Ordem do Fogo livro 1 - Baldom o titã corrompido

4 Capítulo 4 - O homem das sombras e o velho herói


Na saída, Edmund e Tirion se despediram de seus colegas e mais uma vez voltaram juntos para casa. Já estava tarde, e mais uma vez o frio do inverno de Ivigard castigava os rostos dos meninos. Com a luz da lua fraca, os seguranças da cidade acendiam os postes de fogo para a iluminação das ruas.

Mas aquela noite, nunca seria esquecida pelos dois. Enquanto caminhavam pelas estradas de pedra da rua, Edmund sentiu que os dois estavam sendo vigiados, e começou a caminhar mais rápido puxando junto seu amigo, Tirion. Mas aquela sensação não passava, Edmund olhava em volta, mas não enxergava nada além da escuridão fora da luz dos postes.

Tirion, sem entender nada, seguia seu amigo pois confiava nos instintos dele, afinal de contas, eles nunca haviam falhado. Quando se aproximavam da rua onde iriam se despedir, um homem com um chapéu, que não deixava ver o seu rosto, e uma roupa preta apareceu na frente dos garotos. Um frio no estômago dos rapazes veio mais rápido do que um gavião, e os congelou de medo por instantes.

De frente para eles, aquele homem deveras estranho começou a se aproximar vagarosamente, se quisessem ir para suas casas deveriam passar pelo tal sujeito, entretanto as pernas dos rapazes tremiam e eles não conseguiam sair daquele lugar.

Antes que eles pudessem dar um passo, o homem já estava de frente para eles, e mais uma vez o coração dos garotos parou. Na cabeça de Tirion se passava a pergunta:

— “Quem é este homem”?

E na cabeça de Edmund:

— “Como ele se aproximou tão rápido sem nós notarmos”?

Então, de repente, o homem começou a falar com os dois:

— Olá, o que vocês dois fazem andando na rua em uma hora dessas?

— Estamos voltando para casa, só isso. – Afirmou Tirion, enquanto Edmund analisava a situação.

— Vejo que estão voltando de algum lugar, e por estarem carregando essas sacolas, creio eu que da sua escola, não?

— É verdade, você acertou. Mas nós temos que ir, se não nossos pais vão ficar preocupados. – Um pouco nervoso disse Tirion.

Naquele momento, antes que os meninos começassem a se mover, o homem estranho falou mais uma vez, só que dessa vez com uma voz diferente, um pouco rouca e grave, uma voz monstruosa:

— Preocupados é? Ó sim, eles vão ficar.

Tirando seu chapéu, Edmund e Tirion notaram que os olhos daquele homem eram vermelhos, e seus dentes começaram a crescer e ficar pontiagudos. Porém, antes que este monstro pudesse fazer qualquer coisa, Edmund havia se jogado para cima dele, acertando um soco preciso na face daquele monstro o jogando para o lado.

— Tirion! Corra para a casa do meu avô! – Exclamou Edmund.

— Mas e você? – Perguntou desesperado, Tirion.

— Eu te encontro lá!

Tirion começou a correr para a casa de Erick o mais rápido possível enquanto Edmund ficava para traz encarando o monstro. Logo em seguida, o homem se levantou devagar limpando o seu casaco preto.

— O que é você? – Perguntou Edmund, já se preparando para reagir a qualquer movimento do inimigo.

— “O que é você”? Eu é que te pergunto. Você não é um pouco forte demais para a sua idade? Eu sou um vampiro. – Disse o Vampiro irritado e surpreso.

Quando Ed ouviu o que aquele monstro era, ele pensou imediatamente como matá-lo, mas não seria nada fácil. Edmund, por sua vez, precisaria de ajuda e, acima de tudo, uma lâmina capaz de cortar a cabeça dele ou uma estaca de madeira, mas antes que Ed pudesse pensar em mais alguma coisa, o vampiro avançou sem piedade e extremamente rápido em direção de Edmund. No instante em que aquele monstro avançou, Edmund se jogou rápido para o lado para se esquivar do ataque brutal dele, o vampiro havia vindo tão rápido que não conseguiu parar e acertou, com seu golpe, um dos postes de rocha que estava na rua, o arrancando do chão.

Com toda aquela velocidade e força do vampiro, Ed precisava mudar seu estilo de luta se quisesse sobreviver naquela noite, ele não poderia defender os golpes, mas talvez se esquivar deles. Edmund, desta vez não deu tempo para o vampiro pensar e atacou. O vampiro percebeu a movimentação do garoto vindo por traz dele e se virou com um soco, mas Edmund se abaixou e desviou do golpe. Então o garoto deu um soco no queixo do vampiro, que ficou atordoado, e, em seguida, pulou com um chute giratório acertando o pescoço dele e o derrubando no chão.

Era a chance perfeita para Edmund correr para a casa do seu avô, pois ele sabia que vampiros não podem entrar em casas de outras pessoas sem serem convidados. Então, ele correu o mais rápido que pode em direção da casa onde seu avô, Erick, e seu amigo, Tirion, se encontravam. Entretanto, o que parecia ser a fuga perfeita, acabou fracassando quando o vampiro, com sua velocidade, o alcançou e lhe acertou um tapa em suas costelas o arremessando em cima de um banco de madeira que se encontrava naquela rua. O garoto caiu por em cima do banco, que acabou quebrando com o impacto da queda, e sentiu algo de errado com seu corpo, provavelmente aquele tapa poderia ter quebrado algumas costelas do menino.

— Você é um menino atrevido, mas eu já me cansei de brincar com você. E, quando isso acabar, eu vou ir atrás do seu amiguinho e do seu vovô. – Disse ameaçador o vampiro

— Você... não vai... matar... meus... amigos! – Enfurecido gritou Edmund.

Naquele momento, Edmund tirou forças da onde não tinha mais, conseguindo se levantar mais uma vez. O vampiro, com fome, atacou mais uma vez, vindo rapidamente na direção do garoto. Então, Ed pegou um pedaço grande de madeira que havia quebrado do banco e atacou com ele o vampiro, acertando em cheio a cabeça do monstro, que, mais uma vez, foi atirado ao chão. Logo em seguida, o menino correu para cima do monstro, que tinha se levantado muito rápido, e desferiu vários socos nele. O vampiro, depois de levar alguns socos, desviou os últimos dois golpes do menino e o agarrou pelo pescoço com a mão direita, tirando Ed do chão.

Tudo o que passava na cabeça de Edmund naquele instante era um sentimento fortíssimo de frustração, ele se lembrava de tudo o que ele treinou para atingir aquela força e mesmo assim seria derrotado facilmente por aquele homem, e no seu avô junto de seu amigo Tirion, que ele deixaria para traz se morresse, dos quais ele não teria a certeza se ficariam bem. A certeza da morte já estava gravada, como escrituras em rocha, nos pensamentos do rapaz.

Então, antes que ele desmaiasse com o aperto no pescoço que o monstro o desferia, ele viu o vampiro mirar a mão na direção do peito dele, provavelmente ele arrancaria o coração dele ali, mas, de repente, uma pequena bola de fogo atingiu o rosto do vampiro, que largou Ed.

— A! Isso dói demais! Desgraçado! – Gritou com dor o vampiro

Olhando para o lado, Edmund viu seu amigo com a mão estendida na direção do vampiro.

— Vamos Ed, não podemos ficar aqui. – Disse Tirion enquanto socorria o amigo machucado.

Enquanto eles corriam, o vampiro ficava para traz com o rosto em chamas. Agora, depois de correr mais um pouco, os dois meninos podiam ver a casa de Erick, a casa estava iluminada e provavelmente seu avô estaria acordado. A sensação de morte certa de Edmund já começava a sumir de seus pensamentos, quando se aproximaram da casa não pensaram nem em bater na porta, entraram rapidamente e logo a trancaram.

— Vovô! – Exclamava Edmund com dor no seu corpo, e logo em seguida caiu por cima da mesa da sala meio desacordado.

— O que foi? Que barulheira é essa? Ó meu Deus! O que aconteceu com você Edmund? – Preocupado veio Erick descendo as escadas.

— Senhor Erick, nós fomos atacados por um vampiro. – Explicou Tirion.

— Droga. Ele vai vir para cá. – Erick pensava alto.

— O que o senhor quer dizer com isso? – Nervoso perguntou Tirion.

— Se ele está no ponto de atacar crianças no fim da tarde, ele provavelmente virá até nós. Vampiros são extremamente egocêntricos, eles brincam com suas presas, mas se as perdem ficam furiosos. Temos que nos preparar para uma luta. – Explicou Erick

— Certo, eu vou lutar. Só me diga o que tenho que fazer senhor. – Bem disposto disse Tirion.

— Você irá levar Edmund para o quarto de cima e protegê-lo lá, eu irei lutar contra esse desgraçado aqui em baixo.

— Mas senhor, ele só pode entrar aqui se o senhor quiser.

— E quem disse que eu não quero? Ele vai lutar no meu território.

Naquele momento, Tirion levou seu amigo para o andar de cima. Edmund não conseguia caminhar direito, então Tirion o carregava nas costas. Enquanto isso, Erick ficava na sala esperando o vampiro chegar, com sua espada na mão, ele analisava o que ele poderia utilizar da casa para aquela luta. Ao passar os olhos por toda a casa, Erick visualizou as facas da casa e o atiçador de brasas, viu também algumas caixas dos legumes, que ele comprará de manhã, perto do armário da cozinha. Agora, Erick já estava pronto para enfrentar aquela criatura.

Ao olhar para a janela de sua sala, Erick visualiza um vulto com dois olhos vermelhos atrás do vidro, e logo aquela figura some. Atrás dele, na janela da cozinha, lá estava àquela figura, aquele ser conseguia dar uma volta completa na casa toda em alguns segundos, sua velocidade era espetacular. Após aquela coisa sumir novamente da outra janela, Erick ouviu batidas na porta da casa.

— Quem é? – Perguntou Erick.

— Olá, eu sou um amigo do seu neto, acabei deixando uma coisa com ele, eu poderia entrar pra pegar? – Perguntou descaradamente o vampiro.

— Deixou é? Marcas de pancadas e costelas quebradas?

— Mil desculpas, foi um acidente, eu não tive a menor intenção. – Disse com tom sarcástico o vampiro.

— Hum, está certo, pode entrar vampiro.

Naquele momento, a porta estourou e o vampiro entrou rapidamente.

— Cometeu um grande erro velho.

— Será mesmo? Cale essa boca e venha logo. Não vou deixar que mate meu neto.

O vampiro avançou rápido, mas Erick era um herói de guerra e estava pronto para um ataque assim. Erick girou o seu corpo rapidamente para a esquerda e com sua mão direita deu um corte preciso de baixo para cima nas costas do monstro. O corte nas costas do vampiro não se curava que nem os outros danos, e saía fumaça do ferimento.

— A desgraçado! – Gritou de dor o vampiro.

— A minha espada tem quinze por cento de prata em sua composição, você não vai se curar dos cortes dela tão cedo. – Disse tranquilamente o velho.

O monstro não se importava, ele só pensava em matar o velho. Partindo para o ataque mais uma vez, o vampiro tentava cortá-lo com suas grandes garras, mas Erick defendia todos os golpes com sua espada, mesmo eles sendo extremamente rápidos. O vampiro deu um golpe aberto demais com o braço esquerdo, naquele instante, o velho passou por baixo do golpe dando um corte na barriga do monstro com sua espada.

Caminhando devagar, o vampiro botou as duas mãos na sua barriga gemendo de dor.

— Como é ser uma criatura extremamente forte, e mesmo assim ter a certeza de que vai morrer? – perguntou o velho provocante.

— Cale-se velho! Você só está atrasando a sua morte.

O vampiro via agora uma grande ameaça naquela espada de prata que o velho carregava, se ele não desse um jeito nela, provavelmente ele teria sérios problemas. O velho seguia olhando para o vampiro, que estava extremamente nervoso e pensativo.

— O que foi? Ficou pensativo demais, por acaso bateu o desespero, seu animal? – Erick continuava a provocar o monstro.

— Não. Eu só estou pensando em como vou matar os dois pirralhos depois de te matar. – Disse o vampiro disfarçando seus sentimentos

— Já falei que não vai matá-los, e nem a mim.

Erick olhou para o lado e visualizou a caixa dos legumes, que estava perto do seu pé, aquele, talvez, seria o momento ideal para utilizá-la. De repente, as garras do monstro aumentaram ainda mais ficando do tamanho de uma faca longa.

— Parece que você precisar cortar as unhas rapaz. Posso cortá-las se você quiser. – Disse o debochado Erick.

— Cala essa boca!

Avançando para o ataque, o vampiro nem esperava o truque na manga de Erick. O velho homem puxou com seu pé a caixa e a arremessou com a perna no rosto do vampiro. Naquele momento, Erick correu para cima do monstro, se preparando para estocar a espada nele. Porém, o vampiro tinha percebido o ataque e desviou o golpe de Erick para o lado com as suas garras. A espada acabou sendo cravada no armário da cozinha. O vampiro agarrou o homem pelos ombros, e o arremessou perto da lareira.

O velho ficou um pouco atordoado com seu pequeno vôo, e o vampiro começou a se aproximar, caminhando, do velho.

— Está na hora de saborear este momento. – Disse o monstro ansioso para encerrar aquilo.

Contudo, aquela luta estava longe de acabar. Erick olhou discretamente para seu lado direito, e lá estava o atiçador de brasas. Quando o vampiro pulou para cima de Erick, ele, por sua vez, agarrou o atiçador de ferro e cravou na garganta do vampiro, que caiu para o lado. Erick aproveitou aquele momento para se levantar e foi em busca das facas da casa. Enquanto isso, o vampiro retirava o atiçador de ferro, lentamente, do seu pescoço.

Dentro da cozinha mais uma vez, Erick percebe a sua espada cravada no armário do fundo da cozinha, porém não daria tempo para alcançá-la. Então o velho se aproximou das facas que estavam em cima da mesa da cozinha ao seu lado direito. Erick pegou as três facas que tinham ali em cima, enquanto isso, o vampiro acabava de tirar o atiçador do seu pescoço.

O velho homem pegou duas das facas que estavam com ele, e as arremessou no monstro, uma delas o vampiro conseguiu se esquivar, porém a outra atingiu o seu ombro esquerdo. Mesmo tendo sido alvejado pela faca, o monstro não parou de avançar e acertou um corte, com suas garras, no peito de Erick, que acabou caindo de costas em cima da mesa da cozinha.

O vampiro agarrou o senhor novamente e se preparou para morder o pescoço dele, mas no momento em que ele aproximou os seus dentes do velho, Erick pegou a outra faca que estava com ele e enfiou novamente na garganta do vampiro, que deu três passos para traz. Mais uma vez soluçando com o sangue, o vampiro retira a faca de seu pescoço.

— Mas que merda velho! Pare de ficar cravando coisas no meu pescoço. – Enaltecido disse o vampiro.

— Desculpe, eu não entendi o que você disse, por acaso está com a boca cheia? – Debochou Erick

Erick ficou desarmado e cara a cara com o monstro, não havia mais coisas das quais ele pudesse fazer naquele instante. Erick pensou em correr para a sua espada, mas, com a velocidade do vampiro, ele não conseguiria. Pensou também em atacar o vampiro, porém ele sabia que socos não matam vampiros. Mas por sorte, Erick viu uma de suas panelas feitas de chumbo ao lado dele em cima da mesa.

Enquanto Erick pensava em um jeito de sobreviver, o vampiro gargalhava cantando vitória sobre o pobre homem, que agora se encontrava desarmado. Sem pensar duas vezes, quando o vampiro se aproximou, Erick, sacou sua panela com a mão direita e golpeou a orelha esquerda do vampiro. Na mesma hora, Erick, correu para a sua espada. Tonto com o golpe, o vampiro começou a recobrar a sua consciência, e quando conseguiu, percebeu que o velho não estava mais ali na sua frente.

Em um lampejo de fúria, o vampiro olhou para o lado e visualizou o velho correndo na direção da espada. Mas antes que o vampiro pudesse dar o primeiro passo para frente, uma bola de fogo atinge o seu rosto novamente. Erick consegue chegar à sua espada e arrancá-la do armário, mas quando percebe que o jovem Tirion havia descido, um sentimento muito ruim surge em seu peito. Erick corre o mais rápido possível para cima do vampiro, pois temia que algo de ruim acontecesse com o garoto, se algo ocorresse com qualquer um dos dois a luta dele teria sido toda em vão.

Com o rosto em chamas, o vampiro esperneava de dor. Com a visão comprometida, o vampiro não conseguia ver nada. Naquele instante, Erick, ergueu sua espada e golpeou o coração do vampiro com ela.

— Acabou... Vampiro maldito. – Debilitado disse Erick.

— Maldito... seja você... velho.

Então, o vampiro começou, lentamente, a incinerar por dentro, e, em alguns instantes, o que restava daquele monstro eram somente cinzas na lâmina da espada de Erick e no chão. O velho homem se aproximou de sua poltrona e se sentou lentamente. Olhando para suas mãos, Erick, percebeu que estava tremendo, o nervosismo daquela situação havia abalado o velho guerreiro. Ele encostou a espada do lado direito de sua poltrona, encostou sua cabeça e fechou os olhos. E, com os olhos fechados, disse:

– Arranje alguma coisa pra fechar essa porta garoto, eu vou dormir um pouco – de um jeito um pouco carrancudo.

Tirion, um pouco chocado com toda aquela cena, olhou para o lado em busca de alguma coisa para fechar o rombo que o vampiro havia deixado, onde, alguns minutos atrás, era uma porta. Tirion, viu que a porta do armário da cozinha estava caindo, então ele se dirigiu até ela. O rapaz arrancou a porta, que já estava fraca, e a levou, com muito esforço, até o buraco.

Após resolver aquele problema, Tirion começou a preparar água quente e alguns remédios para seu amigo, que estava ferido no quarto de cima. E então, a noite inteira passou lentamente, com Erick dormindo na sala, e Tirion cuidando de seu amigo machucado.

Ao amanhecer, os pássaros acordando, o som do vento nas folhas e, o barulho das pessoas começando a sair de suas casas já começava. Erick sentiu o aroma do vento gelado da rua entrando em sua casa, pois havia ficado uma pequena fresta na porta improvisada que Tirion tinha feito. O velho homem se ergueu de sua poltrona com alguma dificuldade, pois seu corpo estava completamente dolorido da grande luta na noite anterior, e foi ver como estaria seu neto.

Chegando ao quarto, Erick abriu a porta e viu seu neto, com algumas ataduras, fazendo flexões no chão e, o jovem Tirion deitado em uma cama feita de cobertas no chão.