Orgulho, Preconeito e um Copo de Limonada

1 01 - Eli, o plagiador e Daniel, o arrogante


1.

Na melhor das circunstâncias, no melhor dos dias e nos meus melhores momentos muito provavelmente eu me absteria de preguiça, acordaria cedo e, organizadamente, constituiria minha rotina e faria tudo que foi planejado para o dia... Mas não hoje.

Por uma imensidão de fatores desconexos, como minha irmã e minha mãe entrando ao mesmo tempo no período pré menstrual — sim, elas foram abençoadas com um ciclo mensal praticamente idêntico, não fosse por um ou dois dias de diferença — , o que as torna muito influenciáveis por todo tipo de fator externo e grandemente irritáveis, mais o fato de que tenho passado por todo tipo de idiotice que qualquer adolescente normal passaria: ter uma crise de identidade, questionar meu papel no mundo e pensar em tudo que fiz até o momento, tentando imaginar se fiz pelo menos uma única coisa por mim e não tudo pelos outros (Muito provavelmente a segunda opção). Bem, tudo isso, somado ao fato de que estava numa grande dificuldade dissociativa, sempre voando nos meus pensamentos e esquecendo a realidade, desde meus quinze anos, quando me tornei uma versão mais introspectiva e tímida, mais o cancelamento da apresentação da Lady Gaga no Rock In Rio, convergiu para que naquele fatídico dia, sob aquelas caóticas circunstâncias, naquele ensurdecedor momento, eu não conseguisse fazer o trabalho de redação a tempo para a entrega... Então fiz o que qualquer garoto de dezessete anos, mais preocupado em encontrar o sentido da vida e surtar com o Enem do que pensar em uma redação idiota faria: liguei o computador, acessei a internet e plagiei descaradamente a primeira redação literária que encontrei: Orgulho & Preconceito, parecia um excelente começo... e ninguém descobriria... Pelo menos eu achava.

Mas é óbvio que descobririam. É óbvio. Como eu não pude enxergar isso a tempo?

Na segunda fui chamado a sala da professora de português, Érica. Ela definitivamente não estava contente em me ver. Os olhos pesados, sob os óculos redondos de armação vermelha, que contrastavam lindamente com a pele escura e sedosa, e os cabelos volumosos farfalhando pela brisa que atravessava a janela como os cabelos de uma musa, não podiam apagar o desgosto estampado em sua expressão.

— Não vou escolher palavras, Eli, você sabe porque eu te chamei aqui — ela disse, por fim, sem nenhuma amabilidade. Engoli seco, levemente inclinado a procurar um caminho de fuga para o mais longe possível dali... Mas a sala estava trancada (O que me fez pensar que ela pensou nessa possibilidade antes de mim, esperta).

Ainda assim, continuo calado. Como disse outrora, sou muito mais de pensar do que de falar. É assim com os tímidos, no fim, posso estar explodindo de sensações, reações e palavras por dentro, que por fora vou limitar tudo que eu sinto a um mísero:

— Sim — respondi, encarando as pontas dos meus dedos entrelaçados, com a vergonha estampada na minha face. Sentia meu rosto arder, como se estivesse enrubescendo feito dois mamões laranja e sem graça. Meu ar era assustado. Érica revirou os olhos, suspirou e tirou alguns papéis da mesa.

— Eli, você nem sequer se deu o trabalho de tirar as referências do site que pegou isso, cara — ela disse, por fim, levemente decepcionada — Olha só "Jane Austen escreveu Orgulho e Preconceito, um, Pride and Prejudice (Original) Jane Austen TM. Site: Maníaca Literária" — ela arregalou os olhinhos sob os óculos e me encarou, erguendo os braços com uma expressão indignada e desconcertada — Eu não posso crer numa coisa dessas, Eli, nem se eu quisesse poderia fingir que você não fez o que você definitivamente fez! — engulo seco mais uma vez e começo a brincar com meus dedos sobre minha calça jeans, enfiando minhas unhas nela e arranhando o tecido. Érica parece desacreditar toda apatia que eu demonstrava — O que houve com você, Eli? — talvez não tenha mencionado, mas Érica é minha professora desde, bem, o primário talvez. Ela me acompanhou nos meus melhores e nos piores momentos. Entenda por melhor a época em que conseguia formular mais de três frases por conversa com algum estranho sem ter uma crise interna de ansiedade me corroendo por dentro.

— Eu, eu, eu não sei, Érica — respondi, erguendo meus olhos pela primeira vez e me enxergando no reflexo dos óculos dela. Deus do céu, precisava de um pouco de sol... E meu cabelo de alguma coisa que deixasse o preto verdadeiramente preto, não esse cinza morto e monótono. — Sinto muito, de verdade, mas, sabe... Eu... — olhei para baixo de novo e envolvi minhas mãos no rosto, chacoalhando a cabeça — Eu não sei. É só isso — e "só isso" era o mais longe que cheguei de mostrar meus sentimentos em pelo menos três meses. Érica me encarou com aquele olhar que te destrói por dentro, aquele que você sequer precisa perceber para sentir o que ela sentia recaindo sobre si: toda a pena que ela sentia caiu sobre meus ombros, pesando como uma estrela anã.

Ela suspirou mais uma vez, se escorou na mesa e limpou o suor da testa.

— Sinto muito, mas não tem mais jeito, Eli, não posso simplesmente dizer que está tudo bem e deixar você seguir em frente — nesse instante encaro Érica com um olhar assustado, o que estava, obviamente — Vai reprovar esse semestre.

— Mas... Eu não posso, Érica. É meu último ano... — respondi, meio sem coragem de encontrar palavras melhores... Até porque não tinha nenhuma, convenhamos, estava errado o tempo todo. Érica suspirou.

— Eu sei, Eli, mas, bem, você está por um fio. Não é o primeiro trabalho seu que dá algum problema... Plágio é a primeira vez, pelo menos que eu percebi, mas você deixou de entregar vários, ou entregou faltando coisas importantes... Ou sem nenhum zelo. Deus do céu, você já entregou redações feitas em guardanapos, Eli, e eu deixei passar por que, apesar de tudo, o texto era muito bom. Você é bom, Eli. Mas, então, nos últimos dias nem sequer redações em guardanapos eu tenho recebido. Porque? — ela questionou. Eu não sabia o que responder. Sempre me questionava o mesmo: onde havia ido parar aquele eu que lia três livros por semana e escrevia histórias para recitar para os amigos? Havia morrido junto do meu irmão, provavelmente. Dizem todos que eu sobrevivi naquele acidente dois anos atrás... Sabe, eu tenho certas dúvidas se estou vivo mesmo... pelo menos se estou por completo, talvez tenha perdido minha melhor parte, restando apenas esse Eli, que se destrói a cada dia, sem motivo, tentando entender onde é o meu lugar no mundo (E me fechando a cada falha palpável). Eu não respondo, o que dá tempo o bastante para Érica refletir, suspirar e me encarar, pensativa. É assustador ter alguém decidindo sobre seu futuro.

— Tudo bem — ela diz, por fim, se enchendo de uma energia debochada e grandemente entusiasmada. Érica se senta de repente, encara os papéis em suas mãos e ajeita os óculos sobre o nariz — Você vai ter a chance de se formar ainda esse ano... Mas não vai ter isso de mão beijada — ela tinha um ar de carrasco assustador. Estalei meus dedos e esbocei um leve sorriso de contentamento.

— Muito obri...

— Não agradeça ainda — ela afirmou de imediato, foleando os papéis e encontrando um caderno de capa azul-escuro dentro da gaveta e me entregando delicadamente — Está aí: sua chance de provar que se arrepende de verdade.

Não consigo deixar de esboçar minha confusão, encarando o caderno nas minhas mãos como se fosse alguma espécie de arte abstrata e exageradamente complexa.

— O que isso significa? — questiono. Érica ri.

— Bom, basicamente — ela limpa a garganta, se ajeita na cadeira e me encara por longos segundos — Você vai escrever pra mim... Mas não pra mim.

Acho que ninguém entenderia essa de primeira, então não me julguem por ter questionado o significado de tudo aquilo. Érica sorriu.

— Austen. Você vai escrever pra ela. Pelo menos na teoria, no plano das ideias — Érica se levantou, gesticulando como se estivesse discursando para uma plateia distinta — Quero que você leia algum livro dela e, então, faça um diário de escrita... um diário literário, eu diria. Fale sobre seu dia, suas descobertas, suas experiências. Exprima tudo que se passa dentro dessa sua cabecinha... — ela se escorou na parede e me encarou com um olhar confiante e orgulhoso — Pois eu sei que tem muita coisa aí, lutando para sair, mas encontrando um inimigo difícil e impassível. O que você falaria para Jane Austen? Ou para seus personagens? Da sua vida... Dos seus momentos, suas paixões (Mas isso pode deixar só para você, tudo bem?), seus medos... Tudo. Você escolheu a Jane Austen para plagiar... Bem, agora ela será sua punição.

Isso é definitivamente algo que na melhor das circunstâncias, no melhor dos dias e no melhor dos momentos eu não aceitaria. Me expor dessa maneira, não para uma, mas para duas completas estranhas: Jane Austen e Érica Fernanda? Quem em sã consciência aceitaria uma coisa dessas? Então encaro o caderno mais uma vez e depois olho para a professora e vislumbro a ideia de ter de passar mais um ano na escola por reprovar em literatura e redação... Imagino a decepção no rosto da minha mãe e o olhar de "não esperava menos" da minha irmã...

— Tudo bem — então envolvo o caderno no peito como se fosse um velho amigo, próximo a fugir se fosse deixado de lado mais um instante. Érica aplaude animada, extremamente orgulhosa de si — Eu só preciso escrever, é isso?

— Exatamente — ela respondeu sem muitos rodeios — E vai ter um mês.

— Um mês? — questiono incrédulo. Érica sorri.

— Mais do que necessário. E não vai deixar isso pro último dia e pesquisar "diário literário Jane Austen" no google, tudo bem? — soava mais como um ultimato que como uma recomendação... Ela sabia exatamente o que eu pretendia fazer — Ou, sei lá, faça, mas lide com sua consciência... Tente pelo menos tirar as referências dessa vez — ela afirmou, num tom mais calmo e decepcionado, ajeitando os papéis como se estivesse de saída. Ela reconheceu de imediato meu olhar, achando que ela estava falando sério — Sim, é brincadeira. Se você aparecer aqui com mais um plágio vai ter que escutar "do terceirão para a vida" por mais um ano inteirinho — e então ela sorriu, debochada, enquanto saía de trás da mesa e me convidava para me retirar da sala dos professores.

— Vou dar o meu melhor — e naquele momento eu não tinha certeza disso, no fim, apesar de tudo, de todo o medo e toda angustia de me submeter a algo assim, tinha uma certa esperança e um certo anseio por novas vivências e experiências por trás daquilo tudo, que conduziam meus pensamentos e me impediam de me arrepender de imediato, ou mesmo de pensar em plagiar alguma coisa (Como faria normalmente). Sentia como se, pela primeira vez em muito tempo, fazia a coisa certa, no momento certo... E que talvez isso mostrasse a pessoa que eu tanto vinha tentando encontrar... Aquela que desapareceu no acidente dois anos atrás (Ou, ainda, uma versão melhor dela mesma).

— Eu não tenho dúvidas disso — Érica disse antes que eu saísse, com aquele olhar esperançoso e amigável de sempre. Tudo que eu fiz foi sorrir para ele, ajeitar o caderno debaixo do braço e sair pela porta, pensativo.

Jane Austen... Jane Austen... Onde eu começaria essa história? — foram as primeiras palavras no caderno, enquanto escrevia sentado na calçada da frente da escola, sob a sombra de uma árvore com folhas fedidas e de onde caíam mandruvás durante o verão (Felizmente era inverno). Era estranho. Sempre tinha palavras de menos para dizer e demais para pensar, mas, mesmo assim, encontrei uma enorme dificuldade em encontrar as melhores e transcrever para aquelas páginas amareladas. Definitivamente, imaginar que estava conversando com uma mulher que viveu no século dezenove enquanto deixava minha imaginação fluir e me abstrair em palavras não ajudava muito... Ainda era uma pessoa, mesmo que não estivesse literalmente comigo, estava, no plano das ideias. Do começo, talvez.

— Uau, você é mesmo um gênio — ele disse às minhas costas. A voz era gralhada e extremamente comum. Não precisei me virar para ter a imagem dele na minha mente: baixinho, olhos escuros, cabelo longo extremamente sedoso e pele amarelada. Eu detestava ele... E ainda assim era meu único (e melhor) amigo. — Uma história que começa do começo, genial, Machado de Assis — ele zombou, sentando-se do meu lado na calçada e esticando as pernas sobre o asfalto, como se ignorasse o fato de que um carro poderia passar ali a qualquer instante e arrancar elas fora.

— Não enche — respondi em seguida, fechando o caderno bruscamente e socando ele na bolsa de qualquer jeito. Finalmente pude encarar Jan pela primeira vez... Ele definitivamente continuava cabeludo, cacheado, com a pele perfeita e com rosto muito bonito. É irritante ter um amigo que parece um ator de comédia romântica quando você não parece nem sequer um monstro de um filme de terror de baixo orçamento, não é?

A expressão no rosto dele transbordava ansiedade, mas também bons tons de receio e medo, como se estivesse planejando algo escondido. Suspiro. Lá vem.

— Que foi agora? — questiono logo, jogando a mochila nas costas, me levantando da calçada e caminhando pela rua da escola, indo na direção da minha casa. Jan vem atrás, quase saltitando de tanta animação, enquanto fofocava sobre as "imperdíveis" novidades das redondezas da vizinhança, que se limitavam a: novos moradores que chegaram no dia anterior, uma garota, um garoto e duas senhoras. Lembro de ele ter mencionado "bonita" umas mil vezes, o que deixou a conversa maçante e eu acabei me abstraindo, encarando o chão e matutando constantemente sobre o que devia fazer para começar o tão bendito caderno...

— Então é por isso que você vai comigo — e essa foi a última coisa que ouvi antes de brandir as chaves de casa nos dedos, com a porta à minha frente e a brisa levando meus cabelos. Encarei Jan sobre os ombros, com um olhar entediado e impassível, sorri de maneira zombatória e respondi.

— Definitivamente não — já estávamos caminhando para dentro de casa, com ele insistindo constantemente, argumentando de mil e uma formas diferentes, quando demos de cara com Lídia, que parecia totalmente entediada enquanto rabiscava croquis de vestidos no livro de química, sentada na sala de estar, absorta em seus pensamentos, com um ar irritado e desgostoso. A televisão chiava com o ruído da interferência, que na verdade era o ruído da antena que era (E ainda é) péssima.

— Vai, por favor, só quebra essa pra mim, mano — Jan insistiu, com um olhar de cachorrinho sem dono. Lídia revirou os olhos e se afastou um pouco do sofá para que eu e ele pudéssemos nos sentar.

— E porque você precisa tanto que eu vá, Jan? — suspirei, tirando a mochila dos ombros e jogando os pés sobre a mesinha de centro. Jan suspirou, olhou ao redor e buscou as melhores palavras.

— Bem, porque sua mãe trabalha lá... E, bem, não ia parecer que nós estávamos indo só porque estávamos curiosos para saber dos novos moradores — ele respondeu pensativo. Lídia e eu compartilhamos o mesmo olhar de desprezo para ele — E nem ia estar tão na cara que entramos de penetras — ele respondeu, por fim. Suspirei.

— Tudo bem — respondi. Essas duas palavras escolheram sair por três vezes distintas da minha boca naquele dia, e em todas vieram acompanhadas de consequências incalculáveis, seja para o bem ou para o mal. Talvez estivesse enfraquecendo, no fim, me deixando convencer pelo Jan por tão pouco assim.

Ele saltitou como um anjo, comas asinhas batendo em comemoração. Parecia que tinha ganhado na loteria, sendo que só tinha conseguido me convencer a ir com ele no serviço da minha mãe na livraria no centro da cidade, que também era uma cafeteria (E que, aparentemente, pertencia agora a família que chegava de mudança).

— Por que você não disse para ele que já conheceu os tais novos moradores? — Lídia perguntou, de maneira gélida e direta, enquanto Jan ainda comemorava na cozinha. Encarei minha irmã, com certo pesar no coração e memórias indesejáveis nos pensamentos. Lembrar daquele dia, tão recente, mas ao mesmo tempo tão distante, fez meu estômago revirar em ansiedade.

— Deixa ele se divertir com a ideia — respondi, de imediato, jogando a mochila de volta nas costas e caminhando para fora da sala.

— E você? Vai se divertir? — ela questionou em um tom que não tinha outra intenção além de ser venenoso. Parei no caminho, não me virei, mas lhe mostrei o dedo do meio antes de continuar. Ouvi seus risinhos abafados.

Me sentei à escrivaninha do quarto e tirei o caderno de capa azul da bolsa. Me recostei na cadeira e envolvi minhas mãos atrás da cabeça, observando além da minha parede, completamente coberta de fotografias, desenhos, gravuras e rabiscos sobre a cor branca, com exceção daquela parte à direita, do lado onde o sol incidia diretamente quando nascia e atravessava a janela com sua luz amarelada: aquele lado vazio, a não ser por uma cama onde ninguém dormia — não mais pelo menos — , a parede nua e crua, ausente de lembranças e abstrações cotidianas, uma colcha azul-ciano que não podia ficar mais que cinco minutos amassada sem que minha mãe viesse e arrumasse novamente, e mil e um sonhos apagados pela sagacidade e maldade do destino. Ainda consigo ver ele deitado ali, três anos atrás, recitando jurisprudência da faculdade de direito como se fosse poesia, e me questionando quando teria coragem o suficiente para contar para mamãe que estava apaixonado por um garoto da minha sala: William.

Depois da morte de Mariano nunca mais me interessei por ninguém. Mesmo William, a quem já dedicava certa admiração antes do acidente, se tornou peça indesejada e alheia de sentimentos. A apatia se tornou parte dos meus dias e fez por mim o que qualquer remédio jamais pode fazer: fez a dor ficar mais fraca, até quase desaparecer. É triste pensar de tudo que abdiquei para que isso fosse possível, no fim, me tornando aquele que jamais poderia ser comparado ao meu eu de antes, como se aquele Elias tivesse morrido no acidente e sido substituído por uma versão robótica, silenciosa e tímida, mas ou era isso... ou me matar com toda solidão corrompendo minha alma.

Foi então que percebi, em meio a tanta abstração, que havia retirado uma caneta da mochila e com ela escrevia todas as palavras de dor e saudade por Mariano supraditas no caderno de capa azul, endereçado à Jane Austen.

Então, de repente, encaro a imagem além do horizonte da janela, me recordo da semana anterior, um dia terrível, em meio à dias mais terríveis ainda, e continuo escrevendo com convicção no caderno.

Jane Austen, não vou te chamar de querida, pois não me considero íntimo o suficiente ainda, se é que um dia chegaremos a ser. Confesso nunca ter lido um livro seu e peço desculpas encarecidamente por isso, não vou dizer que não tive tempo, ou mesmo oportunidades, pois de ambos tive e em muitos moimentos diferentes da minha vida, mas, sabe, é tudo muito complicado.

Ainda assim conheço sua história mais famosa: Orgulho e Preconceito, afinal, é um clássico e um enredo como esse ultrapassa as páginas do livro e transborda na cultura popular de inúmeras formas incalculáveis. Sinceramente, confesso, assisti ao filme.

Enfim, esclarecido os fatos, sinto uma necessidade gritante de desabafar sobre isso com alguém — e eu suponho que você seja alguém, apesar de já estar morta há trezentos anos e eu estar conversando com você por meio de um diário em que só eu converso, de qualquer maneira. Então, Jane Austen. Posso te chamar de Jane? Suponho que sim, vou evitar o milady por enquanto — e por questões de choques de época. Jane, enfim, porquê temos tanto medo de sermos rejeitados por pessoas alheias, que nos deixamos abalar por mediocridades de sujeitos cuja opinião não vale a mínima na balança da consciência? Talvez esteja confuso, o que eu faço com exímia habilidade, mas, simplificando... Por que palavras de desconhecidos podem machucar tanto ou mais do que de pessoas próximas? Ou melhor... Por que as palavras dele me machucaram? Logo a mim, que me gabava tanto da minha apaticidade patogênica.

Ainda lembro do olhar de desprezo daquele rapaz, quando me viu entrando na cafeteria ao lado de Lídia, carregando alguns livros que mamãe tinha pego para catalogar na última semana e havia esquecido em casa. Num primeiro momento me surpreendi, de fato, não o conhecia o suficiente, mas sabia que ele chegaria: Daniel, filho do novo dono da livraria que minha mãe trabalha. A surpresa se deu não por seu olhar irritado ou por ter dado de cara com ele assim que chegamos, mas por ter encontrado nos olhos dele um brilho que eu não conhecia, ainda que resguardasse grande melancolia e um pouco de mistério, guardava também uma luz ali no fundo, como esperança, como sagacidade, vivacidade, ânsia por felicidade, soterrada sobre uma muralha de carrancas odiosas. Luz essa que eu conseguia enxergar em Mariano, mas não só nele, como na minha mãe, em Lídia e até em mim... Mas que desapareceu depois do acidente, como o filho pródigo, foi-se embora toda luz e toda magia, levando toda verdadeira felicidade consigo. Se um dia ela retornaria? Sinceramente, Jane, eu não sei. Mas, encontrar aquela luz nos olhos daquele garoto, fez toda coisa mudar de figura... e fez tudo que parecia impossível tomar proporções jamais imagináveis por esse Eu tão apático.

Não bastasse esse fato, Jane, ele ainda era bonito. Bonito não, lindo. Espero que não se assuste, já que na sua época um garoto se apaixonar por outro ainda era considerado crime — mesmo que eu acredite que você conhecesse alguns bons criminosos por aí, não? — , mas, enfim... Ele era tudo isso e muito mais além. Tudo isso como, você pergunta, já que lhe privei de detalhes... Bem, olhos escuros, meio cansados, mas cheios de luz, redondos como botões, sobrancelhas grossas, mas não exageradamente, pele marrom, com uma aparência macia e agradável, cabelos com enormes com delicados cachos, dentes brancos como pérolas e um sorriso divino — quando ele desejava assim parecer.

Mas então toda magia acabou.

Senti um entusiasmo desconhecido por longos instantes, a ansiedade corroendo meu estômago e uma força desconhecida, maior do que qualquer apatia, qualquer timidez e qualquer medo, guiar meus pés até ele e ficar diante de sua figura, ansiando sincera e desesperadamente por ser notado.

— Ah, oi — foi tudo que eu disse. Ele desviou os olhos do livro que lia e me encarou de cima a baixo, sem dizer uma palavra, com os lábios torcidos. Estava sentado na escada em espiral que levava ao segundo andar da cafeteria, lendo O Médico e o Monstro. Uma brisa gelada atravessava a janela e desmanchava seus cachinhos, que logo tornavam a se amontoar naquela cabeleira negra.

— Sim? — ele questionou, como se estivesse falando com uma criança, com o mesmo olhar entediado. Engoli seco, sentindo um aperto no coração por não ter tido resposta ao meu cumprimento.

— Eu sou Elias é... — suspirei, procurando as melhores palavras, com aqueles olhos escuros sobre mim, me julgando a cada pensamento, a cada assopro das brisas, a cada momento, a cada circunstância. Senti minhas pernas tremerem. Não consegui completar a frase.

— E...? — ele questionou, mais impaciente, então me olhou de cima abaixo novamente, pensativo, parecendo recordar alguma coisa, fechou seu livro com certa raiva (Pelo menos foi o que pareceu, Jane) e se levantou, ficando de pé do meu lado pela primeira vez. Sim, ele era mais alto que eu. — Você é filho da moça que trabalha aqui, não é? — ele questionou, com certo ar de desprezo. Aquilo não me agradou, no fim. Existem muitas coisas que você pode criticar, menosprezar ou zombar perto de mim sem que eu me importe (De mim, inclusive), mas minha mãe, Lídia, Mariano e Jan não faziam delas.

— Sim, sou — respondi, já com um certo tom mais irritado e menos encantado ou simpático. O rapaz sorriu meio debochado. — Eu vim trazer alguns livros que ela tinha ficado de catalogar — e só então ele pareceu perceber os livros sobre meus braços, pegou os quatro com muita facilidade, mas sem nenhuma educação, e caminhou com eles pela livraria. Fui atrás, observando enquanto ele lia cada uma das capas e distribuía pelas estantes.

— Sua mãe é muito gentil — ele disse, por fim, sem tirar os olhos dos livros enquanto fazia seu trajeto — Não percebi que você era filho dela, jamais diria, aliás. Vocês não têm muito haver.

Aquilo poderia soar apenas como um início de conversa comum, um elogio sutil, mas o tom do rapaz era vexatório e debochado, o que me fez sentir mais raiva ainda.

— Acho que não entendi — respondi, por fim. O rapaz parou a distribuição dos livros, se virou e me encarou novamente. Por um instante achei que ia ceder e cair só com o poder daquele olhar, mas me fiz forte. Ele sorriu.

— Sua mãe... é muito bonita e... — então ele engoliu seco e coçou a nuca, meio nervoso, provavelmente percebendo que havia acabado de me chamar de feio indiretamente — Não que eu esteja dizendo que você não é, mas, sabe, sua mãe... Sua irmã, por outro lado é a cara dela — ele disse, por fim, tentando corrigir as próprias palavras, mas com o mesmo tom zombeteiro. Senti uma pontada de ódio no meu coração, meu estomago já devia estar em carne viva de tantas reações químicas pela ansiedade. Ele se voltou aos livros — Estuda na escola daqui?

— Sim, no terceiro ano — respondi, num tom mais seco.

— Também vou — ele colocou o último livro na prateleira, pegou seu exemplar de Médico e o Monstro e se sentou numa das cadeiras. Institivamente, continuei ali, observando. Ele me encarou, novamente, meio desconcertado — Pode me dar licença? Ou quer um autógrafo ou alguma coisa assim? — ele questionou, com um olhar debochado. Pude ver, sob meus ombros, Lídia e algumas amigas por perto, observando a cena. Minha irmã estava impassível, já as garotas riam como se fosse a última vez.

— Desculpe — foi tudo que pude dizer. Me acostumei a pedir desculpas. Ele me encarou novamente, com um olhar mais compadecido, com certo tom de curiosidade. Por um instante pude ver a luz dos olhos dele se apagar e voltar a brilhar, como um pisca-pisca natalino.

— Não precisa se desculpar, te vejo na escola, Daniel — ele disse, por fim, se voltando ao livro.

— Não me chamo Daniel — respondi, meio confuso com a última fala dele.

— Eu sei. Eu sim — ele afirmou, com um olhar confiante que eu senti vontade de arrancar com minhas unhas. — Até mais — ele disse, o que era um convite para a retirada o mais explícito possível. Saí dali cheio de ódio, vergonha e ego ferido.

— Tudo bem — e essa foi a terceira vez.

Jane... Ele, provavelmente, é a pessoa mais arrogante que já vi em toda minha vida. Desde o primeiro instante me tratou como se eu fosse um parvo, um lixo, inferior — e realmente me senti assim, sob aqueles olhares indelicados e ardilosos, que fizeram toda minha pouca estima ir para o lixo em segundos destrutivos. É estranho pensar que aqueles olhares, aquelas palavras e aquele jeitinho orgulhoso me atingiram tanto, de maneira tão dolorosa. Algo tão simples, tão pequeno, me fez ficar mais triste e mais irritado que o normal (Sendo que o normal é a apatia total). Sabe qual a pior parte de tudo, Jane? É que, desde aquele dia que o vi pela primeira vez, não consigo tirar ele da minha cabeça. Às vezes, confesso, nem sempre só com ódio o vejo, mas com curiosidade, interesse, vislumbrando aquele brilho no olhar.

Então, querida Jane, acho que esse é o meu problema. Aliás, um dos, o menor deles. Me senti humilhado, pois um completo desconhecido me destratou sem motivo algum, senti minha estima ir de zero à cem negativo, e, mesmo após todos esses fatos, ainda acho ele o rapaz mais bonito e interessante que já vi em toda minha vida. Então, grandiosa Jane Austen, diretamente do século dezenove, o que você, ou seus personagens, fariam se estivessem na minha situação? Bem, acho que nada, afinal você está morta e seus personagens não existem. Sim, eu não sou uma pessoa muito otimista, nem tenho muito escopo para a imaginação, mas, bem, estou disposto a continuar esse diário...

Pois, pela primeira vez em muitos anos, consegui falar com alguém sem que a ansiedade tomasse conta do meu ser e me fizesse fugir assustado... Mesmo que esse alguém esteja morto... E eu esteja falando comigo mesmo, no fim de tudo...

Então, finalmente, fecho o caderno sobre a mesa e encaro a janela. O sol havia se posto, o tempo havia fechado e o quarto continuava vazio, a não ser por mim e, bem, por "Jane Austen".

— Talvez eu tenha que comprar um livro seu, no fim — digo, como se ela realmente pudesse me ouvir.