Orlög
15 Sempre Ao Seu Lado
Notas iniciais
Clint mantinha-se submerso na tarefa de polir as requintadas flechas que descansavam dentro de sua aljava, mal reparando nos movimentos mecânicos que já dominava tão bem. Podia conduzir aquela tarefa de olhos fechados e com a mesma perfeição, e tais movimentos tão inconscientes facilitavam que sua mente vagasse para muito longe daquele serviço. Pensamentos de teores preocupantes o dominando de várias formas.
Não gostava dos rumos que as coisas vinham tomando. Não gostava nem um pouco, e sabia não ser o único.
Sempre fora muito íntimo de Laura, desde que a menina assustada e arisca cruzou acidentalmente seu caminho. Aquele garoto que Clint fora — alguns anos mais velho do que ela — à época se encarregou de cuidar da pequena criança que parecia tão frágil aos seus olhos, mas que a cada dia se demonstrava um pouco mais forte, sempre o surpreendendo pelo cerne de sua resiliência tão única. A menina, desde que começou a confiar nele, jamais parara. Hoje, contudo, com a drástica mudança de rotina que o invasor nórdico trouxe à S.H.I.E.L.D., sentia que Laura se distanciava cada vez mais de todos aqueles que se importavam com ela...
...Para passar seu tempo com o maldito forasteiro de outros mundos. Confabulando sabe-se lá o que com aquele homem que não inspirava confiança alguma ao arqueiro. Havia algo dentro daqueles olhos verdes que repelia a verdade de suas palavras sempre educadas e polidas.
Clint Barton não sabia se era capaz de acreditar nas fábulas que aquele homem lhes contara, mas também não podia negar que o suposto deus tinha habilidades no mínimo curiosas, que passavam longe da mera capacidade humana. E por isso sentia-se mais ameaçado ainda com o interesse que a amiga vinha demonstrando por aquele figura.
O arqueiro analisou o serviço que acabara de finalizar, suas flechas completamente impecáveis em conservação. Decidiu repetir todo o trabalho recém-concluído, não suportando naquele instante ficar sem qualquer tipo de ocupação que fosse. Pegou novamente uma flecha aleatória, estudando-a com cuidado antes de novamente limpá-la. Um sorriso melancólico tomou seu rosto diante daquela contemplação silente, de imediato sendo conduzido a uma antiga lembrança.
Daquele seu passado tão conturbado, que de uma forma torta o conduziu a caminho da S.H.I.E.L.D.
O rapaz havia recém completado quinze anos.
Aniversário não só de seu nascimento, mas também de sua orfandade, esta última completando seu terceiro ano — apenas não coincidindo com a data de seu aniversário por questão de algumas horas. Os pais de Clint haviam morrido num descarrilamento de trem no estado de New Jersey, acidente que ceifou algumas dezenas de vidas, e deixou para trás uma considerável centena de feridos. Morreram, justamente, na viagem que fariam para apreciar uma das várias competições profissionais de tiro com arco que o rapaz se inscrevera, esta coincidindo com seu aniversário. Demonstrou, desde sua primeira aula, um talento nato para aquele esporte. A competição decisiva aconteceria em Miami, estado em que podia se aproveitar da moradia na casa de sua avó materna, também passando ali as férias de verão.
O arco e flecha era uma de suas maiores paixões. E, por algum tempo, até aquele esporte acabou perdendo o brilho após o acidente que precedeu seu aniversário.
Clint, a partir daquela tragédia que o fez órfão, tornou-se problemático. Muito mais do que o habitual a um rapaz prestes a entrar na adolescência, com seus doze anos. Viveu os primeiros meses com a avó, porém a idosa se afundou numa profunda depressão impenetrável a ele — tão forte que, durante aquele período, a idosa sequer se permitia encarar o neto por reconhecer no menino alguns traços marcantes de sua filha. Nada pelo que o rapaz pudesse culpá-la.
A aura daquele acidente também o desgastava no convívio com a avó, e preferia mesmo que ambos se isolassem às suas próprias maneiras. Sua vida, a partir de então, consumiu-se em pequenos crimes e péssimas companhias, e a avó jamais o importunava com o desvio súbito de sua personalidade. Parecia não querer se importar, mas a verdade é que não conseguia se envolver com absolutamente mais nada à sua volta. Nem mesmo com sua própria saúde, que não tardou a definhar.
Clint não demorou a ser pego num desses crimes que, mais do que tudo, cometia para extravasar o próprio ódio. Transcender regras era a única forma de lhe trazer alguma espécie depravada de consolo, como se apenas assim pudesse sentir algum controle real sobre seus atos, não mais suportando a passividade em que viviam colocando-o perante o destino logo que seus pais morreram.
Discursos fáceis e banais, que apenas alimentavam sua revolta com o ocorrido.
"Deus sabe o que faz."
"Eles se foram jovens, mas cada um tem sua hora..."
"Não podemos contestar os planos de Deus, apenas rezar para que eles estejam num lugar melhor..."
Não. Não rezaria ao deus que deixou tudo o que tinha de mais precioso morrer, daquela forma tão banal, tão injustificada. Que permitiu que tantas outras famílias fossem levadas pelo mesmo luto repentino, que permitia tantas misérias, tantas dores e atrocidades, sem jamais se compadecer daqueles que rezavam todo dia em busca de tempos melhores. Essa divindade, se existisse, não se apiedava dos próprios filhos, e na sua visão isso era doentio. Ainda mais doentio seria ele, caso se ajoelhasse perante aquela vontade divina atroz, como não se cansavam de aconselhá-lho.
Movido por tantas angústias — estas se manifestando apenas na forma de raiva, ainda mais potencializada por aquela fase ingrata da vida que é a adolescência —, o rapaz não custou a ser pego num de seus muitos delitos. Numa noite como qualquer outra, a gangue da qual vinha fazendo parte o escalou para um serviço que os mais experientes rejeitaram, sobrando ao novato aquela tarefa. Os mais velhos, de certa forma, não querendo admitir que Clint se tratava da melhor escolha pelo notável talento do garoto em pontaria. De todos ali, o mais qualificado a se colocar em prova daquela maneira.
Clint escorava o corpo de forma despreocupada sobre a parede de um estabelecimento qualquer, já fechado com o tardar da hora. Sua perna esquerda se dobrava numa postura desleixada, a sola do tênis desamarrado em contato direto com a parede como se fizesse questão de sujá-la. Esperava pelo sinal de seus comparsas, que logo veio.
A luz vermelha de um laser brilhou três vezes, conforme o combinado, ao seu lado direito, e Clint já se preparou para o que viria a seguir. Seu porte agora era outro, completamente focado quando buscou pelo estilingue no bolso detrás do jeans, a arma vista por muitos como infantil, mas em suas habilidosas mãos faziam verdadeiros estragos. E não chamavam a mais remota atenção — diferente de seu arco — justamente por sua aparência inofensiva.
Um furgão preto fez a curva naquela rua, cantando pneu, e Clint sabia que aquela era sua deixa. Por mais banal que parecesse aquela incumbência, conhecia sua real importância. Estava sendo testado pela gangue, e não pretendia decepcionar. Aquele furgão pertencia a uma gangue inimiga e melhor estruturada, que vinha se empenhando em brigar pelo território. E, naquela guerra sempre noturna, estavam em desvantagem.
Clint pôs-se no meio da rua, mesmo com o automóvel vindo a toda em sua direção, e ajeitou a mira para a leve abertura que se erguia sutil pelo capô, uma insignificante comunicação com o motor que roncava a mil naquela velocidade. Atirou, muito ciente do que fazia. Conseguindo prever a rota do objeto e o encontro certeiro com a fresta levemente erguida do furgão. Assim que percebeu seu alvo ser bem sucedido, jogou-se com tudo para a calçada, tentando proteger-se da explosão que no instante seguinte iluminou a noite num súbito clarão. Pedaços da lataria foram jogados em direções diversas, assim como os membros perdidos de quem ocupava o seu interior.
O breu daquela noite se camuflou em rubro, num espetáculo pouco bonito de se ver.
— Puta que pariu, pirralho! — Um dos mais velhos da gangue se aproximou, fitando com assombro os destroços ainda em chamas do automóvel destruído. Naquele momento eles deveriam correr para o mais longe que pudessem, porém havia algo de hipnotizante que foi difícil de abandonar naquela cena mórbida — 'Cê num erra uma, vai se foder!
O menino sorriu, convencido, enquanto novamente guardava a inusitada arma do crime com transbordante orgulho. Acima de tudo, exultado por aqueles momentos em que poderia exteriorizar seu ódio, ainda que em pessoas que sequer conhecia.
Mas que, apesar de tudo, acabaram se tornando sua válvula de escape ao menos por aquela noite.
O arqueiro suspirou, pegando mais uma de suas flechas. Havia algo de triste em seu rosto sempre que se permitia aquela visitação ao passado. Lembranças das quais não se orgulhava, mas que, invariavelmente, fizeram dele quem ele era hoje. Gavião Arqueiro..., pensou em meio a um sorriso deprimido. Aquela alcunha por vezes lhe soava um tanto estúpida.
Contudo, preservava certo carinho por aquele codinome de sonoridade infantil. Fora sua mãe quem indiretamente o dera. Em vida, ela sempre comparava os olhos do filho aos de um gavião, pelo fato de a ave jamais errar um alvo, aquela espécie famosa por possuir um dos olhos mais afiados da natureza.
Quisera ele que já naquela época suas escolhas fossem tão acertadas quanto sua mira.
Naquela mesma noite, ele foi pego pelas autoridades. Ainda não tinha a idade para responder por seus atos como um adulto — o que não lhe trouxe alívio, apenas serviu para aumentar sua raiva sempre pulsante, que jamais abrandava. O mundo o fizera crescer, e esse mesmo mundo ainda o tratava como uma criança quebrada, que precisava de seu conserto hipócrita.
Foi internado em um reformatório, do qual logo escapou. Parecia feito para aquelas situações extremas, em que podia contar apenas com suas habilidades para sobreviver à maneira que bem entendesse. Passou um ano e meio de sua vida causando todo o tipo de insubordinações nos reformatórios em que vivia, transferido de um a outro sempre que se mostrava melhor do que a segurança do lugar. Perdeu a conta de quantas vezes havia fugido daquelas malditas tentativas de torná-lo socialmente aceitável. Estava disposto a fazer sua própria vida a partir dos recursos que dispunha — entre eles a morte de seus pais e consequente desinteresse de sua avó. Sequer se abalou quando descobriu que, alguns meses após ser detido, a idosa acabara falecendo. Provavelmente por uma overdose intencional dos antidepressivos.
O rapaz, contudo, respondeu a isso apenas se preocupando em buscar seu arco e flechas.
Não conseguia sentir nada além daquela raiva intensa, que de tão habitual parecia já ter perdido o sentido. Aquele sentimento de impotência, de passividade, era algo que tinha a capacidade de sufocá-lo diante de todas as suas limitações.
— Vão se foder, seus escrotos! — O garoto disse, tomado por revolta, erguendo o dedo médio para mais aquela instituição que deixaria para trás na calada da noite. A última de suas fugas ao sistema.
Até mesmo os orfanatos acabaram por desistir dele, diante de toda a rebeldia que não eram capazes de controlar. Já haviam visto casos como aquele. A revolta, assim como o desprezo pelas regras e consequente vandalismo, era algo muito habitual em suas rotinas. O que mudava, naquele caso, era a habilidade notória do rapaz de sempre conseguir burlar todo o tipo de segurança desses lugares. Já naquela tenra idade, não pareciam páreos para Clint Barton.
Viveu dois anos inteiros naquela clandestinidade. O governo fazendo vista grossa à sua existência, e ele disposto a manter-se o mais anônimo que fosse capaz, apenas cometendo crimes pequenos vez ou outra em prol da própria sobrevivência, entendendo que por ora essa era sua melhor chance de liberdade.
Com quinze anos, contudo, sua vida deu uma enorme guinada. Tão rápido quanto o disparar de uma flecha.
Clint estudava a prateleira de comida congelada de um mercado, plenamente ciente de que era observado por um segurança robusto. Os trapos velhos que vestia como roupa por certo denunciavam sua falta de dinheiro, contudo o menino mantinha o semblante tranquilo diante daquela desconfiança, fingindo ler um rótulo qualquer até que tivesse uma deixa.
Uma senhora idosa veio caminhando bem devagar por entre as prateleiras, fazendo Clint praguejar pela oportunidade perfeita que perderia. O segurança ainda disfarçava sua atenção inabalável sobre o menino, e qualquer ação sob essa vigilância seria arriscada, até mesmo para ele que era sempre tão discreto em seus furtos. Precisava distrair o homem de si, de alguma forma...
Mal terminara de concluir aquele pensamento, quando um grito agudo preencheu o fundo do estabelecimento, finalmente tirando os olhos do homem sobre si. Mas ele mesmo também se distraiu, focando no cerne daquele alarde.
— ME SOLTA, FILHO DA PUTA! — Uma menina, que não devia ter mais do que oito anos, rosnou, ensandecida para o segurança que segurava com firmeza seu braço magro. Uma única lágrima marcou uma trilha úmida sobre o rosto negro da criança, pega numa espécie de flagra, parecendo ainda mais miserável do que Clint.
— Pensou que poderia roubar o mercado sem que ninguém percebesse? — O homem replicou com um timbre de leve ameaçador, apesar de controlado, ao esvaziar o conteúdo de uma mochila surrada, fazendo cair ao chão vários biscoitos e alguns refrigerantes em lata. A menina soltou um soluço maior, parecendo faminta ao olhar para aquela comida que se perdia do seu alcance — Você vem comigo, garota!
O segurança a puxou, querendo dar um fim àquele espetáculo público e resolver a situação num lugar mais reservado. Puxou-a pelo pulso com força exagerada — talvez por maldade, talvez porque a menina fosse muito mais leve do que ele calculara — e a criança acabou se desequilibrando e caindo ao chão. Algo naquele movimento pareceu despertar uma fúria desproporcional na pequena ladra, como se fizesse renascer em si uma lembrança que a afligia.
A menina, ágil, desvencilhou-se dos dedos que a apertavam, aquele movimento facilitado pelo próprio remorso que emanava do segurança ao dispensar tamanha brutalidade a uma criança faminta. Ela ergueu-se, chutando o meio das pernas do homem numa bicuda tão certeira que fez o segurança cair, arfando, e antes que mais funcionários do mercado pudessem se mobilizar até lá, a menina já corria para longe, incrivelmente rápida a julgar o quanto parecia fraca.
Clint soltou um resmungo baixo ao perceber que ele mesmo se deixara levar por aquela distração ao invés de aproveitá-la a seu favor. Olhou ao redor, feliz por perceber que ainda podia tirar vantagem do que acontecera. O segurança que antes o vigiava já havia saído de seu encalço, provavelmente tentando alcançar a menina, ainda que a pobre coitada não tenha conseguido levar nada. Todos os biscoitos e bebidas permaneciam espalhados pelo chão.
O rapaz agiu rápido, indisposto a protagonizar uma cena lamentável como aquela. Esgueirou-se para junto de um homem que abandonara a cesta de compras para ajudar o segurança gemendo de dor, e com todo cuidado e experiência de seus anos na rua, conseguiu tirar a carteira do bolso do cliente sem que ele sentisse absolutamente nada. Saiu dali num passo fino, tentando a todo custo passar despercebido enquanto ainda pudesse aproveitar aquela bem vinda mudança de foco.
Retirou o dinheiro da carteira, jogando-a por baixo de uma prateleira qualquer, e logo foi até o caixa, passar suas mercadorias antes que o homem se desse conta do roubo. A funcionária do caixa contabilizou os preços de cada produto de forma desconfiada, duvidando abertamente que o menino poderia pagar. Na compra se incluía dois pacotes de macarrão, molho de tomate, uma lasanha congelada e um maço de cigarro — este último de venda proibida a ele que ainda não atingira a maioridade, porém Clint sempre pareceu uns bons anos mais velho por conta de sua altura e seus traços endurecidos, nunca despertando qualquer desconfiança a respeito de sua idade.
— Algo mais? — A mulher questionou, os olhos cerrados e bem atentos, duvidosa. O adolescente suspirou, pegando dois pacotes de biscoito salgado e duas latas de refrigerante — Quatorze dólares e sessenta cents. — Anunciou, descrente de que o rapaz pagaria. O segurança já havia voltado ao seu posto, e novamente o encarava, ainda mais alerta depois da tentativa de roubo da menina que fugira.
A funcionária pareceu relaxar quando o adolescente passou a ela uma nota de vinte, saindo apressado sem esperar o troco por medo de que sua última vítima percebesse o roubo enquanto ele ainda estivesse no estabelecimento, algo que certamente teria a culpa atribuída a si. Por cinco dólares não valia o risco se alongar naquele lugar.
No começo Clint apenas andou com pressa para longe do mercado, passando a correr apenas quando mudou o quarteirão. Sabia que aquele comportamento aumentava o risco de ser pego caso alguém se mostrasse desconfiado, mas não se conteve. Podia ter sido ele a passar por aquele constrangimento que a menina tão nova viveu, escapando por um triz de ser detida.
Como que contemplado por aquelas reflexões, Clint cessou sua corrida ao ouvir uma respiração baixa, assoviada à medida que se confundia com um choro que tentava ser contido. Ao lado de uma caçamba larga de lixo num beco sem saída, a mesma menina se encolhia, tremendo toda naquele abraço que dava em si mesma. Tentava evitar os soluços, mas não vinha obtendo muito sucesso.
Assim que a garota o viu se aproximar, mudou por completo sua atitude. O rosto, apesar de ainda marcado pelas várias lágrimas que caíram de seus olhos, tornou-se arisco, selvagem em algum nível. O corpo se ergueu com a velocidade de um pulo, adotando uma postura ofensiva que arrancou um murmúrio de desdém em Barton quando viu aqueles punhos cerrados, dispostos a socá-lo.
A menina estava um verdadeiro caco, mas era corajosa a pequena pivete.
— Você não teria a menor chance, garota... — Clint a avisou, jogando em sua direção um dos pacotes de biscoito, este caindo ao seu lado e permanecendo ali por algum tempo.
O adolescente percebeu o olhar da criança abandonar um pouco do despeito em prol do desejo que dispensou à comida. Mirou Clint mais uma vez, agora desconfiada, examinando cada um dos movimentos do rapaz mais velho, que sentou alguns metros distante de si, ele mesmo abrindo um dos pacotes e se pondo a comer, parecendo pouco se importar com a garota.
Ela o imitou, sem cerimônias aceitando aquela pequena caridade. Clint não pôde evitar o riso quando a percebeu encher a boca com um punhado grande demais dos biscoitos, mal conseguindo mastigar em seguida.
— Toma... — Disse ele, jogando uma das latas de refrigerante em direção à menina faminta, que dessa vez pegou o objeto em pleno ar — Você vai precisar, 'pra te ajudar a engolir toda essa porcaria que pôs na boca...
Continuaram se alimentando em silêncio por alguns segundos, Clint numa postura despreocupada que se apresentava como uma completa antítese da menina, esta encurvada sobre si mesma enquanto comia numa compulsão desesperada, encarando-o fixamente como se esperasse algum ataque vindo do garoto mais velho.
— Foi um belo chute o que você deu no saco do cara. Acho que até as minhas bolas vão ficar roxas, só de olhar... — Riu sozinho, porém não conseguiu retirar qualquer reação da garota muda — Ninguém te ensinou que você não pode roubar um mercado, menina? — Ele a interpelou, achando graça da forma como era encarado — Chama muito mais atenção. Da próxima vez, roube alguém na rua, e com o dinheiro compre a comida. E quando ficar realmente boa nisso, roube os próprios clientes! — Piscou, dando a dica de seus métodos — Eles normalmente 'tão distraídos 'pra caralho com a própria compra 'pra perceber uma carteira a menos... Pelo menos até que queiram pagar pelas compras...
A menina baixou os olhos, sem responder. Caçava as últimas migalhas dos biscoitos já consumidos de seu pacote, parecendo tão faminta quanto o momento em que começara a comer. Clint prestou atenção no comportamento da garota, que desistindo abriu seu refrigerante, bebendo-o praticamente de um gole.
Ele suspirou, levantando-se e se aproximando de sua companhia silenciosa. No mesmo instante, a criança se encolheu junto à caçamba, seu olhar agora não conseguindo esconder o medo, acuando-se como uma presa assustada que sabe não ter chance de lutar pela própria vida.
— Fica com isso... — Clint deu a ela o próprio pacote de biscoito, que ainda estava cheio pela metade. Ela não moveu um único músculo sequer, ainda parecendo considerar se aquela aproximação era inocente ou não — Pega logo, menina! Se eu quisesse te machucar, você já ‘taria sabendo... — Disse, rude, ao que a criança aproximou muito lentamente os dedos do plástico, arrancando-o com tudo da mão do rapaz e novamente dispensando alguma atenção faminta ao seu alimento. Comeu-o com a mesma avidez, e Clint franziu o cenho ao observá-la um pouco mais de perto — Você 'tá um lixo, puta que pariu... — Ela apenas lhe relanceou um olhar, pouco interessada — Há quanto tempo está sem comer?
De novo, reinou apenas o silêncio. Clint chegou a imaginar se ela entendia inglês, mas logo se lembrou do grito que dera ao segurança, e por mais que houvesse um sotaque estranho ali, achou que ela o entendia muito bem. Resolveu fazer uma nova tentativa, analisando-a o quanto podia.
— Quantos anos você tem? Não acha que é pirralha demais 'pra essa vida de rua?
— Por que você me ajudou? — Ela finalmente se manifestou, fitando-o como se visse algo nojento, digno de repúdio.
— Perguntei primeiro, pivete. Cadê a porra da sua educação? — Ralhou, embora se divertisse com todo o comportamento arredio daquele cotoco de gente.
— Dez anos. — Confidenciou, ainda o desafiando com o olhar.
— Dez? — Perguntou, incrédulo — Cacete, acho que você não come há uns três anos e parou de crescer desde os sete! — Gargalhou, sentando ao lado da criança que ameaçava explodir.
— Vá se foder, babaca! — Ela rugiu com a mesma fúria do mercado, os olhos marejados numa tristeza profunda que o rapaz não compreendeu. A menina atirou o que restara dos biscoitos no adolescente em meio a um empurrão que tivera a intenção de ser violento, preparando-se para aguentar as possíveis consequências.
De um modo cômico, adotou uma postura desajeitada de luta, sua feição revelando que estava assustada, mas que não fugiria. Se aquele menino estúpido soubesse por tudo o que ela já tinha passado, jamais se atreveria a tirar sarro de sua condição de agora. De olhos arregalados, Clint parecia de leve confuso.
— Pirralha, você 'tá toda errada... Tem coragem, eu admito, mas só coragem não te faz sobreviver na rua. Por isso que 'tá toda pele e osso desse jeito...
— Isso não é da sua conta! — Disparou, inevitavelmente recordando-se do tempo que passara no barco traficante de Ramirez, por vários dias nem sequer tendo o que comer ao fim da viagem, quando as provisões se tornaram perigosamente escassas, embora Ramirez e seus capangas jamais tenham regulado os banquetes que toda noite comiam.
— Só estou dizendo que não te pegaram hoje por pura sorte... Você não pode dar tanta bandeira...
— Vieram direto em mim porque eu sou negra, seu idiota! — Lançou aquela verdade sem meias palavras, parecendo enfurecer-se mais a cada minuto — Você parecia tão suspeito quanto eu, mas quem eles foram revistar? Deve ser bem fácil 'pra você ser discreto, né...
— Você enfiou uma caralhada de biscoito na mochila, é lógico que os caras iam perceber...
— Eu não sou otária! ‘Tava de olho no segurança, e só peguei quando vi que não tinha ninguém olhando. Aí chegou aquele outro filho da puta, simplesmente olhou ‘pra minha cara e decidiu me revistar. — Contou, o timbre vibrando numa raiva pulsante, ainda sem abandonar aquela pose ridícula e desesperada de luta.
Clint se calou por um minuto, avaliando a situação. De certa forma, a garota estava certa. Ele podia ver a desconfiança daquele segurança nitidamente sobre si, a mesma desconfiança que por certo levou o outro funcionário a abordar a menina e humilhá-la daquela forma. Mas também, Clint fora capaz de perceber que era observado e com isso pôde adiar seu plano de ação. Talvez, em meio à fome aguda, a menina não tenha reparado no outro homem prestando atenção redobrada em suas ações.
— Qual é o seu nome, pirralha? — Inquiriu daquela forma mal educada, percebendo a menina endurecer ainda mais sua expressão.
— Não é da sua conta!
— Tenho uma proposta 'pra você, garota. Por pouco eu não fui pego hoje, ou no mínimo saí de mãos abanando como você. Quase sempre eu trabalho bem sozinho, mas às vezes admito que uma ajuda viria a calhar. E é aí que você entra...
— Do que você 'tá falando?
— Você é bem rápida, e pode ser uma boa distração. Tem potencial, com certeza... — "Acho até que poderia me dar uma boa cobertura se eu precisasse...", refletiu, de fato vendo vantagens. Se ele não trabalhasse sozinho o tempo todo, provavelmente teria sido pego um número bem menor de vezes pela assistência social.
— E daí?
— E daí que eu posso te ensinar uns lances, pirralha... Coisas úteis como o jeito certo de viver na rua sem morrer de fome. E um pouco de autodefesa, porque já deu 'pra ver que você é ruim 'pra caralho nessas duas coisas.
— Eu não quero saber dessa merda. — Negou, nitidamente irritada com a pretensão do rapaz mais velho.
— Eu tenho comida... Comida de verdade, não essa porcaria que acabamos de mandar 'pro estômago.
Diante daquela oferta, a pequena pareceu titubear. Considerando suas opções — assim como se deveria confiar no estranho que tão abruptamente cruzara seu caminho —, a criança permaneceu pensativa, sem jamais deixar de encará-lo com evidente receio. Seus lábios se entreabriram, tremendo brevemente antes que pudessem exteriorizar sua pergunta.
— Você pode me ensinar a atirar? — Seus olhos negros brilharam de uma expectativa impetuosa, pela primeira vez exalando algum tipo de submissão na urgência de sua demanda, ainda mais evidente quando especificou seus termos — Atirar... ‘pra matar?
O adolescente a encarou com mais cuidado, um tanto curioso após o pedido da misteriosa garota.
— Posso. — Afirmou com praticidade fria — Sério, miúda, qual o seu nome? — Refez a pergunta, vendo verdadeiro potencial no brilho ardiloso de seus olhos escuros. A criança hesitou, ainda parecendo analisar os pormenores do rapaz robusto, indecisa.
Após um tempo prolongando o silêncio, finalmente respondeu, sisuda naquela pequena redenção.
— Laura...
Àquela altura, Clint Barton trajava um sorriso um pouco mais evidente, ainda absorto em várias melancolias. Foi, provavelmente, aquela garota miúda e esquiva que o salvara de tantas revoltas. Assim como acreditava que ele também tivera sua parcela nas feridas amenizadas da mulher que agora se apelidava de Pistoleira.
Gavião Arqueiro colocou de lado suas flechas, mais uma vez suspirando de preocupação ao coçar a barba normalmente bem feita, que já ameaçava despontar em seu rosto.
Como uma válvula de escape que deixa vazar a pressão, aquele passado de Barton continuou a se exteriorizar em forma de lembranças, incontroláveis uma vez que revisitadas.
— ‘Tá errado, garota... — Clint anunciou pelo que acreditava ser a centésima vez, contudo não se ouvia impaciência em sua voz, apenas algum traço de diversão — A linha central do corpo precisa se manter estável. Você 'tá pendendo 'pra frente... de novo! — Avisou, mais uma vez a ajeitando para a postura correta nos conceitos mais básicos do arco e flecha.
— Essa merda é pesada! — Reclamou, fazendo uma careta birrenta ao arco, já demonstrando muita impaciência e pouca força de vontade, desfazendo sua mira — Não entendo como você pode gostar dessa droga... Ninguém passa despercebido com isso...
— Foi você que pediu 'pra que eu te ensinasse a atirar, miúda... ‘Tá reclamando do quê?
— Sim. Atirar como gente normal, sabe... Com um revólver, uma pistola, metralhadora, sei lá o quê, não essa porcaria enorme de espalhafatosa. E “miúda” é tua rola, babaca.
— Você é pirralha demais ‘pra esse palavreado, garota... Na sua idade nem devia saber o que é isso. — Clint fingiu ralhar, mas ria abertamente — Vai por mim, se aprender a mirar bem com um arco e flecha, vai mirar bem com qualquer coisa. Anda, fecha mais esses pés. Por isso que você ‘tá tombando ‘pra frente o tempo todo... — Instruiu, vendo-a se aprumar com irritada obediência, já puxando a corda e arrancando uma negação enérgica de seu azucrinante professor — Agora levantou demais o cotovelo... Tenta manter o braço que puxa a corda entre o olho e a boca, não pode simplesmente sair puxando, sem técnica nenhuma...
— Coisa chata da porra... — Resmungou, abespinhada, mas ainda disposta a acertar. Nessa nova tentativa chegou o mais próximo da postura correta. Quando ajeitou o melhor possível a mira e soltou a flecha, esta se fincou uns dez centímetros distante do maior círculo pintado por Clint na parede.
Ele ergueu as sobrancelhas ao se deparar com aquele resultado, fitando a menina com um ar de gozação.
— Nada mau... ‘pra um velho com Parkinson.
— Vai se foder! Pelo menos chegou até a parede dessa vez... — Defendeu-se, massageando os ombros magros, sentindo-se exausta pela força requerida naquela tarefa.
— Justo. Mas ainda está bem ruim, pequena.
— Isso nem importa muito... Meu alvo é grande, eu só preciso dar sorte com um dos tiros... — Alertou, como um pensamento que saiu alto demais. Seu timbre de súbito todo preenchido por rancor e angústia, o que de imediato chamou a atenção do jovem arqueiro.
— Espero que esse alvo seja bem grande mesmo, só assim... De repente, se você mirar na pessoa do lado consegue acertar o cara certo — O rapaz constatou ainda em tom de brincadeira, apreciando mais uma vez a mira incrivelmente errada daquele tiro — Quem é o sortudo que você quer matar? — Questionou, sem qualquer tato se referindo à falta de talento da garota naquele nobre esporte.
— Boa noite, imbecil... — Laura despediu-se simplesmente, seu tom baixo e deprimido enquanto devolvia a ele o arco junto com a aljava. Saiu dali a passos cabisbaixos, dominada por aqueles monstros tão reais que vinham atormentar sua infância.
E que, ele sabia, ainda a afligiam mesmo agora que era uma mulher feita.
Gavião Arqueiro manteve aquela mesma pose contemplativa, tentando analisar cada aspecto tanto do passado como daquele presente confuso, incapaz de não recordar acerca das últimas decisões no mínimo polêmicas de Nick Fury.
Quando o diretor anunciou que Loki se manteria portador do misterioso cetro, de poderes que nenhum dos Vingadores podia abranger em seus limitados conhecimentos sobre a perspectiva daqueles outros mundos.
“Tem algo muito errado acontecendo...” — Praguejou em pensamento, angustiado por imaginar Laura se tornando íntima daquele ser de caráter duvidoso. Colocando-se num risco desnecessário com aquela aproximação cada vez mais evidente.
O arqueiro ajustou o arco em suas costas, assim como a aljava, deixando para trás seus aposentos apesar de a nostalgia o acompanhar para além do recinto.
Numa última lembrança, que sempre tinha o poder de fazê-lo mergulhar fundo naquela época já transcorrida.
Já fazia semanas que vinham treinando.
Clint sempre abordando Laura com alguma nova crítica mais elaborada aos erros que a menina vinha cometendo no arco e flecha, impressionado com a garra que a movia a aprender. Seu arco era extremamente pesado e ela não passava de uma garotinha provavelmente desnutrida, mas ainda assim vinha fazendo evidentes progressos apesar de suas restrições na força física.
O rapaz, por mais que tivesse dificuldade em admitir, também se sentia contemplado por aquela companhia. Era bom sentir que adquirira um novo propósito na vida sem objetivos que vinha levando.
Cuidar daquela criança — que quase sempre parecia madura demais para a idade — ajudou o jovem arqueiro a deixar de lado suas próprias revoltas à medida que, indiretamente, ajudava a alimentar o ódio da menina.
— Amanhã eu vou matar aquele filho da puta! — Ela anunciou ao fim do treino, devolvendo o pesado arco para seu dono e se pondo a limpar o suor que brotava profuso no alto de sua testa. Após longas horas de prática, a menina arfava num respirar exausto, sentindo os músculos dos braços queimarem com veemência.
— Amanhã? — O adolescente soltou um muxoxo debochado, fitando-a com genuína descrença — Pequena, se liga... você mal consegue se manter de pé com o arco... — Disse, exagerado — O máximo que vai conseguir é se meter em encrenca.
— Eu não sou burra, garoto! — Ela se largou com tudo contra a parede pichada, agora cheia de vários furos causados por seus treinos com o arco e flecha — Eu não vou usar esse seu trambolho. — Laura o fitou com intensidade, tirando detrás do cós da calça duas pistolas de cabo de sândalo, querendo sorrir quando percebeu os olhos de Clint se arregalarem.
— Caralho, pirralha, d'aonde você tirou isso? — Questionou, sentando ao lado da garota enquanto jogava uma garrafa de água em sua direção.
— Roubei do desgraçado que fodeu ainda mais com a minha vida... — Desviou o olhar, bebendo um longo gole do líquido — Só não meti uma bala nele antes de fugir porque não sei como usar essa droga... Por isso quis deixar ‘pra mais tarde, quando encontrasse alguém que me ensinasse — Confessou com nítida vergonha, fitando o adolescente como se o culpasse por algo.
Revelando, naquele instante, um daqueles raros momentos que fazia Clint se recordar da pouca idade da menina ao seu lado. Apesar de sua energia vibrante ela não passava de uma criança nova demais, ainda tomada por alguns percalços que vinham junto à sua imaturidade natural, esta já tão comprometida.
— Vem ‘pra cá, então... — O arqueiro a chamou para mais perto, ensinando a ela os passos básicos do manuseio do revólver. Disse tudo o que ela precisava saber com calma, de repente sentindo algum incômodo com tudo aquilo. Naquele instante, percebendo que se preocupava mais do que gostaria com aquela garota bruta, toda cheia de feridas abertas. Quando sua breve aula foi concluída, Clint ainda se manteve encarando-a, percebendo com alguma angústia a solenidade com que ela estudava a pistola e temendo por sua segurança. Pela primeira vez, seu timbre saiu com um traço carinhoso, o som fraterno chegando a incomodá-lo — Você tem certeza disso, pequena? Matar uma pessoa, por pior que ela seja... é um caminho sem volta...
— Espero que seja mesmo! — Laura esquivou-se, fazendo aumentar sua personalidade arredia — ‘Pra mim e ‘pra ele.
— O que aconteceu? — Clint não conteve a pergunta, intrigado por ver tanta amargura naquele olhar escuro, que de tão forte e decidido se tornava incoerente no conjunto de seus traços ainda infantis — O que esse cara te fez?
— Você vai ver... — Ela o fitou, deprimida — Se quiser ir comigo amanhã, vai ver.
— Não perco isso por nada, “Bala na Agulha”... — Troçou com aquele novo apelido, fazendo uma menção à clara preferência da garota pelas pistolas. Querendo tirar um pouco daquela expressão tensa do semblante feminino, empurrou-a com o próprio ombro num gesto de companheirismo, pela primeira vez se dando conta de que via naquela menina traumatizada uma irmã caçula. Não havia perdido toda a sua família, afinal... — Não vou deixar a diversão toda com você, sem contar que seus tiros são tão tortos que é capaz que eu tenha que consertar essa sua mira escrota no fim das contas.
— Vá se foder, “Tiro ao Alvo”! — Ela riu ao retribuir o apelido, dominada por um rápido arroubo de descontração, finalmente se permitindo um pouco mais de cumplicidade com aquele adolescente marrento. Até que seus olhos novamente pousaram nas pistolas que foram de Ramirez, e boa parte da tensão retornou.
O momento de sua vingança estava muito próximo. Ou, ao menos, era no que a menina acreditava.
Barton suspirou, bloqueando a continuidade daquela lembrança por pura clemência pessoal. Aquele fatídico “dia seguinte” sempre lhe causando um enorme nojo quando recordado. No momento em que finalmente entendera ao que Laura havia sido submetida, ele mesmo se sentiu disposto a fazer justiça com aquele filho da puta do Ramirez...
...Mas seus planos deram absurdamente errado, e Clint sabia que Laura ainda nutria a esperança de tirar aquele assunto a limpo.
Temia, e ao mesmo tempo se instigava, ao imaginar que os misteriosos planos da Pistoleira envolviam o homem que tanto destruíra não só sua infância, como as fases seguintes.
Se fosse esse o caso, Clint faria o possível para se manter ao lado da mulher, para que assim terminassem aquilo da mesma forma que haviam começado anos atrás. Juntos.

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