Ordinária consequência do ser

2 Perdido na monotonia e em lembranças do passado nada distante


Notas iniciais
Faz um tempo que não posto. Desculpa rs

Estou vivendo mais uma segunda-feira. Nada de muito importante tem acontecido para que eu possa escrever para vocês – sim, eu presumo que seja mais de uma pessoa que acompanha isso aqui. Hoje cedo eu tive que ir à junta de serviço militar da minha cidade para levar um documento. Mostrando-o eu tive acesso a um boleto para pagar e assim que ele for pago eu vou ter, definitivamente, a minha dispensa. Mas antes de tudo isso eu tive que ir me apresentar, isso é, fazer uns exames médicos e me submeter a um teste sem objetivo claro. Nele tive apenas que cobrir umas figuras e marcar uns xis em uns quadradinhos lá, senti-me no jardim de infância.

A parte mais estranha foi o exame médico. Especificamente a parte que tive que me despir. Minha sorte é que estamos nos tempos modernos e não precisei ficar nu na frente de um monte de gente – meu pai, por exemplo, teve que ficar – tive somente que tirar a cueca na frente do médico. Volto a dizer: muito estranho. Então, ele me pediu para soprar a minha mão. Veem? Continua bizarro. Não sei ao certo qual era a finalidade, o médico se abaixou, deu uma olhada nos meus países baixos e pronto. Houve também um daqueles exames para testar a visão. Naquele momento percebi que sou um pouco cego. Algumas letras se embaralharam diante dos meus olhos e tive que chutar. Apesar disso, eu entrei na lista dos aptos a servir, mas como já informei para vocês, não vou. Amém!

É claro que eu sei que o Exército brasileiro tem seu papel em nosso país, mas isso não é para mim, ficar recebendo ordens para qualquer coisa, ficar devidamente barbeado todo o dia – odeio me barbear – e todas as demais coisas militares. Se você for um rapaz que completa dezoito anos até trinta e um de dezembro deste ano – não, não é propaganda! – espero não ter lhe traumatizado com a minha breve experiência.

Pois bem, o que aprendi com tudo isso? Primeiro, que meu pai mentiu. Creio que ele estava tentando me deixar com medo, disse, várias vezes, que se eu não explicasse ao tenente que estudo em outra cidade eu iria ter que servir. Eu explanei sobre meu caso, mas não precisei repetir a situação para me fazer entender. Segundo, pude observar que os responsáveis pelo alistamento querem nos deixar com medo, na hora da entrevista (outra etapa dessa história) o tenente faz de tudo para preencher o quadradinho que fica ao lado da temida palavra “voluntário”. E terceiro e muito menos importante, que eu só consigo puxar 80 quilos com os braços. Isso mesmo, sou um frango, como se diz por aí. Tivemos que puxar um troço, que parecia um equipamento de academia, para tomarmos conhecimento de nossa força muscular ou algo do gênero. Um rapaz trinta centímetros mais baixo que eu conseguiu puxar cento e dez quilos! E pelo que pude escutar de algumas conversas, a média ficou próxima à cem quilos. Gente, é triste reforçar o estereótipo, mas os inteligentes não são fortes. Brincadeira! Também não sou inteligente.

Como ficou claro, não tenho o hábito de me exercitar. Nem sempre foi assim, nunca fiquei na categoria dos atletas, mas já fui menos imóvel. Pratiquei basquete durante um tempo no colégio. O pessoal que ia para o treino era, em geral, um povo legal. O treinador era muito gente boa, portanto não foi por causa deles que eu desisti do esporte. Quem me conhece dirá provavelmente que o que me fez largar o basquete foi o meu pulso trincado e meu dedo fraturado. O que não passa de uma grande asneira. Eu parei por pura preguiça e talvez porque minha alma é inteira e naturalmente sedentária.

No dia em que tive o pequeno acidente, o treinador havia nos dado uma tarefa. Ir de um lado para ou outro da quadra, sempre avançando cerca de cinco metros e retornando para o começo. Ah, sim! Tudo isso correndo de lado. Ok, o treinador talvez não fosse tão gente boa nos treinos. Pois, quem chegasse por último deveria pagar cem flexões. Mentira. Não lembro quantas eram, mas eram muitas.

Bem, quando eu estava fazendo esse exercício, intitulado não por acaso de suicídio, acabei tropeçando e caindo. Minhas mãos tocaram primeiro o chão, de forma que elas receberam todo o impacto e por isso acabei machucando o pulso e o dedo. Doeu um pouco, mas na hora não imaginava que havia trincado.

Voltei para casa de carona, o treinador me deixou lá. A dor aumentou um pouco. Então, eu fui para o hospital acompanhado pela minha irmã. Esperei um bom tempo para ser atendido e descobri que o aparelho de raio-x estava parado. Minha tia que trabalhava próximo ficou me acompanhando enquanto minha irmã voltava para casa para almoçar e trazer comida para mim. Acabei recebendo macarrão com carne moída de boa no centro de um corredor hospitalar. “Nossa! Isso não pode acontecer!” você pode pensar, mas gente, sinceramente, é um hospital público, existem coisas piores acontecendo por ali, e além do mais, era o corredor de espera, não entrei em contato com leitos ou outros ambientes muito inapropriados.

Por fim, eu fui encaminhado para o outro hospital da cidade, este carinhosamente chamado pelo povo de Regional, pois ele é o responsável por receber casos um pouco mais graves e de toda a região, interior e cidades adjacentes. Assim sendo, cheguei lá e esperei bastante também até fazer o bendito raio-x. Voltei para o outro hospital, ainda não sei por que, afinal nos dois havia médicos e eles poderiam me avaliar. Bem, quando o doutor finalmente viu o meu exame, afirmou que estava tudo certo e que a dor que eu sentia era momentânea.

Fui para casa e a dor não passou. Graças a Deus, minha mãe iria viajar e eu fui com ela, não sou religioso, mas nessas horas a gente agradece, né. Chegando em Belém eu pude ir a um médico ortopedista. Ele constatou que eu tinha trincado o pulso esquerdo e o dedão direito. Resultado: tive que imobilizar. Passei mais de um mês com a mão direita enfaixada e com o antebraço esquerdo inteiro imobilizado.

Na primeira aula que eu tive todo enfaixado, todo mundo me perguntava o que havia acontecido e eu pacientemente explicava. Meu professor de biologia foi um pouco além e questionou se eu conseguia movimentar minha mão com facilidade, respondi que não muito bem, então ele falou que a masturbação ajudaria, porque eu iria movimentar o pulso sem muito desgaste ou algo assim. Sim, meu professor disse isso! Teve outros tarados que diziam algo como “Ainda foi a direita! Dá nem pra bater...” completem a frase, se quiserem.

Ainda houve mais: quando eu retornei para retirar as parafernálias e verificar se era necessária fisioterapia, não foi o caso, o médico que me atendeu tirou onda com a minha cara. Falou que ele havia praticado a vida inteira basquete e que nunca teve qualquer incidente igual ao meu. Tudo bem que o jeito de que eu caí foi bem besta, mas não precisa tirar sarro. Todos já tiveram uma queda daquelas bem idiotas, certo? Mas sei lá, parece que todo ortopedista é meio bruto assim.

Notas finais
Estou aberto a críticas ♥ Se puder me dizer o que achou seria mó legal ^o^