Notas iniciais
Após sete anos voltei :) Espero que nesse caso o número não dê azar.

Tenho andado nostálgico. Sinto saudades de coisas que me trouxeram até o momento que vivo, desde as mais importantes até as mais rotineiras. Me pego pensando na rota do ônibus, em como gostava de apreciar a vista e como usava o tempo demorado da viagem diária entre minha casa e faculdade para pensar. Às vezes acho que há uma romantização desses pensamentos, porque se analisar com mais cautela esse era um tempo que minha mente era conturbada. Ainda hoje é, mas eu tenho mais consciência dessa bagunça que trago comigo.

Na minha cabeça surgem esses momentos de contemplação do passado de tal maneira, que fiquei saudoso até de escrever. Esse ato que achei que ia ser terapêutico, mas que acabou se mostrando mais uma das inúmeras tarefas de deixei de cumprir.

Faz anos desde a última vez que me aventurei em redigir os meus pensamentos. De certa forma, agora que senti a necessidade de voltar, percebo que isto é uma volta no tempo. Ler os pouquíssimos capítulos que escrevi, reler os ainda menores em número capítulos postados me fizeram encarar que a mudança na minha vida veio de um jeito que não imaginaria. Talvez porque sempre tive dificuldade em pensar sobre o futuro. Costumo deixar que a realidade chegue em mim. Em geral, sigo o roteiro. Isso é péssimo em momentos de reflexão, porque serve de base para a autossabotagem. Pensar que eu cheguei onde cheguei por simples casualidade é pesado. Não que isso seja verdade. Se estou e sou quem sou é porque colho as consequências das minhas escolhas. Tais escolhas que estão limitadas a um grande universo material de tantas outras coisas que não posso modificar ou escolher, mas que me levam a tomar decisões. Até a inércia é uma escolha. Daquelas mais fáceis no começo, mas que em geral cobrar caro depois.

Enfim, depois desses longos parágrafos iniciais de filosofia barata e delírios pseudoromânticos da mente de um jovem adulto, devo voltar ao começo dessa conversa e trazer o tempo para o centro. É saudável que eu fique me alimentando dessas memórias? Eu não creio que esteja fazendo isso com intensidade, mas me causa muito estranhamento. Antes eu era uma pessoa que se considerava entendida para sua idade, que tinha sorte de ser tão consciente de mim e do mundo. Agora sei que a vida passa e em geral é como um caminhão sem freio que te pega de jeito, mas que por pura sorte ou azar tu sobrevive, cheio de feridas e dores. Eu sei que o processo de cura é pessoal. Para alguns é rápido como um joelho ralado, para outros, longo e imobilizante como uma braço quebrado, mas eu nem percebia que tinha meus traumas. Achava que as coisas eram assim, ninguém tem tudo que quer sempre e me achava sortudo por ter chegado no local que cheguei. De fato tive sorte, mas não essa o único lado da narrativa. Precisou que o mundo mudasse literalmente (alô, pandemia!), para eu encarar o meu eu com mais sinceridade. Espero que isso não soe como um “Use seu tempo nesse caos para olhar para si e blá, blá, blá”, porque essa tá longe de ser a intenção. É só uma análise de ambiente mesmo, longe de mim romantizar esse vírus, ainda mais dentro desse contexto tão bizarro que é o Brasil. Uma população potencialmente fascista, um governo genocida e o meio ambiente pedindo socorro.

Ok.

Vamos lá.

Calma.

Respira bem fundo.

Saí do meu eu desalinhado para o nosso externo caótico de zero a cem. Peço desculpa, a vibe pesou. Eu juro que tentei voltar em grande estilo. Eu estou animado. Tanta coisa aconteceu. Ter uma máquina do tempo literária é algo legal. Se no primeiro capítulo eu tinha dezoito anos, agora estou com vinte e cinco. Em sete anos as coisas mudam muito. Parece até uma adolescência tardia. Na verdade foi bem isso. Biologicamente mais velho, mentalmente em processamento. Com dezoito, não sabia se tinha feito a escolha certa de faculdade, achava que não tinha traquejo social, pensava que era hétero!!! Vish, as coisas eram loucas demais. Retomar essas questões vai dar, no mínimo, umas palavras a mais nesses capítulos. Espero que fique por aqui comigo, nesse sessão de terapia aberta e cheia de voltas e aparente desconexo.

Um grande abraço,

Renato.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.