Orlög
22 I Was Made For You
Notas iniciais
A escuridão da madrugada ainda reinava quando Laura despertou.
Sua primeira percepção foi o ângulo da própria mão, à primeira vista estranhamente desconfortável. Estava disposta a milímetros dos dedos longos de Loki, ainda adormecido. Como se em algum momento estivessem entrelaçadas, ou ao menos tencionassem tal aproximação.
Engoliu em seco, fitando o rosto do deus. Noutras épocas, teria destinado sua atenção ao corpo despido e bem dotado daquele que dormia consigo, porém naquele instante conseguia apenas fixar o olhar nos traços quase apaziguados de sua face. A respiração rítmica, os lábios de leve entreabertos e a sombra de um vinco entre suas sobrancelhas.
Quis berrar.
O desejo veio tão súbito e potente que a pistoleira por impulso levou as mãos à boca, calando à força o irrefletido anseio.
Queria expor em gritos histéricos a opressão que atingiu seu peito, o medo que dia a dia tomava seu coração como morada. Tentou negar o quanto pôde para si mesma, mas a verdade sempre arrebatava aqueles que se esforçam demais em ignorá-la por muito tempo.
Estava perigosamente envolvida por aquele ser pouco confiável, de habilidades mitológicas. Jamais amara alguém em termos românticos, e acima de tudo temia que pudesse estar se enviesando para esse caminho estúpido. A única coisa boa que considerara que Ramirez havia feito por si — fechá-la para tais sentimentos — agora se mostrava uma medida ineficaz, irrelevante diante daquele que conseguia quebrar uma a uma daquelas barreiras impenetráveis que Laura fora construindo com tanto zelo ao longo da vida. Não tão impenetráveis assim, ao que parecia.
Saiu com cuidado do saco de dormir, temendo acordá-lo. Não podia lidar com Loki naquele momento em que sequer conseguia lidar consigo mesma. Vestiu às pressas um sobretudo antes de sair da barraca, aliviada simplesmente pela mudança de ambiente. Todos ainda dormiam a julgar pelo silêncio disseminado, e a pistoleira aproveitou o instante libertador de solidão para se afastar ainda mais dos companheiros de luta.
A atmosfera estava fresca e o ambiente escuro demais para definir com precisão o caminho trilhado, mas a humana não se importou. Não tinha um destino certo em mente, e portanto qualquer um serviria.
Qualquer um que a distraísse do peso esmagador de seus pensamentos mais recentes, que a afastasse de tudo que conhecia e lhe apresentasse algo totalmente novo.
Talvez, o que de fato motivasse sua busca era a esperança de alguma clareza aos pensamentos. De qualquer entendimento que pudesse resgatá-la das sombras as quais ela mesma se isolara. Uma responsabilidade e tanto para atribuir a meros passos.
Passos que, seguindo esta finalidade, poderiam passar como aleatórios, quando na verdade eram estipulados, um a um, pela força vital que ditava em igualdade o destino de deuses e humanos, sem nunca distinguir, sem ousar dar privilégios. O Orlög. A energia incansável que usava qualquer um que fosse necessário para atingir os próprios desígnios.
Laura já era capaz de sentir sua respiração menos pesada, e a bagunça em sua mente um pouco mais controlada à medida que seus pés descalços ligavam-se à textura irregular da terra.
Como se naquele momento pudesse ser capaz de acreditar na liberdade e todas as ilusões que esse conceito infantil trazia consigo.
Cessou sua caminhada ao perceber-se diante da frondosa árvore pela qual passaram mais cedo, em busca de um local seguro para montar o acampamento. Como se fosse a primeira vez que a vislumbrasse, aquele cenário novamente lhe tirou o fôlego de tão esplêndido.
Não à toa era chamada de Árvore da Vida. Seus galhos, folhas e tronco pareciam não apenas cercar-se do vigor da existência, mas acima de tudo doar.
— Como Loki pode ter crescido tão amargurado num lugar tão lindo? — perguntou-se sem qualquer pretensão, sua mente já reprovando o argumento raso pelo conhecimento que detinha sobre a infância conturbada do deus. Sobressaltou-se quando obteve uma resposta à pergunta retórica, que fizera apenas para si.
— Não se engane, criança. As tormentas que cada coração carrega não podem ser apaziguadas por uma bela vista... — a fala era rouca, e apesar de falhada carregava em seu timbre certo poder. A sabedoria de toda a existência parecia compor os tons dissonantes daquela voz, assim como da aparência que logo se revelou para o alcance limitado da vista humana. Uma figura muito idosa, de olhos imparciais, se pôs à frente de Laura, parecendo totalmente à vontade enquanto a pistoleira afastou-se num súbito movimento, procurando pelas pistolas no ato mais instintivo de sua existência — ...mas, em contrapartida, se serenam facilmente diante da motivação certa — fitou Laura com profundidade, uma fagulha de interesse ascendendo em seus olhos de um azul descorado, doente.
— Quem é você? — a midgardiana tentou munir a pergunta de ameaça, mas por alguma razão aquela presença a arrebatava, como se intuísse estar diante de algo grandioso, muito mais do que sua consciência era capaz de abranger. Os pelos em seu corpo se eriçaram diante daquele encontro, já marcado muito antes de Laura nascer. Já definido no próprio Alvorecer dos Deuses, quando fogo e gelo se misturavam na criação da vida.
— Eu? Eu sou aquilo que já foi. Estas são minhas irmãs. Aquilo que é. Aquilo que será. Juntas, somos o todo.
Somente naquele momento Laura percebeu duas novas presenças. No meio, uma bela moça que transmitia jovialidade e intransigência. No outro extremo, uma criatura que ao primeiro olhar desatento parecia não passar de uma criança, porém carregava em seus olhos sem íris a sabedoria que mais ninguém poderia ousar possuir.
— Somos o que sua mente conhece como passado, presente e futuro — a mais velha das três tornou a falar, indo em direção ao lago ainda que não tirasse os olhos da humana. — Ouvimos os sussurros e as vozes daquele que é maior do que nós, e fiamos os destinos de homens e deuses a partir do que nos é confidenciado.
— Vozes, é? — a humana afastou-se um pouco mais, praguejando por esquecer as pistolas. Desde quando tornara-se tão tola a ponto de sair em território desconhecido sem suas armas? Sem ao menos um punhal que fosse — De onde eu venho isso tem tratamento...
— Uma midgardiana insolente o bastante para troçar de deuses... — Verdandhi a analisou com um sorriso interessado, rindo com gosto. — Loki Laufeyson por certo foi castigado pelo destino ao ter o fio da vida emaranhado ao desta humana.
— São as vozes que ditam o rumo de todos os destinos, criança — Urd explicou, ignorando por completo a irmã. — Desde o primeiro até o último respirar.
— Acho que eu preciso ter uma conversinha com o filho da puta que vem sussurrando minha vida ‘pra vocês então... — tentou zombar, mas apenas conseguiu demonstrar o quanto estava tensa e envolvida por aquelas presenças.
— Cada passo da sua jornada te trouxe a este momento — a deusa jovem e de uma beleza duvidosa ofereceu um sorriso dúbio à mulher, difícil de decifrar, assim como a excitação em seus olhos — Não amaldiçoe o caminho que te moldou ao que é hoje. Qualquer trilha diferente, qualquer passada em falso, não te impulsionaria ao caminho de Loki. Sabendo disso, midgardiana, ousaria mudar algo em seu passado?
Laura chegou a abrir os lábios, prestes a protestar pela colocação insensível da deusa, quase uma ofensa diante de tudo que a havia quebrado e massacrado por dentro. Ninguém poderia valer mais do que a integridade que se perdera na menina que um dia a pistoleira fora. Ninguém podia equiparar-se à infância roubada e regada pelos piores tipos de abusos. Laura não ousaria atribuir tamanha importância a ninguém. Não ousaria se rebaixar a tal ponto, se julgar tão menos.
Porém, antes que fosse capaz de responder, rememorou o olhar verde de uma astúcia ímpar. O sorriso zombeteiro que raras vezes traziam alguma verdade oculta, palpável a ela, uma mera humana. A expressão irritada a cada provocação, a cada referência não entendida, e a diversão que isso causava em si, e como todo aquele conjunto era capaz de envolvê-la. Não soube se imaginar sem nada daquilo, e tal percepção a atingiu como uma sucessão de socos no estômago. Quão estúpida Loki ainda a tornaria? Desde quando se tornara fútil a esse ponto?
“Cacete! Eu mereço mesmo me foder!”
— Não se culpe por querê-lo — aquela que tinha estatura de criança manifestou-se pela primeira vez, causando novos arrepios na humana pela capacidade de decifrá-la em seus próprios pensamentos. — Teme que o jotun a julgue dispensável. É compreensível. Qualquer criatura sensata duvidaria das verdades que Loki demonstra, mesmo as que não são manipuladas. Mas não se engane, midgardiana. Aquilo que sente é o mesmo que Loki vem tentando dissimular dentro de si, sem grande sucesso apesar de sua notória habilidade em trapaças e ilusões. Suas existências estão fadadas um ao outro, e até o fim Loki será seu. E você dele. Nem mesmo o Ragnarök pode mudar isso.
— Como pode saber de algo assim? — Laura questionou, amargurada. Sentia-se tola, ludibriada pelos artifícios do deus, e acima de tudo enraivecida por querer afundar-se mais e mais nas armadilhas que ele montara ao seu redor. Apenas para que, por um instante que fosse, pudesse considerá-las verdadeiras.
— Julguei que Urd já tivesse nos apresentado — Skuld replicou com certa impaciência, pouco empática à ignorância humana. — Somos a onisciência de todos os destinos. Somos as fiadoras de todas as sinas. A isso, o ardil de Loki é incapaz de iludir.
— A existência humana é tão insignificante a nós quanto um piscar de olhos — a deusa do passado conjecturou, enfática. — A morte lhes corteja a partir do momento em que nascem. Costumamos vê-los como crianças, mesmo o mais longevo dos seus anciãos. Mas, ao mesmo tempo, as dores e as provações de Midgard os fortalecem.
— Aonde quer chegar? — A pistoleira questionou, desconfiada, arrancando de Verdandhi um riso debochado pelo imediatismo que demandava à deusa, quase como uma ordem.
— Seu caminho foi trilhado com perdas, desde muito cedo. Sua mente a forçou a tratar todas as suas relações à distância, evitando quaisquer apegos. O temor de perder Loki te impulsiona a se recolher, e esse afastamento alimenta aquilo que você mais teme. Distanciar-se de Loki. O ciclo se retroalimenta por si só, gerando apenas os resultados que tenta evitar.
— Humanos realmente nunca me pareceram criaturas muito astutas... — a deusa do presente tripudiou, sorrindo cheia de maldade.
— Vocês chegaram a prever isso...? — Laura questionou ao mostrar o dedo médio para a deusa que desde o início vinha lhe provocando, fazendo com que a divindade apenas risse com gosto, parecendo de fato agradada, enquanto a pistoleira não podia se sentir mais miserável com as verdades ouvidas.
— Seus temores são suas maiores crenças limitantes, criança — Urd prosseguiu, como se em momento algum tivesse havido qualquer interrupção. — Desprenda-se deles. O passado nos ensina, mas também é preciso sabedoria para deixá-lo fluir e abrir espaço para as possibilidades futuras. Luisa, Cristina, Isabel... Já não passam de memórias. Não há mais nada que possa ser feito por elas.
Laura fitou a deusa como se a deidade acabasse de lhe estapear a face. Três tapas na forma dos nomes que mais a assombravam. Luisa, a irmã mais nova que não pôde proteger. Cristina, a mãe que cuspiu em sua cara ao escolher as drogas acima da integridade da filha. E Isabel. A mulher que a salvara na embarcação clandestina de Ramirez. Aquela que deveria ter sido sua mãe de sangue, se o destino fosse minimamente benevolente consigo.
— E o que sugere que eu faça com todo esse monte de merda? — Questionou-a, uma espécie de umidade raivosa subindo aos olhos tão negros quanto o próprio infinito — Que simplesmente apague? Que finja que porra nenhuma aconteceu?
— Honre os nomes de seu passado, criança. Cada uma dessas lembranças representa um fragmento de sua história. Uma fração do todo que a trouxe até aqui, em segurança apesar das dores e desafios. Sempre haverá a cicatriz daqueles que partiram, e por isso mesmo seria sensato seguir em frente, um tributo respeitoso àqueles que não podem mais se permitir tamanho luxo.
— Humanos são criaturas desafiadoras ao entendimento — Verdandhi abstraiu, pela primeira vez despindo-se do tom jocoso ao se direcionar à midgardiana, de fato parecendo dominada por aquela reflexão. — Trata-se da raça mais passageira de todos os Nove Reinos, e ainda assim seus olhos nunca estão direcionados ao presente. Focam-se no passado, punindo-se por aquilo que já não podem mudar, ou preocupam-se em demasia com o futuro, tão inalcançável quanto. O presente lhes escorre por entre os dedos, até que não esteja mais em suas alçadas vivê-lo com plenitude.
— Sua missão é grandiosa, midgardiana — Skuld finalizou, as três deusas já se afastando da humana rumo à estonteante árvore. — E Loki faz parte dela desde o seu primeiro sopro de vida. A ligação entre suas almas nunca será quebrada, jamais alimente temor semelhante. Sua natureza é fogo. Ação, dinamismo, explosão. A de Loki é gelo. Calculismo, frieza, estase. Seus cernes se complementam tanto na criação quanto na destruição, mas jamais se repelem. Ao contrário... buscam-se, visando propósito maiores.
A tríade divina partiu, e por um momento Laura se perguntou se de fato o inusitado encontro havia acontecido. Apertou o sobretudo sobre o corpo, olhando ao redor em busca de alguma confirmação que nem ela parecia compreender.
Retomou o caminho até as barracas, imersa em reflexões. O caminho de volta pareceu muito mais longo, e ela chegou a se questionar se tomara a trilha errada antes que vislumbrasse o conjunto de tendas de seus companheiros.
A escuridão ainda reinava quando retornou, e mais uma vez foi arrebatada por aquele angustiante misto de emoções ao vislumbrar o semblante pacífico do jotun em repouso. Estava exausta, mas não era o seu corpo físico que reclamava. A cada dia sentia uma parte de si ser consumida pelas dúvidas que o deus da trapaça lhe incutia, incapaz de decidir se não passava de uma peça conveniente às tramoias do deus. Ou se, de alguma forma, ele sentia o mesmo que ela.
Largou o sobretudo no chão, novamente expondo o corpo despido ao breu da noite. Sentou-se de costas para Loki, a postura muito ereta ocupando o mesmo local em que dormia há algumas horas. Agora totalmente alerta e contemplativa. Ruminando cada aspecto do encontro que acabara de vivenciar. Soube o momento exato em que o deus despertara pelo leve perturbar no ruído de sua respiração. Era assustadora a forma como já o reconhecia até mesmo em suas nuances.
Não precisou virar-se para entender que ele também se erguera, capaz de sentir os verdes olhos inquisidores sobre si. Ainda assim, tremeu levemente quando a mão gélida lhe tocou a pele.
— Problemas para dormir? — Questionou-a baixo, a voz macia tão diferente da habitual troça que quase sempre tingia seu tom.
— Você sempre desprezou a humanidade, ou midgardianos, seja lá como você chama — principiou, sentindo a surpresa de Loki pela brusquidão com que o assunto repentino foi abordado. Nem a própria Laura se sentia muito certa sobre o que pretendia dizer. — Desde que chegou no meu mundo, eu tento entender o que caralhos alguém como você poderia querer com as pessoas ordinárias da Terra. Com gente como eu... — franziu as sobrancelhas, expelindo uma expiração mais longa na forma de um riso cansado. — Você nos trouxe até aqui, provavelmente para a morte, e duvido que se importe. Nos vê como peões descartáveis num tabuleiro, e o tempo todo eu ajudei... Ajudei mesmo conseguindo enxergar seus jogos de manipulação... ou pelo menos alguns deles... — Laura virou-se, fitando Loki com seriedade. A feição tensa do deus devia estar bem parecida com a sua. — Eu cansei disso. Cansei de tentar mudar a pessoa que eu me tornei desde que você apareceu. De tentar voltar a ser quem eu era, ou entender o que acontece nessa relação fodida. Eu já entendi que nunca vou descobrir. Se aproximar de mim pode ter sido mais uma estratégia sua ‘pra conseguir chegar aonde quer. Pode ter sido um acidente não planejado. Eu nunca vou realmente saber, você é bom demais em ocultar aquilo que não quer que os outros percebam. E o que me deixa mais puta nisso tudo é que eu não ligo mais. Acabei me tornando sua, e você faz o que bem entende. Se me reduzir a essa versão patética de mim fazia parte do seu plano, ou se era só diversão, já deu certo. Só não consigo entender o porquê.
— Crê realmente que possuo algum poder nisso? — Havia agora um toque enraivecido em sua fala, como se admitir o que estava prestes a dizer fosse um enorme fardo. O maior de todos, na verdade. O brilho já expressivo de seus olhos tomou uma magnitude ainda maior, mais vibrante, tornando ainda mais difícil não confiar no teor de suas palavras — Algum controle? Acredita que me envolver com uma midgardiana me traria qualquer benefício que fosse? Que de alguma forma eu dito as regras sobre essa espécie sádica de jogo que até então eu mesmo desconhecia? — Estreitou os orbes em desafio, ele também já farto de sentir que se tornara uma existência menor pelos impulsos que a mulher latina lhe causava. — Faz muito bem em não depositar sua fé em mim, Laura, mas não por julgar que eu detenho algum domínio, por menor que seja. Não deve jamais confiar em mim porque me tornei a criatura mais inábil dos Nove Reinos quando o assunto é você.
— Que ótimo, já fiquei molhada de novo... — murmurou para si mesma, espantada com a capacidade com que Loki a envolvia sem grandes esforços. O jotun não a ouviu, dando continuidade ao discurso.
— Uma mera humana, quebradiça e frágil, limitada... Confinada às restrições da própria existência efêmera. A mais passageira das criaturas. Quais proveitos eu poderia tirar disso além de um mar de inconveniências?
— Caralho, Loki, cala a boca... — ela soltou um riso incrédulo. — ‘Cê tava indo bem, só precisa saber a hora de parar... Fodeu com o clima, então eu vou fingir que você não começou a me ofender... — caçoou, decidida a colocar suas neuroses em segundo plano. Um pouco apaziguada por reconhecer a guerra que Loki também parecia travar contra si.
Posicionou-se sobre o colo do deus, encarando-o de frente com a sombra de um sorriso lascivo, que sabia provocá-lo. Pressionou seu corpo contra o dele, percebendo no mesmo instante a pele se arrepiar até mesmo para além daquele contato já tão familiar. Roçou seus lábios contra os do jotun, conduzindo-o a um beijo lento, tão vagaroso quanto ela gostaria que fosse a passagem do tempo naquele minuto. O antebraço da mulher pousava suave sobre a clavícula de Loki, seus dedos acariciando — quase sem perceber — os fios de cabelo sobre sua orelha esquerda. Os lábios de Laura se afastaram, ainda covardes para uma declaração aberta, mas não deixando de expor a enorme verdade que explodia em seu peito.
— Eu preciso de você, Loki. Acho que sempre precisei — apenas percebeu que algumas lágrimas escorriam livres por seu rosto quando o deus as secou, fitando-a com angústia genuína, talvez reconhecendo em si aquela mesma verdade, embora não ousasse expressá-la em palavras. Nenhuma máscara, nenhuma dissimulação. Despido de qualquer artimanha quando a encarou de volta, consumido por aquilo que também atormentava sua musa de Midgard.
— Não pretendo partir. Ao menos não desacompanhado.
A humana assentiu, tornando a beijá-lo, dessa vez com maior brusquidão, em cobiças não tão suaves. Encaixou-se melhor sobre o colo do deus, ajeitando o membro já rígido para dentro de si, tomada pelo deleite à medida que avançava sobre ele.
Loki levou uma das mãos até a cintura de sua midgardiana de ébano, os dedos percorrendo com rudeza a pele pela qual não cansava de se aventurar, puxando as coxas fartas que já circundavam sua pélvis com intimidade. O olhar do jotun, que normalmente se demarcava em inúmeras emboscadas a quem ousasse decifrá-lo, naquele momento era apenas abrasador, e as perguntas depositadas aos tons esverdeados soavam tão urgentes quanto seus desejos pela humana. As íris, ora verdes ora rubras, transpassavam a pistoleira, parecendo capazes de enxergar não apenas sua delimitação física, mas a própria alma daquela que vinha testando cada um de seus limites.
Empurrando-o para muito além de sua zona de conforto. Forçando-o a lidar com um turbilhão de fraquezas que o deus jamais atribuiria a si.
Laura manteve firme aquele complexo encarar. Analisava as linhas de prazer que se formavam na feição do parceiro, ciente de que ela mesma também permitia que cada sensação se evidenciasse em suas menores expressões. Puxou o deus pelo pescoço, avançando os lábios nos dele com a imperiosidade que dominava cada um de seus sentidos. Decidida a não se permitir mais lutar contra a maré que a arrastava na direção de Loki, ainda que aquela correnteza com frequência ameaçasse naufragá-la.
O jotun envergou levemente o pescoço ao ser tomado pelo êxtase do sexo, de imediato notando-a repousar na curvatura de seu ombro, explorando com lábios ainda sedentos a pele lívida do deus. Eriçou-se à mercê dos toques de sua humana, já habituado à sensação de total perda de controle quando partilhavam aquela proximidade. Não era o tipo de percepção que um dia deixaria de enraivecê-lo ou incomodá-lo, porém não sabia mais se seria capaz de driblá-la.
Diante da certeza de sua própria rendição, Laura desacelerou o ritmo ditado até então por ela, percebendo-o estremecer junto de si. Ele, de alguma forma, compreendia a total entrega de sua midgardiana. Suas reservas desistindo uma a uma. Sentia-a perfeitamente como se a rendição fosse sua, muito provavelmente porque também se mostrava sem mais restrições diante do semblante feminino, límpido de quaisquer farsas.
Ele tinha pressa, sem saber do quê. Albergava demandas que não o agradavam, mas que não mais ousaria ignorar. Por mais tolo que se julgasse por se permitir sucumbir a tais fraquezas, era astuto o suficiente para perceber que tentar reprimi-las apenas surtiu o efeito de amplificar sua potência já devastadora.
As mãos pequenas da midgardiana se apoiaram em seu ombro e pescoço, quase buscando amparo ante a forte entrega provocada por mais aquela união. Os olhos agora fechados, incapazes de ver o quanto seu deus também desistira de nadar contra a maré insistente que os unia.
E assim permaneceram, sem nada declarar, porém com tudo dito a despeito de qualquer palavra...
…Não haveria, afinal, nenhuma que fosse eloquente o bastante para dar voz ao que se eternizava entre eles.

“All of these lines across my face
Tell you the story of who I am
So many stories of where I've been
And how I got to where I am
But these stories don't mean anything
When you've got no one to tell them to
It's true... I was made for you
I climbed across the mountain tops
Swam all across the ocean blue
I crossed all the lines and I broke all the rules
But baby I broke them all for you
Because even when I was flat broke
You made me feel like a million bucks
Yeah you do and I was made for you
You see the smile that's on my mouth
Is hiding the words that don't come out
And all of my friends who think that I'm blessed
They don't know my head is a mess
No, they don't know who I really am
And they don't know what I've been through like you do
And I was made for you
All of these lines across my face
Tell you the story of who I am
So many stories of where I've been
And how I got to where I am
But these stories don't mean anything
If you've got no one to tell them to
It's true that I was made for you
Oh yeah, well it's true that I was made for you”
(The Story — Brandi Carlile)
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