Orlög

18 The Answer, My Friend, Is Blowin' In The Wind


Notas iniciais
Olá, minhas lindas guerreiras que ainda têm paciência de me esperar por aqui! xD Espero que todas estejam muito bem, e olha só, dessa vez até que eu nem demorei tanto assim. Podemos agradecer essa maior rapidez à infecção urinária que peguei, e que me fez ficar de molho em casa por causa do tratamento que está me rendendo altos efeitos colaterais, ó que bacana (espero que ninguém saia torcendo pra eu ter mais infecções e aumentar a frequência dos capítulos, por favor, hahahahaha)! ^^' Mas enfim, vamos ao que interessa aqui! Essa postagem é dedicada à leitora Mah, que comentou nos 6 primeiros capítulos! Espero que se anime a continuar lendo, gata, E SEJA MUITO BEM VINDA A ESSA JOÇA! ♥ Já vou avisando que o capítulo tá paradão, mores. O momento pede um desenvolvimento dos personagens, e não da trama em si (convenhamos, o 17 teve ação por esses dois :v). De qualquer forma, espero que gostem! Eu o achei muito necessário, de verdade! Beijooos, e boa leitura ;)

“Yes, and how many years can a mountain exist

Before it's washed to the sea

Yes, and how many years can some people exist

Before they're allowed to be free?

Yes, and how many times can a man turn his head

And pretend that he just doesn't see?

The answer, my friend, is blowin' in the wind

The answer is blowin' in the wind”

(Blowin' In The Wind — Bob Dylan)

Houve um estrondo.

Apenas um. Um único estampido incisivo e potente, veloz, porém que se repetiu num eco incessante através dos domínios perturbados da mente de Laura. Estranhamente, o resquício daquele som parecia ganhar potência ao invés de, aos poucos, ir se esvaindo rumo ao silêncio.

O tipo de som que Laura estava perfeitamente habituada em seus dias, mas que hoje soava diferente. Errado, de alguma forma. Um tanto díspar daquilo que conhecida.

A cena em si pareceu prosseguir numa rapidez incoerente, cheia de conflitos em seu desenrolar. Entretanto, uma controversa e estranha lentidão se estendeu aos movimentos da habilidosa Pistoleira, impedindo-a de agir a tempo. Tornou-se uma espectadora da própria incapacidade.

Completamente estática, presa por nada além de suas limitações naquelas circunstâncias.

Parecia ainda processar a situação quando uma mistura de sangue e massa encefálica tingiu a argamassa atrás do corpo que agora tombava, desfalecido. A mulher de meia idade caiu sentada, desenhando um rastro rubro e viscoso atrás de si conforme traçava aquele curso. Lento. Rápido. Uma percepção que, de alguma forma, abrangia aquelas duas sensações controversas do passar do tempo. A arma que Cristina Delgado acabara de usar para tirar a própria vida pendeu, ainda sustentada de forma precária pelo indicador que se inseria no gatilho. Frouxo, assim como todo o seu corpo desprovido de vitalidade.

Morto, tal qual sua alma já se mostrava há tempos.

Laura olhou para o lado, atentando-se agora ao cadáver de Ramirez, também sem nenhum resquício da vida tirada. A poça de seu sangue se estendia mais larga para além do maxilar estourado, e mesmo diante daquela cena que não permitia quaisquer dúvidas sobre o estado do traficante, a mulher teve alguma dificuldade em acreditar que o maior monstro de sua infância finalmente se fora, de uma maneira definitiva. Tudo aconteceu num ritmo muito veloz, ou muito arrastado. Não sabia dizer. Sequer sabia sentir.

Ajoelhou-se ao lado da mulher que tão porcamente a criara durante os primeiros anos de sua infância, incapaz de entender o que se passava dentro de si ou mesmo as emoções que queriam se alimentar daquele momento. Ajeitou alguns fios que, com o impacto do tiro, colocaram-se sobre os olhos bem abertos da suicida, as íris já vazias de tudo ainda mirando Laura como se tencionasse observar a filha mesmo após a morte.

Olhos que acusavam, ainda que aprisionados no vácuo de seu contemplar.

— Mãe... — A Pistoleira murmurou sem perceber, quase como se a convidasse a despertar de um sono muito profundo. Havia um vinco confuso marcando o centro entre as sobrancelhas da jovem mulher, experimentando verdadeira dificuldade em processar cada detalhe do que acabara de ocorrer diante de si.

“Foi ela. Ela matou Ramirez. E depois...” — A lembrança recente da cabeça de Cristina sendo detonada por ordem de suas próprias mãos veio terminar o pensamento inacabado de Laura, que ainda provava a plena confusão.

Algo tão diferente dos seus sentidos límpidos de pistoleira.

“Por que ainda me olha assim?” — Não compreendeu a carga pesada daquelas íris, traduzindo-a como se a mãe a condenasse de alguma forma. Talvez culpando-a por seu brusco fim, ou até mesmo pela vida miserável que teve.

— A culpa foi sua... — Defendeu-se num tom extremamente baixo, parecendo ela mesma não acreditar em plenitude no que dizia — Eu era só uma criança... Luisa era só um bebê...

Fitou-a com indignação, realmente à espera de uma resposta digna à pergunta que mentalizou logo em seguida.

“O que você esperava que a gente fizesse?”

— Devemos partir. — Uma voz externa, aveludada, chegou aos seus ouvidos parecendo vir de muito longe. Laura esforçou-se para tentar procurar o autor daquele aviso contido, mas simplesmente não conseguiu desviar a atenção do olhar morto de sua mãe. Percebia-se hipnotizada pela carga que eles emitiam, mesmo destituídos de vida.

Tentou encontrar alguma diferença notória nos orbes de agora da mãe para quando eles ainda pertenciam a uma pessoa viva, mas simplesmente não encontrou nenhuma. Parecia que Cristina Delgado já viera ao mundo com o exato olhar morto que seu corpo ostentava, e esse entendimento veio a Laura como um de seus piores choques.

Cristina já estava morta antes mesmo de desfalecer.

Laura manteve-se naquela mesma posição por um tempo que não soube calcular. Os segundos podiam muito bem ser traduzidos em longos minutos, talvez até difundidos em horas, e nada disso parecia realmente importante. Nada. Nem mesmo seus instintos afiados de pistoleira, que numa situação que estivesse minimamente sob seu controle, a faria sair dali o quanto antes.

Reagiu apenas ao sentir o toque incerto sobre seu ombro, e num surto de terror achou se tratar de Ramirez. Num impulso finalmente digno de suas habilidades, tomou o revólver do cadáver de sua mãe e virou rapidamente o corpo na direção em que sentira o contato, já preparada para atirar, quando reconheceu o homem que trouxera junto consigo naquela viagem.

O semblante do deus tentava camuflar o próprio abalo, esforçando-se demais para demonstrar a frieza que seus verdes olhos desmentiam. Laura abaixou a arma devagar, os orbes ainda confusos agora tratando de analisar o jotun.

“Loki... Há quanto tempo ele ficou aí, me encarando?” — Questionou-se, quase chegando a se incomodar com aquela exposição. Focada, contudo, em tentar descobrir como não percebera o deus da trapaça se aproximar. Lembrou apenas que ouvira uma voz, mas nem disso tinha certeza.

— Não podemos permanecer aqui se não quisermos chamar ainda mais atenção para nós. — Ele ratificou, tentando soar distante e alheio ao sofrimento que percebia na midgardiana. Sua semideusa, formada do mais resistente ébano, que naquele instante ameaçava quebrar. A musa que ele jamais quis possuir, mas que o Orlög lhe impusera desde que não passava de um menino vivendo as injustiças do palácio dourado.

Tal comentário pareceu finalmente despertá-la para o que ocorria. Só então Laura ergueu-se do chão, o peso do revólver finalmente bem ajeitado sobre sua palma esquerda. Passos apressados se aproximavam dali, e a Pistoleira tratou de buscar também a arma de Ramirez.

— Tarde demais. — A humana disse com alguma gravidade na voz, os olhos de águia já focados no embate que viria a seguir. Posicionada à frente da porta, parecia preparar-se para a missão mais importante de sua vida — Deixa comigo. Isso não vai demorar. — Anunciou, sucinta, alongando brevemente os ombros.

Homens que Laura julgou serem capangas de Ramirez foram atraídos pelos tiros disparados por Cristina, e vinham forçar a filha a disparar mais alguns. Cerca de dez deles escancarou a entrada, fazendo um estardalhaço estúpido e amador de sua chegada. Jogando fora a única vantagem real que poderiam ter contra a mulher; um ataque surpresa. Antes mesmo que a porta se abrisse por completo, o primeiro homem já estava caído no chão, sem ao menos dispor de tempo para empunhar sua arma. Do exato centro de seus olhos, o sangue jorrava por onde o projétil havia penetrado.

Os companheiros mal tiveram chance de se espantar com a rapidez e precisão da mulher, e mais três homens foram atingidos exatamente no mesmo local em disparos sucessivos. Sem se permitir um único erro na mira, apesar do corpo que tremia contra a sua vontade.

Antes que conseguissem adentrar o local, metade dos capangas já havia sido abatida, amontoando-se na entrada e atrapalhando o avanço dos demais. Como se acordassem para a importante baixa que sofriam, ergueram suas pistolas e fizeram coro ao barulho de tiros, estes completamente sem jeito, tamanho o despreparo intensificado pelo ataque inesperado.

Um dos disparos, contudo, passou zumbindo perto demais do ouvido da mulher, e uma fúria incontida se apossou de si.

— Filho da puta! — Rosnou, dando ainda mais entusiasmo às suas investidas à prova de erros. Todos foram caindo, um a um, a cada estrondo que saía de seu revólver, até que restasse apenas o homem que quase a acertara, estático e temeroso quando percebeu a mira do cano sobre si.

— ¿Quién es usted? — Ele inquiriu de mãos rendidas, ainda sem acreditar que a mulher, sozinha e em não mais do que alguns poucos segundos, matara cada um de seus companheiros, sem desperdiçar uma única munição num tiro equivocado. Todas certeiras, seguindo o trajeto de uma pontaria impecável.

— La Pistolera, puto.* — Respondeu com frieza, pela última vez apertando o gatilho.

Como todos os outros, o homem foi abatido com o novo buraco que se destacava entre o exato centro de seus olhos, para sempre cerrados. Assim como os de Ramirez.

De volta ao automóvel alugado, Laura hesitava em dar a partida. O motor já roncava, porém sem sair do lugar. Sem ousar qualquer contato visual com o deus da trapaça, finalmente quebrou o silêncio pesado.

— Sei que o plano era nos colocar a caminho da S.H.I.E.L.D. assim que meu assunto acabasse, mas não posso fazer isso ainda. Vamos passar o resto do dia por aqui, e amanhã cedo a gente volta. — Aquilo não foi exatamente um pedido, mas ainda assim Loki anuiu de leve, apesar de pouco agradado em atrasar um pouco mais seu retorno a Asgard.

O jotun aproveitou para estudar Laura mais abertamente do que costumava fazer, desprovido de suas maiores reservas agora que a humana se demonstrava um tanto distante e desinteressada daquilo que a rodeava. Mais introspectiva, sem espaço para suas recorrentes troças e falas incoerentes. Loki ajudou a alimentar o silêncio que os separava enquanto a carruagem midgardiana vencia distância pelas ruas de estranho — e desagradável — pavimento, maldizendo-se por não conseguir transpor essa falsa calmaria à sua mente. Maldizendo-se, ainda mais, pelo confronto interno de saber que ela, uma midgardiana que sequer deveria representar algum valor para si, conseguia atingi-lo num nível que Loki jamais julgou ser possível.

Nem mesmo munido de toda sua inteligência ímpar, fora capaz de considerar viver aquela adversidade.

Por mais que a humana o irritasse de todas as formas imagináveis quando em seu estado natural, nada poderia ser mais incômodo do que percebê-la tão frágil quanto agora. Tão destruída, assim como a visão que teve da menina abusada e indefesa.

Loki desviou o olhar para a paisagem, raivoso.

Jamais aceitaria de bom grado a percepção de que se envolvia tanto com o destino de uma mera mortal. Não importava o quanto lutasse contra aquela fraqueza, ela fazia questão de se pronunciar em si com cada vez mais ênfase à medida que dava o seu melhor para sufocá-la...

...À medida que, em vão, tentava se convencer de que Laura não passava de uma peça qualquer dentro da estratégia de seus ousados planos. Que a percebia como uma humana sem valor ao invés da semideusa astuta e valiosa que ela já comprovara ser.

Da mulher que, muito antes de nascer, já vinha em seu consolo por algum ardil do destino. Para enredá-lo com firmeza nas trapaças já delineadas daquilo que conhecia como Orlög — a força suprema e inquebrável que conduzia os passos de todos ao rumo daquilo que desejava.

E que, agora, o tornava um ser inerme, assim como os habitantes daquele reino dominado pelas mais esdrúxulas limitações humanas.

Irritou-se numa fúria extrema consigo ao se perceber espreitando um pouco mais a apatia da mulher, chegando a ansiar pela volta de sua inconveniência irritante.

“Quando puder usufruir de minha vingança em plenitude, nenhuma dessas trivialidades importará mais...” — O deus da trapaça tentou convencer-se, ignorando por completo o quanto aquele pensamento lhe pareceu errado e tolo. Quase tão estúpido quanto uma fala saída da mente de Thor no auge de sua boçalidade.

Resolveu repassar os detalhes estratégicos de quando retornasse a Asgard, focando-se nos aspectos já bem definidos de suas ações assim que retornasse ao lar dos deuses. O momento de sua retaliação estava cada vez mais próximo, e por mais que já houvesse considerado cada detalhe, dedicar algum tempo refletindo sobre não faria mal, e ainda o tiraria daquele ciclo patético de considerações sobre a humana.

Contudo, por mais que se esforçasse naquele novo foco, sempre acabava retornando à questão que verdadeiramente o absorvia.

Laura.

A Pistoleira imbicou o carro no primeiro estabelecimento que encontrou destinado à hospedagem. Só então reparou tratar-se de um motel, algo que em outras circunstâncias logo atiçaria sua vontade em provocá-lo. Mas não hoje. No momento não possuía nenhum tipo de força capaz de arrancá-la daquela inércia que apenas prometia consumi-la em tristezas e arrependimentos. Sensações essas que sequer conseguia entender em plenitude.

Sem muita noção ou interesse pelo que fazia, cuidou das pequenas burocracias necessárias à hospedagem, apenas querendo que aquela breve interação com o desconhecido balconista terminasse o quanto antes. Estava distante, alheia do ambiente à sua volta, e em conjunto com toda a confusão isso a incomodava profundamente. Uma pistoleira jamais deveria cair naquele erro, e tal percepção apenas aumentava sua necessidade de se isolar o quanto pudesse. Até que conseguisse, ao menos, forçar-se a agir com mais cautela.

Aquela angústia seria passageira, Laura compreendia. Em sua vida, apesar de jovem, já se deparara com dores incuráveis, e sabia reconhecê-las.

Só não estava preparada para seguir em frente ainda. Ou mesmo encarar as pessoas que amava.

Conseguia sentir os olhos verdes de Loki sobre si, um pouco questionadores e reflexivos, quando finalmente se puseram a caminho do quarto. Gostaria de saber o que se passava na mente do deus, mas não estava interessada o suficiente para perscrutar seus pensamentos sempre misteriosos. Mal conseguia compreender os seus próprios, que dirá os do emblemático ser mitológico.

Quase teve vontade de soltar um riso irônico ao se deparar com o quarto que por aquela noite compartilhariam. A tinta vermelha desbotada tentava dar um ar sedutor ao local, mas apenas evidenciava a falta de manutenção da pintura. A cama redonda bem no centro do recinto parecia velha demais. Quando ligou o interruptor, o quarto iluminou-se parcialmente por uma luz também vermelha — que falhou brevemente antes que se firmasse — fazendo Laura revirar os olhos diante daquele cenário exagerado.

— As preferências midigardianas são mesmo excêntricas... — O deus da trapaça comentou, ligeiramente aborrecido pelo sólido desejo de retirar de sua ninfa qualquer reação que não consistisse naquela apatia. Qualquer espectro de sua verdadeira personalidade, por menor que fosse...

...De amainar aquele olhar perdido, ainda que não soubesse como. Sabendo que o seu provavelmente deveria aparentar sentimento semelhante. Mesmo contando com os milhares de anos que já vivera, jamais chegou a encontrar algum resquício de conforto para suas próprias dores, por mínimo que fosse. Tentar fazê-lo com Laura o deixava ainda mais confuso, frustrado e quase furioso por aquela necessidade se manifestando com tamanha avidez em seu âmago.

Mais forte até mesmo do que suas mais fracassadas tentativas em superar-se. Em tornar-se indiferente à criação problemática que teve.

— Sou obrigada a admitir... — Ela lhe relanceou um olhar que não parecia seu, desprovido daquele brilho vívido e esperto que de forma tão ilógica o irritava e instigava — Mas alguns são mais extravagantes do que outros, ainda bem. — Voltou o olhar para a única parte do quarto que de fato despertou seu interesse raso. Uma discreta varanda, que logo ocupou-se em abrir.

Respirou fundo o ar da noite, acomodando as pernas em forma indiana sobre o próprio chão e permitindo-se vislumbrar o céu de poucas estrelas. Nuvens grossas e carregadas as escondiam, acinzentando um pouco o negrume celeste.

— Deveria tentar dormir. — O asgardiano novamente tentou, sentindo-se ainda mais tolo do que o próprio deus do trovão. Ainda pior do que perceber sua necessidade em curar o que parecia quebrado na humana, era testemunhá-la naquele estado...

...Era compreender que não detinha os meios para confortá-la.

— Deveria... — Ela concordou num tom monocórdio, contudo sequer se moveu. Ficou ali, sentada, vislumbrando um horizonte que apenas contribuía para reavivar suas piores lembranças.

Percebeu Loki desistir de suas poucas tentativas, e mais do que tudo queria ser capaz de exteriorizar alguma gratidão pelo tom ligeiramente preocupado que achou ouvir em sua voz, mas simplesmente não tinha nada a oferecer agora. Talvez mais tarde, quando conseguisse recobrar algo de si.

Perdeu um pouco da noção das horas à medida que se deixava conduzir pelas próprias recordações e conjecturas. Apenas percebeu que Loki havia se recolhido um bom tempo depois, quando ouviu o ressonar baixo e rítmico de sua respiração. Seus músculos relaxaram no mesmo instante, aliviada por saber que ele adormecia. Olhou de relance em sua direção apenas para ter certeza, e soltou uma longa rajada de ar quando se certificou do estado sonífero do deus. Invejou-o um pouco.

Estava sim exausta, mas não era seu corpo que clamava por descanso.

Deixando-se levar pelo ruído confortador da respiração de Loki, fechou os olhos, apoiando o queixo nos joelhos agora flexionados acima de seu peito. Foi um erro grave, que não cometeria uma segunda vez naquela noite. O último olhar de sua mãe novamente veio assombrá-la, no mesmo tom acusador de antes.

Fazendo-a confrontar a mesma sensação desoladora de que os olhos de Cristina não haviam mudado nada de quando ela ainda vivia. Não haviam perdido essência alguma. Apenas pareciam continuar existindo.

Reabriu as pálpebras como se seu corpo fosse transpassado por uma forte descarga elétrica, e sem perceber cravou as unhas nos braços e não parou nem mesmo quando a pressão começou a machucar.

“Ela ‘tava viva esse tempo todo, no mesmo inferno... Eu podia ter ajudado... Tentado fazer a porra de alguma coisa...” — Aquela culpa inevitável recaiu sobre si, levando-a da extrema apatia ao extremo sofrimento.

Sua mãe nunca fora capaz de tomar conta de si mesma, e Laura a abandonara. Mesmo ciente de sua vulnerabilidade, Laura a abandonara. Deixara-a sob os cuidados de um psicopata estuprador...

Percebeu que respirava com maior dificuldade, e seu único alívio foi continuar enterrando as unhas em sua própria carne, sem em momento algum tencionar parar ou abrandar aquele aperto, experimentando um ódio irracional de si mesma. O peito pareceu comprimir-se, e a Pistoleira precisou suprimir um rugido raivoso. Apenas a imagem de Loki dormindo trouxe a ela o autocontrole necessário para não gritar da maneira que gostaria. Da maneira que, muito provavelmente, precisava.

Não queria que ele a visse naquele estado.

Finalmente afrouxou o aperto no braço sem realmente desfazê-lo, sentindo alguma satisfação na forte ardência que agora o fazia latejar. Nenhuma punição poderia ser suficiente, mas parecia o justo. O certo. Ao menos tentar equiparar as coisas da maneira que podia.

Passou a arranhar a própria pele quando se aventurou a imaginar cada um dos horrores que a mãe vivera ao lado de Ramirez por todos aqueles anos, dia após dia. Tentando encontrar conforto à sua vida miserável nas drogas — vivendo um dia de cada vez apenas com o incentivo de reduzir sua consciência pelo uso dos narcóticos. Sem nunca experimentar uma felicidade ou satisfação real.

“Ela foi uma vítima daquele filho da puta tanto quanto eu... Tanto quanto Luisa...” — Repreendeu-se, aquele nó em sua garganta apenas somando ainda mais desalento à lembrança da irmã — “De nós três, Cristina foi provavelmente a mais fodida!”

Sentindo alguns filetes de sangue escorrer dos cortes irregulares, Laura apoiou a testa com as mãos trêmulas, não sabendo se suportaria agregar mais aquela culpa para si. Não havia qualquer resquício de lágrimas em seus olhos, mas a respiração saía dificultada, quase aos pulos arrítmicos de soluços.

Agora via o quanto aquela viagem apenas lhe trouxera mais dor. Fora burra, ingênua demais por acreditar que o confronto com Ramirez traria alguma paz de espírito a si. Que livrar o mundo daquela existência inútil poderia, de alguma forma milagrosa, colocar uma pedra em seu passado, ou ao menos amenizá-lo em algum nível. O efeito, contudo, se provou justamente o contrário do que esperava.

Nunca, em todos aqueles anos, os dias vividos no barco pesqueiro pareceram mais nítidos e viscerais. Os olhares dopados de Cristina antes a revoltavam, agora, entretanto, tratavam de alimentar ainda mais a melancolia daquela época.

Dava-lhe um novo sabor, que não sabia ser capaz de amargar ainda mais.

Olhou para o céu novamente, desesperançada, sentindo que em breve ruiria à mercê daqueles desesperos e culpas que tanto a sufocavam. Não podia voltar àquele ciclo de angústia, mas sentia-se cada vez mais próxima do cerne de todos os seus traumas mais traiçoeiros. A falta de ar dominou-a com ainda mais força, e a percepção de se sentir presa aos limites de seu próprio corpo a engolfou num baque cruel, levando-a novamente a se arranhar num ímpeto irascível, tentando se libertar dali a qualquer custo.

Como uma providência um pouco mais gentil do destino, teve sua atenção voltada para uma ave cortando o céu num belo rasante, emitindo aquele mesmo som que tanto a lembrou de Cort. As unhas ensanguentadas vacilaram, ainda trêmulas quando se afrouxavam. Reconheceu de imediato tratar-se de um falcão, e de pronto sentiu-se um pouco mais contida naquela maré de descontroles.

Como se o próprio Cort viesse lhe mandar um de seus tantos ensinamentos.

Conseguiu redirecionar seu foco, e a respiração aos poucos foi se tornando mais domada à medida que a mera imagem do falcão-peregrino conseguia exercer um efeito calmante sobre si. Nunca fora muito dada a misticismos — ao menos não antes da aparição de Loki —, mas sempre esteve consciente da força que ligava seu espírito ao de Cort.

O animal que representava a essência de sua própria alma. Seu totem.

As unhas agora tingidas de vermelho caíram fracas por sobre seu ventre, já sem aquela necessidade insana de se violentar. Manteve-se naquela exata posição à medida que o céu enegrecia com mais intensidade, retomando seu foco na respiração adormecida do asgardiano. Aquele som indicativo da presença do deus, tanto quanto o vislumbre do falcão, conseguiu tranquilizá-la de uma forma que de fato a surpreendeu.

Laura, apesar de afogada nas próprias angústias, fora capaz de perceber em Loki a apreensão que a tinha por alvo, assim como sua frustração. Um dia gostaria de reunir a coragem necessária para lhe contar que sua presença já bastava como consolo. Sempre bastara.

Assim como na época em que o via apenas através de sonhos.

Era fácil e ao mesmo tempo assustador perceber que não pensava em ninguém melhor para estar ao seu lado naquela situação. Compartilhando consigo o desfecho dos horrores que ele vira com os próprios olhos e que, ela sabia, o afetara em algum nível, por mais que ele relutasse em demonstrar.

E agora, tantos anos depois, mais uma vez a proximidade do deus lhe amparava à sua própria maneira, sem nenhuma pretensão maior por trás. E não havia nada mais aterrorizante do que tal entendimento.

A madrugada foi adentrando a noite, o avançar impassível das horas soando pouco significativo para a Pistoleira, que mal havia se mexido. Sentia frio, mas não se importava. Apenas se aplicava ao máximo na tarefa de manter a concentração nos poucos e baixos ruídos que ouvia do asgardiano, os olhos desinteressados espreitando nada específico naquela paisagem.

Apenas quando não pôde mais escutá-lo, a Pistoleira sentiu o corpo se retesar com certa intensidade. Ainda parecia um tanto cedo para que ele já estivesse desperto, porém a mulher não fazia a mais remota ideia de como havia progredido a contagem das horas desde que se colocara naquela posição contemplativa. Seu estômago pareceu se embrulhar ao captar alguns sons sutis do deus. Quase pôde ver o momento em que levantara da cama, voltando o olhar estático sobre ela.

Sentiu uma necessidade enorme de reparar o quanto fora distante com ele há algumas horas. Na verdade, mais do que tudo, estava ciente de que queria a sua proximidade se ele ainda estivesse disposto a dá-la.

— Sabe... — Dirigiu-se a Loki pela primeira vez em um bom tempo, em todos os níveis de sua intuição se sentindo observada por ele, apesar de não encará-lo de volta para ter certeza. Era o céu ainda escuro, querendo clarear, que detinha a total atenção de seus orbes — Ela sempre foi uma mãe terrível. Pensar nela só me traz lembranças ruins... — Divagou, realmente colocando-se numa postura intrigada. Suas pálpebras, inchadas pela noite insone, semicerravam-se em busca de compreensão — Então por que caralho isso conseguiu me atingir tanto?

Loki aproximou-se alguns passos, dando o seu melhor para demonstrar o máximo de indiferença ao pequeno desabafo da midgardiana, suprimindo cada vestígio de agrado com a iniciativa de sua fala. Como se tentasse convencer a si mesmo de que era dessa forma que ele se sentia; completamente insensível à sua dor. Ainda disposto a sair vitorioso naquela batalha que travava com as estúpidas sensações que a humana lhe proporcionava.

— A tolice dos sentimentalismos é uma das tantas características inerentes à raça humana. Vocês estão presos a esse ciclo, por mais ilógico que pareça.

A Pistoleira soltou um riso sem humor, descrente da forma como Loki se excluía de questões que certamente o envolviam. Sem resistir virou o corpo em sua direção, ainda se mantendo sentada sobre o piso em que passara a noite. A bela feição do jotun parecia lutar entre uma expressão desafiadora e algo mais íntimo, talvez próximo da angústia.

— Engraçado... Você fala como se não amasse ninguém. Como se fosse completamente imune à mulher que te criou... — Citou Frigga com esperteza, rememorando o quanto ele se demonstrara apegado à bela deusa nas lembranças que teve acesso, tanto de sua infância quanto já da fase adulta.

Loki sentiu como se fosse esbofeteado à menção da Deusa-Mãe, apenas evidenciando o quanto ela representava o que havia de melhor em seus sentimentos tão deturpados e envenenados pela vida de mentiras que levara.

Várias imagens de seus dias compartilhados vieram à mente, causando um incômodo aperto em seu peito. Surpreendeu-se ao se dar conta de que as melhores lembranças de sua infância — as mesmas que revisitara rapidamente naquele instante — ocorreram não só na presença da deusa, mas também de Thor.

Tentou desvencilhar-se daquelas inconvenientes memórias, de alguma forma impelido a refutá-las.

— Frigga foi apenas mais uma a enganar-me. Uma cúmplice das tantas farsas que Asgard e a família real proporcionaram a mim. Ela não representa nada além de uma peça da mesma rede de mentiras que vivi com Odin e com Thor.

— Você pode tentar enganar quem quiser, Loki, mas não vem com essa ‘pra cima de mim. Eu conheço seu passado, esqueceu? E ninguém me contou, eu vi, assim como você viu o meu. Você ama aquela mulher... — Lançou um olhar sem nenhum significado especial ao deus, sua expressão exalando apenas cansaço — Pode espernear o quanto quiser, mas você ama. Sendo sequestrado ou não, você a considera sua mãe.

— Vejo que ainda não dispõe do seu juízo perfeito, humana... — Tentou desvalidá-la, chegando a soar cruel em sua colocação que visava fugir daquele assunto — Conseguiu a façanha de falar ainda mais sandices do que o habitual.

— Claro que sim... Deve ser isso mesmo... — Laura enviesou um sorriso discreto, tomado por tristeza, à medida que desviou o olhar para o dia que ameaçava surgir. Loki foi dominado por alguma amargura ao testemunhar aquela passividade atípica, e enfureceu-se consigo por ajudar a contribuir ainda mais com o abalo da mulher. Só então seu olhar foi atraído para os vários pontos de sangue seco nos braços da midgardiana, e foi como se aqueles cortes se reproduzissem em seu peito. Queria julgá-la fraca por aquilo, mas a cada dia ao lado de Laura aprendia que o fraco era ele mesmo — Acho melhor a gente voltar. Já me cansei desse caralho de lugar. Ainda podemos pegar o próximo voo. — Anunciou, finalmente se erguendo. Passou pelo deus a passos apressados, juntando os poucos pertences que vieram consigo.

Loki ainda se manteve fitando a midgardiana com pesar, detestando-se. O ódio por si mais pronunciado até mesmo do que quando descobriu sua origem de gelo.

O caminho até o aeroporto foi carregado de um silêncio aterrador, assim como a viagem de volta.

Dentro da estranha nave metálica, após se acomodarem em seus assentos, Laura manteve-se de olhos fechados por boa parte do percurso, porém Loki sabia que a mulher estava acordada. Mesmo após a noite em claro, ela custaria a de fato adormecer. Apenas se permitiu abrir os olhos quando foram acometidos por uma turbulência, algo que de imediato alarmou o deus da trapaça.

Naquele momento em questão, Loki segurou com força no encosto para os braços, espreitando cheio de desconfiança o aviso brilhante de “Apertem os cintos!”. Completamente desacostumado àquele mundo, não sabia distinguir se tal situação representava algum perigo. Alguma armadilha, talvez... Num reflexo que mais tarde condenaria, percebeu-se intimamente preocupado com a integridade da humana, e seu olhar tomado por aflição a procurou, não suportando imaginá-la vítima da fraqueza de sua espécie.

A midgardiana o encarou de volta, interpretando aquela feição como algum tipo de temor por sua própria integridade.

— Não se preocupe. — Laura lhe murmurou num tom tranquilo, a mão feminina indo a caminho dos dedos retesados do jotun, porém desistindo no meio do caminho e retornando à posição de antes, quase como se repensasse um reflexo difícil de controlar — Isso é comum em viagens desse tipo. Logo passa.

— Seus costumes conseguem ser cada dia mais aversivos. — Reclamou, jamais se adaptando àqueles momentos nada raros em que era pego de surpresa pelo desconhecido de Midgard. Laura deu-lhe um daqueles espectros de sorriso, nada honesto.

Nada parecido com a humana expansiva, irritante e inconveniente que conhecera. Percebeu-se mais sisudo com o rompante de medo que o dominou ao imaginá-la sendo ferida de uma forma irremediável. Amaldiçoou-a por ser tão fraca, tão passageira.

O deus enredou-se com intimidade naquelas novas percepções do quanto Laura era efêmera... Provisória naquela existência curta, e detestou o sentimento que aquela percepção súbita lhe trouxe. Jamais se aventurara por aqueles fatos óbvios, talvez por tentar evitar ao máximo todas as sensações que ela lhe causava. Ou simplesmente não queria confrontar a realidade de que, por mais que a humana tivesse uma vida considerada longa à sua espécie, para Loki tal existência não passaria de um piscar de olhos.

Era mais do que evidente ao deus que ele se detestava por não conseguir conter os sentimentos que vinha experimentando. Que o atormentavam. Porém, apenas naquele instante, compreendeu que o ódio maior que nutria de si provinha de outra e mais poderosa fonte. Detestava-se, em toda sua capacidade, por não possuir os meios para manter seus sentimentos vivos junto de sua ninfa. Sua midgardiana de ébano.

De qualquer forma, estava fadado a perdê-la.

Cada um deles novamente se focando em seus próprios pensamentos e recentes preocupações, não trocaram mais palavra alguma até que finalmente pousassem.

Como não haviam despachado qualquer mala, não precisaram perder tempo à sua procura. Haviam acabado de passar pelos procedimentos padronizados — desde o desembarque até o agente da alfândega —, quando uma voz conhecida e inesperada se elevou até eles, fazendo ascender aos olhos da Pistoleira um brilho marejado assim que distinguiu o dono daquele timbre.

— Hey! Bala na Agulha! — Clint a chamou, enérgico. Laura virou incerta em sua direção, surpresa e igualmente agradada por vê-lo ali. O arqueiro abriu um largo sorriso, convidando-a a se aconchegar nos braços fortes que a esperavam.

Ela correu até o amigo, aceitando de boa vontade o conforto do gesto carinhoso. Loki sentiu o sangue gelar ao presenciar tamanho afeto entre os dois, e precisou usar cada aspecto de seu autocontrole para não demonstrar o desagrado de presenciar aquela demonstração tão íntima de apego. Tão natural.

— Tiro ao Alvo! — Respondeu ao apelido com um carinho honesto, mais feliz do que nunca por vê-lo — ‘Tá fazendo o que aqui?

— Vim te buscar, pequena. Vocês, na verdade... — Apontou para o deus e a Pistoleira como se dissesse o óbvio, mas a expressão confusa da mulher apenas se intensificou — Pedi ‘pro Tony rastrear seu cartão de crédito, e de algum jeito ele conseguiu descobrir o avião que você ia pegar. Não entendo nada dessas nerdices, mas o cara nunca erra. De vez em quando é bom ter um gênio no grupo... — Puxou-a para um abraço mais apertado, e o deus da trapaça se viu cerrando os punhos — Nunca mais se meta a besta de sumir assim, menina! Foi foda ficar sem notícias — Barton ralhou, porém seu tom era todo fraterno — É bom te ver, Bala na Agulha! Você foi... lá? Não foi? — Inquiriu, referindo-se ao paradeiro de Ramirez. Havia tensão em sua voz quando a questionou, e pelo marejar nos olhos daquela que considerava uma irmã, recebeu sua confirmação.

— Fui. O filho da puta... Ele ainda tinha minha mãe, Clint... — Algumas lágrimas finalmente se desprenderam de seus olhos de leve arregalados, seguidas de breves soluços, aquele fato causando verdadeiro espanto no Gavião Arqueiro.

— Sua mãe está viva?

Laura meneou uma negação firme com a cabeça, rendendo-se a um choro difícil de controlar agora que fora iniciado. Ele a amparou com a mesma gentileza que sempre fora um dos traços mais fortes de sua personalidade, uma expressão também dolorosa e ligeiramente confusa tomando o seu rosto normalmente alegre.

— Eu sinto muito, pequena... — Alisou o cabelo da amiga num afago, pensativo. Criou coragem para fazer a pergunta que queria, mas sequer precisou completá-la para que a Pistoleira entendesse sua confusão e a respondesse — Mas espera... Não foi o diretor...?

— Foi. — Assentiu, obrigando-se a controlar os próprios nervos afetados — Foi Nick quem me disse que ela tinha morrido. — Fitou o amigo com revolta, ainda disposta a tirar aquele assunto a limpo.

Nick Fury era tão culpado pela morte de Cristina quanto o próprio Ramirez.

Quanto a própria Laura.

Notas finais
*Achei que isso ficou tão "faroeste"... Daqueles antigos em preto e branco e meio toscões, hesuheusheuseh xP E olha só, Cort ainda dando seu jeitinho de ser lembrado por aqui e ajudar nossa PistoLaura nos momentos de crise ♥ Muito amor por esses fofuchos (empenados ou não) que nos ensinam tanto, mas tanto! Reza a lenda que quem não manda review pra quem tá doente, acaba pegando a própria doença! É por sua conta e risco, meu caro fantasminha :v