Orgulho e Vampiros
1 Retorno a Folks
Após longos e infindáveis cinco meses em Port Angeles — cidade onde os salões jamais dormiam e os sorrisos pareciam eternos, ainda que a maioria me soasse vazia — minha irmã Rosalie enfim se anunciava noiva. O Capitão Emmet McCarty, homem de riso sonoro e braços que pareciam talhados em rocha, ajoelhou-se diante dela no baile de Lady Whitlock, sob o olhar cúmplice de tantos olhos que ansiavam pelo mesmo desfecho. A sociedade, é claro, explodiu em júbilo; minha irmã sorriu como quem vence uma guerra.
Quanto a mim? Ah... eu apenas desejei que a música cessasse.
Retornei a Forks sem ardor no peito. A mim cabiam o piano antigo na sala da frente e os romances já gastos, que haviam resistido ao tempo — e, por que não dizê-lo, à frivolidade.
Minha mãe estava em êxtase, como se a felicidade da filha fosse o coroamento de seus próprios sonhos juvenis. Flutuava pelos corredores com um brilho nos olhos que há muito eu não via, distribuindo sorrisos e opiniões sobre tecidos, flores e convites com a autoridade de quem acredita comandar um império sentimental.
— Rosalie, minha querida, você simplesmente precisa usar o azul pálido na cerimônia. É a cor da nobreza, do céu — e, dizem, do verdadeiro amor.
— Mãe — respondeu Rosalie, com aquele meio sorriso que reservava para momentos em que já havia decidido tudo —, Emmet prefere o branco clássico. E, entre nós, ninguém notará a diferença com a luz das velas.
— Tolice, todos notam tudo! — replicou minha mãe, rindo como se ainda tivesse vinte anos.
Eu estava sentada junto à janela, costurando algo que fingia ser um lenço, embora meus pontos tivessem mais desalento do que utilidade. Não que alguém notasse.
— Talvez o azul represente melhor o casamento, no fim das contas — murmurei, sem levantar os olhos —, é uma cor fria, e tende a desbotar com o tempo.
— Bella, por favor — suspirou minha mãe —, não seja amarga. Nem todos os casamentos são... previsíveis.
— Eu só mencionei a natureza das cores — respondi, com doçura fingida.
Meu pai, por outro lado, manteve-se fiel à sua indiferença metódica. Escreveu um cheque generoso, mais por hábito do que por entusiasmo, certamente estava louco para voltar a sua rotina de cartas e dados, afundado nas jogatinas do clube como se cada moeda apostada o afastasse mais daquele casamento — e de tudo que dele se esperava sentir.
— O capitão parece um sujeito decente — disse ele naquela noite, ao empurrar a cadeira de jantar para trás, sem emoção.
— Isso é tudo que tens a dizer? — perguntou minha mãe, erguendo uma sobrancelha, a colher suspensa no ar.
— Eu paguei o dote, não paguei?
— Às vezes me pergunto se pagaste também por tua alma — ela murmurou, antes de se levantar, os passos ecoando no soalho como uma sentença.
Rosalie apenas sorriu, divertida, enquanto enrolava uma mecha de cabelo dourado entre os dedos.
— E você, irmãzinha? O que pensa do meu noivo?
— Que ele tem braços fortes o bastante para te carregar... e talvez cabeça fraca o bastante para acreditar que você o ama.
— Que encantadora bênção — ela disse, piscando para mim. — A tua forma de demonstrar afeição é sempre tão... poética.
Rosalie riu com aquele brilho de quem sempre sabe mais do que deixa transparecer.
— Ah, Bella... Esqueci-me de mencionar. Temos novos vizinhos em Forks e são da nobreza.
— Que maravilha. Já posso ver nossa mãe me obrigando fazer sala para algum nobre na esperança de outro casamento próspero na família. — murmurei, com a ponta do sarcasmo no olhar.
— Um duque — ela disse, arrastando a palavra com gosto. — Edward Cullen. Chegou há pouco da Itália, dizem. Com um passado obscuro e um título recente. Naturalmente, foi convidado para meu casamento.
Revirei os olhos com uma exaustão que vinha não só da noite anterior, mas de toda uma vida cercada de brasões, sobrenomes e olhares avaliadores.
— Um duque. Claro. Porque o que falta em Forks é mais aristocracia entediada tropeçando em sua própria importância.
-Não seja assim tão pessimista, talvez ele fique perdidamente apaixonado por seus encantos.
— Encantos esses que se resumem a olheiras, livros gastos e desdém por bailes? — ergui a sobrancelha.
— Justamente. Mistério vende, irmãzinha. E você sempre teve esse ar de heroína trágica de folhetim — respondeu ela, ajeitando uma mecha do meu cabelo com ternura.
Suspirei, fingindo irritação.
— Você fala como se isso fosse uma qualidade.
— É. Porque é — disse ela, séria por um instante. — Talvez seja o que o mundo mais precisa: alguém que veja tudo com clareza e não finja estar contente só porque todos esperam isso dela.
Aquela frase me tocou mais do que eu gostaria de admitir. Desviei o olhar, apertando os lábios.
— Não comece com sentimentalismos ou vou achar que há algo na água de Port Angeles.
Rosalie riu de novo, e me abraçou com força repentina.
— Eu vou sentir sua falta, Bells. Muito mais do que admitirei no altar.
— Eu sei — murmurei, retribuindo o abraço. — Mas estarei em Forks. Com chuva, musgo e, aparentemente,um duque.
Ela se afastou devagar, ainda sorrindo.
— Promete ficar ao meu lado no casamento?
— Só se o duque não sentar ao meu lado — retruquei, tentando conter um sorriso.
— Não posso prometer isso — disse ela, piscando. — Mas posso prometer que ele vai gostar da sua companhia. Ou, pelo menos, sair assustado. O que, convenhamos, seria um espetáculo à parte.
Ambas rimos. Pela primeira vez em dias, meu riso foi genuíno.
No outro dia, decidi escapar.
Enquanto minha mãe discutia com a florista sobre a simbologia das peônias e Rosalie calculava se as cadeiras extras não destoariam do tom das cortinas, vesti meu casaco, calcei as botas e saí sem alarde pelos fundos da propriedade.
Havia, não muito distante, uma antiga capela esquecida entre carvalhos tortuosos. Eu gostava daquele caminho, da terra úmida sob os pés, do modo como os galhos se inclinavam sobre mim como se quisessem esconder o mundo. Precisava de silêncio — ou, ao menos, de um som que não envolvesse, gritos sobre a lista de convidados ou suspiros apaixonados.
Foi ali, próximo ao velho portão enferrujado, que ouvi vozes.
A princípio, pensei tratar-se de algum casal da vila — jovens, talvez, trocando promessas apressadas. Mas à medida que me aproximei, com a cautela involuntária de quem não quer ser vista, as palavras tornaram-se mais nítidas. E frias.
— Um casamento de gente insignificante, num vilarejo esquecido — disse uma voz masculina, baixa, mas cortante como navalha. — É espantoso como a sociedade adora fingir importância onde não há substância.
A resposta foi uma risadinha aguda, de uma moça que eu não pude identificar.
— Mesmo assim, meu irmão, foi convidado. E aceitou.
— Por obrigação, não por desejo.
Aquilo bastou. Recuo um passo, mas uma folha seca traidora estalou sob meu sapato. As vozes cessaram. O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado que qualquer acusação.
Aproximei-me da entrada lateral da capela, mas não vi ninguém. Apenas um leve perfume no ar — algo entre cedro e incenso antigo — e a certeza de que aquele homem, o tal duque Edward, era tudo o que eu mais detestava: elegante, entediado e perigosamente convencido.
Sorri sozinha, um daqueles sorrisos que começam no desprezo e terminam no desafio.
— Um duque que despreza casamentos — murmurei para mim mesma, ao retomar o caminho de casa —, vai se divertir muito em Forks. Ou, quem sabe, ser devidamente castigado por seu tédio aristocrático.
E com o vento soprando nos ramos, jurei a mim mesma que não me importava.
Nem um pouco.
Talvez.
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