Ordinary Human

8 Cova dos Derrotados


Notas iniciais
Eu nem demorei tanto com esse então usem isso como um pedido de desculpas. Espero que gostem, eu meio que fiquei ansiosa para continuar escrevendo a fanfic...

O homem havia se apresentado como Bob para mim, sem toda a ironia e estupidez ele parecia um cara gentil. Havíamos sentado na beirada da calçada ao lado de Steve, que era seu parceiro e estava no prédio armado. Ambos vieram procurar suprimentos e fazer vistorias na cidade, já que a CIAB continuava a caçar cobaias para seus experimentos inclusive moradores da Cova dos Derrotados. Era aterrorizante ouvi-los falar sobre os estragos que essa Corporação havia feito e mesmo depois de eu explicar como consegui fugir do lugar, Bob jurou com absoluta certeza de que os radicais não estavam envolvidos com a explosão da CIAB.

–Não temos pessoas especializadas para fazer tal invasão, nem corajosos para invadir frente a frente. –explicou Bob. – Mesmo que todos da Cova lutassem, ainda sim, seriamos abatidos pelo poder de fogo da CIAB.

–Então quem explodiria tudo? –perguntei confundindo os dois.

Ele e Steve trocaram olhares, mas encerram o assunto sem um final certo. Senti um arrepio momentaneo, algo como um alerta de que as coisas não haviam se simplicado, eu poderia dizer que os meus pressentimentos só apontavam para o lado ruim.

–Vejam a carona chegou! –anunciou Steve apontando para a caminhonete militar que chegava com um motorista e dois garotos na traseira.

Steve saiu apressado, o sorriso de alivio e felicidade estampado no rosto. Percebendo minha insegurança, Bob me estendeu a mão para que eu levantasse.

–A Cova dos Derrotados sempre foi um lugar seguro para se viver, você gostará de lá. –afirmou confiante.

Um garoto de cabelos ruivos sujos pulou do carro antes mesmo do veiculo parar direito. Veio na minha direção a passos desconfiados, mas há poucos centímetros de mim respirou fundo, o peito cheio de ar esvaziando lentamente.

–Ella? –ele sorriu e havia lagrimas em seus olhos. Seus punhos estavam cerrados, provavelmente estava se contendo para não me tocar. Seu rosto nunca apareceu em meus sonhos, contudo de todos os que eu já vi, eu não precisava lembrar, porque eu sentia quem ele era. – Você consegue se lembrar quem sou?

Embora eu não soubesse como ele reagiria, eu toquei seu rosto quente e chorei. Lagrimas silenciosas escorriam do meu rosto e pingavam na minha roupa. Eu tocava alguém de quem eu me lembrava perfeitamente e a sensação era única.

–Ryan... Eu lembro. –e sorri deixando minhas mãos se agarrem em seu pescoço para um abraço apertado. – Você não deveria ter soltado a minha mão.

(...)

Devo ter dormido por alguns dias. Simplesmente não me recordo de ter chegado a Cova dos Derrotados, e a ultima lembrança é do carro andando devagar e cautelosamente pelas ruas da cidade em ruínas. O mundo não era como eu esperava, não havia vida e esperança. Não tinha motivos para lutar, mas vários para sobreviver. A CIAB arruinou vidas, encheu pessoas de expectativas e não deu resultados bons. Continuou matando pessoas e destruindo famílias. Vendo tudo ao meu redor do lado de fora da base, parece que não há muito para se lutar por aqui.

Não existem velhos, poucas pessoas com mais de trinta anos estão vivas. A maioria morreu de Peste e os que sobraram são considerados imunes, onde mais uma vez a natureza seleciona os capazes e mata os insuficientes. Bob assegurou que isso é bom, na viagem ele gargalhou e brincou dizendo: “Velhos são inúteis, veja bem, vocês são nosso futuro, construiremos o mundo para que vocês sejam melhor do que fomos.” e Ryan riu baixinho com um olhar que já dizia sua opinião sobre isso.

–Espero que não tenha te acordado. –sussurrou Ryan e percebi que durante meus devaneios ele estava sentado ao meu lado me observando.

–Não, tudo bem. –suspirei me sentando na cama. – Acho que dormi demais... Eu estou presa?

Nos dois rimos. Encontrávamos em uma cela de presídio comum. Não lembro quando vi algum pela ultima vez, mas eu já havia ficado em muitas celas para conhecer muito bem quando estou em outras. As paredes eram de concreto e havia um pouco de mofo, um lavatório velho com um espelho pequeno, um beliche em que eu me encontrava deitada na cama de baixo, uma mesinha com duas pilhas grandes de livros e Ryan sentado em uma cadeira com um abajur improvisado preso na parede. Nas grades da cela uma cortina para impedir que vissem o que havia do lado de fora ou mesmo quem tivesse dentro visse o que tem do lado de fora.

–Eu dormia aqui sozinho, quando você não tem família nem é casado acaba ficando com uma cela só para você. –ele deu de ombros sorrindo timidamente- Parece que teremos que dividir agora... Bom, vou deixar você se ajeitar eu estarei no refeitório descendo as escadas.

Assenti enquanto o observava sair. Levantei da cama e lavei o rosto na água extremamente gelada que saia da torneira do lavatório. Olhei meu rosto no espelho, talvez eu já tivesse traços suaves e a pele bem tratada de quem morava nas celas brancas da base, mas hoje, eu carregava minhas marcas, cortes e hematomas. As semelhanças com meu irmão era evidentes, não só pela cor peculiar ruiva, mas pelos olhos grandes e labios finos que sempre pareciam reprimir um sorriso. Por trás daquelas cicatrizes, eramos crianças assutadas, conclui.

Troquei minha roupa pelos trapos usados pelos radicais e prendi o cabelo com um elástico da roupa antiga. Então eu havia fugido da CIAB para viver junto ao meu irmão na Cova dos Derrotados? Não que fosse um lugar ruim, mas eu criei expectativas e agora estava frustrada demais para aceitar.

Sai da cela e vi que me encontrava no bloco B. Algumas crianças brincavam no chão e outras corriam, havia mulheres com bacias de roupas e homem conversando perto da escada. Era estranho, mas eles pareciam ter uma vida ali. Segui andando me esquivando de todos, de cabeça baixa rumo às escadas.

As desci depressa porque sentia olhares fulminantes me encarando, de todos os lados e inclusive quando cheguei ao refeitório e encontrei uma multidão de pessoas. Alguns apontavam, outros sussurravam ou esbarravam em mim sem a menor gentileza. Eu me sentia reprimida e sufocada.

Esbarrei em um garoto de cabelos preto quase na altura do ombro. Ele pareceu me empurrar para longe de si enquanto retomava a caminhada, sua expressão foi de reprovação quando eu o agarrei pelo braço. Eu conhecia aquele rosto, as expressões e o olhar.

–O que você esta fazendo? –ele se soltou das minhas mãos e cerrou os olhos.

–Desculpe. –balancei a cabeça confusa. – Achei que você parecia com alguém que eu conhecia.

Automaticamente passei a mão na nuca sentindo o código que a CIAB havia cicatrizado na minha pele. O garoto na minha frente parecia mais confuso do que antes, mas não havia ido embora.

–É melhor você esconder essa marca. –aconselhou ele apontando para o meu pescoço. – As pessoas daqui não costumam gostar do pessoal que vem da CIAB.

–Não trabalho para eles. –respondi na defensiva.

–Nem eu. –ele se virou e levantou o cabelo da nuca revelando os números 321 quase desaparecendo na pele. – Mas somos propriedade de lá e fugitivos da base só trazem mais perigos para a Cova – ele voltou a me olhar e arrumou a postura. Então ele era um PROJETO. – Sou Kylie – e estendeu a mão para um cumprimento.

–Ella. –respondi apertando sua mão rapidamente- Você fugiu de lá? Como... ?

–Foi há muito tempo, naquela época o sistema de segurança da CIAB não era tão eficaz como agora. –ele fez uma pausa enquanto pensava. – Você é a garota que sobreviveu a explosão da base, certo? –ele não esperou a minha resposta para continuar- Alguém sobreviveu depois da explosão além de você?

–Não vi muitas pessoas quando acordei. Talvez sim... –o simples ato de pensar me fez ter tonturas. — Bom, eu realmente não sei. –digo subindo a gola da blusa para cobrir o meu código. – Quem você esta procurado?

–Era meu irmão, Chris.

–Qual era o código dele? Talvez eu tenha o conhecido em algum dia de coleta.

–Ele não era um PROJETO. –afirmou o garoto meio triste. – Foi capturado pela CIAB enquanto viajamos para o litoral.

O garoto que havia me ajudado a fugir do local. O único que eu conheci que não era um PROJETO, mas era mantido no lugar. “LA 450 Cova dos Derrotados 321”. Ele havia dado o código do irmão, talvez ele já tivesse duvidas de que não conseguiria sair de lá.

–Kylie, acho que me lembro do seu irmão. –fiz uma pausa e ele logo entendeu o que eu me preparava para dizer. – Desculpe, mas ele não sobreviveu.

Notas finais
Em breve mais capítulos extras... Eu realmente estou gostando de escrever de perspectivas diferentes.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.