Origins

17 Cara a cara com a realidade


Notas iniciais
Cheguei lindaas ^^ Não tenho muito o que dizer desse cap, apenas que ele tem um tom meio melancólico e me deixou bem triste... Espero que gostem. Boa leitura.

Charlotte Walsh
Fazenda Grenne

Shane passou por mim nervoso. Seu olhar me causou a pior das impressões.

— Viu o Dale? — Perguntou inquieto.

— Não. — Respondi sem entender. — Algo errado?

— Não.

— Shane? — Segurei seu braço antes que ele fosse. Ele não parecia muito bem.

— Lori está grávida. — Revelou e eu apenas assenti. — Espera. Você sabia disso? Por que não me contou? Que merda, Charlotte!

— Não era um segredo meu, não era eu quem tinha que te contar. Que eu me lembre, eu não saí por aí espalhando o seu segredo, saí? — Cruzei os braços.

Shane balançou a cabeça algumas vezes, realmente ele não estava bem.

— É meu, Charlotte. A Lori disse que não, mas eu sei que é. Tenho certeza. Eu sinto isso. Tem que ser meu. — Ele estava pirando, eu podia ver isso perfeitamente.

— Shane... — Tentei, mas não consegui dizer nada, muito porque eu também achava que era dele, mas não podia alimentar essa loucura.

— Nós iríamos embora, Charlie, mas ela pediu pra eu ficar. Ela disse com todas as letras que me queria aqui. E se isso não for prova o suficiente, eu não sei mais o que é. — Meu irmão continuou e eu senti meu estômago revirar.

Como aquela mulher tinha coragem de fazer uma coisa dessas? Senti meu sangue ferver e sacudi a cabeça em negativa.

— Se você for por esse caminho você vai pirar. — Comentei, tocando o braço dele.

Shane negou por algum tempo ainda calado como se ponderasse algo.

— Tenho que ir, preciso falar com o Dale, nos vemos mais tarde. — Se desvencilhou do meu toque e saiu sem esperar resposta.

Fiquei parada no mesmo lugar, pensando se ia atrás dele ou se dava um tempo. Aquele furacão que eu previra pela manhã havia chegado e eu não estava preparada para ele. Não mesmo.

E parecia que todos os meus problemas vinham sempre do mesmo lugar: Lori. Caminhei apressada pelo gramado decidida a encontrá-la, mas detive meus passos quando vi que ela estava com Carl indo em direção a casa dos Greene. Meu assunto era com ela, e só com ela.

Dei meia volta e caminhei para o lado oposto, dando de cara com Daryl e Carol no meio do caminho. Ela parecia ter conseguido melhorar o humor dele.

Passei lançando apenas um sorriso mínimo para Carol, eu realmente não estava afim de conversar, e nem de entrar na montanha russa emocional chamada Daryl Dixon.

— Eu alcanço você depois. — Ouvi o caçador dizer para ela e em seguida senti que ele estava caminhando atrás de mim.

Continuei andando como se não soubesse da presença dele, até que já estávamos lado a lado.

—Tudo bem? — Perguntou e eu não respondi, cruzando meus braços e olhando para o outro lado, sem parar de caminhar. — Sério? Você vai me ignorar?

— Eu disse que só ia falar com você de novo quando pedisse desculpas. — Retruquei, ainda sem encará-lo.

—Ah qual é, Charlotte? Isso é criancice! — Daryl devolveu, parando na minha frente e me impedindo de continuar andando.

— Ué. Mas não é você mesmo que diz que eu sou criança? Por que eu não posso fazer criancice então? — Revidei no limite da ironia.

— Vamos mesmo voltar pra isso? — Daryl ergueu as mãos como se estivesse cansado.

— Voltar? Pelo que eu saiba nós nunca passamos disso. — Dei de ombros e neguei algumas vezes respirando fundo. — Minha vida parece estar parada na zona morta, nada muda... Ou melhor, nada melhora, porque mudar até muda, pra pior no caso.

Deixei os ombros caírem a passei a mão pelo rosto, eu estava cansada, estava no limite. Eu só queria sentar ali mesmo e chorar. Mas eu havia prometido que não faria isso. Então eu continuava de pé, mas isso não me impedia de estar aos pedaços.

— Acho que o seu problema não é com a nossa briga estúpida de mais cedo... — Daryl constatou.

— Não é... — Neguei, finalmente o encarando. — Desculpe, não devia ter descontado em você. Me desculpe, sério. — Fui sincera.

— Você é engraçada. — Ele riu se aproximando um passo, e eu não conseguia ver onde estava a graça. — Achei que era eu, quem devia pedir desculpas, mas é você quem está fazendo isso.

Sorri de lado e toquei sua mão, erguendo os olhos para fitar os dele por um momento. Dei mais um passo pra frente de modo que não havia mais que poucos centímetros entre nós.

— "Me desculpe" é só uma frase, Daryl. E só porque você é o tipo de cara que não diz essa frase, não significa que você não sinta muito. — Falei, abaixando o tom de voz já que estávamos tão perto.

— Como sabe que sou esse tipo de cara? Como sabe que eu sinto muito? — Perguntou no mesmo tom, perdido nos meus olhos.

— Eu te conheço, Daryl Dixon. Você não estaria aqui se não sentisse... — Sorri, abaixado a cabeça, fazendo com que uma mecha do meu cabelo escorregasse para o meu rosto.

Daryl me tocou com um cuidado excessivo, afastando meu cabelo e escorregando os dedos por trás da minha orelha até o meu pescoço, erguendo um pouco minha cabeça nesse movimento.

Encarei seus olhos por um instante enquanto ficávamos tão perto que eu podia sentir a respiração dele. Seus dedos tocando minha pele faziam vários arrepios percorrem minha espinha, como uma corrente elétrica.

Eu ainda segurava sua outra mão, nossos dedos entrelaçados. Fechei os olhos e respirei fundo, antevendo o que viria. Mas Daryl apenas tocou minha testa com os lábios, lenta e carinhosamente. Contudo de alguma forma aquilo me confortou tanto que eu senti que tudo podia dar certo... Aquele simples gesto me deu esperança.

Ele se afastou um pouco, mas manteve a mão no meu rosto, abri os olhos para encontrar os seus. Iris azuis, meu porto seguro. Acabei sorrindo de lado, me sentindo tola por realmente pensar que aconteceria mais que aquilo.

— Melhor irmos. Carol está voltando sozinha. — Ele falou muito baixo, a distância entre nós ainda muito pequena para que eu respondesse "não" para qualquer coisa que ele dissesse, então eu só assenti.

Me senti estranhamente gelada quando ele realmente se afastou, voltando a caminhar, comigo seguindo-o logo depois. Andamos em silêncio por um tempo, mas não era estranho, eu gostava de estar em silêncio com ele...

Encontramos Carol pouco antes de chegarmos à casa de Hershel, onde o restante do grupo estava reunido.

Rick tinha que ter saído com Andrea para seguir a trilha de Sophia, mas ele tinha sumido com Hershel e Jimmy e ainda não havia voltado.

Nem bem tínhamos começado a falar disso e Shane apareceu pelo lado oposto, a bolsa de armas na mão, a postura decidida. Mas algo nele me dizia que, seja lá o que ele fosse fazer, não seria boa coisa.

— Pra quê isso aí? — Daryl foi o primeiro a perguntar.

— Está comigo, cara? — Meu irmão respondeu, entregando-lhe a espingarda.

Quando Daryl respondeu que estava e pegou a arma, senti meu coração gelar.

Shane foi entregando armas pra todos, enquanto discursava que a fazenda parecia uma maravilha, isso enquanto ela era segura.

Maggie tentou argumentar com ele, mas era como se ela sequer existisse.

— Desculpa, não dá pra fazer do seu jeito. Vamos fazer do meu. — Estendeu a minha automática, que eu segurei apenas porque não tive qualquer outra reação.

Eu tinha certeza que ele estava pirando, principalmente quando ele tentou entregar uma arma até para o Carl...

Era como se eu não pudesse respirar, não conseguia pensar direito. E enquanto Lori se metia no meio, T-Dog nos alertou que Rick e os outros vinham de uma trilha metros à frente.

Assim que Shane viu o que eles estavam trazendo ele surtou de vez, correndo na frente descontrolado.

Levei um segundo para realmente entender a cena, Rick vinha escoltando um errante, em um tipo de coleira presa a um cabo comprido que mantinha o morto "controlado" a frente dele. Hershel fazia o mesmo com outro, uma mulher com o rosto horrendo.

Rick pediu para o meu irmão não intervir, Shane surtou ainda mais, todo mundo começou a gritar junto. Era realmente um inferno. Eu entendia que Rick estava tentando fazer o necessário para nos manter ali, principalmente por causa do bebê na barriga de Lori, mas tratar aquelas coisas, que nos matariam sem pensar, como doentes, era um pouco demais.

Shane destilava todo um discurso de ódio contra os errantes, dizendo que já estavam mortos e que nos matariam também, assim como tinha feito com a Amy e com Otis. Claro que eu concordava, mas dizer daquela forma descontrolada não dava muito crédito a ele. Principalmente porque tudo que meu irmão parecia naquele momento era um louco.

Aos poucos todo o grupo nos alcançou, alguns com armas apontadas para os errantes. Os Greene totalmente em choque e eu apenas desejando que aquilo não acabasse em tragédia.

No auge de todo aquele circo, Shane começou a atirar na mulher que Hershel segurava, para mostrar ao velho que aquela coisa já estava morta. Vários tiros, até ele decidir que era o bastante e atirar na cabeça dela. Deixando Hershel em choque no chão.

Mas meu irmão não parou por aí, continuou falando que tínhamos que parar de arriscar nossas vidas por uma garota que já era, que tínhamos que parar de arriscar nossas vidas vivendo ao lado de um celeiro cheio de coisas que queriam nos matar... Se quiséssemos sobreviver tínhamos que lutar, ali e naquele momento.

Ainda sem nenhuma ação eu o vi correr para o celeiro com uma picareta na mão enquanto Rick gritava para Hershel segurar o outro errante e o mais velho continuava no chão em estado de choque.

— Charlotte não deixa ele fazer isso! — Ouvi a voz de Rick gritar, longe muito longe, acho que eu estava em estado de choque também. — Charlotte, por favor!

Pisquei algumas vezes e corri atrás do meu irmão. Eu tentei impedi-lo de estourar o cadeado que trancava o celeiro, enquanto Rick gritava por ele. Mas Shane não ouvia, ele não ouvia o Rick, nem os outros gritos, ele não ouvia ninguém, nem a mim.

Eu tentei segurá-lo, porém ele me empurrou para trás com brusquidão, me fazendo cair, acho que acabei batendo a cabeça em algum lugar porque fiquei tonta por um momento, enquanto via tudo ao redor escurecer.

Eu podia ouvir os gritos e o choro, mas demorei alguns segundos pra conseguir focar minha visão de novo. Aquelas coisas foram saindo do celeiro uma atrás da outra e eu está bem ali no chão, bem na frente deles, fui me arrastando para trás enquanto vários tiros começaram a cortar o ar, me dando cobertura.

Olhei por cima do ombro e Daryl estava mais na frente, mirando nos que estavam mais perto de mim, mesmo a face concentrada não conseguia esconder a irritação dele.

Shane me levantou com uma das mãos e eu me esquivei dele preparando minha arma e atirando nos vários que continuavam a sair do celeiro.

Ouvi um tiro ser disparado e logo depois o errante que Rick segurava estava no chão. Mas ele não participou daquilo, ele não pegou a arma, ele não deu um único tiro...

Era o cenário do caos, eu tremia e sentia sangue escorrendo pelo meu rosto. Estava errando a maioria dos tiros, não que eu não quisesse matar aquelas coisas, mas tudo que estava acontecendo não estava certo... Eu não queria ser aquela pessoa.

Um a um eles foram caindo, os corpos se amontoando na porta do celeiro, os tiros cessando aos poucos. Deixando tudo ainda mais terrível aos meus olhos.

Eu podia ouvir o choro da família de Hershel atrás de mim e eu sabia que aquilo não tinha sido por sobrevivência, tinha sido apenas um ato de ódio de um homem descontrolado. Shane tinha quebrado todos os limites ali, nos obrigando a sermos carrascos na frente daquelas pessoas.

Estava acabado, eu abaixei minha arma e encarei a desolação. Podíamos ter resolvido aquilo de tantas outras formas...

Outro grunhido veio do celeiro e eles se prepararam novamente. Eu até comecei a levantar o braço, mas detive o meu movimento quando percebi os passos arrastados saindo de lá.

Aquilo não podia ser real! Não podia... Mas o grito de Carol cortando o ar e chamando pela filha, me provou que era real até demais. Sophia saiu do celeiro, os cabelos loiros quase negros de barro, uma grande mordida em seu ombro esquerdo e os olhos opacos, provando que ela já não era mais aquela doce menina que um dia eu conhecera na estrada... Todo aquele tempo ela estivera bem ali ao nosso alcance, e todo aquele tempo ela estivera morta. Nunca houve chance...

Tudo pareceu desmoronar ao meu redor, como se cada cena se passasse tão lentamente, que eu não tinha outra escolha a não ser assistir aquela agonia. Eu não conseguia me mover, eu não consegui sequer segurar a arma que escorregou da minha mão e caiu no chão.

Rick passou por mim, a pythonem punho. Ele, que não tinha disparado um só tiro naquele massacre, foi o único com força o suficiente para disparar o tiro final. Foi o único com força o suficiente para acabar com aquilo.

Quando o disparo derrubou o corpo de Sophia no chão, eu senti toda a esperança que eu havia guardado dentro de mim escorrendo pelos meus olhos...

Eu senti tudo em mim desabando, se quebrando, apenas pequenos cacos de nada caindo no chão junto com as minhas lágrimas. Não havia mais força, não havia mais esperança, não havia mais a promessa de não chorar. Não havia mais nada...

Eu estava vazia.

Notas finais
Esse é um dos pontos chaves da historia, o primeiro evento realmente impactante depois do começo de tudo. Acho que foi como acabar com a esperança do grupo. As coisas mudam para a Char aqui, tanto por causa do sofrimento quanto por causa do Shane. Nos vemos no proximo Bjss