Orlög
4 Princípios Que Delineiam Os Rumos Finais
Notas iniciais
Foi em meio àquela gélida madrugada que, para Loki, os tons dourados de Asgard foram destituídos de seu antigo brilhantismo. Pela primeira vez ao longo de sua existência, o menino vislumbrava o reino dos Æsir — agora iluminado apenas pelo negro celeste — como um mundo à parte de sua realidade, incontestavelmente desconectado do sentimento já falho de pertencer àquele pérfido lar.
Paramentou-se novamente com a vestimenta que jogara sem cautela sobre o gelo, e sua umidade frígida por um momento pareceu potencializar o azul que manchava sua pele em desonra, para logo em seguida retornar ao tom alvo que estava acostumado...
...Mas que agora sabia ser falso.
Seus passos se arrastaram por cima da grossa camada de neve, tomando novamente o rumo do palácio de Asgard, sem saber como proceder ao recente conhecimento de sua autêntica origem. Suas pernas vacilaram, parando alguns metros da morada do Pai-de-Todos numa hesitação contemplativa, a mescla entre a dúvida e a angústia dominando seus sentimentos ainda inocentes.
Voltou a caminhar, e a trilha forjada por seus passos na maciez da neve indicavam que agora Loki se afastava do palácio, decidido a não voltar ao menos até conhecer por si mesmo os detalhes de sua história. Seria uma longa e cansativa marcha, porém o garoto sabia que era capaz de travá-la sozinho.
Gastou um tempo imensurável na missão de reproduzir os passos de Odin rumo à Árvore da Vida, Yggdrasil, aquela que abrigava uma peculiar trinca de deusas que, certamente, esbanjariam infindável conhecimento de seu passado.

Apenas após o início do alvorecer, Loki vislumbrou ao longe os primeiros ramos protuberantes e vívidos de Yggdrasil, que saudava o belo cenário com o brilho do orvalho matinal cintilando em suas folhas. O menino limpou o alto da testa, levemente suada pelo esforço da caminhada, já capaz de ver o movimento sutil das deusas Nornes em meio às suas tarefas diárias.
O pequeno jotun olhou em volta, de súbito sem saber o tipo de reação que deveria ter frente às deusas do tempo, entendendo repentinamente que aquela estrada que começava a trilhar era um caminho sem volta. Contudo, há muito ele já havia ultrapassado um ponto que não permitia retorno, apesar de ainda não saber.
Apressou-se em direção ao seu escopo, ciente de que as dúvidas não mais poderiam lhe acompanhar naquela empreitada. Estava completamente só, porém determinado o bastante para descobrir a si mesmo ainda que as respostas não o agradassem. Estancou a uma distância segura de Yggdrasil, vislumbrando o ambiente em volta sem saber como proceder a partir dali.
— Cheguei a pensar que jamais viria, Loki, filho de Laufey — Skuld advertiu num tom despreocupado, fitando-o sob aquelas desconcertantes íris descoradas com incansável interesse. Loki sentiu-se congelar e ao mesmo tempo ferver por dentro ante aquela saudação, que mais uma vez explicitava ao menino sua desgarrada e infame origem.
— Vim atrás de respostas, poderosa Norne!
— Todos vêm em busca de respostas e sabedoria, pequeno jotun. Normalmente aqueles que chegam aos ramos de Yggdrasil procuram pelos meus conhecimentos vindouros, contudo creio que seu interesse não esteja no futuro, e sim nos tempos já transcorridos de outrora.
— Quero apenas saber quem sou... — Comentou num tom ligeiramente baixo e envergonhado, o rosto de traços infantis e bem delineados refletindo brevemente a sombra do adulto que um dia se tornaria, os verdes olhos lampejando com uma parcela do rancor que ainda seria colecionado ao longo de sua maturidade.
— É aquilo que nasceu para ser, Loki Laufeyson. É aquilo que o Orlög desejar. — Urd, a deusa anciã personificada pelo passado, colocou-se entre os dois, e não tardou até que Verdandhi também se aproximasse, os olhos brilhando numa expectativa ansiosa e quase cruel perante a aflição do menino.
— Contem-me o princípio de tudo, senhoras... — Loki pediu, o rosto ainda conservando algum traço de humildade e banhado em sofrimento.
— Se é o passado que deseja, que assim seja. É o passado que terá! — Afirmou Urd categoricamente, dando início a um melodioso relato, as pregas idosas de seus lábios se movendo com desenvoltura à medida que principiou seu discurso.
“Nos tempos primórdios de eras remotas, tudo se resumia apenas a fogo e gelo. A enorme distopia entre chamas ferventes e gélidas travavam entre si as primeiras batalhas em sua incansável busca por soberania, nenhum desses elementos aceitando se curvar à grandeza do outro.
Elementos tão distintos, tão comumente poderosos, que jamais poderiam almejar suplantar o outro em seus hostis toques. E, através de gelo e fogo, os mundos foram criados e seus rumos moldados, a destruição ultrapassando os limites da ruína e cedendo espaço à concepção, às vidas que logo tomariam o lugar da extinção, antes unânime.
Faíscas e geadas se uniram em controvérsia na criação do universo que aqui se conta, e foram elas não só as precursoras do início, como também prometiam protagonizar o fim. Crepitar e neve, presos à mortífera dança da vida, tão vivaz como apenas a morte seria capaz...
Quando toda a criação divina ainda engatinhava seus primeiros rumos vacilantes e prematuros, muito do fim já era definido em concomitância, num arremate que não haveria como ser contestado sequer pela imperiosidade dos deuses...”
— Não tão do princípio, Urd! — Verdandhi deteve a narração da anciã com despeito, um meio sorriso indulgente crepitando por seu rosto repleto de intransigência — O menino Laufeyson quer conhecer o começo de sua própria história, e não o Alvorecer dos Deuses.
Urd trajou uma expressão um tanto desagradada, indiscutivelmente insatisfeita com a inconveniência de Verdandhi, a Norne representando com exatidão a descortesia dos joviais tempos presentes. Contudo, ainda que a interrupção abrupta de seu relato tenha descontentado Urd, a Norne do passado limitou-se a avançar imensuráveis milênios até o momento almejado por Loki.
— Pois bem, pequena e tola criança. Escute atentamente minhas palavras, pois estas não serão repetidas a você.
“Os Nove Reinos coexistiam pacificamente entre si durante o reinado asgardiano de Borr, o pai de Odin e deus supremo daqueles tempos. Contudo, apesar de haver enorme prosperidade e perfeita adesão de Asgard pelos métodos pacíficos e afortunados de seu monarca, a guerra se desprendia nos limites do próprio palacete real. Odin em nada concordava com o pai, e a estupidez de sua juventude o levava a intermináveis discussões sobre a melhor maneira de governar, embora Borr incansavelmente se engajasse na tarefa de passar ao filho a sabedoria de sua regência.
Contudo, Borr pereceu muito cedo, encontrando os seus ancestrais em Valhalla por consequência das atitudes impensadas de seu filho. Odin sempre fora predestinado a ser o deus da guerra, e até então desconhecia o quanto a paz podia ser vital dentro do contexto prélio...
...Mas os olhos de Odin mantinham-se vidrados apenas às batalhas e honrarias de combate, completamente cegos para as conquistas de seu pai.
Um dos aspectos em que o jovem e tolo Odin discordava de Borr era a convivência pacífica e distante que mantinham com Jotunheim, um reino que ao seu olhar imaturo deveria ser extinto. Tal sentimento de ódio pela raça dos Jotuns, somado à sua necessidade e ânsia por se provar como guerreiro, fizeram uma nova discussão brotar no palácio dourado de Asgard.
— Devemos impor nossa soberania a estas aberrações, meu pai! — Contestou Odin em mais uma daquelas conversas, que já havia feito Borr perder a noção de quantas repetições já ouvira daquele mesmo discurso — Somos mais fortes, dispomos de muito mais recursos...
— E a troco de quê, Odin, iniciaríamos uma guerra em mundos que estão estáveis e pacificados? — Perguntou pelo que julgou ser a milionésima vez, porém repleto de paciência e ternura, de certa forma divertido pela interminável vaidade que rega a juventude.
— Apenas para provar o nosso poderio maior! Para que o reino de Jotunheim compreenda o seu lugar e nunca ouse nos desafiar com aquele exército de gelo que estão ampliando!
— Todo reino deve dispor de seu próprio exército. Isso não é nenhum crime.
— Eles se tornam uma ameaça maior a cada dia, e o senhor nada faz! Prefere esperar que o ataque chegue a Asgard, ou que parta dele?
— Eu prefiro dar um fim a esta conversa tola! — Fitou-o com severidade por um momento, em seguida levando os olhos a novamente vislumbrar a bela vista que dispunha de seu reino, proporcionada pela localização do palácio — Todas essas responsabilidades um dia caberão a você, Odin. Nem mesmo os deuses vivem para sempre, e um dia eu espero me juntar aos meus em Valhalla, contudo, enquanto não for chegada a minha hora de reencontrar meus ancestrais, compete apenas a mim a decisão de como governar meu próprio reino. A você, cabe observar meus métodos, analisá-los da melhor maneira que puder e ponderar se conduzirá Asgard da mesma forma que eu quando sua hora chegar. — Relanceou um novo olhar para o filho, o brilho dentro de seus olhos vacilando entre a rigidez e a preocupação — Eu só espero que até lá, você já tenha um pouco mais de sabedoria e maturidade para governar seu povo por caminhos melhores do que esses que hoje você almeja.
Dizendo isso, Borr retirou-se, deixando que o jovem Odin maturasse e refletisse sobre suas palavras, mal sabendo que nutrira no filho pensamentos totalmente inversos ao que ele ambicionava aflorar.
O imaturo príncipe de Asgard ainda manteve-se naquela mesma posição após o afastamento de seu pai, a mente turbilhonando uma série de considerações que já vinham se consolidando dentro de si há tempos. Borr, o Pai-de-Todos, o via como um perfeito incapaz de gerir aquele reinado que um dia lhe seria confiado. Já era tardada a hora de demonstrar ao seu pai a envergadura dos grandiosos feitos que sabia ser capaz!
— O senhor ainda vai perceber meu potencial, pai! Mas eu não posso deixar a seu encargo a decisão de quando prová-lo... — Comentou pensativamente consigo mesmo, tomando uma dentre as mais tolas de suas decisões.
No último dia pacífico experimentado por aquela dinastia de Asgard, Odin esperou pacientemente pela chegada soturna da noite, que logo caiu para banhar seus anseios em suas protetoras sombras. Seu sangue flamejava de excitação e o azul exultado de seus olhos carregava a promessa de que, a partir daquele dia, começaria a moldar seu nome em guerra, como o deus que nascera para ser.
Saiu das dependências do palácio com cautela, levando consigo apenas as vestimentas que o fariam suportar o cortante frio de Jotunheim, assim como seu fiel machado, que sempre o acompanhava mesmo em tempos de calmaria e paz como aqueles.
Ludibriado pelo intenso desejo de ser reconhecido, o jovem Odin secretamente pôs-se em marcha até os ramos de Yggdrasil, buscando secretamente o caminho para Jotunheim por conta própria em sua ambição deturpada, completamente solitário em sua injustificada empreitada por sangue, alcançando sem dificuldade ou dúvidas o reino pertencente aos Gigantes de Gelo ao ultrapassar o ramo correspondente da Árvore da Vida.
Ao finalmente alcançar Jotunheim após as exaustivas horas de caminhada, Odin deixou o asco transparecer em suas menores expressões.
— Lugar infernal! — Praguejou, tiritando por conta do súbito frio que levou uma onda violenta de tremor ao seu corpo robusto. Encarou o ambiente gelado e infértil com repulsa, e o peso de seu machado pareceu se solidificar entre seus dedos.
— O que procura aqui, tão longe de seu lar, asgardiano? — Uma voz vibrante, que parecia camuflada ao cenário de gelo, entoou, vindo de nenhuma direção específica.
— Mostre-se, jotun! Assim ordena o príncipe de Asgard! — Advertiu, e uma longa risada de escárnio se propagou em réplica.
— O reino de gelo não responde a Asgard, jovem deus, já devia saber disso.
— Mas responderá aos machados que se erguerem em rebate à insolência de seu povo! — Revidou com arrogância injustificada, ainda encarando todo o ambiente com olhos especulativos em busca de seu alvo.
— Sua soberba é conhecida ao longo dos reinos, filho de Borr! Sempre em busca de guerras que não cabe a você travar, disposto a destituir todos os reinos de uma paz unificada apenas pela arrogância de provar suas habilidades em batalha. Parta dos domínios de meu reino antes que suas atitudes e sandices o levem a um caminho sem volta. Você procura por uma guerrilha que Jotunheim não está disposta a travar. — O Gigante de Gelo finalmente apareceu, e Odin o reconheceu como o próprio Vaftrudener, rei e soberano daquelas estéreis terras.
— Chegou ao conhecimento de Asgard que vocês têm ampliado seu exército. — Odin aproximou-se algumas passadas de Vaftrudener, fitando os olhos rubros com a intolerância de Asgard — O que pretendem com isso?
— A forma como eu conduzo minha regência não lhe diz respeito, príncipe Æsir. Atenha-se aos assuntos competidos a si, e pare de envergonhar teu pai com tamanha presunção. — Replicou com irritação, o escarlate em seus olhos se estreitando num desafio mudo.
— Retira o que disse, aberração! — Odin exaltou-se, empunhando com vigor o cabo de seu afiado e mortal machado em precipitada ameaça.
— Olha bem ao teu redor, criatura tola! — Vaftrudener advertiu, a voz soando como um rosnado impaciente — Ousa mesmo desafiar-me sozinho dentro de meu próprio reino?
Odin olhou em volta, ciente apenas naquele instante dos vários Gigantes de Gelo que o rodeavam num cerco intransponível, cada vez mais apertado em torno de si. Seus dedos instintivamente aumentaram o aperto em torno de sua arma, os olhos azuis relanceando ao longo de seus oponentes com bárbara avidez.
— Odin! — O timbre tempestuoso e imperial de Borr cresceu em meio ao ambiente de nevasca. Apenas ao som daquela voz, autoritária por natureza, o cerco ao redor de Odin se desfez parcialmente, permitindo a passagem do Pai-de-Todos até o jovem deus. Borr caminhou até ele com convicção, incidindo um olhar severo e resoluto ao filho assim que se aproximou o suficiente. Um olhar intimamente decepcionado que Odin, mesmo com o transcorrer dos milênios, jamais esqueceria — Quem pensa que é para me desafiar a tal ponto? — Questionou, austero.
— Vim apenas certificar-me...
— Odin Borson veio em busca de guerra! — Vaftrudener interrompeu a explicação do jovem deus, dirigindo-se agora a Borr — São os atos desesperados de uma criança recém-saída do berço.
— Peço perdão pelas obras impensadas de meu filho. Garanto que tal desrespeito não se repetirá!
— E em nome da paz que construímos, eu aceito sua palavra, Borr. Leve o garoto daqui, e dedique-se a ensiná-lo melhor as responsabilidades que alicerçam um reino. — Deu as costas aos deuses, já considerando a discussão por encerrada — Não precisamos de um menino tolo e estúpido governando com o ego de um deus. Para isso, temos os humanos.
Odin teve sua visão ofuscada por uma súbita e arrebatadora fúria, cego de raiva pela afronta desrespeitosa direcionada a si. Urrou com a potência de todos os gritos de guerra já entoados, lançando com brutal força o machado contra o Gigante de Gelo monarca num gesto rápido e instintivo que não haveria como ser passível de conserto. Após cruzar a distância, a lâmina afiada descansou num baque seco sobre a espinha de Vaftrudener, fazendo-o estancar durante um momento bamboleante.
O segundo seguinte foi dotado de pura apreensão. Vaftrudener virou um espantado rosto em direção à dupla de Æsires, encarando-os por um longo milésimo de segundo antes de cair, desfalecido, ao chão. Em resposta, seguiu-se uma torrente de furiosos jotuns dispostos a investir contra os dois deuses em vingança à morte de seu líder, preenchendo o sibilar daquelas terras com promessas da guerra que Odin tanto buscara.
— Heimdall, agora! — Borr gritou, segurando com firmeza protetora o braço do filho à sua frente a fim de protegê-lo das investidas que chegavam de todas as direções possíveis. Uma explosão de luz os envolveu naquele pronto instante, e logo Odin sentiu-se ser sugado de Jotunheim para novamente regressar à segurança de Asgard.
A viagem durou apenas uns poucos segundos, e num piscar de olhos o cenário já não se estendia infrutífero e alvo, mas sim acalentador e dourado. Odin arfou ao pousar em Asgard, virando-se com um largo sorriso exultante para o pai, um sorriso que imediatamente desfaleceu em seus lábios ao perceber as condições em que Borr se encontrava.
— Pai! — Exclamou, desconcertado ao vê-lo caído por sobre os próprios joelhos, uma enorme estaca de gelo perfurando por completo o peito do Pai-de-Todos. Sangue escorria por baixo da armadura e empoçava-se ao chão, a vitalidade do deus escorrendo junto ao líquido viscoso que se perdia.
Borr dispensou um último olhar frio a Odin, tão frio quanto o reino que acabaram de deixar para trás, o fundo de suas íris carregado de preocupação e desgosto, e a partir de então sua alma foi levada a Valhalla. O corpo do deus tombou, como a casca oca que agora representava, e assim Odin Borson assumiu o legado de seu trono ainda despreparado para tal encargo.”
Urd cessou a sua narração, fechando os olhos por longos e aflitivos minutos ao que pareceu a Loki. O menino de verdes orbes olhou alternadamente para Verdandhi e Skuld, buscando por instruções. Seus dedos infantis começaram a ir de encontro à Norne do passado, ainda de olhos cerrados e alheios, porém Skuld segurou em seu pulso antes que o jotun pudesse tocá-la, meneando negativamente a cabeça num gesto reprovador. Loki empertigou-se, esperando sem muita paciência até que Urd retornasse daquela espécie de transe e voltasse a falar por vontade própria.
— Naquela época, havia híbridos vivendo entre nós... — A anciã relatou, reabrindo os olhos como se nunca tivesse feito pausa alguma — Mestiços de deuses e humanos, gerados pelas visitas protetoras que os deuses faziam a Midgard na época em que ainda eram clamados. Muitos desses deuses traziam para Asgard o fruto do tempo que passavam no reino dos mortais, com as bênçãos de Borr. Contudo, Odin logo tratou de livrar-se dos híbridos em seu reinado, banindo-os em Midgard e impedindo sua morada na terra idílica dos deuses. Muitos se rebelaram contra a opressão de Odin, chegando a pagar pela metade humana de seu sangue com a própria vida. O conflito tomou proporções tão desenfreadas que os sobreviventes restantes foram coagidos a escolher entre a morte e o exílio. Hoje, essa legião de humanos com sangue divino diluído habita Midgard sem ao menos desconfiar de suas verdadeiras linhagens.
— Humanos viviam em Asgard? — Um brilho duvidoso ascendeu à feição de Loki.
— Não humanos. Semideuses, como eram chamados. E seu propósito futuro, Loki, deverá envolvê-los. — Skuld advertiu como um breve presságio do amanhã que tão bem conhecia.
— Eu não compreendo... — A testa de Loki franziu-se quase tão intensamente quanto o arregalar de seus olhos admirados e invariavelmente tristes.
— Não se preocupe. Com o tempo entenderá.
— Por que me contou essa parte da vida de meu pai... De Odin? — Corrigiu-se imediatamente, os olhos em ardência pelas lágrimas que queriam escapar — Como tal história interfere no meu passado?
— Interfere em tudo, pequeno jotun! — Urd avisou, percebendo o menino tremer ao receber aquele tratamento — Deste dia em diante, Odin passou a nutrir um ódio cada vez maior por Jotunheim e seus habitantes, e a recíproca foi verdadeira para Laufey, que jurou vingar-se do Pai-de-Todos e de Asgard pela morte de Vaftrudener, seu pai*. Após as intercorrências desse dia, Jotunheim e Asgard enfrentaram um longo e desgastante período de guerras e baixas de ambos os lados. Odin e Laufey. Dois reis que mutuamente se odiavam, conservando em seus corações infinita disposição para batalhar entre si, cada qual experimentando a insaciável sede pelo sangue do outro. E foram nesses termos, filho de Laufey, que você foi roubado de seu verdadeiro lar. Numa das lutas protagonizadas pelos dois, Odin tirou-o do reino de gelo a fim de afrontar teu pai, de tirar de Laufey seu único herdeiro e fazer com que o governo de Jotunheim tivesse a desonra de sua linhagem real terminada em Laufey.
— Eu fui resgatado como um ato de vingança? — Perguntou, seus olhos implorando para que a verdade não lhe soasse tão vil.
— Embora Odin não tenha plena consciência disso, sim, você pertencer a Asgard foi um ato de retaliação.
O menino baixou os olhos, encarando de um modo extremamente maduro os dedos das mãos que se enlaçavam distraidamente, sem conhecer com exatidão os sentimentos que agora albergava em si. Reviveu em sua mente as relações que já compartilhara com Frigga, Thor, e até mesmo sua conturbada convivência com Odin, deixando-se carregar por lembranças que agora estalavam dolorosamente contra sua alma.
“Tudo uma mentira! Uma farsa encobrindo outra!”
— Agora já detém o conhecimento de seu passado, Loki — Verdandhi constatou, uma seriedade atípica adornando seu jovial e belo rosto — Use-o com esperteza e cautela. — Aconselhou, e as três Nornes retiraram-se rumo à sua morada, deixando o menino a sós com suas próprias angústias.
Loki manteve-se naquela mesma posição durante um longo refletir, submerso nas próprias considerações. Já estava em vias de anoitecer, e o pequeno jotun apenas deixou sua atenção ser atraída ao ambiente quando ouviu um conhecido grasnar rasgar o céu bem acima de si, percebendo só então que um dos corvos de Odin sobrevoava o espaço, planando cada vez mais baixo até que pousou no joelho dobrado de Loki e o encarou com profundidade.
— Ele o mandou atrás de mim, não foi? — O jotun perguntou com crescente ira brotando em si, o corvo apenas inclinando a cabeça como se o chamasse para retornar ao palácio. Loki segurou o robusto corpo do pássaro com ambas as mãos, sentindo as penas sedosas tocarem seus dedos como a mais fina seda asgardiana — Odin quer que me espione, corvo? Então leve este meu recado a ele! — Avisou, quebrando o pescoço do animal num golpe desajeitado, porém eficaz. Um último grasnado estalou desafinado por seu bico, e Loki jogou-o para longe com repulsa exultada.
Ergueu-se, caminhando para longe de Yggdrasil com o rosto já transformado pelas intempéries de sua história, ciente de que a partir daquele momento, nada seria como antes. A caminhada até sua morada no palacete de Odin seria longa. A caminhada até seu lar, contudo, seria extremamente exaustiva e penosa, e Loki mal compreendia os termos daquela infausta jornada.
“Bury all your secrets in my skin
Come away with innocence
And leave me with my sins
The air around me still feels like a cage
And love is just a camouflage
for what resembles rage again
So if you love me, let me go
And run away before I know
My heart is just too dark to care
I can't destroy what isn't there
Deliver me into my fate
If I'm alone I cannot hate
I don't deserve to have you
My smile was taken long ago
If I can change I hope I never know
I still press your letters to my lips
And cherish them in parts
Of me that savor every kiss
I couldn't face a life without your light
But all of that was ripped apart
When you refused to fight
So save your breath, I will not hear
I think I made it very clear
You couldn't hate enough to love
Is that supposed to be enough?
I only wish you weren't my friend
Then I could hurt you in the end
I never claimed to be a saint
My own was banished long ago
It took the death of hope to let you go
So break yourself against my stones
And spit your pity in my soul
You never needed any help
You sold me out to save yourself
And I won't listen to your shame
You ran away — you're all the same
Angels lie to keep control
My love was punished long ago
If you still care, don't ever let me know
If you still care, don't ever let me know”
(Snuff — Slipknot)
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