Oráculo
1 Capítulo 1: "Será a sua última"
Notas iniciais
Eu corria o mais rápido que podia, meus pés se enterravam em uma grama viscosa, e por mais que eu tentasse correr, meu corpo me prendia ao chão. Alguma coisa estava vindo, mas não atrás de mim, eu era apenas um aviso, uma prévia, uma mensageira. Ouvi uma voz rouca ao longe, eu procurava por todos os lados, mas não havia ninguém ali, tudo era branco, como em filmes de ficção, a única coisa que meus olhos encontravam era a grama verde. A voz novamente me chamou, “Será a sua última”. Senti algo puxar meu corpo, e assim acordei.
Eu nunca havia tido visões tão confusas, sabia que era um aviso, mas o que isso significaria? Que algo ruim estava por vim? Com certeza, mas enquanto não chegasse eu agiria como uma adolescente normal, ou quase normal, que estava prestes a completar 18 anos.
— Ana meu amor, vamos descer, estão todos esperando — Minha mãe escorou a cabeça na porta do meu quarto observando enquanto eu me arrumava. Sempre tive uma relação muito boa com ela, nunca me julgou ou sequer questionou minhas habilidades, pelo contrário, era como se já soubesse.
— Já vou descer mãe, só falta eu terminar a maquiagem — Disse e sorri levemente para ela, que sorriu de volta e fechou a porta.
Minha família era estranha, mas nem sempre foi assim, éramos a família mais nobre e conhecida da cidade, fornecíamos alimentos aos mais pobres, promovíamos celebrações de caridade, éramos populares, adorados. Até que minha mãe engravidou, não foi uma gravidez fácil para ela, e muito menos pra cidade. Toda vez que minha mãe sentia contrações, algo de ruim acontecia, árvores caindo, tempestades, atropelamentos. Sendo assim, a cidade me batizou como a “amaldiçoada”, termo complicado pra falar sobre um bebê, e desde então, tudo mudou. Um tempo depois ela engravidou novamente, tendo Júlia, minha irmã caçula que pra alegria de todos nasceu “normal”, e isso amenizou um pouco as coisas para nossa família.
Desci as escadas e eles me olhavam como se esperassem que eu fosse matar alguém, quase que desejando tal coisa. Como sempre me mantive de cabeça erguida, “levante a cabeça e sorria, um sorriso muda tudo” dizia minha mãe. Todos os meus familiares vieram, até os mais distantes, todos queriam ver o que aconteceria comigo naquela noite. Meu tio Adam obcecado por mitologia, leu em algum lugar que meu dom intensificaria aos 18, e seria difícil esconder do mundo por muito mais tempo. Então lá estavam todos, esperando que um show de horrores começasse.
— Boa noite a todos, agradeço a presença essa noite. Sei que todos estavam esperando um show de horrores né tio Adam? — Olhei para ele sarcasticamente e ele abaixou a cabeça — Mas logo adianto que estou bem, me sinto ótima e espero que seja uma noite incrível — Meus pais me olhavam friamente, mas não dei importância, apenas havia cansado de viver presa e ser vista como aberração, hoje não. Fui em direção a cozinha onde a tia Mary preparava o jantar, era uma das minhas pessoas preferidas no mundo, ela me entendia e sempre esteve do meu lado quando as crises começavam, não sei o que faria sem ela.
— Ora ora quem finalmente decidiu fazer minha cheesecake — Falei rindo, ela havia me prometido a muito tempo.
— Sabia que você ia falar isso mocinha, mas não pense que por eu estar fazendo seus gostos que vou pegar leve contigo hoje — Ela disse e me sujou com cobertura — Eles estão esperando o pior pra hoje Ana, literalmente vieram ver o desastre — Seu olhar se tornou frio, ela parou o que estava fazendo e me abraçou — vai ficar tudo bem meu amor — Eu amava demais a Mary, era minha segunda mãe, apesar de minha irmã Júlia sempre se sentir ameaçada com nossa união.
— Venham todos para mesa, temos um brinde a fazer — Meu pai nos chamou para a sala de jantar. Havia um lugar para mim, com meu nome, a última cadeira da mesa. Mais uma tradição? Creio que não, provavelmente só se mantendo distantes caso algo aconteça. — Hoje viemos aqui celebrar o aniversário da minha primogênita, 18 anos de revelações, conquistas e aprendizados... — E ele começou o mesmo discurso de todos os aniversários, não o julgo, entretanto esperava mais para essa noite. — Um brinde para Ana — todos levantaram as taças e algo estava errado, meu vinho estava azul, sem reação soltei a taça no chão e todos se levantaram imediatamente.
Eu estava paralisada, sentia meu corpo todo tremer, Mary gritava meu nome, tão distante. E eu caí no chão, quase desmaiada, eu estava fora de mim, como se todas as minhas forças fossem arrancadas, os olhos assustados do tio Adam jamais sairiam da minha mente. O show de horrores que tanto esperavam teria começado? Não era eu, não era uma visão, enfim um sussurro saiu da minha boca:
—Oráculo…
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