Orlög

3 The Cold Never Bothered Me Anyway!


Notas iniciais
Eu realmente não pude resistir a esse título! hesuheushe Entendedores entenderão xP As minhas mais felizes boas vindas às leitoras Becca, Sattnin e GabrielaJ4479! Muito obrigada por se manifestarem, suas lindonas! *-* Espero que continuem acompanhando, gostando e comentando, que review nunca é demais nessa vida xP

Estava cercado apenas por névoas.

Perdido na escuridão soturna da noite, o garoto vagava sem muita expectativa do que exatamente procurava em sua incansável caminhada. Sua limitada visão seguia o mesmo padrão brumoso do ambiente desconhecido que o rodeava naquele padrão de tediosa cegueira. Sua óptica nada era capaz de captar como estímulo sensitivo, porém o pequeno garoto permanecia prosseguindo em sua solitária expedição, as encurtadas pernas vencendo distância no ambiente misterioso quase como um trabalho mecânico e impensado.

Contudo, por mais que sua visão permanecesse cega ao mundo, um delicioso odor úmido provindo da névoa invadia suas narinas de forma prazerosa, como se de fato reconhecesse um antigo lar apenas por aquele inebriante aroma. E havia também o tato, fortemente estimulado pelo ar gélido que tocava sua pele de forma gentil, em lufadas revigorantes que traziam verdadeiro conforto ao menino, enquanto que a outros certamente traria apenas a frigidez glacial naquela madrugada atípica.

Notou que seus pés pisavam em estruturas extremamente rígidas e irregulares, e sua incapacidade de encarar o ambiente através do nebuloso e denso nevoeiro o impediu de entender em que tipo de terreno caminhava.

Loki sentiu que, aos poucos, a névoa finalmente começava a ceder e se dispersar na imensidão da atmosfera, restando apenas o vislumbre de um enorme império todo erguido de gelo, frio e infertilidade. Pôde finalmente observar um limitado vislumbre dos detalhes do amplo espaço em que se encontrava, e por mais incauta que fossem suas ações, o pequeno deus mantinha viva a curiosidade de explorar aquele cenário devastado por constantes nevascas e invariavelmente queimado pelo gelo que o cobria em totalidade...

...E de certo ângulo, aquele lugar lhe parecia incrivelmente familiar.

Deu novo vigor a seus passos, despistando um pouco mais a bruma que apenas ficava para trás à medida que o pequeno príncipe vencia distância por entre o alvo ambiente, apenas agora capaz de perceber que, em contraste à cândida cor do gelo, havia também o vívido rubro descendo em filetes sobre a neve, como um agouro sangrento daquilo que já fora, mas que Loki apenas agora era capaz de ver.

Por fim não havia mais nada que turvasse sua visão e, para o intenso horror do menino, este percebeu que seus pés não caminhavam acima de neve (ou estalagmites, como achou mais provável), mas sim dos corpos sem vida de incontáveis Gigantes de Gelo, todos mortos servindo de carpete à passagem de seu pequeno suserano.

Loki afastou-se com rapidez o melhor que pôde dos cadáveres, sempre esbarrando em novos corpos daqueles que descobriria ser de sua espécie, um grito do mais intenso pavor se propagando para além de seus pulmões comprimidos por aquela visão, agora perfeitamente nítida. E não foi pelo cortante frio que o menino arfou, mas sim pelo incalculável medo que corria por suas veias agora congeladas por intenso pavor.

Contabilizar os mortos parecia uma tarefa impraticável naquela necrópole que mais parecia a própria ascensão de Hel. E o seu susto foi igualmente grande quando se deu conta do par de olhos faiscantes e escarlates que, bem vivos, o encarava com intensidade focada.

— O bom filho a casa torna... — O Gigante de Gelo disse, abrindo um sorriso ambíguo e assustador ao pequeno menino, que não pôde evitar encolher-se — Aproxime-se, Loki, filho de Laufey! Chegue mais perto, e vislumbre do topo em que me encontro a extensão de toda uma raça à beira da extinção...

Seus olhos infantis imediatamente se apertaram numa linha duvidosa, na tentativa de parecer ameaçador, porém apenas confuso e repleto dos mais profundos receios ao encarar aquela criatura que era tão hostilizada pelas histórias de seu pai, Odin.

“Odin, e não Laufey, como diz essa aberração dos Nove Reinos!” — Pensou, a irritação ganhando um pouco do espaço que antes era completamente ocupado pelo medo.

— Como eu vim parar aqui, Jotun? — Ficou feliz ao ver que sua voz soou firme e com a pitada do asco programado, e de algum modo aquele simples fato fez crescer sua coragem — É bom que tenha uma explicação satisfatória guardada a Odin! O Pai-de-Todos certamente não reservará nenhum tipo de benevolência ao sequestrador de seu filho! — Advertiu, admirado com a própria ousadia que camuflava o terror que sentia por dentro.

O Jotun gargalhou fartamente, inclinando a cabeça para trás como se chegasse a sofrer com a involuntária crise de riso.

— Mal saiu do seio de tua mãe, Loki, e já tem a arrogância de Asgard fluindo em teu sangue de gelo?

— Que quer dizer com isso? — Questionou sem muita vontade de prolongar aquela estranha conversa, aproximando-se mais alguns passos do único Gigante de Gelo aparentemente saudável e bem vivo naquelas mórbidas montanhas.

— O que acha que eu tenciono dizer? — Provocou, abrindo mais uma vez aquele desconcertante sorriso cheio de malícia e em nada alegre — Diga-me você, Loki. Quantas vezes já sentiu fazer parte da família que chama de sua? Quantas vezes os seus mais promissores feitos foram dignos de ser comparados às paspalhices de Thor? Quantas vezes Odin trocou o orgulho que esbanja ao olhar para o primogênito pela mal disfarçada repulsa ao olhar para ti?

O menino estancou, profundamente ferido pelas palavras que nunca fora capaz de verbalizar em alto e bom som, e que agora serpeavam, venenosas, como acusações desinteressadas daquele mero estranho.

O Gigante de Gelo pareceu sumariamente satisfeito com a reação que conseguira extrair, e no mesmo tom de voz impassível, prosseguiu:

— Não me diga que de fato nutre esperanças pelo trono de Asgard, Jotun? — Perguntou, utilizando-se do mesmo tom pejorativo empregado por Loki — Acha mesmo que Odin o daria a você ao invés do filho legítimo?

— Eu nasci para reinar tanto quanto Thor! — Loki repetiu antigas palavras de Odin, o garoto indignado com a insolência daquele insignificante ser, que lhe falava apenas palavras cruentas e sem sentido.

— De fato nasceu, e essa foi a única verdade que Odin se dignou a lhe contar. O Pai-de-Todos apenas se esqueceu de mencionar que seu trono é feito de gelo, não de ouro — Ao perceber a expressão ainda confusa e desacreditada do garoto, Laufey estreitou seus desconcertantes olhos rubros, tão rubros quanto o sangue que brotava dos corpos caídos, fitando o rapaz com crueldade impassível — Se minhas palavras lhe soam indignas, dê uma olhada em si, Loki, e admire sua verdadeira essência.

O pequeno garoto, ainda relanceando um último olhar desconfiado ao corpulento jotun, por fim cedeu e passou a vislumbrar-se como verdadeiramente era. O coração infantil em seu peito acelerou ainda mais assim que notou a incongruência de seu aspecto. A pele, tingida no exato tom azul do Gigante de Gelo que o observava com uma sugestão de sorriso, arrepiou-se por pura e simples surpresa. Pequenos fios se projetavam em alto relevo de sua epiderme, formando elaborados desenhos na imensidão cerúlea de seu corpo. O rapaz sentiu o enorme peso de todos os anos de desprezo de Odin pesarem em seu peito, afinal entendendo numa abrupta compreensão o doloroso favoritismo do Pai-de-Todos por Thor, seu único filho legítimo...

“...Seu único e autêntico herdeiro!”

— Ainda é de seu desejo que eu me ajoelhe perante o príncipe de Asgard? — Laufey riu maldosamente, seus finos lábios arreganhados parecendo divertir-se com a aflição do filho — Precisa de mais explicações sobre sua origem, Loki, meu desgarrado filho? Já é tempo de despertar desse conto de fadas que não te pertence! Acorde, Laufeyson, e venha de encontro ao único reino que um dia caberá a você reinar — O Gigante disse, abrindo convidativamente os braços em direção aos súditos mortos que ocupavam a imensidão gelada de Jotunheim, cobrindo a espessa neve alva com seus próprios corpos cianóticos e desfalecidos, o sangue em seus olhares abertos e vazios, todos encarando o pequeno menino com indiscutível malícia mórbida.

Até que seu rosto corado em intenso azul perdeu-se no foco, dando passagem a uma névoa ainda mais densa do que a anterior, encobrindo a totalidade do cenário e transformando-o por completo numa única e desconcertante imagem. Traços femininos que Loki jamais vira foram delineados num breve segundo, chamando a atenção do menino pela expressividade intensa de sua feição. A pele continha o tom ébano das mais profundas noites asgardianas, e os olhos carregavam o brilho de todas as suas constelações. A misteriosa mulher o fitava com incrível ardor, de tal modo que o pequeno não pôde suportar sustentar o profundo olhar que lhe era direcionado. Abaixou a cabeça, vislumbrando mais uma vez sua verdadeira condição de Jotun ao pousar a atenção em sua pele índiga, e o profundo asco de sua condição o dominou.

No sonho, os olhos do menino se cerraram em aversão, porém abriram-se, desconexos, para a vil realidade.

O coração de Loki manteve-se severamente acelerado mesmo após despertar da desconcertante visão. A respiração, taquipneica, emanava ruídos arrítmicos conforme seu peito oscilava em compassos disformes. Recordou-se, então, da brincadeira inocente com seu irmão que o levou a vislumbrar pela primeira vez sua verdadeira forma de gelo.

“Isso fez parte do sonho, ou foi real? Devo continuar chamando Thor de irmão?” — sentou-se, notando cada músculo de seu corpo imaturo tremer sob um suor gelado em sua rigidez, cobrindo-o como os presságios álgidos de sua verdadeira origem.

Deixou para trás o aposento quase numa corrida desenfreada e desesperada, de repente sentindo-se extremamente claustrofóbico nas dependências do palácio. A cada passo percebia que sua velocidade aumentava, e a urgência de sair dali tornava-se cada vez mais vigente e imperiosa. De tempos em tempos um olhar relanceava para a tonalidade de sua pele, como se temesse encontrar em si a mesma coloração azulada que o enchera de terror mais cedo, num crepúsculo que lhe pareceu inofensivo a princípio, mas que chegou com a promessa de grandes e definitivas... Mudanças! Os ventos agora ameaçavam soprar noutras direções.

Loki manteve seu avanço furtivo e rápido pela nobre morada real, até que se obrigou a frear seu ritmo ao perceber os guardas fortemente paramentados que vigiavam a entrada do palácio, os semblantes rigorosos e robustos dando uma ênfase mal-humorada às suas vigílias.

O menino, sem sequer pesar as consequências que poderiam advir de seus atos caso sua trapaça fosse descoberta, concentrou-se como nunca em seu poder ilusionista, projetando em si uma imagem totalmente oposta ao que o pequeno deus de fato era; sua altura quase triplicou ao comando de seu poder, as mechas antes tão negras quanto as asas resplandecentes de Huginn e Muninn — os corvos do Pai-de-Todos — agora atingindo um tom peculiarmente alvo, assim como a farta barba que logo cresceu ao longo de sua mandíbula. Músculos e peitorais se alargaram de súbito, e o tapa-olho dourado agora preso em seu olho direito foi adornado por várias rugas numa imitação notável do Pai-de-Todos.

Loki, disfarçado de Odin, avançou com mais cautela para perto da Guarda Real, sentindo intensa dificuldade de manter o contato visual enquanto percebia os mais hábeis guerreiros de seu pai franzirem o cenho, emoldurado pelo dourado elmo, ao encará-lo. Permaneceram resolutos enquanto o ardil príncipe se aproximava, paramentado de rei, a passos decididos, e apenas quando Loki cogitou correr para o lado oposto ao julgar que sua réplica não ficara convincente, os guardas baixaram o olhar, submissos.

— Sua Graça... — Curvaram-se, fornecendo passiva passagem ao rapaz que erroneamente acharam ser Odin.

Loki atravessou o espaço entre eles sem nada dizer, sem nem mesmo conseguir sentir-se vitorioso pelo seu admirável feito de se passar pelo imponente monarca, e logo que se viu para além dos domínios do palácio, novamente voltou a ser o desconcertado e franzino menino de lacrimejantes olhos verdes, que apenas queria o seu espaço naquele reino que, aparentemente, era grande demais para ele.

Ajoelhou-se sobre a macia e espessa neve que agora se estendia por todo o reino de Asgard, tremendo mais de ansiedade do que de frio ao despir-se por completo em meio à frígida tempestade de neve que marcava aquela madrugada. Jogou suas roupas para o lado até que não sobrasse mais nenhuma peça cobrindo sua pálida pele, esfregando em seguida generosas porções de neve sobre o seu diminuto corpo, esperando mais do que tudo estar equivocado em suas conjecturas...

...Até que a esperança tornou-se um profundo e infeliz rancor ao ver que novamente sua pele mudava de cor num contato íntimo com o frio. O azul tornou a invadi-lo, indiferente ao sofrimento e confusão do atormentado menino, aquele mero instante moldando perigosamente os destinos dos Nove Reinos.

Loki soltou um grito despedaçado, ainda solitário e de joelhos na imensidão desértica daquele opressivo cenário. Lágrimas embaçaram seus rubros olhos, encharcando-os com suas mais singelas decepções, e a imensa dor que se instalou em seu peito naquele instante, logo se tornou o mais indolente rancor, alimentando seus dias vindouros apenas com ressentimentos, que não tardou a tornar-se ódio.

E, daquele dia em diante, após receber essa primeira visão profética enviada pelo Orlög, todos os seus sonhos foram preenchidos pela mesma imagem emblemática da mulher de acentuadas íris, incrivelmente expressivas. Nos planos oníricos de seus mais profundos sonhos, ela apenas lhe aparecia, sem nada a dizer, acrescentando ainda mais questionamentos ao interminável acervo de perguntas de Loki...

...Todas elas ainda sem respostas.

Porque o Orlög jamais se dignaria a respondê-las, agindo dentro de seus métodos mais escusos a fim de delinear seus propósitos, igualmente enigmáticos.

Notas finais
Pessoal, é MUITO provável que eu acabe demorando a responder os reviews de vocês, porque estou sem internet no momento e abusando do wi-fi alheio, mas assim que puder eu responderei a todos com um sorriso maior do que o do Coringa x) Espero que tenham curtido o capítulo, suas lindas, e que me contem o que acharam!!! Beijos, beijos! ;*