Orgulho E Presunção
1 Orgulho e Presunção
Era um dia importante aquele. Todos estavam cheios de expectativa; há muito os funcionários daquela empresa não viam algo assim acontecer. Afinal, — quem diria? – finalmente um deles seria promovido.
Nos dias que antecederam a tão esperada notícia não paravam as fofocas! Fuxicos aqui, conversas acolá... Quem poderia ser o escolhido?, perguntavam-se. Todos – sem qualquer exceção – achavam-se aptos para tamanha responsabilidade. Eram funcionários antigos, talentosos... Imagine só, havia aqueles que esperavam por uma promoção há décadas! Sem dúvida um patrão tão amável e consciencioso como o que eles tinham saberia reconhecer seus esforços.
A notícia da promoção reanimou verdadeiramente os ânimos. Nunca, em toda a história daquele lugar, houve funcionários tão concentrados! Ninguém poderia dizer que esta era a mesma empresa de antes. Estava tudo um brinco, um brinco!
Todavia, como de costume, haviam os favoritos naquela pequena competição. Eram apenas três aqueles que tinham chances reais de serem promovidos. As apostas estavam altas e eles detinham o maior número de votos! Claro, claro, este não era um bom motivo para se vangloriarem. Mas o que poderiam fazer, já que seus colegas insistiam tanto em manter aquela apostinha?
Perto da cafeteira que estes bolões aconteciam. Era também ali que os três candidatos paravam para conversar por alguns minutos. Inclusive, algumas horas antes de ser anunciado quem fora promovido, esse era o lugar onde eles se encontravam.
--- Quanto tempo será que vai levar para o velho anunciar essa porcaria?! – Perguntou um deles. Mesmo com seu caráter tempestuoso e altamente duvidoso, este era um homem alto, forte, sedutor; se dependesse de todas as mulheres daquela empresa a decisão de quem seria promovido, sem dúvida ele já teria assumido o cargo.
--- Acalme-se, querido. – Disse uma vozinha feminina e melosa. – Logo, logo, irão nos dizer.
Uma bela mulher era ela. Sempre soube usar muito bem seu charme para conseguir o que quer. Foi assim que conseguira chegar onde estava, segundo as mocinhas da portaria. Vivia seduzindo seus chefes...
---- Como podemos nos acalmar?! – respondeu uma terceira voz, evidentemente exasperada.
O homem que falava agora era o exato oposto do primeiro, apesar de partilharem das mesmas ambições. Era mais magro e sua maior preocupação era fazer de tudo para parecer agradável. Era bem jovenzinho quando começou a trabalhar ali, mas nunca conseguira uma promoção digna, a seu ver. Fazia de tudo para seu chefe e nunca fora promovido! Levava-lhe até mesmo uma xícara de café todas as manhãs...
--- Fiz de tudo e mais um pouco hoje! Fiz relatórios e muito mais! – continuou falando – E até agora aquele gordo não levantou o traseiro para me dar o que mereço!
--- Ei, ei, ei! Você não é o único que quer ser promovido aqui, seu idiota! – Disse o outro homem, tomando uma posição mais agressiva. A mulher simplesmente revirou os olhos para ambos.
Instalou-se o silêncio por alguns segundos, até que viram o estagiário passar. Nos lábios daqueles três gananciosos logo se esboçaram os traços característicos do escárnio.
Pobre coitado; chegava a ser patético! Nunca aquele frangote conseguiria algo naquele lugar. Mal sabia das caçoadas a seu respeito e talvez nunca chegasse a ter conhecimento delas. Somente o patrão dava-lhe atenção, mas todos diziam que isto era apenas para manter a pose de “bom samaritano”. Patético, patético!
--- Vamos voltar ao trabalho. Não quero desapontar o meu chefinho. – falou a mulher enquanto retocava o batom vermelho vivo que estava em seus lábios.
E os três voltaram para os seus lugares, cada um já se vendo como vencedor.
Finalmente passaram-se as horas e aquele era o momento em que seria anunciado o nome de quem fora promovido. Ao verem seu patrão saindo de dentro da sua sala, todos os funcionários ajeitaram sua postura e colocaram em seus rostos um sorriso confiante.
--- Bem, — o patrão começou a falar – seremos breves. Há algum tempo venho observando todos os que trabalham nesta empresa. De fato, a grande maioria aqui está faz muito tempo conosco. Observando-os, então, pude confirmar o que já suspeitava: só existe um funcionário aqui dentro capaz de assumir a responsabilidade que uma promoção pode trazer. Mas ao mesmo tempo precisamos de uma mente jovem, criativa. Então, aqui está quem eu promovo...
Neste momento, ao ver seu chefe olhando na direção em que estavam, nossos três grandes candidatos estufaram o peito, orgulhosos. Finalmente receberiam o que deveriam ter ganhado desde o começo! No entanto, pobres coitados, mergulhados em suas fantasias presunçosas, mal viram que seu patrão olhava para outra pessoa: o estagiário.
--- Parabéns, meu jovem. – continuou o patrão. – Você mereceu.
Ver aquele frangote magricela recebendo algo que não deveria era o cúmulo! Como pôde isso acontecer?! De fato aqueles três outros funcionários estavam assombrados, irados! Como pôde?! A revolta era tanta que mal conseguiam se controlar; quando tomaram consciência do que fizeram já era tarde demais: estavam discutindo com seu próprio patrão!
--- Eu faço de tudo nesta porcaria de empresa e é isso que recebo?! – falou o homem mais magro.
--- Não importa o que você faz ou deixa de fazer, seu imbecil! – a esta altura mal se podia reconhecer aquela bela dama sedutora. Toda a feminilidade e doçura de outrora desapareceram tão de repente! – Com eu pude ser descartada?!
--- Ora, cale sua boca, mulher! Eu deveria ter sido escolhido! Sou o único que merecia, não esse frangote magricela... Como esse velho gordo pôde fazer isso comigo, seu melhor funcionário?! – berrou o outro homem, o sedutor.
Apesar todos os berros e xingamentos, o patrão permanecia calado, impassível. Não parecia surpreendê-lo a reação de seus funcionários. Antes de voltar a sua sala, contudo, apenas disse:
--- Mais me vale, hoje, um frangote na mão do que três víboras por perto. Vocês estão demitidos.
Todos ficaram perplexos. De fato fora um dia importante aquele. Afinal, há muito os funcionários daquela empresa não viam algo assim acontecer. Quem diria? Finalmente um deles fora demitido.
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