Orlög

19 Like Smoke In The Air


Notas iniciais
Boa noite, pessoinhas. Só avisando que hoje a música está no início do capítulo pra vocês já entrarem na vibe dele. Deixei o link na esperança de que vocês ouçam ^^

"Beautiful lies

Cover my eyes with your hands

Just pretend we're better

Turn out the light

There are no more surprises to come

Let's be numb together

The world's so fast and nothing lasts

Let's save it while we can

Cause I want to be forever

Like smoke in the air

Float like a feather going nowhere

Lost in the silence

I don't need to be free

Kill me with kindness

And please

Tell me beautiful lies

I wish that I had the strength to let go, but I don't

I'm paralyzed

I see the child in your eyes

And I'm stuck in the headlights

I know too well that time will tell

It's easy to forget

Cause I want to be forever

Like smoke in the air

Float like a feather going nowhere

Lost in the silence

I don't need to be free

Kill me with kindness

And please

Oh, well, I've tried to be open

But I've found it's hard when you're broken

And in the heat of the moment, we're free

So please, please

Please

Tell me beautiful lies

Cover my eyes with your hands

Just pretend we're better

Turn out the light

There are no more surprises to come

Let's be numb together"

(Beautiful Lies — Birdy)

Ela apenas era capaz de distinguir o som ligeiramente irregular da própria respiração naquele aposento escuro. Apesar do ambiente enegrecido, sem qualquer vestígio de luz, Laura ainda conseguia perceber algumas formas já memorizadas na composição simples de seu quarto.

Dispunha de poucos pertences à mostra. A maioria deles, ligado ao seu ofício com armas de fogo dentro da S.H.I.E.L.D., dava ao recinto um tom decorativo pouco comum. Dentre eles, destacava-se um kit para limpeza das pistolas que ocupava quase todo o espaço de seu criado mudo, os itens ainda pela metade destacando-se como os artefatos que mais chamavam atenção em meio a todo o conjunto. Junto ao coldre, algumas roupas abarrotadas escondiam boa parte de um sofá cinzento ao canto, e várias caixas de munição — algumas abertas, outras ainda intocadas — finalizavam o inusitado arranjo do quarto feminino.

Laura via, mas não se importava em enxergar nenhum desses objetos.

Sentada com desleixo sobre a própria cama, os ombros de leve curvados à frente numa postura derrotada, a Pistoleira admirava nada específico, ainda refém das próprias injúrias mentais, que vinham assombrá-la com seus quadros nítidos de um passado malogrado. De uma existência infeliz e turbulenta, que não parecia disposta a abrandar mesmo após longos anos de tentativas ingratas.

Apenas esforçando-se em manter sua visão para fora de seus próprios limites internos, e falhando miseravelmente naquela simples tarefa.

Como uma distração bem vinda, sentiu um pico de ardência mais pronunciado nos braços por conta dos arranhões que se dera na noite anterior, quando manifestara um arroubo de selvageria e autodepreciação...

...Como quando ainda era criança, aflita pela injustiça de seu mundo, e se permitia levar pelos mesmos impulsos irracionais de infligir o máximo de dor física a si mesma, uma tentativa desesperada e controversa de abrandar os tormentos de âmbito mental.

De perceber-se fora de toda existência. De encontrar um conforto falso na mutilação.

Imaginara aquele momento tantas e tantas vezes... Romantizara cada sentimento que a invadiria no exato instante em que retornasse à S.H.I.E.L.D., vitoriosa, finalmente munida de sua vingança. Vivendo num mundo em que Ramirez não mais respirasse.

Mas quantos Ramirez ainda existiam, sem sequer precisar do anonimato para esconder seus crimes mais vis? Quantas Lauras se perdiam nos mesmos desejos venenosos, traiçoeiros, para apenas no último minuto perceber a trapaça travestida de solução?

Quantas Cristinas e Luisas ainda seriam engolidas pelos termos imundos de um sistema que apenas se alimentava dos mais fracos, subjugando-os ao máximo, para depois atribuir a esses mesmos miseráveis a culpa pelos próprios infortúnios? De que adiantara confrontar um único Ramirez dentre uma sociedade repleta deles?

Laura imaginara enfrentar todo o tipo de sensações após afrontar o monstro de sua infância. Apenas não estava preparada para o vazio que se abrigou em si ao concluir aquela missão com que tanto sonhara, um turbulento vácuo tomando o lugar de suas antigas expectativas.

As belas promessas que imaginou virem junto com a vingança nada mais passaram de uma esplêndida mentira.

Um embuste sedutor, forte o bastante para consolá-la por todo o longo tempo de espera, porém que apenas agora revelava sua verdade mais amarga. Não havia redenção. Nunca houve. Laura descobrira a partir daquele ponto que deveria encontrar um modo de conviver com seus traumas, sem nada para amenizá-los.

Sem mais alimentar desfechos fantasiosos quanto a uma milagrosa superação... Sem mais atribuí-la ao destino de terceiros, como fizera por todos aqueles anos, em que a vingança foi sua maior e melhor esperança de virar aquelas lamentáveis páginas de sua vida.

Páginas decadentes, impregnadas de veneno, que faziam questão de continuar presente, mesmo sendo passado.

Três batidas duvidosas se propagaram pelo recinto, curtas e contidas, atraindo um olhar desinteressado da Pistoleira. Ela nada disse quando uma fresta da porta se entreabriu, tímida, revelando parcialmente o belo rosto de Natasha. Um feixe incômodo de luz atravessou o quarto, iluminando com precisão os cortes no braço da mulher que retornara há pouco, como se fizesse questão de anunciar o momento de fraqueza da Pistoleira. A russa os percebeu de imediato, fixando o olhar ali por um breve instante antes de se permitir encarar o rosto da mulher parcialmente encolhida.

— Laura... Posso entrar? — A ruiva inquiriu, e só quando recebeu um aceno discreto da latina permitiu-se passar o corpo esbelto pela abertura, novamente escurecendo o quarto ao fechar a porta.

Encaminhou-se com destreza na escuridão até a cama da Pistoleira, mantendo alguma distância respeitosa quando se sentou ao lado da pequena mulher, percebendo o olhar negro a todo custo a evitando. Tentava, em vão, esconder a mágoa que ali se impregnava, passando as mãos por cima dos braços cobertos de feridas como se seus dedos fossem capazes de ocultar a vasta área de cortes. Acabou apenas chamando ainda mais atenção a eles à medida que os olhos da Viúva Negra se acostumavam à escuridão.

— Clint viu isso? — Natasha perguntou com brandura, afastando as mãos de Laura quando elas começaram a ameaçar constringir os machucados ainda naquele tom bem vermelho.

A Pistoleira negou com a cabeça, e por mais que de fato gostasse de Natasha, desejou novamente estar sozinha.

— Eu estava usando um casaco quando ele me encontrou no aeroporto... — Explicou, ainda sem encará-la.

Natasha assentiu, soltando uma expiração mais longa.

— Não sou o que se pode chamar de religiosa, mas graças a Deus por isso... — Sorriu com gentileza — Clint é um amor, mas quando quer ele consegue me tirar do sério... Não aguentava mais ouvir os surtos de preocupação que aquele homem estava tendo com você. Se dependesse dele, você já teria sido arrastada para fora desse quarto à força, se fosse preciso.

Laura se permitiu um sorriso discreto, conseguindo visualizar aquela cena com a perfeição de cada detalhe passível de se imaginar. A Viúva Negra pareceu satisfeita com aquela reação mais branda, ainda que breve, e pousou uma mão solícita no ombro da mulher, prosseguindo naquele assunto.

— Foi difícil fazer aquele cabeça dura entender que você precisa de um pouco de espaço e privacidade agora. Acabei cedendo e vindo mais cedo do que gostaria porque realmente fiquei tentada a enfiar aquelas flechas dele num alforje anatômico natural, se é que me entende. Fiquei recitando 'pra ele um mantra russo, idí k tchórtu, até que Clint acabou me vencendo pelo cansaço.

— Que caralho significa isso? — Laura finalmente a fitou de esguelha, já mais à vontade com a presença da outra mulher.

— Vá para o diabo. — Contou, um sorriso fechado ganhando espaço por seus belos traços quando um riso breve escapou pelas narinas da Pistoleira. — Embora o Gavião ache que é 'Mantenha a calma'...

— Obrigada, Natasha. De verdade. Você sempre foi uma ótima amiga. Mas acho que eu não sou uma boa companhia agora...

— Ah, eu sei. Mas pode acreditar em mim, estou te fazendo um favor. Clint queria a todo custo vir aqui assim que você se isolou. Ficou lamentando por horas o fato de você não abrir a boca durante a viagem de volta até a S.H.I.E.L.D., e claro, preocupou todo mundo com tanto drama. Não se preocupe, eu não vou forçar nada. Só me deixe ficar aqui um pouco, e quando eu sair vou ver o que posso fazer ‘pra acalmar um pouco nossa ave de rapina.

— O cretino não desiste mesmo, não é... — Laura comentou com genuíno afeto. Se não fosse pela amizade dele, e pela própria Natasha, não saberia o quão pior aquele momento poderia ser.

— Teimoso feito a mula que é. Nesse ponto lembra um pouco você, na verdade... — A ruiva arriscou a brincadeira, feliz por perceber o olhar mais leve que recebeu. Facilmente ainda era capaz de reconhecer a mesma adolescente que conhecera naquele olhar, e acabou engolindo em seco, cheia de compaixão pelos últimos infortúnios de Laura. Deixou que os orbes novamente retornassem às feridas lineares que começavam abaixo do ombro e quase alcançavam o cotovelo, e uma lembrança antiga lhe veio à mente — Lembra quando a S.H.I.E.L.D. ainda se resumia a nós três? — Perguntou, referindo-se às duas e ao Gavião Arqueiro. Natasha fora recrutada alguns poucos anos depois de Laura e Clint, motivada pelo mesmo tipo de chantagem que Fury fizera às suas atividades ilegais, elaboradas demais para uma mera adolescente.

— Bons tempos... — A Pistoleira assentiu, embora não falasse sério. Apreciava muito a companhia de Tony Stark e Bruce Banner.

— Naquela época era mais comum ver esse tipo de machucado em você... — Falou sem rodeios, embora não a julgasse. Riu, e a Pistoleira imediatamente soube qual lembrança a ruiva visitava em suas memórias, mesmo antes que tivesse tempo de verbalizá-la — Clint surtava sempre que flagrava algo assim... Uma vez você machucou bastante a pele do pescoço, lembra? Ficou tão desesperada pra não deixar que ele visse, que eu acabei te emprestando um cachecol pesado de lã, algo que eu só usava nos invernos mais rigorosos da Rússia...

— ...E eu fiquei desfilando com aquilo por semanas em pleno verão, fingindo que era meu novo estilo! — A Pistoleira completou, chegando a se divertir com aquela lembrança boba que ambas compartilhavam como um antigo segredo. As duas riram baixinho, e Laura percebeu-se bem mais leve. O afeto por Natasha apenas cresceu, fazendo-a se sentir ainda mais arrependida por ter estado tão afastada de todos desde a chegada de Loki.

— Clint foi muito burro por engolir essa... — Empurrou o ombro da amiga num toque companheiro, e Laura sentiu-se extremamente grata por aquilo. Nunca percebera um único olhar de pena vindo da mulher russa, talvez pelo próprio passado difícil que ela mesma viveu antes da S.H.I.E.L.D., e isso certamente fortalecera a amizade ao longo dos anos. Ao invés de alimentar ainda mais o modo como Laura se sentia pequena diante de tantos sofrimentos, a Viúva Negra oferecia conforto estando ali, para o que precisasse.

Ajudando a acobertar quantas cicatrizes fossem necessárias.

— Acho que no fundo ele sabia, só não queria ter certeza... — Laura baixou os olhos, novamente triste — Eu nunca consegui realmente enganar o Clint... De alguma forma, ele sempre sabe... Como essa viagem até o México. Fury não disse uma única palavra a respeito, eu tenho certeza disso, mas ele simplesmente sabia... — Baixou os olhos, exausta.

— Foi muito ruim, não foi? — Natasha murmurou a pergunta retórica, não exatamente esperando por uma resposta — Fury é um homem bem imprevisível, eu preciso admitir, mas jamais pensei que ele fosse autorizar isso. Foi uma surpresa bem positiva.

— Que isso nunca saia daqui, Nat, mas nas últimas horas eu venho pensando que talvez ele tivesse certa razão em proibir isso... — Confessou com pesar, incapaz de encontrar algum benefício real em sua tão sonhada desforra.

— Nunca mais repita isso, Laura! Nunca mais! — A russa alertou, séria, mirando-a com veemência — O diretor errou ao te restringir dessa forma. Essas pessoas nunca vão entender o que é ser uma imigrante nesse país. Também nunca vão entender o que é ser uma criança abusada, perdida... Fury ditou as regras sem saber como o jogo realmente funciona, e determinou na visão limitada dele o que achou que seria o melhor para você. Mas só você pode decidir o seu melhor. — Articulou, ela também tendo propriedade no assunto por seu passado nada agradável — Por pior que você se sinta agora, acabou. Finalmente acabou. Você nunca mais vai se perguntar como seria o reencontro com Ramirez. Nunca mais vai se pegar remoendo quinhentas versões de uma lembrança falsa de um possível acerto de contas. Nada pode ser pior do que todas as possibilidades infinitas do "e se". A vingança não te completa e nem traz paz, é verdade. Mas por pior que seja, ela te liberta da obsessão. Você vai passar por isso, Laura, e vai aprender como seguir em frente. É um fim, para o bem ou para o mal, que vai te ajudar a definir um novo começo.

A Pistoleira abstraiu por um instante, de imediato não sabendo o que dizer. Natasha, assim como ela, tinha uma história dolorosa, repleta de abusos e tristezas, e hoje era a mulher mais forte que conhecia. De alguma forma, conseguiu reerguer-se, ao menos aparentemente, e aquela percepção a aliviou de uma maneira profunda e verdadeira. Talvez houvesse algum modo de Laura também se valer das próprias artimanhas para se superar. Sabia que jamais conseguiria completamente, mas talvez... Apenas talvez...

— E já que tocamos no assunto da sua ida ao México... — A ruiva prosseguiu, dando agora um tom levemente descontraído às suas palavras, fitando-a com um tipo de desaprovação fingida — Ainda não acredito que escolheu levar o esquisito contigo... O cara é um completo desconhecido, e por mais que Fury realmente pareça disposto a dar a ele um voto de confiança, alguma coisa não me deixa confiar completamente no figurão. E você sabe que eu sempre quis te ajudar a chutar algumas bundas a serviço do Ramirez.

— Loki é mesmo um cara exótico 'pra caralho, mas ele tem aqueles poderes de outro mundo ou sei lá o que, e me ajudou bastante. — Tentou justificar, fugindo do real motivo que a fizera levar o deus consigo naquela viagem — E acho que eu precisava mesmo de alguém de fora 'pra me dar cobertura. Não sei se conseguiria com um de vocês... Ele... Ele é confiável... — Laura deixou escapar aquela frase que sabia ser no mínimo traiçoeira, e pediu com toda a força que ainda possuía para que não estivesse colocando seus amigos em risco ao ajudar o nórdico.

— Se você diz... — A Viúva Negra deu de ombros, porém não parecia totalmente convencida, algo que Laura apreciou perceber — Bom, agora posso te deixar em paz. Acho que já consigo convencer o Clint de que você não está com nenhum comportamento suicida ou algo do tipo... — Sorriu, apertando com carinho a mão da Pistoleira — Se precisar de qualquer coisa, já sabe, não é? Só não esquece de cobrir os braços quando sair, tudo bem? Não vou conseguir lidar com outro chilique do Barton.

Dizendo isso saiu, deixando Laura sozinha com pensamentos cada vez mais tortuosos. Pensamentos estes que acabaram levando-a para o próximo passo, ainda que soubesse ser uma atitude irrefletida. Visando uma total mudança de ares.

Já estava mais do que na hora de partirem para o lugar místico onde Loki afirmava ter sido criado. O reino por ele chamado de Asgard. A mitológica morada dos deuses.

"Não sei exatamente pra quem rezar, mas se alguém ouvir isso, por favor, que os outros deuses não sejam como o alce aqui... Vai ser difícil lidar com mais de um ao mesmo tempo..." — Cogitou, imaginando se todas as deidades tinham como característica certa aquele mesmo porte arrogante e complexo de superioridade.

Deixou sua mente vagar por essas questões triviais de como seriam os costumes dos deuses, esperando impaciente pelo avançar da madrugada, inquieta pelo passar do tempo agora que delineava um novo norte para si. Ansiosa por se ver livre daquele prédio que de certo modo sabia sufocá-la. Que, por todos aqueles anos, a aprisionou de forma discreta e potente ao seu destrutivo desejo de vingança.

Somente quando calculou que os Vingadores já deveriam estar recolhidos em seus próprios aposentos, ousou deixar o seu, apressada pela vigência de seus novos intuitos. Era bom afinal se concentrar em alguma outra coisa que não seus traumas, sem se envolver intimamente com os dilemas de seu passado.

Era, acima de tudo, reconfortante encontrar outro objetivo em que se concentrar quando o maior anseio da sua vida já havia sido realizado. Embora não tivesse passado de uma armadilha a si mesma, imaginar o reencontro com Ramirez e sua tão esperada vingança era o que motivava Laura a se levantar da cama, dia após dia.

Teria agora que buscar novos desígnios para si mesma, e por ora usaria as necessidades de Loki para preencher o vazio deixado com o fim do seu acerto de contas. Até conseguir encontrar por si mesma o que a faria novamente se importar.

Atravessou a passos silenciosos os corredores amplos da instituição secreta, agradada por não cruzar o caminho com nenhum de seus colegas. Respirou fundo, ignorando as ininterruptas ondas de arrepio que experimentou ao se permitir pensar um pouco a respeito daquilo que estava prestes a fazer.

Permaneceu alguns segundos parada à frente do recinto privado de Loki, sem saber exatamente se cogitava desistir. Antes que se permitisse pesar melhor aquela opção, contudo, abriu a porta destrancada com ímpeto, incapaz de entender se estava ou não surpresa por encontrá-lo acordado.

O deus, sentado com elegância sobre a cama e mantendo a coluna perfeitamente ereta, passou a esconder a sombra de um sorriso no instante em que a humana surgiu em seu campo visual. A Pistoleira estranhou, imaginando se vira certo a respeito dos lábios de leve ascendidos, em dúvida do possível significado da cena. Se chegasse um segundo antes, talvez fosse capaz de compreender o que se passava, mas não fora o caso, e também não queria perder tempo com aquilo.

Qualquer tempo perdido a faria refletir. E refletir, naquelas circunstâncias, poderia levá-la à desistência. O bom senso poderia contestar sua coragem. Fechou a porta atrás de si, tomando cuidado para não realizar nenhum movimento brusco que fizesse o menor som se propagar pela S.H.I.E.L.D. já dominada por completo silêncio.

— Está acordado... Que bom. — Ela constatou, inevitavelmente carregando o seu olhar negro com o magnetismo que naturalmente possuía — Hora de me mostrar por que te chamam de deus da trapaça.

A mundos de distância, o céu parecia tão frio quanto aquele que protagonizava os dias e noites de Midgard — a terra devastada dos humanos, onde o deus da trapaça astutamente se escondia, apenas esperando o momento propício para se reerguer, invencível, nos domínios de Asgard...

...Um momento que estava cada vez mais próximo, porém os Æsires sequer desconfiavam, algo que passaria ainda mais longínqua de suas imaginações quando se espalhasse a notícia falsa da morte precoce do filho adotado de Frigga e Odin. Loki. O ser ardiloso que descobriram pertencer à raça indigna dos Jotuns.

Sif caminhava a passos cuidadosos, atenta à imagem distante e solitária de Thor junto ao belo cenário dourado, de imponência divina. O deus do trovão estava resoluto, de uma forma tão contemplativa como a guerreira jamais vira antes. Não era do feitio de Thor manter-se isolado dos demais deuses e festejos, porém nos últimos tempos era cada vez mais frequente perceber o robusto deus do trovão solitário, acompanhado apenas por pensamentos que pareciam açoitá-lo na quietude atípica que o envolvia, que o tragava para longe daquele lugar. Até mesmo daquele tempo.

Decidida a se aproximar, a deusa nada disse quando se sentou ao lado do príncipe, passando a vislumbrar o mesmo horizonte distante que detinha a total atenção dos orbes azuis. Olhos que desde cedo aprenderam a lhe cativar — a afeição honesta, num primeiro instante, motivada pela coragem e devoção que eles inspiravam, e que paulatinamente foi evoluindo para algo mais profundo.

E nunca abrandara.

— O que o aflige, Thor? — A guerreira o questionou, imaginando se o deus reprovaria se ela o tocasse em conforto. Irritou-se consigo mesma ao se perceber dominar por um arrepio de ansiedade, julgando-se tola por tais sentimentos.

Afinal, ele nunca dera quaisquer indícios de lhe corresponder com nada além de uma forte amizade. Um tipo de laço intenso, porém não tanto quanto Sif gostaria.

— Loki... — O deus do trovão não tardou em responder, e à menção daquele nome a guerreira já percebeu o corpo enrijecer de leve. Normalmente era sempre Loki que, de um modo ou de outro, contribuía para as expressões mais pesarosas do príncipe.

— Ainda não o encontraram? — Tentou manter o timbre imparcial, sem denunciar o pouco apreço que tinha pelo deus trapaceiro. Assim como todo o reino, ainda não engolira a terrível performance de Loki no dia que deveria ter sido a coroação do primogênito de Odin. Aquele olhar faiscante de um vívido tom rubro revelando-o um Gigante de Gelo, apenas contribuindo para aumentar as desconfianças e desgostos direcionados ao segundo filho de Odin.

"Não à toa ele sempre me pareceu tão traiçoeiro. Era de se esperar que sua inveja pelas conquistas de Thor viesse do caráter instável dos jotuns, e não apenas de uma birra natural entre irmãos..." — Contemplou aquele pensamento por um instante, quase perdendo a atenção na resposta daquele que dominava os trovões.

Que possuía, sem saber, o coração cheio de bravura da guerreira.

— Pior. Fomos questionar Heimdall sobre seu paradeiro, e... — Os lábios de Thor tremeram brevemente, seu semblante destruído como Sif jamais vira. Como jamais gostaria de testemunhar. O silêncio se propagou entre eles à medida que o portador do Mjölnr tentava buscar as palavras menos dolorosas. Quando entendeu que não conseguiria encontrá-las, deu-se por vencido, sua postura parecendo ainda mais abatida quando enfim explicou, sem mais se preocupar com meias palavras ou eufemismos — Heimdall não pôde encontrá-lo, Sif! Seus olhos não conseguiram alcançá-lo...

Os olhos da guerreira se arregalaram em surpresa, e seu coração se encheu de pesar quando as íris bem azuis de Thor a encararam com infinita angústia. Bem distante do ser alegre e expansivo que costumava iluminar a maioria de seus dias. A deusa passou os dedos pelos fios negros, fingindo que os ajeitava mesmo que estivessem perfeitamente presos no alto rabo de cavalo, pega de súbito por aquela notícia trágica.

Jamais gostara de Loki. Esperava que ele ainda pagasse o preço justo pelo estrago que fizera na coroação de Thor, contudo jamais lhe desejara nenhum mal. Ainda mais quando esse mal causava tanta dor ao príncipe que detinha cada fiapo de sua lealdade, e um pouco além.

— Thor, eu... Eu sinto muito ouvir isso... — Lamentou com honestidade, conhecendo a adoração ingênua de Thor pelo irmão. Tão cega quanto profunda. — Será que não existe a possibilidade de ter havido algum engano, talvez? — Inquiriu sem convicção nenhuma, bem ciente do que aquilo significava. Porém, de uma forma bem sentimental e tola, sentia a necessidade vigente de levar algum conforto real ao filho de Odin, mesmo que fossem esperanças vazias, e cruéis portanto.

— Quis acreditar nisso, por mais que insistissem em dizer-me o contrário... — Passou a mão robusta pelas mechas loiras, o volume de seu cabelo preso apenas pela metade. Sif conteve o impulso de abraçá-lo, prendendo firmemente as mãos uma à outra para evitar ceder à tentação — Só Heimdall sabe quantas vezes fui importuná-lo com essa mesma pergunta, mesmo que no fundo eu soubesse estar apenas me enganando em alimentar essa esperança de um consolo falso... Loki se foi, Sif... E o pior é não saber como aconteceu. Sequer posso nutrir a expectativa de encontrá-lo em Valhalla. — Aquele desabafo pareceu acordar o lado mais irascível de seu luto, e rugindo um lamento grave, Thor lançou com força brutal o martelo em nenhuma direção específica, urrando as notas mais tristes que Sif já ouvira. Como um servo fiel, o Mjölnr não tardou a retornar à posse de seu dono, que tornou a sentar, parecendo um pouco mais controlado naquele misto indiscernível entre ódio, tristeza e frustração.

Ficaram ainda algum tempo em silêncio, apenas distraídos à sua própria maneira com o ambiente divino. Absolutamente todos os lugares trazendo ao deus do trovão lembranças de seu amado irmão.

Fazendo-o remoer sua angústia nos mais diversos níveis.

O que aguardou Thor no transcorrer dos dias em Asgard não foi minimamente melhor.

Após a notícia espalhada da morte de Loki, juntamente com o escândalo disseminado de sua verdadeira origem, Odin resignava-se cada vez mais cedo aos seus aposentos, tentando simular indiferença à perda que acometia sua família. Loki, afinal, traíra a confiança de Asgard ao portar-se daquela maneira mesquinha e injustificada.

Procurara por aquele destino, quaisquer que tenham sido suas ações para efetivamente encontrá-lo.

Contudo, a cada dia ficava um pouco mais claro que tal episódio desestruturara o Pai-de-Todos, a tal ponto que o inevitável aconteceu.

— Thor! — Certa manhã Frigga chamou o filho com cuidado, atraindo-o para longe de ouvidos curiosos em meio ao palácio — Há algo que eu gostaria que visse.

A Deusa-Mãe o conduziu ao próprio aposento privado, seus olhos do mesmo tom azul o perscrutando com cuidado e inteligência ímpar à medida que dava passagem ao filho. Thor, inicialmente confuso e sem saber o que esperar, foi dominado pelo desânimo ao observar o leito que Frigga e Odin dividiam.

Seu pai jazia deitado ali, o semblante de alguém que adormece profundamente. Todo o corpo robusto do monarca de Asgard era envolto por uma aura dourada que imediatamente foi reconhecida pelo deus do trovão.

— Cedo assim? — Thor questionou, desacreditado — Ele acabou de sair do último...

— Eu sei, meu filho. Mas não é tão simples. Seu pai, como sabe, deve entrar nesse estado de hibernação a fim de conservar suas forças e alimentar sua imortalidade. Em situações normais, esses períodos são previsíveis, como o último que Odin passou antes do dia... — Frigga hesitou, a imagem de Loki na forma de um Gigante de Gelo ocupando cada espaço de seus pensamentos — Como foi antes da data marcada à sua coroação... Porém, algumas vezes isso acontece fora do tempo previsto, e nessa situação só nos resta esperar... Esperar e ansiar que termine logo...

— Esse momento... Não é ideal. Todos o considerarão covarde, mãe. Pensarão que ele tenta se esconder do constrangimento que Loki causou... — Disse o nome com imenso pesar, na verdade pouco se importando naquele momento com as origens do irmão. Daria tudo para tê-lo vivo ao seu lado, Gigante de Gelo ou não.

— Está fora de nosso alcance, Thor. Jamais devemos interromper um evento como esse, como sabe. Resta-nos aguardar. Prepare-se, meu filho. Tomará o lugar de teu pai até que ele acorde e então possamos refazer de maneira adequada a tua coroação.

A Deusa-Mãe se retirou, e o deus do trovão lançou um último olhar infeliz ao pai. Num momento em que tanto precisava de Odin e todos os ensinamentos que ele lhe inspirava, o Pai-de-Todos fora induzido a entrar no sono de Odin, muito antes do tempo previsto.

Uma medida que poucos compreendiam e que trazia certos questionamentos em momentos de crise como aquele, porém que visava resguardar o monarca. Nem mesmo o próprio Odin era apto de controlar aquela manifestação de seu corpo já idoso quando ela se anunciava num momento inesperado, capaz apenas de se curvar ao evento.

O peso do cetro real, aquele que Thor tanto sonhara em carregar após sua coroação sabotada por Loki, pareceu extremamente errado entre seus dedos numa situação como aquela.

Sentia como se não dispusesse da menor capacidade de ocupar o lugar de monarca diante de tudo o que vinha acontecendo à sua família. Nunca antes se viu tão despreparado quanto naquelas circunstâncias, em que o cetro real antes tão cobiçado e envolvido pelas suas mais ousadas expectativas, agora recaía sobre seus dedos unicamente como uma obrigação indesejada.

Como o estorvo que ainda se provaria ser.

Notas finais
Próximo capítulo teremos mais ação, não se preocupem. Beijos, beijos ;*