coleção de merda! — Falou, percebendo a postura de Tivan abandonar o ataque e adotar um tom mais permissivo, disposto a ouvir. Loki, ainda agachado, virou-se na direção de Laura, estudando todos os movimentos da mulher.
A Pistoleira desativou toda a barreira de segurança que rodeava o cetro, incidindo um rápido olhar significativo para o deus da trapaça, que anuiu de leve. O Colecionador nada percebeu, sua atenção completamente vidrada no poderoso objeto que logo lhe pertenceria.
A mulher retirou o cetro de seu suporte, encarando sua grandeza com solenidade enquanto virava o corpo devagar na direção de Tivan. Os olhos extasiados do homem acompanharam o movimento, porém no último segundo Laura girou velozmente o corpo, atirando o cetro na direção de Loki, que preparado para aquilo o pegou no ar.
O Colecionador projetou o corpo para frente, um "Não" sonoro escapando por seus lábios à medida que os braços se erguiam, inúteis, como se pudesse alcançar o cetro com aquele gesto instintivo e desesperado.
O deus da trapaça ergueu-se, quase soberbo em sua postura elegante, segurando o cetro com tanta naturalidade como se o objeto fizesse parte de uma extensão de seu corpo. Loki conjurou uma forte geada no recinto, e imediatamente flocos de neve fizeram com que a temperatura caísse vários graus de um segundo a outro. Laura tremeu, vestida apenas com um jeans leve e uma regata, o desconcertante frio cortando sua pele de súbito.
Loki virou o rosto para ela, e a expressão de Laura foi tomada por uma surpresa genuína. A pele do deus estava tingida por um tom azul escuro e envolvida por pequenas vênulas saltadas em alto relevo. Seus olhos completamente tomados por uma vermelhidão atípica.
— Saia daqui! — Ordenou, uma pontada de amargura nas íris rubras pela forma com que Laura o encarava agora que verdadeiramente o via — Você não vai suportar o gelo. Saia! — Repetiu, o corpo trêmulo antes inerte finalmente tomando a atitude de se afastar. Antes que Laura saísse, lançou um último olhar duvidoso ao jotun, porém não mostrou resistência e, embora fosse visível que tencionava falar algo, partiu, seu corpo humano e frágil incapaz de suportar aquele frio por muito mais tempo.
Assim que Laura se ausentou, o cenário ao redor de Loki perdeu todo o dinamismo. A neve parou. O Colecionador, agora de expressão apática não movia um único músculo, totalmente alheio ao cetro. O jotun foi caminhando lentamente em sua direção, retomando sua aparência pálida enquanto o fazia. Os olhos foram os últimos a deixar para trás o rastro jotun.
Ficou frente a frente com Tivan, que não mudara em nada sua nova postura quase entediada. Loki o rodeou, um meio sorriso fechado e leve incidindo em seu rosto enquanto se permitia saborear aquele momento.
Com um gesto sutil da mão, desfez a ilusão que criara do Colecionador, e a projeção de Tivan desapareceu com a mesma rapidez com que Loki a fizera surgir. Dedicou-se a admirar a joia do infinito que se alojava com elegância no topo do cetro, e a visão o fez sorrir largamente.
Mas seu sorriso não era de todo vitorioso. Havia um traço quase imperceptível de amargor...
...Era ínfimo, diminuto, mas estava ali, transbordando significado.
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