Ops! - Sonhos quebrados
2 História de amor
Foram longas três horas de viagem até Porto Alegre, e eu dormi quase o caminho todo. Meu tio me acordou com um empurrão, avisando que havíamos chegado.
Meu corpo todo doía quando entrei, ainda sonolenta, na casa onde havia passado muitos momentos da minha vida. Tia Polly — espetacularmente parecida com minha mãe — me olhava com aqueles olhos verdes iguais aos meus: um verde claro, com pinceladas de castanho perto da pupila e um contorno escuro ao redor da íris, como uma obra de arte, com um sorriso sincero nos lábios.
Minha prima Isadora, agora com os cabelos loiro-escuros, estava mais magra. Ela vivia mudando o estilo de cabelo e agora parecia mais com a mãe do que nunca.
Isadora correu ao meu encontro e me abraçou. Senti algo tão bom quanto há muito tempo não sentia. Desde que minha mãe morrera, só abraçara meu pai.
— Senti sua falta — disse tia Polly, vindo me abraçar. — Como você está?
Assenti, meio sem graça.
— Tô bem — respondi, olhando em direção à cozinha, faminta. — Tem comida?
Tio Luís riu quando chegou com minha mala.
— Vamos almoçar — anunciou.
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Comíamos em silêncio, cada qual com seus pensamentos. Eu pensava nos meus pais. Na verdade, tentava imaginar o passado deles.
Polly e Pollyanna eram gêmeas, apesar das personalidades diferentes — e até eu as confundia quando estavam juntas. Tio Luís e meu pai eram irmãos, com cinco anos de diferença. Eles se davam tão bem que conquistaram suas esposas juntos.
— Tia — levantei os olhos em sua direção —, será que posso fazer uma pergunta?
Os três me olharam, curiosos.
— Já fez — riu minha tia —, mas pode fazer outra se quiser.
Assenti, um pouco envergonhada.
— Como foi que você e minha mãe conheceram o tio Luís e meu pai? Por que nunca nos contaram isso?
Tia Polly e tio Luís se entreolharam, como se conversassem com os olhos. Eu e Isadora observávamos, confusas.
— Conta a história, pai — implorou minha prima.
Ele balançou a cabeça.
— Nem pensar — murmurou. — Não.
Tia Polly sorriu, ternamente, só para nós duas.
— Elas já têm idade pra saber, Luís.
Meu tio ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Então conta você. — E deu de ombros.
Tia Polly sorriu, se inclinou à frente e começou a contar.
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Claro! Reescrevi o flashback na primeira pessoa, com a tia Polly narrando, adaptando para um pub mais atual, e atualizando os nomes e estilo da narrativa. Também mantive o toque emocional e a dinâmica familiar sugerida:
[Flashback – na voz da tia Polly]
— Foi na noite em que eu e sua mãe fugimos pela janela — começou, rindo da lembrança. — A gente tinha dezessete anos, e nossos pais eram do tipo que acreditava que depois das nove da noite o mundo acabava. Mas uma amiga contou de um pub novo que ia bombar naquela sexta, e não teve jeito: a Pollyanna me convenceu a irmos.
Sim, eu sei. Parece que seria o contrário, né? Que eu é que arrastaria ela. Mas a sua mãe… ela era sonhadora, romântica e cheia de curiosidade. E ela queria viver uma história diferente, dessas que só acontecem quando a gente quebra as regras.
Perto da meia-noite, pulamos a janela do quarto do segundo andar com almofadas no chão e rindo feito duas loucas. O pub não era longe. Lembro até hoje da música alta, da luz avermelhada e daquele cheiro de fritura com perfume barato.
A gente já estava há horas lá dentro, meio entediadas, fingindo se divertir com dois caras aleatórios, quando eu reparei nos dois que entraram. Um deles — moreno, cabelo bagunçado e barba rala — me olhou direto nos olhos. Era o Luís. O outro vinha logo atrás, magrelo, camiseta de banda, muito mais novo. Era o Joel.
— Anna — chamei sua mãe, puxando-a pela mão, sem nem dar explicações — Olha aquilo!
Ela levou um susto, tropeçou no salto, mas seguiu comigo.
— O que você tá fazendo? — sussurrou, nervosa.
— Confia — respondi.
A gente parou perto deles, fingindo que olhava o cardápio colado na parede. Luís foi direto ao ponto. Estendeu a mão com um sorriso que me tirou o ar.
— Luís.
— Polly — respondi. E apontei pra sua 0mãe. — Pollyanna.
Ele arregalou os olhos.
— Sério que são irmãs? E com nomes quase iguais?
— Gêmeas — disse sua mãe, com aquele sorriso tímido que ela tinha. O Joel, atrás do irmão, arregalou os olhos de admiração.
— Vocês são tipo cópias! Muito massa!
— Cala a boca, Joel — murmurou Luís, dando um tapa leve na nuca dele.
Sua mãe riu. E, pronto, estavam conversando. Ela e Joel tinham uma sintonia esquisita, como se fossem amigos há anos. Eu e Luís… foi intenso desde o primeiro olhar.
Ficamos no pub até quase amanhecer. Eu estava me sentindo viva, livre. Mas aí…
Nosso pai entrou. Sim, ele mesmo. Terno, cara fechada e olhos que pareciam furar concreto. Ele nos arrancou dali como se fosse uma operação de resgate.
No caminho, quis saber quem eram os “vagabundos” com quem estávamos.
— Luís tem vinte anos — falei, tentando defender.
— E o outro é uma criança! — gritou, se referindo a Joel. — Quinze anos?! Pollyanna, pelo amor de Deus!
— Ele já trabalha, pai! — retrucou sua mãe, indignada.
A conversa foi piorando. O sermão durou dias. E por um tempo, nem nos falamos sobre aquilo. Até que, meses depois, sua mãe resolveu contar pra nossa mãe sobre Joel. Já estavam namorando, tudo certinho.
Nossa mãe, que sempre confiou na gente, ajudou a convencer o nosso pai a aceitar o namoro das duas. E ele, a contragosto, deixou. Mas foi aí que as coisas mudaram…
Eu descobri que estava grávida.
A notícia caiu como uma bomba. Lembro de chegar em casa, trêmula, e correr pro quarto onde Pollyanna estava dobrando os lençóis com a mãe. Só consegui abraçá-la e chorar no ombro dela.
Ela entendeu tudo só pelo meu choro. Era nossa conexão. E foi ela quem me ajudou a contar.
Nosso pai surtou, claro. Quis matar o Luís. Mas depois de muita discussão e intervenção da nossa mãe, o casamento foi arranjado. Rápido, simples. Nada de vestido branco nem festa.
Dois meses depois, eu era oficialmente esposa. E sua mãe, toda certinha, só casou dois anos depois — com direito a vestido branco, igreja cheia e festa até o amanhecer. Ficou grávida logo na lua de mel. De você.
E a vida nunca mais foi a mesma.
[De volta ao presente]
— E foi assim que eu conheci seu pai — concluo, com um sorriso quase melancólico, olhando para o nada por um instante. — E sua mãe… ela era minha metade. Sempre foi.
O silêncio que se segue é denso, mas não desconfortável. Duro alguns segundos, até ser quebrado por duas vozes em uníssono:
— O QUÊ?! — exclamei, os olhos arregalados, quase saltando da cadeira.
Me inclinei para a frente, como se estivesse tentando captar melhor o ar. Isa, com a boca aberta, olha de mim para a tia, depois de volta pra mim.
— Pera… — diz Isa. — A senhora fugiu pra ir num pub? Com a mamãe?
— E conheceu o tio Luís assim? Tipo… de cara?
— E a vovó deixou?! — completei, indignada, como se isso fosse a maior heresia da história da família.
— Quer dizer… depois de um escândalo homérico, sim — tia Polly deu de ombros, com um sorriso maroto. — Mas não sem antes ameaçar expulsar a gente de casa, cortar a internet, o cabelo e o futuro.
— Meu Deus… — murmurei. — Isso é tipo… fanfic. Sério, mãe, isso parece uma fanfic dos anos 2000.
— E a senhora teve que casar correndo?! — Isa está em choque. — Isso é muito mais do que a gente imaginava. A gente achava que vocês tinham se conhecido numa igreja ou sei lá.
— Igreja foi só no casamento da sua mãe mesmo — digo, rindo. — E olha que ela quis fazer tudo certinho. Até a tal valsa dos noivos teve. Um fiasco, diga-se de passagem.
Nos entreolhamos, um misto de encantamento, incredulidade e algo mais… talvez admiração?
— Eu não acredito que minha mãe era dessas — disse, com um brilho nos olhos. — Eu achava que ela era certinha desde sempre.
— Ela era. Só que com alma de tempestade — responde minha tia, deixando a frase pairar no ar como uma lembrança boa demais pra se desfazer.
Eu ainda estava com a boca entreaberta quando tia Polly se levantou para buscar café, como se não tivesse acabado de soltar a bomba do século.
Minha mãe, fugindo pra ir num pub. Minha mãe, rebelde. Minha mãe… apaixonada.
Isa me olhou, os olhos tão arregalados quanto os meus deviam estar.
— Isso muda tudo — ela sussurrou, como se tivéssemos descoberto um segredo de estado.
E muda mesmo.
De repente, a imagem que eu tinha da minha mãe — sempre responsável, sempre calma, sempre certa — começou a ganhar rachaduras. Não do tipo que quebram. Do tipo que revelam luz por dentro.
Talvez a gente nunca conheça de verdade quem veio antes da gente. Ou talvez a gente só enxergue o que eles deixaram a gente ver.
Mas ali, ouvindo aquela história cheia de música alta, medo, risadas, e amor… alguma coisa em mim se ajeitou. Como uma peça de quebra-cabeça que eu nem sabia que faltava.
Minha mãe foi jovem. Foi intensa. Foi… viva.
E talvez, só talvez, ainda tenha um pouco disso tudo dentro de mim também.
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Tia Polly voltou com a chaleira e encheu nossas xícaras como se não tivesse acabado de revirar o universo.
— Prontas pra segunda parte? — perguntou, com um sorriso travesso nos lábios.
Isa bufou uma risada, quase engasgando com o café.
— Tia, você acabou de contar que fugiu de casa, conheceu o tio num pub e engravidou semanas depois. Não sei se estou pronta pra mais nada — falei.
— Não foi semanas, exagerada — ela disse, rindo. — Foram… uns meses.
Eu balançava a cabeça, rindo, mas sentia os olhos um pouco marejados. Não de tristeza, nem de choque. Era... outra coisa.
— Por que nunca contou isso antes? — perguntei.
Ela me encarou com ternura.
— Porque vocês ainda nos olhavam como adultos. E adultos, pra adolescentes, são meio... sem história. A gente só existe pra cuidar, mandar ou atrapalhar.
Isa sorriu. Eu sorri também.
— Mas vocês foram como a gente, né? — falei.
— Exatamente como vocês — respondeu Polly. — Com medo, com sonhos, fazendo besteira e se apaixonando do jeito mais errado que, no fim, deu certo.
— Mamãe nunca teria me contado isso — murmurei, meio pra mim mesma.
— Ela não teria mesmo — Polly sentou-se outra vez. — Pollyanna era mais reservada. E ela sempre teve esse medo de desapontar vocês... até depois de ter sido tão corajosa.
— Corajosa? — Isa arqueou uma sobrancelha.
— Claro. Sua mãe foi a única que ficou ao meu lado quando descobri a gravidez. Foi ela que segurou a minha mão quando papai quase explodiu. E foi ela que convenceu nossa mãe a conversar comigo. Isso é coragem.
A sala ficou em silêncio por alguns segundos. Mas era um silêncio bonito, daqueles cheios de amor e descoberta.
— Sabe de uma coisa? — Isa falou, de repente. — A gente devia escrever isso. Tipo, montar um diário com as histórias da nossa família. Começando por essa.
— Um diário de segredos e verdades — acrescentei.
Tia Polly riu alto.
— Se forem fazer isso, preparem espaço. Essa família tem mais segredos do que novela mexicana.
E naquele instante, eu soube que aquela viagem, aquela casa e aquele café mudariam algo em mim. Talvez eu estivesse mais perto da minha mãe do que nunca — justamente por descobrir que, no fundo, ela também foi só uma garota tentando encontrar seu lugar no mundo.
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A noite caiu de vez, e o silêncio da casa era preenchido só pelo barulho distante dos grilos e do vento nas árvores. Eu e Isa estávamos no quarto dela — agora transformado em nosso quarto —, deitadas lado a lado, encarando o teto pintado de um azul desbotado.
A luz do abajur fazia sombras suaves nas paredes, e o cheiro do café ainda pairava no ar.
— Eu ainda tô meio em choque — Isa sussurrou.
— Pela história da tia Polly?
— Pela história inteira. Tipo, minha mãe engravidou no susto, tua mãe fugiu de casa, elas iam em pub... E a gente achando que nossa vida era bagunçada.
Sorri.
— Acho que sempre pensei na minha mãe como... imutável. Como se ela tivesse nascido adulta, sabe? Pronta. Com planilhas e café forte.
— A minha nasceu com cara de "não encha o saco", eu tenho certeza — Isa riu baixinho.
Ficamos em silêncio por uns segundos, até que ela virou de lado, me encarando.
— Sério, Camila. Você acha que a gente vai virar adulta e continuar se falando assim?
— Assim como?
— Tipo... de verdade. Indo além do "e aí, tudo bem?" das festas de Natal.
Fiquei pensando. Não era uma pergunta boba. Era quase uma oração disfarçada.
— Se depender de mim, a gente vai ser aquelas tias loucas que trocam mensagens às três da manhã e mandam meme velho até os 80 anos.
Ela riu.
— E vamos contar tudo pras nossas filhas, ou esconder até elas acharem nossas cartas escondidas na gaveta?
— Acho que um pouco dos dois.
— Boa resposta.
Ela se virou de novo, de costas pra mim, aconchegando-se no travesseiro.
— Boa noite, Camila.
— Boa noite, Isa.
Pausa.
— E obrigada por hoje.
Sorrio no escuro.
— Eu que agradeço.
E antes que o sono me vencesse, pensei na tia Polly, na minha mãe, em como o passado às vezes aparece como um presente embrulhado de forma esquisita. Às vezes, ele assusta. Outras, aquece.
Naquela noite, aquecia.
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