Origins
3 Coisas que Charlotte Walsh não gosta
Notas iniciais

Charlotte Walsh
Maio de 2010
Cynthiana
Eu nunca gostei de domingos, talvez porque fosse o dia mais parado da semana. Domingos sempre me fizeram sentir como um pirata no meio do oceano sem nenhum vento pra mover meu navio. Acho que o nome é calmaria. Eu não gosto dessa palavra, ela me lembra um mau pressagio, um pequeno tempo de pausa antes de uma grande tempestade...
Não importa, são apenas mais algumas coisas na lista: "CQCWNG — Coisas que Charlotte Walsh não gosta." E essa lista só cresce com o passar do tempo.
Era um domingo como todos os outros, eu estava com o celular na mão passando pelas músicas da minha playlist. Eu tinha uma porção de estilos, mas estava cansada de todos.
Olhei pela janela assim que um barulho de carro parando chamou minha atenção, achei que fosse o Johnny, mas era só o Shane....
Ele estava no veículo com Lori Grimes, a mulher do Rick. Fazia cerca de um mês que o xerife Grimes estava em coma no hospital, tudo por causa do tiro que levou.
Desde então, Shane vinha se desdobrando em vinte pra estar sempre presente para Lori e Carl, estava sempre no hospital com eles, sempre se certificando que estavam bem. Ele era prestativo... Até demais.
Eu fui ao hospital algumas vezes, era um lugar deprimente, apenas mais uma coisa que adicionei naquela minha lista. Rick não parecia mal, nem bem. Ele parecia apenas um cara dormindo, isso se não fossem por todas aquelas aparelhagens e soro.
No começo, Carl entrou em desespero por querer doar sangue ao pai. Fui um pouco rude com ele na ocasião, disse que ele era muito novo, era contra as regras do hospital e toda aquela choradeira dele só estava atrapalhando. Não é que eu seja uma má pessoa, mas ninguém teve coragem de dizer o que era necessário para o menino, então eu disse.
Sei lá... Talvez "crianças" estejam naquela lista também.
Fiquei olhando da janela enquanto eles se despediam. O abraço que meu irmão deu em Lori... Eu não tinha um bom pressentimento sobre aquilo.
Assim que o ouvi abrindo a porta desci as escadas. Ele já estava pegando a chave do próprio carro e algumas coisas da delegacia.
— Vai sair de novo? — Perguntei, parada nos degraus.
— Vou trabalhar. — Shane ergueu os olhos pra me encarar.
— Achei que estivesse de folga. — Comentei sem grande comoção, apenas jogando conversa forma.
— Sim, mas eu vou cobrir o torno do Rick. Precisam de mim. — Ele respondeu no mesmo tom casual.
Caminhei até meu irmão e me encostei no batente da porta.
— Você não é Rick Grimes. Você não pode viver a vida dele. Mulher, filho, emprego... — Insinuei, dando de ombros.
— Rick é o meu melhor amigo. Eu estou tomando conta das coisas até que ele volte. Ele faria o mesmo por mim. — Shane respondeu contrariado.
Virou as costas e seguiu para a cozinha.
— Você gosta dela. — Afirmei e ele deteve os passos. — Eu vejo como você olha pra ela... Às vezes eu penso que você sempre gostou.
Shane se virou imediatamente, ele estava ofendido. Apenas ergui a mão pedindo calma antes que ele pudesse retrucar.
— Eu sei que você a respeita. Sempre respeitou, afinal ela é mulher do Rick. Mas eu temo que essa proximidade possa te fazer confundir as coisas. — Terminei.
— Eu não sou um adolescente confuso, Charlie. E você não devia estar cuidando da festa não autorizada que pretende dar aqui em casa, ao invés de cuidar da minha vida? — Respondeu colocando as mãos na cintura.
— É Charlotte. — Corrigi. — A festa vai bem, mas você é meu irmão. Eu te odeio, mas me preocupo com você. — Dei de ombros e ele sorriu.
— Não tem que se preocupar. Eu só estou fazendo o que é certo. — Deu um tapinha no meu ombro.
— Eu só não quero que você se dê mal. — Falei, enquanto ele caminhava para a porta.
— Quando for mais velha você vai entender. — Shane piscou pra mim.
— Uma semana. — Ele me encarou sem entender minha frase. — Uma semana pra eu ficar mais velha.
— Quinze anos não é mais velha. — Debochou.
— Eu vou fazer dezoito! — Protestei cruzando os braços.
— Certeza? Porque eu me lembro de quando você nasceu e tenho quase certeza que vai fazer quinze anos. — Shane riu enquanto abria a porta.
— Quer ver a minha identidade? — Retruquei.
— Qual? A falsa que você usa pra ir em lugares que eu não te deixo ir?
O fuzilei com a minha melhor expressão raivosa, enquanto ele se divertia as minhas custas. No mesmo momento um carro que eu conhecia muito bem parou em frente de casa.
— Meu carro! — Comemorei, deixando a briguinha de lado.
Saí para a calçada com meu irmão em meu encalço.
Abracei e beijei Johnny, enquanto rodeávamos o veículo que ele trouxera direto da oficina.
— Nada mal. — Shane assentiu abrindo o capô. — Agora eu tenho que trabalhar. Eu não quero vocês dois sozinhos em casa, nada de beijos, nada de pegação. E com certeza nada de passeios de carro com o senhor Becker, Charlie.
— Charlotte. — Corrigi novamente.
Shane tinha essa mania de me chamar de Charlie, mas eu odiava o apelido, afinal ele era masculino. "Charlie" estava no topo da CQCWNG. E meu amado irmãozinho sabia disso.
— E você, Becker, se sair da linha só um pouquinho... — Shane se aproximou ameaçadoramente de Johnny, chamando-o pelo sobrenome. — Eu vou colocar você atrás das grades, não importando qual motivo eu tenha que inventar pra te manter lá. Entendeu?
— Sim, senhor. — Johnny respondeu movendo a cabeça várias vezes, provando que de badboy tinha apenas o visual mesmo.
Meu irmão o olhou feio uma vez mais, se despediu de mim e entrou em seu carro, ligando o motor e sumindo de vista quando virou a esquina.
— Você é patético. — Empurrei Johnny enquanto revirava os olhos.
— Ele é o xerife, Char, o mínimo que eu posso fazer é ter respeito. — Retrucou, como se fosse o homem mais correto de toda a Georgia.
— Respeito ou medo? — Debochei, ganhando um olhar quase ofendido dele. Acabei por revirar os olhos. — Vamos, vou fazer um lanche pra nós.
O moreno parou e olhou a rua por um momento, eu sabia que ele estava calculando se Shane voltaria ou não, mas minha expressão irritada deve tê-lo feito perceber que não entrar seria pior do que entrar e ser pego pelo meu irmão...
Fiz alguns sanduiches e sentamos no sofá pra ver televisão.
— Você viu o noticiário ontem? — Ele perguntou, enquanto passava os canais. — Alguma doença bizarra está se espalhando pela costa. Eles não sabem o que é, mas alguns dizem que as pessoas ficam insanas e te atacam.
— Você é tão infantil. Está na cara que isso é sensacionalismo da mídia. — Revirei os olhos, sabendo que era só mais um daqueles papos conspiratórios dele.
— E você é tão cética. — Ele me roubou um beijo. — E tão adulta. — Roubou outro. — É por isso que eu gosto de você.
Deixamos a televisão. e os sanduiches de lado por um tempo enquanto nos entreteríamos com nossas bocas...
— Esse foi exatamente o tipo de coisa que seu irmão mandou não fazermos. — Johnny riu na curva do meu pescoço.
— Não acredito que está pensando nele enquanto me beija. — Estapeei seu braço, me fazendo de ofendida.
— Mal posso esperar por semana que vem... Você tem mesmo que fazer tantas programações pra nossa primeira vez? — Ele atiçou forçando seu corpo contra o meu.
— Tenho sim. — Afastei-o um pouco. — Todo isso é porque eu quero que seja épico.
— Você planeja demais. É quase uma maníaca por controle. Às vezes temos que saber improvisar. — Johnny colocou a mão por baixo da minha blusa.
— Talvez, mas não hoje. — Segurei sua mão. — Sobre esse assunto, seguiremos com o plano. — Terminei decidida.
Ele bufou, pronto pra dizer mais alguma coisa, porém fomos interrompidos pela música de alerta na televisão.
A repórter falava sobre o aparecimento da doença em mais cidades. Ela advertiu que, seja o que fosse, estava se espalhando rapidamente e o governo ainda não tinha qualquer resposta. Não sabiam de onde vinha, o que era, e, tão pouco, como se espalhava.
A única coisa que sabiam era que o paciente em estágio avançado podia se tornar agressivo e o melhor era manter distância.
— Sensacionalismo da mídia, não é? — Johnny ironizou.
— Sua irmã não estava na costa? — Perguntei preocupada, ignorando a provocação dele.
— Está, mas já deve estar voltando pra casa, ela disse que estaria aqui para a sua festa. — Ele respondeu e eu tentei sorrir e relaxar.
Jessica Becker, a irmã mais velha do Johnny, era uma loira, com grandes peitos falsos e um espírito festeiro que ninguém podia parar, ela era, como diriam os conservadores da cidade, “uma vadia”, mas pra mim Jesse era o melhor tipo de pessoa, sempre bem humorada e disposta a se divertir. Eu gostava dela. O que dificultava muito a tarefa de não me preocupar...
➷•➷•➷•➷•➷
A semana passou depressa e, conforme os casos daquela doença bizarra aumentavam, ficava cada vez mais difícil ir a algum lugar e não ouvir as pessoas falando disso.
Cynthiana parecia segura, apesar de tudo, as coisas continuavam correndo normalmente, a não ser pelos turnos de Shane que eram ainda mais longos.
Mas eu tinha prometido a mim mesma que não pensaria nisso aquela noite. Era meu aniversário. Minha festa. Eu não ia ficar me preocupando com doentes raivosos.
Coloquei o vestido branco e preto que eu havia comprado especialmente para a ocasião, nada exagerado, apenas um modelo tomara que caia, rodado e curto que marcava bem a cintura; saltos altos coloridos e meus cabelos castanhos soltos, caindo pelas costas; terminei com uma última camada de rímel, para destacar os meus olhos, também castanhos. Eu estava bonita. Bonita e nervosa.
Não era sobre a festa, era sobre o "pós festa". Johnny me garantira que tinha conseguido um ótimo quarto de hotel para nós dois. Eu queria que tudo fosse perfeito. Mas lá no fundo eu tinha uma grande pontada de insegurança, e ela não estava lá há dois ou três meses quando tomei a decisão de dar o próximo passo...
Algumas batidas na porta me tiraram dos meus pensamentos. Jessica entrou assim que eu respondi.
Ela estava me ajudando na arrumação da festa, tinha conseguido chegar na cidade no dia anterior. Veio de carro já não conseguiu um voo. Jess estava horrorizada com as coisas que vinham acontecendo. Tinha dado de cara com um desses doentes na estrada, ele tentou atacá-la pelo vidro do carro enquanto ela estava parada no congestionamento. Escapou por pouco acelerando no último minuto. No braço o curativo enorme sobre os arranhões causados pelo homem.
— Você está bem? — Perguntei vendo-a muito mais branca que o normal.
— Claro. Acho que eu comecei com as bebidas mais cedo do que devia. — Ela sorriu. Queria acreditar que era só bebedeira, mas algo me parecia muito errado. — Agora pare de se preocupar com tudo e vamos descer, a festa já começou e todo mundo está te esperando.
Assenti. Mas por um impulso toquei a testa da loira antes de ir.
— Meu Deus! Você está ardendo em febre, Jess! Não é melhor irmos para o hospital? — Perguntei alarmada.
— E perder a festa? Nem morta. Eu vou tomar um remédio, não é uma febrinha de nada que vai me derrubar. — Ela se esquivou.
Acabamos descendo e, os amigos da escola, cumprimentos, música alta e os mimos de Johnny me fizeram esquecer momentaneamente da minha cunhada febril.
A festa correu bem, e eu tinha que agradecer a disposição de Shane em trabalhar dobrado, afinal se meu irmão estivesse em casa isso nunca aconteceria. Pareceu um pensamento mórbido e egoísta, mas se Rick não tivesse levado aquele tiro meu aniversário acabaria sendo diferente...
— Hey. O que acha de despacharmos o pessoal que sobrou e terminar a noite em outro lugar? — Johnny perguntou no meu ouvido enquanto dançávamos uma música qualquer.
Meu estomago deu um nó... Respirei fundo, tentando dominar o nervosismo, havia alugado um quarto de hotel perto do centro, um bom quarto com uma decoração romântica, tudo feito nos mínimos detalhes como eu sempre quis. Então era a hora.
— Okay. Mas você viu sua irmã? Faz um tempo que não a vejo, ela não estava muito bem. — Comentei, e já não sabia se era apenas preocupação, ou se era uma desculpa para adiarmos todo o resto.
— Eu falei com ela há um tempo. Duas, três horas... Sei lá, acho que ela foi deitar no seu quarto. — Ele respondeu despreocupado.
Levamos mais algum tempo nos despedindo dos últimos amigos e depois de juntarmos o lixo, Johnny decidiu que era hora de acordar Jess para fecharmos a casa e irmos para a próxima parada: Nossa primeira vez.
Subimos a escada juntos, rindo do fora que um garoto do primeiro ano levou de uma veterana, naquele típico clima descontraído pós festa. Johnny abriu a porta do quarto e Jess estava deitada na minha cama, totalmente imóvel.
Ele a chamou algumas vezes e nada, então se aproximou e a sacudiu um pouco. Eu parei no batente da porta começando a ficar realmente preocupada.
Então ela abriu os olhos. Havia algo estranho e diferente neles, assustador de certa forma. Jess pareceu perdida por um momento, enquanto o irmão tentava falar com ela. E então, sem nenhum tipo de aviso, ela o atacou, mordendo o braço que ele apoiava no ombro dela.
Meus gritos se misturaram ao de Johnny enquanto o sangue dele jorrava do braço que agora estava sem um enorme pedaço de carne. Senti uma vertigem absurda e meu estômago revirou ferozmente.
Ele empurrou Jess, mas ela parecia decidida a atacá-lo de novo. Eu tentava chamar por ela, pedindo um pouco de calma. Mas era como se ela fosse um animal obstinado, atraído pelo sangue que escorria sem parar do braço direito de Johnny.
Eu tentei detê-la, e assim que me notou, seu foco pareceu mudar, em um movimento rápido. Johnny a jogou para a esquerda com toda a sua força de zagueiro de futebol americano. O corpo da loira foi arremessado sobre uma cadeira de madeira que eu mantinha em frente da penteadeira.
Era tarde demais, a madeira se espatifou, fazendo uma das pernas perfurarem o abdômen de Jess de fora a fora. Johnny totalmente aterrorizado e branco como papel me empurrou para fora do quarto e fechou a porta.
Tremíamos dos pés à cabeça, ele tinha o rosto distorcido de agonia, dor e medo, andando de um lado para o outro segurando o braço ensanguentado.
— Temos que ligar para o Shane. — Foi a única coisa que eu consegui falar. Meu coração estava tão disparado que eu temia que pudesse ter um infarto ali mesmo.
— Eu acabei de matar a minha irmã, e você quer chamar a polícia? — Johnny perguntou em desespero.
— Foi um acidente. Você precisa de um médico. E... Nós precisamos de alguém pra... Ver a Jess. — Tentei manter a calma. Mas eu não estava calma, eu estava apavorada.
— Eu matei a minha própria irmã! Você entende isso?! — Ele gritou em um misto de pânico, descontrole e profunda agonia.
Um baque na porta do meu quarto me fez pular de susto no mesmo instante. Olhamos um para o outro. Jess estava viva.
— Jess, eu sinto muito. Vamos levar você no médico. Você precisa manter o controle. — O moreno falou desesperado, colando o corpo na porta.
A resposta foi apenas mais baques, como se o corpo se jogasse contra a madeira sem nenhuma lógica, e então grunhidos desconexos.
Johnny se preparou para abrir a porta.
— Eu acho que devíamos pensar melhor nisso... — Tentei argumentar, o medo explicito em cada uma das minhas sílabas.
— Ela é minha irmã, ela está ferida, eu tenho que ajudá-la. — Johnny até tentou parecer obstinado, mas sua voz estava tão alterada quanto a minha.
Ele colocou a mão na maçaneta e eu dei um passo para trás. E a cena seguinte eu, provavelmente, vou levar em minha memória por toda a vida...
Jessica saiu do quarto e se jogou sobre o irmão, cravando os dentes em seu pescoço. Gritei apavorada enquanto ele se debatia e ela não parecia dar sinais de que iria parar.
Então algo atraiu a atenção dela, talvez meu grito, eu não saberia dizer. Jess ergueu a cabeça para me olhar. E eu soube, naquele momento, que aquela não era mais ela...
— Corre Char... — Foi a última coisa que Johnny conseguiu dizer, antes de seu corpo cair no chão e sangue começar a escorrer pela sua boca.
Demorei dois segundos para tirar os saltos e começar a andar de costas na região oposta. As lágrimas descendo pelo meu rosto, o pavor batendo no meu coração e a cabeça tentando inutilmente encontrar uma solução.
Jess caminhava em minha direção, a madeira ainda atravessada em sua barriga, o sangue do irmão misturado ao seu próprio por toda sua roupa. Ela era a personificação do terror. Os olhos obstinados em mim, opacos e sem vida, as mãos esticadas em minha direção, enquanto a boca emitia um ruído grotesco.
Eu tentei controlar a respiração, antes de juntar coragem e correr em direção ao quarto de Shane. Tentei achar qualquer coisa pra me defender, eu sabia onde ele guardava a arma...
Fui passando mentalmente todas as instruções do meu irmão assim que encontrei a Glock na gaveta. Eu tinha feito isso algumas vezes, afinal era irmã de um policial, eu já havia ido a estandes de tiro com ele.
Eu sabia fazer isso...
Olhei pelo espelho, Jessica se aproximava a passos lentos.
Eu sabia atirar...
Respirei fundo. Preparei a arma, destravei, engatilhei.
Mas eu não podia. Era a Jess, eu a conhecia minha vida toda... Eu não ia conseguir.
Me joguei pra debaixo da cama segundos antes dela entrar no quarto. Seus pés se arrastavam no chão. Era como se eu vivesse uma cena de filme de terror.
De repente uma ideia louca passou pela minha cabeça, com o pé consegui mover o pequeno móvel ao lado da cama, vários objetos caíram no chão atraindo a atenção de Jess. Ela deu a volta para chegar e eu rapidamente me arrastei pelo chão, saindo correndo pela porta do quarto e fechando-a em seguida.
Parei no corredor para respirar. Não demorou muito e eu pude ouvir o corpo dela se chocando contra a porta, de novo e de novo.
Caminhei pelo corredor a passos lentos, a arma firme em minha mão direita. O corpo de Johnny estava no chão, seu sangue escorrendo até as escadas. Senti o vômito na garganta e fiz algum esforço para mantê-lo lá.
Meu namorado estava morto no chão da minha casa no dia do meu aniversário. E minha cunhada enlouquecida estava presa no quarto do meu irmão com um pedaço enorme de madeira transpassado na barriga. Minha vida era um filme de horror e esse dia estaria para sempre no topo da CQCWNG.
Desesperada e com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, reuni toda a coragem que ainda me restava para pegar o celular no bolso de Johnny. Tremendo liguei para o meu irmão. Ele atendeu no terceiro toque.
— Shane? — Chamei com a voz embargada pelo choro. — Eu... Eu...
Não consegui terminar a frase, Johnny abriu os olhos e começou a se levantar. Fiquei paralisada pelo medo. Não conseguia me mexer. Não conseguia falar. Meu namorado morto estava se levantado, os olhos vidrados em mim. Ele me pegaria, me pegaria como Jess o tinha pego, eu tinha certeza disso naquele instante.
— Charlotte Walsh, pelo amor de Deus responda!
A voz de Shane gritando no aparelho celular que eu mantinha erguido no ar, me despertou do meu choque bem a tempo de eu dar um passo para trás. Outro passo desesperado e tropecei nos meus sapatos que haviam ficado jogados no chão e rolei escada a baixo.
Assim que meu corpo bateu no solo eu soube que estava perdida. A prova disso era a dor alucinante no meu tornozelo direito. Eu tinha quebrado, já havia passado por isso quando criança e conhecia bem a dor.
Ainda atordoada olhei ao redor, o celular estava jogado de um lado, e a arma de outro, um pouco mais perto. A voz de Shane não se ouvia mais, porém eu sabia que ele estava na linha, provavelmente voando pra casa o mais rápido que podia.
Mas ele não chegaria a tempo. Johnny, ou o que era pra ser Johnny descia logo atrás de mim, tropeçando nas próprias pernas como se não tivesse nenhuma coordenação motora. Eu não conseguia entender, a garganta dele estava dilacerada, ele não podia estar vivo. Seja o que fosse, aquele não era o meu namorado.
Talvez tenha sido o momento exato em que eu percebi que aqueles doentes não eram mais pessoas, não havia mais humanidade neles. Aquele exato instante mudou algo em mim.
Johnny terminou de despencar pela escada, e eu me arrastei pelo chão para que suas mãos não me acalcassem. A dor insuportável no meu tornozelo estava me deixando tonta, e o pior, lenta... Eu não podia levantar, não podia correr. Tentei esticar a mão e alcançar a arma.
Johnny se jogou sobre mim, como um animal disposto a abater sua presa. Não tive tempo pra pensar, em um movimento desesperado alcancei a arma e disparei na lateral de sua cabeça.
Seus miolos caíram sobre mim junto com o seu corpo inerte, o peso fazendo a dor aumentar ainda mais.
Eu fiquei deitada no chão, não me lembro por quanto tempo... Minhas lágrimas se misturando com o sangue do namorado que eu tinha matado.
Em algum momento Shane chegou, desesperado tirou o corpo de Johnny de cima de mim, me ergueu do chão, me abraçou... Ele cuidou de mim, como sempre tinha feito, mesmo que às vezes eu não quisesse tanto cuidado... Aquele dia eu queria...
Eu tinha entrado em estado de choque. Aquele foi o meu aniversário de dezoito anos. Mas pra mim, na verdade, foi o início do fim do mundo...
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