Origami - dois verões, um outono
1 Capítulo Único
Notas iniciais

― Então, é só dobrar aqui, e depois aqui... Assim. ―um pardal surgiu na sua mão.
― Ah... É muito difícil... ― amassou o papel entre os dedos. ― Desisto.
Deixou que a cabeça tombasse sobre a mesa.
― Eu quero pudim, Iwa-chan~
― Cala boca. ― ignorava o amigo choramingar.
Apertou a visão, concentrando toda a atenção nas dobraduras meticulosas.
Apenas quando o Sol resolveu derramar sobre aquele cômodo (que até então estivera cinza das nuvens de chuva) seus raios ainda molhados, o petiz ergueu a cabeça, imediatamente fitando na direção da janela.
As pupilas engoliram a luz. Viraram faísca.
[primeiro verão]
― Para de chorar! Parece uma menininha!
Um moleque de pele tostada, desses de temperamento forte e freios quebrados, elevou o tom de voz já estridente por natureza.
Com o indicador em riste, acusava outro menino, pouco mais alto e alvo que si, o qual se debulhava em lágrimas. Seu rostinho angelical mantinha-se quase intacto, mesmo que inchado e escorrido.
Tal situação apenas inflamava mais o moreninho.
― E daí que você perdeu e eu venci?! ― colou ambas as mãos nas bochechas do outro, forçando-o a lhe fitar. ―Você tem que querer uma re... Reganche ¹!
Mesmo não sabendo pronunciar a última palavra a qual tanto escutava nos desenhos, finalizou sua fala com tanta determinação como quando começara.
― Re... Reganche? ― as lágrimas enfim pararam de saltar dos olhos úmidos, agora também reluzentes de curiosidade.
― Isso mesmo. ― posicionou as mãos na cintura, exatamente como o pai fazia. ― É quando você perde, mas você sente que pode vencer se você jogar de novo. Nunca sentiu isso?
O menino angelical balançou a cabeça em negação, esfregando os olhos inchados. Agora os direcionava ao moreninho, aguardando por uma reação. Este, por sua vez, ao ter um olhar tão adorável voltado a si (lembrava-lhe um filhote de cão), desviou o rosto apimentado.
― E-então... Toda vez que perder, antes de chorar pensa no que você errou. No dia que você não achar nenhum erro, ai sim pode chorar. ― de início, hesitou, porém concluiu o raciocínio convicto.
Diante da expressão estarrecida do amigo, embrenhou a mão no cabelo alheio, bagunçando lhe as madeixas sedosas (o oposto do corte curto e rebelde que levava na cabeça).
― Você é tão legal, Iwa-chan! Parece até um herói falando! ― as lágrimas, antes abundantes, secaram ante o sorriso radiante.
Era o Sol após a chuva, marcando para toda a eternidade aquele verão na memória de Hajime Iwaizumi.
—❖-
― I-WA-CHAN~
E apesar de todos esses anos, a voz do amigo continuava a mesma. Irritante.
Infantil.
Adorável.
[segundo verão]
O moreno ergueu o olhar, sendo surpreendido pela alta velocidade com a qual Tooru Oikawa vinha em sua direção.
― NEMVEMSEUVIAD― e quase foi ao chão com o impacto, seguido de um abraço morno.
Não havia lugar para remorsos dentro de Iwaizumi quando o assunto era bater em Oikawa. E aquele não sentiu um pingo de arrependimento ao desferir um soco no estômago do outro.
― Você vem ou não? ― jogou a mala sobre o ombro, observando com indiferença o amigo se contorcer e choramingar.
Não era dia de treino do time masculino do Aoba Johsai, mesmo assim os dois garotos conseguiram as chaves do ginásio para treinar alguns passes.
E a rotina se intensificava ainda mais quando estavam próximos dos torneios de vôlei.
Sempre, estipulavam um limite de tempo em que iam ficar treinando (geralmente de uma a duas horas). Sempre, extrapolavam esse limite.
Durante os treinos, aquele Oikawa infantil e vaidoso assumia outra faceta. Uma faceta séria, concentrada, muitas vezes ameaçadora.
Do lado oposto da rede, Iwaizumi vivenciava, mesmo que por alguns minutos, a sensação de ser devorado pelo olhar do parceiro. Sensação a qual adorava.
(O coração, entrando em combustão instantânea).
Essa colisão entre duas almas obstinadas dava origem a uma realidade paralela, na qual “tempo” não passava de um conceito.
—❖-
A luz do ginásio atraia insetos em seu voo nupcial.
Pelo chão, vários pares de asas transparentes flutuavam com a mínima brisa, assim como os fios finos de Oikawa Tooru, o qual ofegava arduamente na tentativa de retomar a respiração. Era seis e meia da tarde, a sua namorada provavelmente o estaria aguardando do lado de fora do ginásio. Jamais que se apresentaria em tal estado: corado, banhado em suor.
― Hey, levanta essa bunda folgada daí, Shittykawa². ― Hajime Iwaizumi o repreendeu pelo apelido “carinhoso”. ― Vai deixar sua namorada esperando?
O moreno secava o suor da nuca com uma toalha enquanto pressionava o pé sobre o amigo deitado.
― E você, Iwa-chan? Não ia estudar com o pessoal depois do treino?
―Eles podem esperar. ― pronunciou indiferente, dando um gole na garrafa de água.
Entretanto, não foi com indiferença que o capitão interpretou a fala de seu companheiro. Sentou-se em um só movimento, encarando o atacante com faíscas no lugar das pupilas.
― Eu sou tão especial assim a ponto de você faltar com seus compromissos, Iwa-chan?
Hajime quase devolveu o conteúdo para a garrafa.
― Eu não quis dizer isso, idiota! Não interprete como bem quiser! ― exclamou. Nas maçãs do rosto, variados temperos.
― Pois eu não me importo de fazer o mundo inteiro me esperar, se isso significar um segundo a mais com Iwa-chan~.
O que deixava o moreno mais perplexo era como o amigo conseguia falar coisas tão constrangedoras com uma expressão tão séria.
E o que ele dissera foi tão gay que podia vomitar arco-íris.
Se estava feliz com aquilo? É lógico que estava, por mais que já conhecesse Tooru Oikawa e soubesse que o amigo... Amigo.
― Guarde as cantadas para suas fãs. ― deu um tapa leve na nuca do capitão. ― Vai, levanta daí. Ainda temos que entregar as chaves.
—❖-
― Que sorte a do Oikawa. ―Kindaichi quebrou o silêncio com um suspiro.
Estavam quase todos os integrantes do Aoba Johsai reunidos em sua residência para um grupo de estudo. Afinal, com a aproximação do torneio vinha também a aproximação das provas de fim de ano.
― Ele não merece nenhuma das namoradas que já teve. ― completou o raciocínio, aéreo. A namorada atual do capitão estudava na mesma classe que o cabeça de nabo. Cabelos curtos, sorriso tímido, pintas discretas, tinha tudo para preencher os seus requisitos de crush.
― Kindaichi, deixa o racalque de lado e vem me ajudar. ― Kunimi exigiu em monotom, arrancando risadas dos colegas.
― Tenho pena mesmo é do Iwaizumi, que tem de aguentar o capitão todo dia. ― bocejou Hanamaki, deitando a cabeça na mesa.
― Infelizmente, já estou acostumado. Estamos juntos desde que me dou por gente. ― voltou-se para o outro terceiranista. ― Matsukawa, você pode me ajudar aqui?
Química definitivamente não era seu forte. Sempre se confundia ao tentar entender como substâncias catalisadoras aumentavam a velocidade de uma reação.
― É assim: o catalisador diminui a energia necessária de ativação; com menos consumo de energia, mais rápida a reação se realiza.
― Valeu. ― murmurou distraído, anotando no automático o que acabara de ouvir.
Mal percebera quando a caneta parou de se movimentar. Os olhos focando o meio da folha, a mente desfocada, porém. Esta ia longe.
Por míseros segundos, virou poeta.
Se a substância final era o vôlei e a namorada do amigo o catalisador, quem era Iwaizumi nesta reação?
Balançou a cabeça. Precisava tomar um ar.
Foi até a janela do quarto e botou a cabeça para fora. Nada de brisa refrescante, apenas o sopro abafado do verão.
― Está enganado, Kindaichi. ― foi tão aleatório que todos os olhares se voltaram ao atacante escorado na janela. Alguns mal haviam notado a sua ausência da mesa.
― Infelizmente, você está errado. Oikawa mereceu todas as namoradas, assim como elas o mereceram. Vitória não vem a custo de nada, ele sabe disso, por isso as trata tão bem. Aliás, ele trata a quase todos muito bem (à exceção de um certo Tobyo e de um certo Ushijima). ― “E isso me deixa puto”, concluiu em pensamento.
“Injusto”, uma voz infantil choramingava dentro da cabeça. Seria o Tooru mais novo?
Enquanto isso, ao fundo, os colegas mais alvoroçados se questionavam do sentido nas palavras do atacante; contudo, por mais alto que as ondas quebrassem nos rochedos, apenas uma espuma surda era capaz de alcançar a ilha.
Um resquício de brisa soprou janela adentro, trazendo consigo o aroma das flores noturnas.
“Ah, então esse é o perfume do verão...”. O cheiro era forte por conta das copas carregadas de flores.
“Tão enjoativo”. Abriu os olhos. O branco preencheu seu campo de visão.
Não, não era estação de flores vermelhas.
Quando mesmo havia virado poeta?
[Outono]
Vermelha, latejante.
Iwaizumi fitava a própria mão. A mão com que recebera a bola. A mão com que batera em diagonal.
A mão com que errara.
Do lado oposto da rede, os corvos realizavam seu festim.
Estava sem reação.
A todo momento repassava os últimos segundos do set. Desde o saque ao contra ataque.
"Vocês lutaram bem".
A voz do treinador ecoou em sua mente, trazendo consigo a exata mesma sensação que tivera ao escutar o elogio pela primeira vez. A sensação de ter algo entalado na garganta, algo que se esforçava em manter trancado, ainda que, como consequência, acabasse asfixiado pela própria teimosia.
Muito a contragosto, a sua cabeça insistia no replay:
O passe perfeito da ponta oposta da quadra.
A visão além-rede.
A mira no chão adversário.
O impacto ruidoso da mão na bola.
O corvo, voando.
Traçando uma trajetória canhota, a primeira lágrima riscou a pele morena, tépida. Logo após a primeira, veio a segunda, a terceira, a quarta; desesperadas por unirem-se à iniciante rumo ao fim precoce no despontar do queixo. Não havia como estancar. Gota a gota, Iwaizumi derramava as frustrações suprimidas, raiva em estado líquido.
― Merda, merda, merda... ― abaixara a cabeça, comprimindo as mãos em forma de punho, como se, recorrendo a este gesto, conseguisse evitar que as lágrimas caíssem.
Foi arrancado do transe por um sonoro tapa nas costas, induzindo-o a procurar pelo autor da ação.
Ao travar contato com o olhar alheio, sentiu-se como tivesse levado outro tapa, agora no rosto. Duas esferas de âmbar cravejaram em si. Era o olhar do pai, no rosto do anjo. Umz religião inteira resumida numa só expressão.
Em seguida, os colegas de time imitaram o gesto do capitão. Iwaizumi recebeu vários tapas nas costas, porém, não repreendeu-os como fazia de praxe. Apenas permaneceu.
Em pé no meio da quadra; com os braços, a cabeça e o juízo pendendo; a expressão de Oikawa voltava a lhe assombrar.
—❖-
― Ah... Tudo que eu preciso agora são de uns bons shots de vodca. ― Shigeru espreguiçou-se.
― Nem me fala... ― retrucou um Kunimi desanimado (mais do que aparentava ser).
Os rapazes do Aoba Johsai haviam se reunido no portão principal, aguardando alguns integrantes que ainda não haviam saído do ginásio.
Súbito, um furacão vestindo branco e verde água passou pelo grupo de estudantes, os quais juraram que, se usassem perucas, estas sairiam voando.
― Aquele foi o Kentarou? Vou atrás dele― mas Kindaichi interrompeu o kouhai³, pousando a mão sobre seu ombro.
― Deixa ele. Provavelmente precisa de um tempo sozinho. ― O cabeça de nabo fingiu preocupar-se, quando, na verdade, não apreciava a presença do loiro. Seu dia já não estava um dos melhores para ter de passar o resto dele aturando a cara de poucos amigos do “Mad dog”.
Ao saírem das dependências do ginásio, Iwaizumi, que acompanhava o grupo a uma certa distância, pausou o andar manso e olhou para trás, na direção oposta da rua.
Avistou um Oikawa se afastando vagarosamente, absorto em seu smartphone.
― Hey, Shittykawa.
Ao olhar para o lado, o capitão encontrou o autor do apelido carinhoso.
― Você não vai acompanhar o pessoal?
Por mais que não houvesse motivos para se comemorar, Iwaizumi conhecia o amigo o bastante para saber que o mesmo não recusaria um convite de “jantar por minha conta”.
― Sabe como é, nee Iwa-chan~ ― expôs um sorriso convencido. ― As mensagens simplesmente não param de chegar. Como poderia recusar o convite de milhares de candidatas a confortar meu coração partido?
O som de papel sendo desdobrado chegou aos ouvidos de Iwaizumi.
“Se ele acha que me engana está muito errado.”
O moreno pegou no punho do capitão, transmitindo a agressividade dos pensamentos através da força aplicada ao braço alheio.
― Iwa-chi⁴, o que―
Coagiu Oikawa a dobrar a esquina consigo.
― Vamos pra minha casa. Meus pais saíram hoje, podemos pedir alguma coisa pra comer.
Ainda que não tivesse olhado para trás, o atacante visualizou o sorriso na voz do companheiro:
― Iwa-chan está me convidando para jantar em casa... Quais serão suas segundas intenções~
― Já vou logo avisando que não vou pagar sua parte.
― Ogro! Onde estão seus modos? ― Oikawa fez biquinho. ― É assim que você trataria sua namorada?
― Não. É assim que eu trato você, Shittykawa.
No horizonte, tons escarlates a pulsar.
-❖-
― Você realmente gosta de tofu, Iwa-chan. ― observou o capitão do time.
Haviam acabado de receber a encomenda e, sobre a mesa de centro, distribuíam as marmitas de comida.
No final das contas, o moreno teve que pagar pelos dois, pois Tooru não havia trazido a carteira.
― Itadakimasu.
Agradeceram pela refeição antes de separarem os hashis⁵ e escolherem por onde começar.
Como o esperado, o prato de Iwaizumi cobriu-se de branco do queijo de soja, e quase tão imediatamente quanto, esvaziou-se.
― Hoje eu encontrei com o Ushiwaka. ― o capitão do Aoba Johsai franziu o nariz ao pronunciar o apelido do rival.
O moreno fitou na direção do amigo, diminuindo a velocidade da mastigação.
― E ficou falando da escolinha de merda dele, que se eu estivesse lá, teria meu devido reconhecimento e blá blá blá. ― revirava os olhos ao descrever a conversa. ― No final perguntou se eu me arrependia de ter escolhido o Aoba Johsai.
― Era de se esperar... ― Iwaizumi pegou um gioza da marmita. ― E o que você respondeu?
Tooru pousou os hashis sobre a mesa, erguendo a cabeça e cravando nos olhos do companheiro gemas de brilho icógnito. Hajime havia congelado.
― O que você acha?
Devolveu com uma pergunta, suspendendo o assunto e deixando um Iwaizumi de cenho franzido.
—❖-
Enquanto o atacante vestia uma roupa mais confortável, Oikawa xeretava o quarto do amigo.
Jogou-se na cama alheia, afundando o rosto no travesseiro.
― Tem seu cheiro, Iwa-chi~― comemorou, abraçando os cobertores. Entretanto, a alegria durou pouco, ao ser atingido na cabeça por um objeto não identificado.
― Da próxima vez vai ser meu peso de academia. ― advertiu o moreno.
Fazia certo tempo em que o capitão não punha os pés nos aposentos de Hajime, mas pouca coisa havia mudado desde a última vez em que estivera ali. Os mesmos móveis básicos, realocados. Objetos que remetiam à paixão por esporte em cada canto. Revistas pornográficas debaixo da cama. A bagunça saudável de um colegial.
Porém, um elemento dissonante naquele quarto capturou a atenção de Oikawa.
― Não sabia que Iwa-chan fazia origami... ― comentou, folheando o livro de dobraduras que havia encontrado sobre a escrivaninha.
O rapaz de pele bronzeada deu de ombros.
― É mais um passatempo. Fazer origami me ajuda a relaxar.
― Só assim você não perde os cabelos. Em breve vou ter que te chamar de Oji-chan⁶! Você é mais estressado que meus pais...
― O caralho que eu sou! ― elevou o tom de voz, e, ao notar que o tinha, teve de admitir. ― Talvez... Só um pouco...
― Hey, Iwa-chan, você deveria confiar mais na gente... ― quando Oikawa dizia “a gente”, referia-se ao time do Aoba Johsai. ― Veja, agora a pouco os meninos me mandaram uma mensagem perguntando se você estava comigo, já que você não respondeu.
O capitão entregou o celular ao amigo na referida conversa.
No grupo do time (cujo ícone, por um motivo desconhecido, era a selfie de Oikawa), as últimas mensagens eram de Hanamaki:
Oikawa, sabemos que você sequestrou o Iwaizumi.
Logo abaixo, seguia anexa uma selfie em cujo primeiro plano estavam Matsukawa e Hanamaki, e ao fundo os kouhais do primeiro e segundo ano, alguns já desmaiados.
“As coisas não são as mesmas sem o Iwaizumi por perto pra botar ordem nessa bagaça.”
― Viu? A gente sabe se virar.
A única reação do moreno foi um audível “facepalm”.
― Lidar com vocês é equivalente a lidar com uma creche em dia de excursão.
― Mas você gosta de crianças, não gosta? ― Tooru se referia ao curioso fato das crianças não sentirem medo de Iwaizumi, e de este agir com paciência perante aquelas. ― Iwa-chan daria um ótimo pai (mesmo com essa cara assustadora).
O atacante (que resolveu ignorar o comentário para evitar uma eventual internação do capitão na UTI) fixou-se em Oikawa. Este retribuía com olhos preenchidos de uma expectativa infantil; e quem em sã consciência diria que eram os mesmos cujas pupilas abarcam a espreita do predador?
Hajime balançava a cabeça minimamente, permitindo que o sorriso amargasse no rosto.
― Eu duvido muito que eu mereça o título de “pai”. ― constatou cabisbaixo. ―Ainda mais depois do que aconteceu hoje.
O atacante não viu, mas Oikawa assumiu uma expressão séria, a mesma de horas atrás.
― O Hanamaki e o Matsukawa costumam dizer que eu pareço uma mãe superprotetora e um pai militar ao mesmo tempo, e você seria o filho capetinha. Mas ultimamente... ― relembrou o clima abafado, o perfume de flores noturnas. ― Ultimamente eu acho que tenho agido como uma criança.
Ergueu a cabeça, e, já acomodado com o novo semblante do amigo, riu como se estivesse rindo de própria cara no momento em que verteu lágrimas, achando toda aquela situação o cúmulo do patético.
― Eu cheguei a chorar, num momento no qual nem você (que tem todos os motivos do mundo) chorou. ― coçava a própria nuca.
― “O filho supera o pai”, já escutou essa? ― o sorriso manso diluiu-se tão logo surgiu nos lábios do capitão. A imagem da coroa no topo de uma cabeça que não a sua seria difícil de apagar. ― Eu cresci, Iwa-chan. Não sou mais aquele menino catarrento que você conheceu. Mas isso só foi possível porque você me disse pra não chorar antes de considerar meus erros. E mais uma vez, eu errei. Não me esforcei o bastante.
― Idiota, você se esforça de mais. ― o moreno puxou de leve as orelhas do amigo. ― Por que levar tão a sério as palavras de um pirralho?
― Porque era ninguém menos que você, Iwa-chan. ― o sorriso morno deu o toque final ao conjunto de bochechas e orelhas rubras.
Calaram-se por alguns instantes, ambos repassando os eventos do dia. Houve erros, claro que houve, de ambos os times. Entretanto, por mais que negassem, no final das contas, o resultado era apenas um: Aoba Johsai havia errado mais que Karasuno.
― Desculpa, eu devo ter te decepcionado... ―o atacante mordia o lábio inferior.
― Humn... Talvez eu esteja mesmo um pouquinho decepcionado... ― Oikawa desviou o rosto na tentativa de esconder o sorriso frágil. ― Mas acho que todos temos o direito de chorar de vez em quando...
Foi com uma perplexidade crescente que Iwaizumi assistiu a gotas de orvalho brotarem dos botões dos olhos pertencentes ao capitão.
À vista daquelas escleras avermelhadas, sentiu as próprias umedecerem, a vista a embaçar.
Cravou os dentes com mais intensidade no lábio.
Os olhares temiam em se encontrar tanto quanto os soluços reprimidos temiam em escapar.
O ar rarefeito, clima de montanha, de precipício.
As mentes de ambos insistiam em martelar o óbvio: “É o último ano, porra!”.
Este era o último ano. O último ano do colegial deles. O último ano no time do Aoba Johsai. O último campeonato de vôlei como um time. A última chance de vencer Shiratorizawa.
E eles haviam perdido o último... Tudo.
A medida que a realidade desferia mais um soco nos rapazes, mais insuportável era conter as lágrimas.
Até que Hajime decidiu respirar fundo (com uma inalação que mais se assemelhou a um fungado) e dissipar aquele clima de uma vez por todas.
Não se deu sequer ao trabalho de ir até onde o amigo estava para realizar o ato; apenas o puxou de qualquer jeito pelo moletom do time e selou os lábios com os dele por cima da mesa de centro.
― I-Iwa-chan...? ― balbuciou confuso, tentando se afastar.
― Cala boca. ― Hajime puxou-o pela nuca também, forçando-o a beijá-lo novamente. Distribuía curtos e cegos selos pela boca alheia. Comprimia os olhos, trêmulo: sim aquele era seu primeiro beijo.
Timidamente, permitiu que a língua acariciasse o lábio inferior do capitão, na expectativa de que este entreabrisse a boca, o que não se realizou.
Aos poucos foi retomando a consciência, no mesmo ritmo em que abria os olhos e a expressão de espanto do companheiro se revelava diante de si. Soltou o casaco e o cabelo de Oikawa, só então reparando no quanto de força empregara por conta do nervosismo.
― Desculpa, eu... ― coçou a nuca, desconfortável.
“Desculpa, eu só queria quebrar o clima” era a desculpa mais esfarrapada, porém a única que lhe vinha à mente. No caso, portanto, por que não contara uma piada? Ou avisado que precisava ir ao banheiro?
Oikawa, que até então se mantivera em estado de choque, passou o indicador pelo lábio, relembrando o beijo. Tão repentino, o moreno o havia pego de surpresa.
Dentre tudo que acontecera, aquela pausa era a oportunidade perfeita para descobrir o porquê do ato.
Todavia, não imaginava encontrar um Iwaizumi corado e inseguro.
Além de coçar a nuca, como sempre o fazia quando nervoso, estava a beliscar o lábio. Caso lhe perguntassem se conhecia aquela faceta do atacante: não, não conhecia.
E não, não havia como resistir.
Aproximou-se um tanto quanto hesitante, porém, apenas o intervalo que Hajime levou para erguer a cabeça bastou para que Oikawa tomasse iniciativa.
Desta vez, o capitão concedeu passagem ao atacante. Era uma sensação nova para Iwaizumi, que nem por isso cedeu para o nervosismo. O inconfundível gosto de furikake⁷ que temperava o sabor de Oikawa se sobrepôs à textura da conexão.
Ainda insatisfeito com aquele contato esquisito, puxou o cabelo de Tooru, meio agressivo (velhos hábitos?), aprofundando o beijo.
Mesmo não tendo descoberto nenhum prazer no ato, Iwaizumi tinha uma certeza: de que não queria interrompe-lo tão cedo.
Oikawa sentia algo semelhante: apesar da inexperiência do amigo e de sua característica violência, não planejava quebrar a conexão.
Se parassem, teriam de dizer alguma coisa. E não tinham o que dizer, não naquela situação de cabeças aéreas.
Agora o acolchoado da cama servia como pano de fundo para a clandestinidade de suas ações.
O rapaz de pele bronzeada desceu o zíper do moletom branco e verde água o qual vestia o corpo de Oikawa, despindo-o numa contemplação ritualística. Seria aquela a última vez em que o tecido sintético do blusão faria contato com a pele de Tooru.
Despir Oikawa naquela situação era despi-lo do título de capitão do Aoba Johsai.
O gosto das lágrimas voltou a amargar na boca de Iwaizumi, que quis esconder o rosto no vão do pescoço do rapaz mais alto; e foi o que fez, aproveitando para distribuir por ali beijos e mordidas.
Simultaneamente, as mãos de Oikawa passeavam pelo corpo de pele bronzeada do atacante. Tinha de admitir, o companheiro estava em melhor forma que si próprio.
―Ai! ―resmungou Tooru, acariciando a região em que os dentes do amigo cravaram com mais intensidade. ― Iwa-chan, quer arrancar minha pele?
Reparou na expressão de Iwaizumi, em como as suas sobrancelhas estavam mais franzidas que o habitual. Um pouco mais e veria uma veia saltando de sua testa bronzeada.
― Você está bem? ― cutucou a região entre as sobrancelhas. ― A sua expressão não está nem um pouco sexy, sabia?
― Foda-se, e quem disse que era pra ser? ― Os músculos da testa se comprimiram ainda mais.
Direcionou a atenção para as calças do rapaz mais alto, puxando as num só movimento.
Em seguida pigarreou, juntando saliva e levando a mão à boca, num gesto claro de quem ia cuspir nesta.
― O que está fazendo?! ―Oikawa o interrompeu alarmado.
― Eu não tenho lubrificante, então...
― Nem vem! Credo, que nojo...
― E você quer que eu use o que, então? Álcool gel? ― sorriu debochado. ― Vem, para de frescura no rabo.
― E quem decidiu que você deveria ser o ativo, afinal? ― Tooru devolveu, erguendo a sobrancelha.
Iwaizumi, por sua vez, acrescentou uma ruga de confusão à testa franzida.
― Eu pensei que você queria... Tentar algo novo.
― Algo novo?
― É... A não ser que... ―o sobrolho comprimiu-se ainda mais (aquilo ainda era possível?) ― Você já fez com outro homem?
― Não... Claro que não! ― cada vez menos entendia onde o moreno queria chegar.
― Então, caralho! Faz sentido... Não faz? ― perguntou, sentindo a confiança de antes fraquejar. ― Eu posso... Te dar algo que as suas namoradas nunca puderam...
Desviou o rosto. Droga, a situação o estava deixando mais nervoso. Agora as mãos também tremiam.
Foi ao analisar a linguagem corporal de Iwaizumi que formulou uma teoria, e logo a aplicou a seu favor:
― Iwa-chan, você está com ciúmes? ― não conteve o sorriso.
― Nem fudendo! ― retrucou, permitindo que o sangue subisse à cabeça. ― É só que... É minha primeira vez, porra! Estou dando meu máximo aqui, por que você tem que dificultar?
A cada palavra pronunciada, mais o sorriso de Oikawa se expandia, para desespero de Hajime.
― Ownn, Iwa-chan está inseguro... ― provocou, recebendo de volta uma almofadada na cara.
Ao tentar abafar os risos do visitante com a almofada (quem entrasse no quarto naquele momento pensaria estar presenciando um assassinato), deixou que esta lhe caísse das mãos ao revelar a expressão de Oikawa, tomado por uma sensação familiar.
A mesma sensação que tomava conta de si ao abrir a última (e decisiva) dobra de um origami, revelando o resultado final.
Não mais sentia a presença de uma folha de papel comum.
Sentia a presença de algo infinitamente mais belo.
Os lábios de tom carmim se confundiam com a coloração do rosto angelical, ao desabrocharem num riso que cheirava a infância.
Furtivo, um sorriso atravessou a boca de Iwaizumi.
― Iwa-chan, isso que eu acabei de ver foi um sorriso no seu rosto? ― exclamou perplexo. ― Eu necessito registrar esse fenômeno raro!
Levantou-se bruscamente, ignorando o fato de estar apenas de cueca, atravessando o cômodo em busca do celular.
― Nem vem! ― também saltou da cama, seguindo logo atrás de Oikawa.
Ao tentar tomar o celular alheio, o amigo esquivou-se, escapando para ao lado oposto do quarto.
O rapaz mais alto sorria debochado enquanto acessava câmera do smartphone e ligava o gravador de vídeo. O moreno entendeu, e não tardou em perseguir o amigo pelo cômodo diminuto.
Oikawa escalava os móveis e fazia uma algazarra, enquanto Iwaizumi atacava os travesseiros que lhe caíam em mãos no alvo ambulante.
Até o atacante passar uma rasteira marota no amigo, fazendo-o pousar no chão de forma nada sutil.
― Que barulho foi esse, Hajime? ― uma voz feminina surpreendeu, vinda do andar de baixo.
Os garotos se entreolharam, atônitos.
― Você... Não disse que seus pais tinham saído? ― relembrou o visitante.
― Acabaram de voltar. ― constatou o óbvio.
Novamente foram cortados por um furtivo silêncio, isto é, até falharem miseravelmente ao segurar o riso. Um riso abafado, o qual se intensificava ao acrescerem o constrangimento de terem sido escutados pela mãe do anfitrião.
Depois de muita insistência por parte da progenitora, Oikawa concordou em passar a noite ali.
—❖-
Tooru ressonava profundo no futon ao lado de sua cama, visivelmente exausto. Iwaizumi por sua vez levava tempo para ser envolvido pelos braços de Morfeu.
Enquanto não chegava lá, a cabeça ainda debatia-se entre pensamentos.
Porém, naquele momento sentia-se tão leve quanto as plumas que flutuaram pelo quarto ao atingir o amigo com seu travesseiro.
Não conteve o sorriso no escuro ao relembrar a cena.
E pensar que, naquele mesmo dia, tinham perdido o último campeonato colegial da vida deles.
Várias cenas se seguiram então: as tardes de verão em que, quando criança, parava para assistir ao Sol surgir detrás das cinzentas nuvens de chuva.
As covinhas que apareciam esporadicamente no rosto do querubim.
A vez em que acompanhou a mãe na compra de papéis de origami, ajudando na escolha das cores.
As brincadeiras dos colegas do time, sempre direcionadas ao capitão.
O rosto corado e risonho de Oikawa.
O gosto de Furikake.
O beijo.
Devida à ligeira alteração no ritmo do batimento cardíaco, Iwaizumi focou a visão na janela do quarto, que se mantinha fechada por conta do despencar na temperatura.
“O Sol, o Sol após a chuva.”
O vento do lado de fora fazia as árvores dançarem. De onde se encontrava, o moreno reparava nas folhas avulsas correrem pela janela.
Havia a possibilidade do dia seguinte amanhecer com a grama coberta de tons de laranja e de vermelho.
Vermelho...
Não, não era o fim. Tinham o time da faculdade ainda.
Ah, tinha de lembrar a mãe que os papéis de origami haviam acabado!
E a incontrolável vontade de dobrar um tsuru vermelho.
O orvalho sobre os botões de flor.
A sensação de ter na mão o azul e o amarelo.
Folhas de seda voando ao vento.
Gradativamente, os pensamentos foram se evaporando, e o sono veio como um sopro sutil de outono.
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