Orgulhosos
3 Capítulo 3
Notas iniciais
O cômodo estava inundado pelo aroma de chá e doces frescos, uma fragrância suave e aconchegante. O dia lá fora estava ensolarado, das janelas amplas o jardim bem cuidado da mansão estava visível, criando uma paisagem agradável.
Mai refletia, ao fitar a janela, sobre como, afinal de contas, o convite de Mokuba não havia sido de todo ruim, aquela tarde estava sendo a mais tranquila que tivera em meses. A companhia do garoto era muito melhor que ficar confinada naquele quarto dia e noite, com tanto tempo para ser atormentada pelas próprias lembranças.
Ainda que todo aquele ambiente, o sabor delicado e fino do chá que acabara de experimentar lhe trouxesse lembranças incômodas. Tudo era demasiado familiar, ela era habituada a tardes como aquela, ao menos era assim quando ainda era uma criança. Eram tardes pelas quais ela costumava ansiar, quando seus pais ainda achavam que ela era digna de um pouco do precioso tempo deles. Mas claro, logo a alegria daquelas tardes se transformara em momentos de solidão amarga, quando eles pararam de lhe reservar aquela mísera hora algumas vezes na semana.
— Você parece estar bem melhor, me alegra que esteja se recuperando rápido. — Mokuba disse satisfeito, antes de pegar um dos cupcakes na bandeja.
Mai demorou alguns segundos para voltar a atenção ao garoto, tentando afastar aquelas lembranças. Ela tomou mais um gole do chá ainda quente, odiando o que aquele sabor lhe fazia recordar.
— Não tão rápido quanto gostaria, mas ao menos agora consigo andar sozinha com as muletas. — ela respondeu por fim, sem muito ânimo.
Mai gostaria de ser mais cordial com Mokuba, ele era uma criança doce e claramente solitária. Ela havia notado o quanto o garoto parecia satisfeito com sua presença ali, contente por ter alguém com quem conversar. Contudo, principalmente naquele momento estranho da vida, ela não era exatamente uma boa companhia para ninguém.
— Mas confesso que você parece uma pessoa completamente diferente com essas roupas, até parece mais jovem. — ele disse num tom divertido, tentando melhorar o clima.
Mai olhou para si mesma com certo desgosto, o vestido que usava era de um tom claro, corte delicado.
— Nem me fale, essas roupas que a Samantha me arrumou acabam com o meu estilo. — Mai concordou, sorrindo sem muito humor — Mas mudando de assunto, eu queria saber quando seu irmão está em casa. Samantha sempre diz que ele está na empresa, eu não sei se é verdade ou se ela apenas não quer que eu o incomode.
— Provavelmente é um pouco dos dois, mas nos últimos dias meu irmão tem passado mais tempo na empresa. — o garoto respondeu pensado em Seto, ele sabia o quanto o irmão estava trabalhando para reverter os problemas atuais da empresa. — A KaibaCorp ainda está lidando com algumas coisas que o Doma fez.
Mai olhou para a xícara vazia de chá, sendo atingida por um certo desconforto. Involuntariamente pensando nos meses anteriores, ciente de que tinha contribuído para a situação da KaibaKorp de certa forma.
— Eu sinto muito Mokuba, eu não sei onde estava com cabeça quando me envolvi com aqueles lunáticos... — ela disse por fim, levantando o olhar novamente.
Mokuba percebeu ao ouvir aquelas palavras que cometera um erro ao mencionar o Doma.
— Mai, você foi mais uma vítima, eles te manipularam...
— Não, foi uma escolha minha Mokuba. — ela disse, o interrompendo com um tom mais sério. — Eu tenho responsabilidades, parte do que aconteceu com a KaibaCorp é minha culpa. Eu não deveria estar aqui...
Era a verdade, ninguém havia a obrigado. Fora uma escolha estúpida, mas a responsabilidade era somente dela.
— Mai... — Mokuba não soube o que dizer, não queria ver Mai se culpando daquele modo.
— É a verdade, mas chega de falar disso. — disse ela, determinada a acabar com aquele assunto. — Tem mais uma coisa que eu queria te perguntar.
— O que é?
— Meu baralho. Sabe o que aconteceu com ele? — ela perguntou, apreensiva.
Já questionara Samantha, que aparentemente não sabia nada sobre ele. Ele estava com ela durante o acidente, logo temia ter o perdido durante toda a confusão.
— Não precisa se preocupar, ele está em segurança. — Mokuba tentou a tranquilizar, percebendo a preocupação dela. — Está com Seto, ele o guardou no dia em que te resgatamos.
Mai sentiu um misto de alívio e certo incômodo com a descoberta de que seu baralho estava com Kaiba.
— Seu irmão tira folga algum dia? Não é possível que ele nunca descanse... — o comentário escapou com certa impaciência.
— Tecnicamente ele realmente não tira folga, mas nos finais de semana ele costuma trabalhar em casa. — Mokuba explicou com certa preocupação, ele não aprovava exatamente esse hábito do irmão. — Amanhã é sábado, então provavelmente você deve encontrá-lo no escritório.
— Então ele nunca descansa? — Mai não estava realmente surpresa com aquilo, aquilo era a cara de Kaiba. — Enfim, eu vou procurá-lo amanhã. Quero meu baralho de volta e avisar a ele que estou indo embora.
— Embora? — Mokuba perguntou surpreso. — Mas ainda é muito cedo, você mal começou a se recuperar. Além disso, não acho que Seto concordaria com isso.
A expressão de Mai se fechou instantaneamente.
— Não me importa se ele concorda ou não, eu já estou bem o suficiente. — ela afirmou com veemência. — Já consigo andar sozinha, agora posso ir embora.
— Bom, se é que você quer. — Mokuba assentiu, compreendendo que não conseguiria mudar a decisão dela.
Porém, o garoto pensou na reação do irmão, tinha certeza que não deixaria Mai embora dali naquele estado.
— Obrigada pelas informações, aliás, por tudo que você e seu irmão fizeram. Agora eu posso me virar sozinha.
— Mai, eu sei que Seto é uma pessoa difícil, sei que parece que ele é indiferente, mas ele realmente se importa. — Mokuba acrescentou, apesar de ter percebido a hostilidade dela em relação ao seu irmão. — Meu irmão se sente responsável pelo que aconteceu com você, não acho que ele ficaria tranquilo se você fosse embora sem se recuperar completamente.
Mai ouviu aquilo com uma descrença mais do que aparente. Para ela estava mais que claro que um bastardo como Kaiba não se importava com nada além de si mesmo.
— Não faça piadas, Mokuba. — ela disse num tom irônico. — Seu irmão não se importa comigo, ele deixou bem claro que o motivo de me manter aqui é o medo de que eu cause problemas a empresa.
— Eu sei que assim que parece, mas acredite em mim. — Mokuba disse frustrado, imaginando o modo como provavelmente seu irmão havia tratado Mai. — Sabe, a verdade é que nós sabemos como é não ter família, jamais te deixaríamos desamparada depois de você ter se machucado por nossa causa.
Mai franziu levemente a testa, confusa com as palavras de Mokuba.
— Como assim?
— Nós fomos adotados pelo Gozaburo, há alguns anos atrás. — Mokuba começou a explicar com certa melancolia, se lembrando do passado difícil. — Antes disso nós passamos um bom tempo vivendo num orfanato depois da morte de nossos pais.
Mai foi pega de surpresa pelas palavras do garoto, permanecendo em silêncio por alguns instantes. Sentiu um incômodo ao compreender que Mokuba parecia acreditar que ela também era órfã, como ele, e que conhecia a dor de perder os próprios pais.
Pela primeira vez em anos, desde que sustentara aquela mentira, a de ser uma órfã que crescera sem nenhuma família, sentiu-se culpada.
— Eu não tinha ideia. — Mai disse por fim.
— Foi uma época difícil, mas, ao menos, eu tinha meu irmão ao meu lado. — O garoto pareceu se perder por um instante nas próprias lembranças. — Às vezes sinto falta do Seto daquela época. Desde que fomos adotados por Gozaburo, ele nunca mais sorriu de verdade.
— Kaiba sorrindo de verdade? — Mai ergueu levemente as sobrancelhas. — Isso é difícil de imaginar.
— Ele sempre foi um pouco sério, mas não daquele jeito. — Mokuba desviou o olhar por um instante. — Gozaburo foi muito duro com ele. Depois que viemos para esta casa, Seto nunca mais foi o mesmo.
Mai permaneceu em silêncio ouvindo Mokuba com atenção.
— Às vezes, eu fico pensando se não teria sido melhor se ele tivesse me deixado para trás. — Mokuba abaixou os olhos. — Talvez tivesse sido adotado por uma família melhor.
— Outra família? — Mai franziu levemente a testa.
— Quando estávamos no orfanato, apareciam famílias interessadas em adotá-lo. — Mokuba esboçou um sorriso breve, quase orgulhoso. — Seto sempre foi muito inteligente. Todo mundo percebia isso.
O sorriso desapareceu rapidamente.
— Mas ele recusava todas as propostas. Eles queriam apenas ele. Seto nunca aceitou a ideia de me abandonar. — Mokuba abaixou o olhar. — Foi por minha causa que ele acabou sofrendo nas mãos de Gozaburo.
Mai sentiu o interesse crescer involuntariamente. As descobertas sobre Kaiba eram mais do que inesperadas. Até então, jamais imaginara que os irmãos Kaiba pudessem ter tido uma vida tão difícil.
— Esse Gozaburo era realmente tão ruim assim?
— Você não tem ideia. — A voz de Mokuba perdeu a leveza que tinha até então. — Ele era um homem cruel.
Mai observou Mokuba em silêncio. A culpa que ele sentia pelo sofrimento do irmão era evidente.
— Mokuba, pelo que você acabou de me contar, seu irmão se importa muito com você. — Mai começou tentando afastar aquela expressão triste do rosto do garoto. — Eu duvido que ele teria sido feliz se tivesse deixado você para trás.
— Você tem razão. Afinal, é bobagem ficar pensando no passado. — Mokuba pareceu refletir por alguns segundos, como se tentasse encontrar algo positivo em meio às próprias lembranças. — Nem tudo foi ruim. Naquela época, quando ainda estávamos no orfanato, Seto tinha um sonho que parecia impossível. No fim, ele conseguiu realizá-lo.
— Um sonho? — Mai perguntou, agora genuinamente interessada.
— Seto sempre dizia que, um dia, construiria parques de diversões onde crianças órfãs, como nós, pudessem brincar de graça.
— Seto Kaiba tinha um sonho assim? — Mai perguntou, incapaz de esconder a incredulidade. — Você realmente está falando do mesmo Seto Kaiba?
— É verdade. — Mokuba sorriu. — As KaibaLands existem por causa daquele sonho.
A conversa dos dois continuou por mais algum tempo, até que Mokuba precisou ir encontrar o irmão. Mai retornou ao quarto com o auxílio das muletas, acompanhada por Samantha.
Quando finalmente Samantha lhe deixou sozinha, sua mente voltou às palavras de Mokuba. O irmão que Mokuba descrevera não parecia ser o mesmo Kaiba que Mai conhecia.
Alguém que recusara repetidas oportunidades de ser adotado para não abandonar o irmão. Alguém que, quando criança, sonhara em construir parques onde órfãos pudessem brincar de graça.
— Parques de diversões para órfãos... Quem diria? — murmurou para si mesma.
Por um instante, Mai se perguntou se Kaiba realmente era tão frio quanto aparentava. Mas a lembrança daquela noite logo voltou. A frieza com que ele lhe dissera que podia mantê-la ali contra a própria vontade, como se aquilo fosse uma decisão que lhe pertencesse exclusivamente.
Afastou imediatamente aquela nova imagem que ameaçava a se formar.
Não importava se ele era um bom irmão para Mokuba. Isso não tinha nada a ver com ela. A questão era o modo como ele a havia tratado.
No dia seguinte, encontraria Kaiba, recuperaria seu baralho e iria embora daquela casa.
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Mai fitou o próprio reflexo no espelho com um misto de satisfação e desgosto. Parecia decente o suficiente. Ao menos, era nisso que tentava acreditar.
Sentia falta das próprias roupas, que haviam ficado na antiga sede do Doma. Sem elas, Mai não se sentia inteiramente como ela mesma. As roupas mais ousadas e a maquiagem que costumava usar sempre a ajudavam a parecer mais velha, tornando mais fácil sustentar a história de que tinha vinte e três anos.
Vestida daquela maneira, contudo, parecia mais jovem e frágil. A diferença entre a idade que dizia ter e os seus verdadeiros dezessete anos parecia muito mais difícil de esconder.
Mai passou os dedos pelo tecido delicado do vestido, imaginando que aquela peça devia ser cara. Reconheceu a marca quase imediatamente. Era uma das favoritas de sua mãe.
Heloise costumava obrigá-la a vestir roupas daquele tipo. Peças delicadas, elegantes, cuidadosamente escolhidas para fazê-la parecer aquilo que, segundo a mãe, uma jovem pertencente a uma família como a Laurent deveria ser.
Involuntariamente, perguntou-se como os pais estariam. Talvez, depois de três anos, finalmente tivessem encontrado alguma paz sem ela.
Sempre pareciam tão insatisfeitos com sua presença que não era difícil imaginar os dois vivendo perfeitamente bem sem ela. Talvez lamentassem a perda da herdeira Laurent. Mai não tinha certeza de que sentiriam falta dela.
Sentia falta deles. A constatação era muito mais dolorosa do que jamais admitiria. Ela os amava, mas jamais poderia voltar àquela vida.
Ainda assim, tinha certeza de que não fazia falta para eles. Henry e Heloise jamais haviam parecido particularmente interessados nela. Recordava-se bem do último ano naquela casa. Fora um dos períodos mais solitários de sua vida. Raramente conseguia vê-los.
Frequentemente seus pais passavam semanas fora, semanas que frequentemente se transformavam em meses. E, quando finalmente retornavam, Mai tinha sempre a impressão de que havia algo errado. Nunca conseguia corresponder às expectativas deles. Por mais que tentasse, parecia incapaz de ser a filha que Henry e Heloise queriam.
Às vezes, Mai chegava a pensar que passavam tanto tempo fora de propósito. Como se preferissem permanecer longe a conviver com o fracasso constante que ela representava por não conseguir ser a filha que desejavam.
Quando voltou a erguer os olhos para o espelho, percebeu as lágrimas que haviam escapado sem que notasse. Rapidamente enxugou o rosto, esperando que Samantha não tivesse percebido.
Mai respirou fundo e tentou se concentrar no que realmente importava. Já fazia três anos desde que fora embora. Não deveria continuar pensando no passado. Não havia nada que pudesse fazer a respeito dele.
O problema era que a mansão Kaiba parecia despertar aquelas lembranças constantemente. Havia algo naquele lugar, no luxo, na formalidade e na presença constante dos empregados, que a fazia se lembrar de sua antiga casa.
Estava ansiosa para ir embora dali, mesmo sabendo que o tornozelo ainda não havia se recuperado completamente.
Depois de uma última olhada no espelho, Mai se afastou apoiada nas muletas. O esforço era evidente. Samantha se ofereceu para ajudá-la, mas, como sempre, Mai recusou.
Ela se sentou na cama, pegou um espelho de mão e começou a aplicar maquiagem no rosto.
Samantha a observava discretamente, tentando entender o que Mai pretendia.
Durante a última semana, Mai estivera estranhamente quieta. Desde a conversa com Seto, voltara a comer e não causara mais problemas. O único problema era sua insistência em fazer muito mais do que o médico havia recomendado. Mai se esforçava demais para se locomover sozinha. Era evidente que o uso constante das muletas lhe exigia mais do que estava disposta a admitir. Samantha, porém, já havia aprendido que discutir com Mai era inútil. Limitava-se a oferecer ajuda, mesmo sabendo que quase sempre seria recusada.
Naquela manhã de sábado, Samantha percebeu quase imediatamente que Mai estava planejando alguma coisa. Acordara mais cedo do que o habitual e pedira roupas mais apresentáveis, além de maquiagem.
Samantha tinha certeza de que aquele não seria um dia tranquilo.
— Aquele bastardo está em casa hoje, não é? — perguntou, examinando o próprio reflexo uma última vez e parecendo satisfeita com o fato de a maquiagem ter escondido parte de sua palidez.
Samantha hesitou por um instante, surpreendida tanto pela pergunta quanto pela forma como Mai se referira ao Sr. Kaiba.
— O Sr. Kaiba saiu mais cedo. Está trabalhando.
Mai colocou o espelho e o batom na cama e virou-se para a mulher.
— Não precisa mentir. Mokuba me disse que ele costuma trabalhar em casa nos fins de semana. Só preciso que você me mostre onde fica o escritório.
— Se quiser falar com o Sr. Kaiba, posso transmitir qualquer recado. Não precisa...
— Se você não quiser me ajudar, eu encontro sozinha. — Mai a interrompeu, já impaciente.
Samantha compreendeu que não conseguiria convencê-la. Se insistisse, Mai provavelmente tentaria encontrar o escritório sozinha. Sem outra alternativa, apenas assentiu.
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Seto Kaiba analisava atentamente as métricas exibidas na tela do notebook. Os resultados dos últimos dias eram irrisórios, muito abaixo do que esperava.
A situação não era irreversível, mas permanecia delicada o suficiente para aumentar a pressão dos demais acionistas. As ações adquiridas por Dartz haviam sido recuperadas, contudo, a reputação da KaibaCorp ainda sofria as consequências de tudo o que o Doma fizera.
Apesar da frustração, sabia que a situação não seria resolvida imediatamente. A recuperação completa da imagem da KaibaCorp levaria semanas, e a inauguração da nova Kaibaland na América seria um passo decisivo nesse processo.
Sua concentração foi interrompida quando soaram algumas batidas na porta.
— Entre. — ele disse sem desviar o olhar da tela.
Mai entrou apoiada nas muletas, seguida por Samantha. A empregada mantinha uma postura cautelosa, claramente constrangida por ter de interromper Kaiba.
— Sr. Kaiba, me perdoe pelo incômodo. A senhorita Mai insistiu em falar pessoalmente com o senhor.
— Pode sair, Samantha.
Samantha assentiu e retirou-se em silêncio.
Mai caminhou até a mesa, sem qualquer preocupação em suavizar o som das muletas contra o chão. Cada passo produzia um ruído seco no silêncio do escritório.
Sentou-se na cadeira diante da mesa, apoiando as muletas ao lado. Cruzou os braços e ergueu o queixo, encarando-o diretamente.
A irritação de Mai crescia a cada segundo.
Kaiba continuava digitando, com a atenção aparentemente inteiramente voltada para a tela.
Era impossível que não tivesse percebido sua presença. As muletas haviam produzido ruído suficiente para isso. Ele simplesmente escolhera ignorá-la.
Mai já estava prestes a quebrar o silêncio quando Kaiba fechou o notebook. O som seco pareceu encerrar abruptamente a espera.
Ele se levantou e contornou a mesa.
Kaiba a observou por alguns instantes. Notou o vestido, o cabelo cuidadosamente arrumado, a maquiagem. Mesmo apoiada em duas muletas, Mai Valentine aparentemente fizera questão de se apresentar diante dele como se estivesse perfeitamente bem.
Não estava particularmente surpreso com a visita.
Mokuba havia comentado, na noite anterior, durante o jantar, que Mai pretendia falar com ele. Pelo que o irmão dissera, ela estava decidida a deixar a mansão.
Naturalmente, ela queria ir embora.
— Diga logo o que quer. Tenho trabalho.
Kaiba permaneceu diante dela, sem demonstrar qualquer intenção de tornar a conversa agradável.
— Você poderia, ao menos, tentar falar comigo com um pouco de respeito. Eu sou mais velha que você, afinal.
Por um instante, algo mudou na expressão de Seto.
— Interessante. Parece que você mente há tanto tempo que até começou a acreditar nas próprias mentiras.
— Do que você está falando? Que mentiras? — perguntou ela, franzindo o cenho sem compreender aonde ele pretendia chegar.
— Mai Laurent. Fugiu de casa há três anos. Dezessete anos recém-completados. — Seto recitou as informações de que se lembrava do relatório preparado por Roland no dia em que Mai fora resgatada.
— Como você...?
— Você realmente achou que eu não investigaria alguém que está vivendo sob o meu teto?
— Você não tinha o direito de investigar a minha vida!
A descoberta a deixara momentaneamente desnorteada, pois Kaiba acabara de revelar que conhecia detalhes de uma vida que ela cuidadosamente ocultara havia anos. Ainda assim, esforçou-se para recuperar a compostura, lembrando a si mesma de que aquilo não era relevante naquele momento, tudo o que precisava fazer era recuperar o baralho e deixar aquela casa.
— Não importa o que você sabe ou deixa de saber sobre a minha vida. Não foi por isso que vim aqui. — ela sustentou o olhar. — Vim buscar meu baralho. Depois vou embora.
— Não. — Seto respondeu simplesmente, fazendo Mai encará-lo por alguns instantes em silêncio, como se esperasse que ele acrescentasse alguma explicação.
— Eu não estou pedindo sua opinião, Kaiba. Estou apenas avisando que vou embora.
— Já deixei isso claro. Você só sairá daqui quando o médico confirmar que está completamente recuperada e assinar os documentos que isentam a KaibaCorp de qualquer responsabilidade. — respondeu Seto, irritado por precisar repetir algo que, a seu ver, já deveria ter sido compreendido.
— Não me importa o que você planejou. Estou bem o suficiente para cuidar de mim mesma. Não é você quem decide quando posso ou não sair daqui. E pode esquecer esses documentos. Não vou assinar nada.
— Bem o suficiente? — Seto repetiu com escárnio, deixando escapar uma breve risada ao olhar para as muletas apoiadas ao lado dela. — Você mal consegue andar. Gostaria de ver você tentar descer as escadas. Mas, se é realmente isso que quer, não vou impedir.
Insistir seria inútil. Mai já havia decidido que queria ir embora, e discutir não alteraria isso. Se continuasse tentando convencê-la, ela apenas se tornaria mais resistente.
Não poderia permitir que ela deixasse a mansão naquele estado. Mai ainda mal conseguia caminhar sem as muletas e, se insistisse em sair sozinha, não havia como prever o que poderia acontecer. Se algo acontecesse depois, a responsabilidade inevitavelmente voltaria para ele.
E havia ainda a imprensa. A KaibaCorp já enfrentava problemas suficientes. A história de uma garota ferida durante uma operação da empresa seria exatamente o tipo de informação que alguém poderia explorar.
— Finalmente resolveu ser sensato. Devolva meu baralho e eu vou embora. — ela sentiu certo alívio, acreditando que Kaiba finalmente havia cedido.
— Claro. — Seto respondeu sem alterar o tom. — Mas, antes disso, você precisará escolher entre duas alternativas. São as únicas maneiras pelas quais deixará esta casa.
— Alternativas? — ela perguntou estreitando os olhos.
— Você está sob minha responsabilidade desde o acidente. Não vou permitir que saia daqui nesse estado.
— Vá direto ao ponto.
Seto sustentou seu olhar por alguns segundos.
— A primeira opção é simples. Entro em contato com Henry e Heloise Laurent e informo que a filha desaparecida deles foi encontrada. Acredito que não terão dificuldade em providenciar o retorno da filha.
O sangue pareceu abandonar o rosto de Mai. Por um instante, ela permaneceu imóvel, encarando-o como se ainda tentasse encontrar uma resposta que pudesse afastar aquela possibilidade.
— Você não pode... não tem o direito de...
— A escolha é sua. Há outra alternativa, se preferir. — respondeu Seto, mantendo o tom indiferente, embora a reação dela tivesse sido mais intensa do que esperava.
A família Laurent era influente e possuía uma fortuna considerável, o que tornava ainda mais difícil para Seto compreender a intensidade da reação dela. Ele não sabia o que havia acontecido para que Mai abandonasse uma vida daquele nível e passasse anos escondendo a própria identidade.
Na realidade, Seto não tinha intenção de contatar os Laurent. A última coisa que desejava era que uma família daquele porte descobrisse que a filha havia sofrido um acidente durante uma operação da KaibaCorp, especialmente quando a empresa ainda tentava recuperar a própria reputação. Mas Mai não precisava saber que ambas as alternativas eram blefes.
— Não. — A resposta escapou antes que pudesse controlá-la. — Meus pais... não. Eu não posso voltar àquela casa.
Os olhos azuis dele permaneceram impassíveis e ele continuou como se estivesse apenas expondo dados de um relatório.
— A segunda opção é notificar as autoridades. Considerando as informações que obtive a seu respeito, acredito que terão interesse em conversar com você.
— Eu não fiz nada que justificasse envolver a polícia. — Mai respirou fundo, esforçando-se para recuperar o controle e manter a voz firme.
— Tem certeza? — Seto deu alguns passos pelo escritório antes de voltar a encará-la. — Seu envolvimento com o Doma já seria suficiente para despertar interesse. Some-se a isso sua participação em circuitos clandestinos de Monstros de Duelo.
— Como... você descobriu isso?
— Você realmente subestima os recursos da KaibaCorp. — Havia um leve desprezo em sua voz. — Os Discos de Duelo registram informações suficientes para reconstruir o histórico de qualquer duelista que os utilize. Bastou cruzar alguns dados.
— Diga logo o que é.
— Foi assim que encontrei algo particularmente interessante. Um duelo clandestino que terminou com a morte de um dos participantes.
As palavras atingiram-na como um golpe e, por um instante, o escritório pareceu desaparecer ao seu redor. A memória daquela noite retornou com uma nitidez desconfortável: o duelista inconsciente depois dos danos causados por seu último ataque e, alguns instantes mais tarde, a descoberta de que os choques haviam sido fatais, seguida pela imagem dos dois seguranças do local simplesmente arrastando o corpo sem vida daquele homem para fora da arena.
Naquela época, dormir significava encontrar Marik nos pesadelos, e duelar era a única maneira que encontrara de manter a mente ocupada, buscando na adrenalina e no risco de perder a própria vida alguma forma de silenciar aquilo que a perseguia durante o sono.
Todos conheciam os riscos e os aceitavam pelo enorme valor recebido, ainda que perder um duelo pudesse significar perder a própria vida.
Apesar de saber que aquele homem escolhera participar do duelo e conhecesse perfeitamente os riscos, era impossível para Mai ignorar o fato de que fora seu ataque que desencadeara a morte. A responsabilidade não desaparecia apenas porque ele havia aceitado aquelas condições, e essa consciência continuava sendo insuportável.
— Eu não o matei. — A voz de Mai saiu baixa, quase como se precisasse convencer a si mesma antes de convencer Kaiba. — Todos ali sabiam exatamente no que estavam se envolvendo.
— Talvez. — Seto respondeu sem qualquer inflexão. — A questão é saber se um investigador aceitará essa explicação com a mesma facilidade.
O silêncio tornou-se pesado. Mai ergueu novamente a cabeça. Havia raiva em seus olhos, mas agora também algo que ela fazia um enorme esforço para esconder.
— Então é isso. — Mai deixou escapar uma breve risada sem humor. — Você está me ameaçando.
— Não. Estou lhe oferecendo escolhas.
— Chamar isso de escolha exige muita criatividade. — ela soltou uma breve risada, incrédula.
— Você pode voltar para a sua família. Pode resolver suas pendências com a polícia. Ou pode permanecer aqui até receber alta médica e encerrar esta situação da forma mais simples para todos os envolvidos.
— A decisão é sua. — Seto abriu a porta do escritório e manteve o olhar sobre ela por mais alguns segundos, sem demonstrar qualquer desconforto.
Mai compreendeu finalmente que Kaiba havia preparado aquela conversa muito antes de ela atravessar a porta. Pela primeira vez desde que chegara à mansão, percebeu que estava enfrentando um homem que dificilmente deixava alguma variável fora de controle.
— Agora, se terminou, saia do meu escritório. —A ordem foi dada no mesmo tom com que encerraria uma reunião de negócios. Sem irritação. Sem impaciência. Como se aquela conversa já estivesse concluída muito antes de começar.
Mai permaneceu imóvel por um instante, cerrando os punhos com tanta força que as unhas afundaram na própria pele. Não encontrava uma saída. Não porque lhe faltassem argumentos, mas porque Kaiba havia transformado todas as possibilidades em caminhos que ela não podia aceitar.
Ela pegou as muletas com movimentos bruscos e se levantou, ignorando a pontada de dor que atravessou o tornozelo. O próprio corpo parecia conspirar contra sua tentativa de manter algum controle sobre a situação.
Seto sequer a acompanhou. Já havia voltado a atenção para o notebook sobre a mesa, como se ela deixasse de existir no instante em que a conversa terminara.
— Samantha. — chamou, sem elevar a voz.
A porta se abriu quase imediatamente. A governanta aguardava do lado de fora desde o início da conversa.
— Sim, Sr. Kaiba?
— Acompanhe a senhorita Mai de volta ao quarto.
Samantha assentiu discretamente.
— Venha, senhorita.
Mai lançou um último olhar a Seto, esperando, contra a própria vontade, algum sinal de que ele ainda estivesse prestando atenção nela. Não houve nenhum.
Aquilo a irritou ainda mais do que todas as ameaças que acabara de ouvir.
Sem dizer uma única palavra, apoiou-se nas muletas e deixou o escritório, seguida por Samantha. Atrás de si, a porta fechou-se com um clique seco.
Alguns instantes depois de ficar sozinho, Seto afastou novamente o notebook e voltou-se para a janela. Tentou retomar a análise dos relatórios, mas não conseguiu recuperar a concentração. A conversa de poucos minutos antes continuava ocupando sua mente, principalmente a expressão de Mai quando mencionara os pais e, depois, quando revelara saber sobre o duelo clandestino.
Por algum motivo, aquilo o incomodava mais do que deveria, mas Seto preferiu não se aprofundar na sensação. A situação estava resolvida, Mai permaneceria na mansão até receber alta, e ele não teria mais problemas com ela. Não havia motivo para continuar gastando tempo pensando naquela conversa.
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O silêncio da mansão voltou a envolvê-la, interrompido apenas pelo canto distante dos pássaros e pelo vento que fazia as cortinas ondularem junto à janela.
Ela soltou as muletas ao lado da cama e deitou-se com cuidado, mas, antes mesmo que percebesse, sentiu as lágrimas começarem a molhar seu rosto.
Tudo parecia ter desmoronado novamente. O controle que lutara durante anos para construir sobre a própria vida parecia ter desaparecido em poucos minutos, e ela se encontrava outra vez dependente da decisão de outra pessoa sobre o que poderia ou não fazer.
Não tinha escolha. Teria de permanecer ali como Kaiba queria, pelo menos até encontrar uma maneira de recuperar o controle da própria situação. Não podia correr o risco de que ele realmente cumprisse qualquer uma das ameaças.
— Bastardo. — murmurou enquanto secava as lágrimas que continuavam a cair.
Olhou para a janela, observando o dia ensolarado e brilhante que contrastava tanto com o modo como se sentia.
Kaiba sabia muito mais sobre ela do que deveria: conhecia sua verdadeira identidade, sabia sobre sua família, descobrira a fuga e, pior do que tudo, encontrara justamente aquilo que ela mais desejava esquecer. Nunca em toda a sua vida se sentira tão exposta, tão completamente encurralada por alguém, não desde que fugira da casa dos pais.
Como ela o odiava, aqueles olhos tão frios e atitude tão indiferente a tudo. Agindo como se simplesmente tivesse o direito de controlar tudo e todos. E pensar que, depois de ouvir Mokuba falar sobre ele, chegara a considerá-lo alguém menos insuportável do que imaginava. Agora a realidade parecia muito mais clara, Seto Kaiba era ainda mais controlador e calculista do que ela havia suposto.
O que mais pesava em seu coração, no entanto, não era a raiva que sentia de Kaiba, mas a lembrança daquele homem sem vida e a consciência de que seu ataque fora diretamente responsável pelo que acontecera. Podia repetir para si mesma que ele conhecia os riscos, que escolhera participar daquele duelo e que todos ali haviam aceitado as mesmas condições, mas nenhuma dessas justificativas conseguia apagar a lembrança do corpo sendo arrastado para fora da arena.
Cometera tantos erros desde o duelo contra Marik na Batalha da Cidade que, às vezes, tinha a impressão de que sua vida começara a desmoronar a partir daquele momento. Todo o desespero provocado por aqueles pesadelos constantes a levara às arenas de duelos clandestinos, mas ela nunca quis ser responsável pela morte de ninguém.
A verdade era que, sempre que pensava naquela noite, desejava desesperadamente que tivesse sido ela quem perdera o duelo. Talvez assim o homem ainda estivesse vivo e ela não precisasse carregar aquela lembrança consigo.
Pouco depois daquela noite sombria, Valon apareceu em sua vida, e ela acabou entrando para o Doma, onde cometeria erros ainda maiores, machucando pessoas inocentes e quase sendo responsável pela morte de Joey.
As lágrimas continuaram a cair, agora sem que Mai sequer tentasse contê-las. Cometera tantos erros imperdoáveis que, às vezes, pensava que se tivesse sido ela a morrer naquela noite, muito sofrimento poderia ter sido evitado e talvez finalmente tivesse encontrado alguma paz. Mas continuava viva, carregando consigo todas as escolhas que fizera e sem encontrar uma maneira de fugir da culpa por aquilo que havia feito.
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