Orfeu e os Renegados de Athena.

1 Orfeu e os "Renegados de Athena". #1


Notas iniciais
Leiam as notas da história, tá tudo lá, e bem-vindos ao primeiro capítulo do bagulho esse. ♥

Para a alegria dos cidadãos de Athenas, na Grécia, durante o entardecer, quando o sol já se ocultava por detrás do horizonte e sua luz irradiava e tonalizava de laranja os prédios brancos em mármore, tinham o prazer de ouvir belíssimos sons que vinham de um lugar que eles desconheciam. Alguns alimentavam a crença de ser o lendário lirista “Orfeu”. Não estavam de total errados, por sinal. Em uma pequena clareira perdida num dos bosques que avulsos rodeavam o santuário, estava um dos cavaleiros de Athena: Orfeu, cavaleiro protegido pela constelação de Lira. Não estava vestindo sua armadura; na verdade, usava-a pouco. O santuário andava, assim como seus cavaleiros, parado. Havia missões pra lá e pra cá, mas normalmente eram calmas e destinadas aos cavaleiros de classes mais baixas (Bronze Saints) ou, às vezes, para soldadinhos com armaduras de couro (feias, por sinal). Para ele, a maior tarefa era ir toda semana tocar sua lira para o Grande Mestre e os cavaleiros de ouro. Nesta ocasião sim, vestia sua armadura. No mais, vivia tranquilo.

Nesse bosque, sobre o tronco de uma árvore caída, estava sentada uma bela moça. Seu nome era Eurídice. Linda, quiçá uma das mais belas de Athenas. Atrás, claro (“claro”) da deusa Athena. Como era de praxe, estava relaxada, admirando o som que seu amado produzia. Sim, à frente dela, ajoelhado, estava Orfeu, com a lira apoiada sobre a coxa, dedilhando-a com a gentileza com que acariciava os cabelos de sua amada. O som era levado à cidade pelo vento, e alguns roedores e pássaros sempre os rodeavam, também para apreciá-lo.

O mais impressionante é que ele não se limitava a ser um músico de altíssimo nível; não, seu poder de combate também era gigantesco. Era um cavaleiro de prata, a classe “meio termo” da hierarquia dos cavaleiros de Athena. Mais forte que os de bronze, mais fraco que os de ouro. Pelo menos era para ser assim. Seu poder, diziam no santuário, era quase ou igual ao dos cavaleiros de ouro, a elite do santuário. Ele lutava pouco, então, era difícil de saber. Apenas mitos, talvez.

- Ainda não consigo acreditar que eu seja abençoada com o seu amor, Orfeu... Graças aos deuses.

Permaneceu de olhos fechados o nobre cavaleiro, enquanto um fantasma de um sorriso lhe passava pelos lábios.

- Graças aos deuses, realmente, eu ter conseguido encantar a mulher mais bela deste mundo.

Seus dedos, porém, logo cessaram de tocar as cordas. O silêncio inundou a clareira por alguns instantes, até Eurídice quebrá-lo.

- Algum problema, meu ama...

Então, como um trovão, Orfeu gritou, enquanto erguia-se de supetão.

- Abaixe-se, Eurídice!

Com um grito estridente ela obedeceu. Curvou-se até seu queixo tocar os joelhos. Pousou as mãos sobre a nuca e contraiu o rosto em medo. Neste instante, sentiu seus cabelos esvoaçarem para frente.

Orfeu estava sem sua armadura, vestindo roupas normais do dia-a-dia. A armadura de lira estava dentro de sua respectiva caixa de pandora, ao lado da mulher. Porém, não foi preciso ela.

Sobre a cabeça da mulher havia passado uma rajada de energia que parecia um cometa. Era arredondado com uma cauda, inteiramente de um alaranjado, mais forte na frente e mais suave ao longo da cauda. Este “cometa” seguiu em direção a Orfeu, que o agarrou com o punho direito. Seus dedos se fecharam e o golpe simplesmente se dissipou. Um suspiro escapou-lhe a boca e ele falou, voltando ao tom sério de costume:

- Espero que você não pense em tocar em um fio de cabelo dessa dama, ou vou garantir que sua morte seja bem triste ao som de minha lira, rapaz. Aliás, quem é você? Onde aprendeu a usar o cosmo?

Por detrás das árvores surgiu um rapaz de cabelos castanhos. Seus olhos flamejavam e sua face se contorcia de raiva. Em volta de seu corpo havia uma armadura. Não era nada demais. Havia lojas em Athenas que vendiam peças de armaduras, talvez para os cavaleiros aprendizes ou soldados. Eram, claro, tão frágeis quanto as de bronze.

- Vim me vingar de vocês, atenienses medíocres! Eu era um dos melhores soldados que vocês tinham, lixos! Como puderam me barrar do exército de Athena? Como?!

Seus berros inundavam a clareira e afastavam os animais que estavam ali. Talvez não tivesse reconhecido Orfeu, pois estava sem sua armadura.

- Vou destruir vocês – continuou –, cada um de vocês!

Novamente seu punho direito rompeu o ar em um soco que fez uma nova esfera alaranjada. Orfeu não se moveu e o golpe simplesmente sumiu.

Olhando seu rival nos olhos, o cavaleiro prateado se moveu em passos lentos em sua direção. Estupefato, o homem tentou interrogá-lo, aos gaguejos:

- Q-Quem é você maldito? Como conseguiu...

Antes que terminasse de falar, seus cabelos esvoaçaram para trás e um corte lhe cruzou da bochecha ao lóbulo da orelha. Seus olhos se arregalaram e sua boca escancarou-se em seu momento de temor.

- Muito rude de minha parte, é verdade... – disse Orfeu. Seu corpo logo ficou contornado por uma aura flamejante de um suave azul. Esse contorno foi aumentando até que o ar tornasse-se mais denso ao seu redor. Mais denso, porém, mais agradável. Parecia que nada poderia acontecer de ruim naquele bosque, que ficou inundado em uma serenidade quase assombrosa. Atrás do cavaleiro, o renegado viu o Cosmos, um céu estrelado que focava as estrelas da constelação de Lira. – Eu sou – continuou – Orfeu, cavaleiro de prata da constelação de Lira.

Um estrondo se ouviu quando as paredes da Caixa de Pandora se debruçaram contra o chão. Imediatamente, um feixe de luz arremessou-se contra Orfeu, que por alguns segundos ficou mergulhado em uma imensa brasa azul. Um azul denso e um tanto opaco. Essa fração de segundos revelou-o trajando a armadura de prata.

- Não acredito... Orfeu?... Aquele que tem o poder igual aos cavaleiros de ouro, a classe mais forte de cavaleiros?...

- Você me superestima, rapaz. Além do mais, o que torna um cavaleiro realmente apto a batalhar é sua vontade de proteger alguém. Você queria buscar status, se não me falha a memória. Lembro-me do seu rosto... Nenhuma armadura aprovaria um comportamento egoísta como esse. Até um soldado pode ser tão poderoso quanto um cavaleiro de ouro se sua mente e cosmos estiverem sincronizados e seu desejo de proteger aos outros for tão importante quanto proteger à própria vida.

- Palhaçada! Não me venha com esses sermões de velhotes, Orfeu!

O homem, a passos metálicos, avançou contra Orfeu com o punho cerrado ao lado do ombro. Seu alvo permaneceu estático com seu aproximar. Desferiu um soco contra o rosto do cavaleiro de prata, e a sombra de um sorriso passou por seus lábios. Ficou feliz por acertar um cavaleiro de nome tão badalado. Felicidade, como sempre, pouco duradoura. Seu sorriso sumiu-lhe os lábios e deu lugar a uma expressão de dor, onde um de seus olhos fechou. Recolheu a mão, abanando-a.

Achou que tivesse tocado o cavaleiro. Triste ilusão! O fino cosmo azulado que envolvia Orfeu protegeu-lhe do ataque e ainda queimou a mão do rapaz.

- Por favor, você realmente acha que um ex-soldado pode contra um cavaleiro de Athena?

- Cale a boca!

Avançou novamente, desferindo vários socos e chutes contra o alvo imóvel. Em um destes, teve o pulso agarrado.

- Me solte, maldito! –Esperneou.

Estava assustado, suando frio, mas seu orgulho besta não o deixava recuar. Orfeu forçou os dedos em volta do pulso do homem até que todo o antebraço de sua armadura se estilhaçasse em poeiras.

- Não se preocupe, ok? Vai ser mais rápido do que pensa...

A Cosmo-energia de Orfeu se estendeu a um nível que atraiu de volta todos os animais da floresta. Um cosmo doce e ameaçador, ao mesmo tempo em que melancólico como muitas de suas canções. Ele pegou sua lira, que particularmente também emanava a tal energia ao seu redor, e o cavaleiro finalmente fechou os olhos. Com o instrumento rente o peito, começou a dedilha-lo. As ondas sonoras produzidas por sua lira logo se espalharam. Eurídice fechou os olhos em êxtase pelo som, enquanto as pernas do ex-soldado bambeavam e ele praguejava. Para a sorte da moça, Orfeu tinha um controle impressionante sobre seus golpes, atingindo apenas os inimigos com ele.

- Apenas durma, meu jovem... Durma, ao som da Serenata da Viagem da Morte.

O som produzido pela sua lira, mista à sua cosmo-energia, penetrou a mente de seu rival. Seus olhinhos logo viraram e ele tombou para trás. Sua mente, agora, viajava para outra dimensão. Ele estava no mais profundo dos sonos possíveis.

Eurídice se aproximou de Orfeu e perguntou-lhe:

- E... Ele morreu?

- Não, meu amor. Está apenas dormindo.

Guardas de Athena logo adentraram o bosque, aos berros.

- Ouvimos gritos vindos daqui! – Bradou um deles.

- Peça já uma reuniãozinha com o Grande Mestre, por gentileza. Sei que é indelicado, mas acho que preciso falar com ele. Outra coisa: leve este homem e amarre-o, de preferência com as correntes mais duras que tiverem. Levem-no ao salão quando eu pedir. Por hora é só.

Notas finais
Acabou. Deixem um comentário aí, pfvr.