Origins
24 Escolhas feitas por quem amamos
Notas iniciais
Carol Peletier
Fazenda Greene
A noite caiu depressa e conforme as tarefas foram acabando nos sentamos na sala, a preocupação aparente nos olhos de cada um de nós, principalmente pela falta de qualquer notícia.
Claro que eu estava muito preocupada com Daryl lá fora, mas eu tinha que confiar que, se tinha alguém capacitado pra encontrar o Randall na floresta, esse alguém era Daryl Dixon.
Abracei o próprio corpo e resolvi subir e ver a Charlotte, ela ainda não parecia muito bem, como se estivesse prestes a ter um colapso a qualquer momento, mesmo que fingisse que não.
Procurei-a por toda a parte e não encontrei. Não precisei pensar muito pra deduzir que ela tinha saído. Desci as escadas apressada e cheguei na sala, momentos antes de Andrea se levantar e dizer que iria atrás dos outros.
Eu não sabia se falava que a garota tinha sumido e deixava todos mais preocupados, ou se confiava que ela não ia se meter em nenhuma encrenca. O que, em se tratando de Charlotte Walsh, era quase impossível, porque ela parecia ter um imã natural para encrencas.
Foi nesse momento que Daryl voltou com Glenn. Ele perguntou por Rick e deu uma olhada geral na sala. Eu sabia que ele estava procurando por ela e fiquei tensa.
Explicou que Randall estava morto e que o pescoço quebrado indicava uma briga. A teoria era que Shane tinha seguido e matado o garoto, mas Shane não sabia rastrear. E além de tudo isso eles haviam ouvido um tiro.
Toda a situação começou a parecer muito ruim e Lori pediu que o Daryl voltasse atrás do Rick.
Eu não queria que ele voltasse. Rick era policial podia se virar muito bem, era ariscado. Além de tudo, Randall já estava morto...
Estava começando a entender a birra da Charlotte com a Lori, afinal Rick e Shane só estavam naquela briga por ela. E era sempre outra pessoa que pagava o pato. E é claro que o Daryl não recusou. Ele podia liderar aquele grupo se quisesse, mas sempre agia como se fosse um ninguém, como se não tivesse nenhum valor... Ele não merecia isso.
Mas não houve qualquer missão de busca, não com o que vimos quando saímos na varanda. Uma horda imensa daquelas coisas tinha tomado o terreno, havia centenas deles, se aproximando como vespas atrás de mel.
Glenn sugeriu que apagássemos as luzes e entrássemos, Daryl argumentou que um bando daqueles colocaria a casa a baixo. Tínhamos que sair.
— Cadê a Charlotte? — Ele perguntou olhando direto pra mim e eu travei, não soube o que dizer.
Se eu contasse que ela tinha saído, e, provavelmente, ido atrás do irmão, ele com certeza entraria no meio dos mortos atrás dela. Se eu dissesse eu estaria assinando a sentença de morte dele. E talvez, ao não contar eu assinasse a sentença de morte dela.
Era uma escolha impossível.
— Subiu faz um tempo. Deve estar dormindo lá em cima, ela não parecia muito bem. — Andrea respondeu com algo que ela pensava ser verdade.
E eu me calei, grata por ganhar algum tempo.
Pouco depois, quando Lori surgiu desesperada procurando pelo Carl, eu me prontifiquei a ajudá-la a achar o garoto.
— Acorde a Charlotte e fiquem prontas, se algo der errado a gente vai dar o fora daqui. — Daryl segurou o meu braço por um instante enquanto falava.
Eu apenas assenti, incapaz de dizer a verdade e rezando pra que ela tivesse encontrado o irmão e o Rick, e os três tivessem bem.
E a cada minuto que foi passando depois disso, as coisas foram ficando ainda piores.
Carl também não estava em parte alguma. Daryl e os outros estavam usando os veículos para tentar atrair e afastar os errantes. Havia tiros por toda a parte e o celeiro começou a pegar fogo. Íamos todos morrer ali e isso começou a me desesperar...
A casa seria invadida em instantes e não podíamos ficar. Eu fugi pela frente, com Patricia, Beth e Lori no meu encalço. Logo na saída um deles pegou a Patrícia. Eu comecei a perder o foco. A morte estava por toda parte, os gritos se misturando com os gemidos e eu já nem sabia quem estava morto ou vivo.
Acabei encurralada, incapaz de me defender. Tudo que eu conseguia pensar era no quanto eu era fraca. Eu não podia ser tão fraca. Eu tinha que lutar.
Peguei uma madeira qualquer no chão e fiquei preparada, mas Andrea derrubou os mais próximos a mim antes de cair também.
Eu corri para o lado oposto, desviando dos que eu podia, apavorada e sem fôlego. Vi mais dois carros saírem da fazenda, eu não fazia ideia de quem tinha conseguido. Eu só sabia que eu estava ficando para trás.
Foi quando eu vi o Daryl se aproximar com a moto e parar, pra que eu pudesse subir. Eu me sentei na garupa imediatamente, abraçando-o sem me importar com o que ele pudesse pensar. Mais uma vez ele estava sendo o meu porto seguro e eu sabia que nada aconteceria comigo se eu estivesse com ele.
— Você viu a Charlotte? — Ele perguntou por cima do ombro.
Congelei. Sabia que minha resposta naquele momento definiria nossas vidas.
Eu estava assustada, tinha visto morte por toda a parte e nem sinal da Charlotte, mas eu tinha certeza que o Daryl não iria embora se tivesse a mínima chance de que ela ainda estivesse na fazenda.
E naquele momento foi a vida dele contra a dela na balança, e por mais que eu a amasse como uma filha, por mais que ela tivesse acreditado em mim e me visto como uma mulher capaz antes de qualquer pessoa, eu não podia deixar que Daryl se arriscada apenas na esperança remota que ele estivesse viva...
— Eu a vi entrar em um dos carros. Ela já foi. — Menti, com o coração aos pedaços.
— Tem certeza?
Assenti levemente e ele acelerou a moto para fora da fazenda.
E o resto do caminho, eu passei com o rosto enterrado nas costas dele, uma lágrima solitária escorrendo pelo meu rosto, enquanto eu tentava convencer a mim mesma que tinha feito isso porque era o mais lógico e não porque que era egoísta e covarde demais para dizer a verdade.
Mas eu sabia, em meu coração, que na verdade eu não tinha contado nada, pois não podia perder o Daryl, eu o amava. E era isso que mais doía, porque eu sabia que ele sofreria mais que qualquer um, caso ela não tivesse conseguido...
Comecei a rezar para que ela estivesse viva.
Depois de algumas horas, percebi que ele estava muito devagar e que não parecia estar seguindo pra parte alguma.
— Pra onde estamos indo? — Perguntei erguendo o rosto.
— Eu estou rastreando alguém. Deve ser o Glenn, ele dirige feio um bêbado. — Comentou, apontando as marcas que passavam depressa ao lado da moto. — Sabe se foi com ele, que ela saiu?
Neguei, incapaz de colocar mais palavras naquela mentira cruel.
Encontramos o carro pouco depois. Realmente era o Glenn no volante.
— Quem mais vocês viram? — Daryl gritou, pilotando ao lado do carro.
— Estávamos no carro, nem chegamos a conseguir voltar pra fazenda. Vocês virão meu pai, ou minha irmã? — Maggie perguntou em resposta.
Continuamos dirigindo juntos. Daryl e Glenn decidiram que tínhamos que voltar para o engarrafamento da estrada.
Já na rodovia encontramos a caminhonete com T-Dog, Beth e Lori. Vi Daryl apertar a manopla com força, quando a morena disse, que sequer tinha visto a Charlotte na casa.
Nossa última esperança era mesmo o engarrafamento, e por mais que eu quisesse acreditar que ela estaria lá, algo me dizia que isso não ia acontecer...
Contudo quando vi a cabeça de Rick dentre os carros, quase pude respirar aliviada, se ele estava ali, Charlotte podia estar também.
Mas ela não estava e, enquanto os Hershel e os Greene se reencontravam, Daryl olhava ao redor, os olhos me fuzilando por um momento.
— E o Shane? — Lori perguntou e Rick negou apenas.
— Mas outro carro saiu de lá, não é? Com a Charlotte? A Carol disse que viu ela sair de lá. — Daryl sugeriu.
Rick baixou a cabeça, uma expressão culpada nos olhos.
— Ela ficou pra trás com o Shane, ou melhor o corpo dele, ele tinha se transformado... — Carl lamentou. — A gente não tinha como voltar até ela, ficamos cercados.
Daryl olhou de Rick pra mim, a expressão mudando drasticamente quando ele compreendeu o significado daquilo.
Os outros falavam de Andrea, Patrícia e Jimmy e ninguém sabia se Andrea tinha mesmo sido pega ou não.
— Eu vou voltar. — Daryl decidiu se preparando para montar na motocicleta.
— Não. — Rick fez um sinal com a mão.
— Eu não vou deixá-la pra trás. — Eu sabia que ele estava falando da Charlotte, não de Andrea, todo mundo sabia na verdade.
— A gente nem sabe se ela ainda está lá... — Lori argumentou.
— Ela não está. — Rick lamentou, e parecia muito custoso pra ele dizer aquilo. — Ela não teria como ficar parada lá, e não podia lutar, ela tinha uma arma e não tinha munição extra. Ela... — ele passou a mão pelo rosto e os olhos dele marejaram. — Ela tá morta.
Rick fez um segundo de silêncio, dava pra ver que doía nele. Mas ainda estávamos ali e ele ergueu a cabeça, dizendo que tínhamos que seguir em frente, pois ali não era seguro. T-Dog sugeriu que seguíssemos para o leste.
Daryl apenas se afastou em direção a um errante que se aproximava e acertou a cabeça dele com uma flecha, chutando o cadáver algumas vezes, descarregando a frustração ali. Ficando de costas pra nós por um longo momento. Sabia que ele chorava e queria poder consolá-lo, mas eu devia ser a última pessoa que ele desejaria ver.
Talvez ele não me perdoasse, mas pelo menos ele estava vivo para me odiar...
➷•➷•➷•➷•➷
Dirigimos sem rumo até a gasolina acabar. E então ficamos parados no meio da estrada, sem combustível, sem suprimentos, sem munição e o pior: sem esperança.
Rick continuava dando ordens, mas eu não via um motivo pra confiar nele, da última vez que eu havia feito isso, minha garotinha acabou perdida na floresta...
Ele ainda achava que podíamos encontrar um lugar, fazer dele seguro, construir uma vida. Decidiu que acamparíamos no meio do nada e seguiríamos pela manhã.
— Parece certo pra você? — Perguntei ao Daryl, mas ele me ignorou.
Ele contou sobre o Randall, sobre não ter mordida, e, mesmo assim, ele ser um errante. Daryl achava, ou melhor, tinha certeza, que o Shane havia matado o garoto.
Foi então que Rick revelou que todos estávamos infectados, que ele sabia desde o CCD que nós tínhamos aquela doença, seja lá qual ela fosse... E ele simplesmente se achou no direito de não nos contar. Depois caminhou pra longe de nós, como se não tivesse acabado de jogar uma bomba sobre as nossas cabeças. Lori seguiu atrás dele
— Eu vou pegar umas madeiras pra fogueira. — Daryl avisou, se afastando sem nem me encarar.
Lori voltou minutos depois e parecia transtornada. Fiquei pensando sobre que outra bomba Rick teria jogado daquela vez, mas achei melhor nem perguntar.
Nos acomodamos entre as ruínas de uma construção qualquer, um monte de tijolos de barro, que nos protegeriam do vendo gelado de início de outono.
Daryl voltou horas depois, tinha um lenço com sangue enrolado na mão, como se tivesse socado algo até ferir as juntas, e a expressão abatida de quem estava sofrendo uma dor insuportável, e eu sabia que essa dor nada tinha de física.
Me aproximei dele e fui ignorada uma vez mais.
— Eu sei que deve estar com raiva de mim agora... — Comentei de cabeça baixa. Ele sequer me dirigiu o olhar. — Você não teria salvado a Charlotte, só teria morrido junto.
— Essa é a sua desculpa? — Daryl cuspiu as palavras, apontando o dedo pra mim e me olhando com raiva. — Você não tinha como saber, eu podia ter tentado. Ela era sua amiga e você a deixou pra trás, ela nunca faria a mesma coisa com você.
— Ela faria sim, se fosse a minha vida pela sua. — Respondi abraçando o corpo.
Daryl me encarou por mais um momento antes de voltar a arrumar a lenha e eu não sabia se ele tinha entendido o que eu quis dizer, ou se ele só não queria falar sobre isso.
— Eu sei que você a amava, e sei que está me odiando agora, mas eu fiz uma escolha e não me arrependo dela. Eu escolhi a sua vida. Não foi fácil, porque eu também amava a Charlotte, ela era a única que não me via como um fardo... — Limpei uma lágrima que escorreu. Tinha perdido outra pessoa que eu gostava, e a culpa era minha em partes. — Mas eu não sabia se ela estava viva ou morta e não podia deixar acontecer o mesmo com você. Eu sei que não somos nada, mas eu me importo com você. — Dei de ombros e me virei para deixá-lo.
— Eu não te odeio. — Daryl resmungou e eu me virei. — Você é uma intrometida e não devia ter me tirado essa escolha, mas eu não te odeio. — Falou como se não fosse nada. — Eu ainda estou com raiva, mas bola pra frente.
Ele voltou a empilhar a madeira e não me encarou mais. Era claro que estava despedaçado por dentro, porém não deixaria que ninguém visse isso, Daryl nunca demonstraria o quando a amava.
— Charlotte amava você. — Comentei e ele me encarou. — Talvez nem ela tivesse se dado conta disso ainda.
— Como você sabe? — Perguntou, com a voz travando na garganta.
— Porque dava pra ver nos olhos dela. Dava pra ver quando ela olhava pra você que o mundo dela mudava.
Os olhos azuis de Daryl marejaram e ele abaixou a cabeça para que eu não visse. Apenas me afastei, sabendo que ele precisava ficar um pouco sozinho...
E talvez eu também precisasse.
Pouco antes de anoitecer, aquele clima horrível se instalou entre nós. Rick chamou Daryl de canto e eu os observei conversarem ao longe. Não sabia sobre o que falavam, mas pude ler "Shane" e "Char" nos lábios do xerife, ele abaixou a cabeça, como se estivesse profundamente arrependido ou culpado, mas Daryl pareceu acalmá-lo depois de dizer algumas coisas e assentir brevemente.
Por fim, Rick tocou o ombro de Daryl, em um tipo de agradecimento e os dois voltaram para perto de nós.
Claro que eu ainda tentei fazer Daryl ver que Rick acabaria nos levando para o buraco. Mas ele parecia achar o xerife acima de qualquer suspeita. E por mais que todos parecessem discordar de Rick, Daryl permanecia ao lado dele, não nos dando apoio quando dissemos que tínhamos que partir, e não ficar ali no meio da noite.
Eu não entendia por que aquela fé, eu queria que Rick Grimes fizesse alguma coisa, ou morreríamos ali. Todas aquelas discordâncias irritaram o xerife. Ele foi bem duro dizendo que estava fazendo tudo que podia, que não tinha pedido por aquilo e que tinha matado o melhor amigo por nossa causa.
A revelação pareceu surpreender a todos, menos Lori e Daryl. A verdade dos atos de Rick, mostrando o quão longe aquele homem iria pela segurança da família. E ao mesmo tempo nos fazendo temer, nos fazendo ver o lado obscuro e as decisões difíceis.
Ele jogou na nossa cara que podíamos ir se quiséssemos, mas se ficássemos, deixou bem claro, que aquilo não seria mais uma democracia...
E todos nos calamos, porque no fundo ninguém tinha coragem o suficiente pra encarar aquele mundo sozinho. Ninguém tinha coragem de tomar as decisões terríveis, ninguém queria se responsabilizar por essa parte da sobrevivência. Assim como nenhum de nós pôde atirar na Sophia, quando ela saiu do celeiro... Só o Rick tinha feito o que precisava ser feito. E eu percebi naquele momento que era isso que Daryl admirava no homem.
Senti que a partir dali seriamos um grupo diferente, talvez as coisas se tornassem mais duras e difíceis, mas eu tinha certeza que também nos tornariam mais fortes.
E eu prometi pra mim mesma, que nunca mais seria fraca e indefesa, que não ficaria à mercê de um salvador. Eu me salvaria por mim mesma, até o dia em que eu pudesse salvar aqueles que eu amava. Só assim eu nunca mais teria que escolher entre a vida de duas pessoas importantes pra mim...
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