Opposite

2 Simples Favor


Olho para as agitadas ruas de Manhattan pela janela, pressionando minhas pequenas mãos contra a lustrosa escrivaninha de madeira. Estou tão nervosa que tenho de lutar contra a vontade de esmurrar meu irmão mais velho. Se bem que Logan é bem mais forte do que eu e isso seria praticamente impossível.

– O que eu preciso fazer para você me deixar em paz? – Pergunto com um quê de grosseria, esperando por uma resposta que resolva a situação.

– Me empreste seu carro, por favor. – Ele implora de novo, só me deixando cada vez mais irritada.

– Não mesmo. – Sou direta. – Não é culpa minha que você conseguiu bater o seu pela milionésima vez.

É incrível como pode ser irônico o amor entre dois irmãos, especialmente o meu e de Logan, sinceramente. Apesar da clara diferença de idade, conseguimos brigar todo santo dia. Mas juro pela minha própria vida que a maioria das brigas é ele quem começa. Exatamente como essa.

– Chame um táxi. – Sugiro, rosnando.

– É sexta-feira à noite, Emily. – Logan me encara como se estivesse dizendo a coisa mais óbvia do mundo. – O táxi demoraria para chegar até aqui, por causa do trânsito, e eu estou com pressa.

– O problema é seu, resolva-o sozinho. – Estreito meus olhos e cruzo meus braços, numa tentativa falha de parecer ameaçadora. É claro que de ameaçadora eu não tenho nada, mas não custa tentar, afinal, preciso realmente estudar para as provas da semana que vem e Logan está me atrapalhando. – Agora me deixe em paz que preciso devorar esse livro enorme de Biologia.

– Sempre nervosinha... – Meu irmão me caçoa, para variar.

– Nervosinha?! Acredite Logan, estou muito além disso. – Digo e dou uma pancada na escrivaninha, furiosa.

É uma típica noite de sexta-feira e estamos tendo uma típica briga pelo carro. Acontece que Logan conseguiu bater o dele pela quarta vez no ano, e olhe que ainda estamos em março. Como é sexta, quer sair, apesar de não ter como. Aparentemente nosso pai foi encontrar a namorada, e levou seu carro. Com isso, sobrou só o de quem? Sim, o meu.

– Caramba, Emily! Nunca te peço nada... – Ele diz a maior das mentiras, descaradamente.

Por um momento, flashbacks de minha semana passam por minha cabeça. Lembro-me de ter lhe dado uma carona para o trabalho na segunda-feira e outra, na quinta. Também me lembro de ter lhe emprestado meu Ipod – Apesar de sermos inseparáveis. –, na terça, porque havia esquecido de carregar o seu e não podia ir para academia sem ouvir sua preciosa música. Além disso, fui buscar lanche no drive thru do Mc Donald’s especialmente para ele, umas três vezes na semana. E Logan ainda tem a coragem de dizer que nunca me pede nada!

– Tem certeza disso, Logan? – Pergunto ironicamente, fechando minhas mãos em punhos. Mas ele não responde, justamente porque sabe que está errado! Dá um sorrisinho amarelo e volta a insistir, como se eu nunca tivesse dito não.

Decido ignorá-lo e fingir que estou lendo um dos meus enormes livros de Biologia já que é impossível me concentrar de verdade com o meu irmão irritante ao meu lado implorando por mais um favor.

Talvez se fingir que não exista, talvez ele se canse e vá embora. – Penso comigo mesma, lembrando de algo que vi na televisão sobre educar filhos. O que eu não esperava era ter de usar essa técnica com o meu irmão mais velho, mas tudo bem.

A coisa parece funcionar já que Logan finalmente para de falar e passa a encarar o chão com um olhar derrotado.

– Ems, eu preciso estar nessa festa... – Ele suspira, parecendo falar sério pela primeira vez na conversa.

Sinto uma certa pena, mas ao mesmo tempo minha paciência passa dos limites e então explodo. Realmente preciso focar minha atenção nos estudos e recuperar minhas notas, já que durante esse ano letivo elas foram péssimas.

– Não. Chega! – Berro, não me importando se os empregados escutam ou deixam de escutar. Há esta altura já devem estar bem acostumados às minhas discussões e de Logan. – Eu preciso estudar, saia já daqui.

Levanto de minha cama e o expulso do meu quarto, apelando para tapas, almofadadas e socos. Estou extremamente furiosa e cansada por não ter tido nenhum progresso na Biologia desde que Logan entrou.

Meu irmão olha para mim com indignação, mas sei que é puro fingimento. No fundo, ele sabe bem como sou uma garota explosiva e grosseira, na maioria das vezes.

– Emily, qual é o seu proble... – Logan começa a reclamar, mas não termina. Eu fecho a porta em sua cara e a tranco, sem hesitar.

***

Encaro, através da janela do carro, as iluminadas e lotadas ruas de New York, com um peso enorme na consciência. Eu deveria estar estudando, afinal.

Finalmente chegamos a um grande estacionamento, que se encontra parcialmente lotado. Tamborilo meus dedos na porta, extravasando minha ansiedade e remorso. Não adianta nada me arrepender agora, Logan não me levará para casa mesmo...— penso, com uma pontada no estômago.

Não sei porque, mas alguma coisa no ar me diz que não deveria ter saído de casa. Para falar a verdade, estou com um péssimo pressentimento. Ou talvez seja meu pessimismo de sempre.

– Ótimo! Alguém pode, por favor, me explicar o que estou fazendo aqui mesmo? – Pergunto, ironicamente.

– Me ajudando. – Logan responde, estacionando meu carro em uma vaga qualquer.

Sim, pelo visto concordei em emprestar a porcaria do meu carro. E pior, resolvi vir junto à tal festa. Bem eu, uma jovem que prefere o Netflix a eventos sociais. Mas a verdade é que tem um acordo por trás disso tudo.

Logo após que bati a porta na cara de meu irmão mais velho, ele continuou a me irritar pelo celular. Mandou um milhão de mensagens, dizendo que precisava se resolver com uma garota que estaria na tal festa e que se eu o ajudasse, nunca mais me pediria nada. Nem mesmo o carro, ou qualquer outra coisa. E estava até planejando ficar uns dias fora de casa, mas só se eu ajudasse.

De princípio, achei muito estranho que Logan estivesse tão preocupado com uma garota, mas com tudo o que disse, dava para ver que era algo sério desta vez.

Senti uma ponta de pena e a recompensa era para lá de tentadora, então eu aceitei. Qual é? É só aguentar a festinha e pronto: Nada de favores para Logan pelo resto da vida.

Me olho no espelhinho do carro, amaldiçoando meu irmão por ter me feito vir com o vestido mais curto do guarda roupa.

– Você está lindona, fica tranquila. Dá até pra acabar arrumando uns...

– Cale-se, por favor. – Corto-o, seca.

– Eu ia dizer “amigos”.

– Vai lá saber qual é o seu conceito de amizade... – Murmuro, impaciente.

Esqueci de mencionar a parte que sou totalmente diferente de meu irmão. Ele é o cara popular, amigo de todo mundo, descolado e cobiçado por todas as garotas. Mas eu não. Eu sou simplesmente o oposto de Logan. Sou mais quieta perto dos outros, tenho poucos amigos e não gosto de festas. E não, os garotos não gostam de mim. Mas já estou acostumada a ser assim... Quer dizer, não invejo Logan. Muito pelo o contrário, às vezes tenho até um pouco de pena. Se ele continuar do jeito que é, dependerá do dinheiro de nosso pai para sempre. E depender de dinheiro de alguém não é legal. Principalmente do dinheiro do meu pai.

Meu pai, uma pessoa muito ocupada, muito mesmo. Do tipo que não tem tempo de olhar na cara dos filhos. Isso sem falar naquela namorada nojenta que ele arrumou e que tem idade para ser minha irmã.

Enfim, voltando à festa. Sei que Logan não precisa da minha ajuda para se resolver com uma garota, tudo o que ele quer, na verdade, é só o meu carro. Por isso achei muito estranho quando começou a implorar para que eu o acompanhasse.

Desconfio que ele tenha vergonha de ter uma irmã esquisita, que prefere ficar em casa a sair na sexta-feira à noite. Talvez seja por isso que eu tenha vindo, só para parecer ser uma adolescente normal perante Logan. E além do mais, quem sabe eu não acabo me divertindo? Se bem que as chances de isso acontecer são mínimas...

Com um pulo, sou acordada de meus pensamentos com Logan batendo no vidro de meu carro. Já está lá fora e eu nem percebi.

***

Meus olhos examinam cada detalhe da enorme danceteria, que apesar de espaçosa e luxuosa, não combinam nem um pouco comigo. Está praticamente lotada de pessoas que se vestem extremamente bem e que de repente fazem me sentir simples demais. Algumas delas dançam, outras estão no bar, outras conversam e também noto alguns casais nos cantos, como em uma festa qualquer.

Suspiro, reprimindo uma vontade enorme de correr de volta para o meu carro. Acho que nunca vou conseguir gostar de uma coisa dessas...

– Esse lugar é... – Digo, tentando encontrar a palavra mais repugnante para descrever a boate.

– Incrível. – Logan me interrompe.

Reviro os olhos, arrumando meu vestidinho preto e não acreditando que Logan havia conseguido me fazer entrar na festa. Menores não eram permitidos, mas ele simplesmente subornou os seguranças. O que mais me deixa indignada é saber que é meu irmão mais velho quem está me induzindo a infringir leis. Um irmão mais velho normalmente implica com você, se descobre que está fazendo coisas erradas e não pede para você fazê-las.

Sinto-me esquisita e totalmente deslocada quando várias pessoas passam para cumprimentar meu irmão e consequentemente a mim.

Quando estamos sozinhos de novo, Logan olha para mim com uma expressão esquisita.

– Ems, tem mais uma coisa que eu preciso te contar. – Ele anuncia, de uma hora para outra.

Sinto, de repente, outra pontada no estômago. Eu sabia que tinha algo errado. Ele não ia querer me trazer para a festa sem um propósito.

– Diga.

Logan olha para os lados, nervoso, e então me faz um gesto para segui-lo.

Anda até a parte mais deserta e mais silenciosa da boate, perto dos banheiros. Confesso que não estou gostando nada disso.

– O que você fez agora? – Pergunto, impaciente. – Vai me dizer que a garota não está aqui?

Ele olha para os pés, como se estivesse com medo de me contar. Apesar de ser o irmão mais velho, Logan é o mais calmo. Eu sou a mais explosiva e exagerada na maioria das vezes e acho que é por isso que está meio receoso.

– O que foi? É comigo? – Pergunto, tentando realmente me controlar. – Estou te envergonhando? Posso voltar para casa, se quiser...

– Não é nada disso, Emily! – Balança cabeça e volta a olhar para mim, mais sério desta vez. – Por favor.... Não me estapeie em público. Pode fazer isso depois, mas não aqui. Por favor. E não saia correndo quando eu terminar de falar. – Logan começa, fazendo-me estremecer. – Bom, não te chamei aqui só pelo carro ou pela companhia.... Na verdade, tinha chamado um colega pra vir comigo nessa festa, mas como preciso resolver as coisas com a tal garota... Entenda, Em, não podia deixá-lo sozinho, eu devo uma pro cara. Ele me tirou de uma encrenca. É o seguinte, você fica aqui com Luke e eu vou encontrar a Faith... Depois eu passo aqui e...

Com um sobressalto percebo que fui enganada. A fúria por ter sido traída, no intuito de ajudar meu irmão, me enche e eu fecho minhas mãos em punhos instantaneamente.

– Logan! Você está querendo dizer que quer que eu faça companhia pro seu colega?! – Digo, furiosa. Estou gritando e não ligo se as pessoas ao redor estão olhando. – Você me tirou de casa, dos meus estudos só para dar uns amassos com o seu colega, que por sinal eu nem sei quem é, para você ficar livre para uma garota, que eu também não sei quem é?!

Ele fica envergonhado com o meu surto e aperta meu braço.

– Não disse que era para você dar uns amassos com Luke.... É pra você entretê-lo, fazer companhia do melhor jeito que você imaginar. – Ele diz e dá uma risada nervosa.

Eu cubro meu rosto com as mãos e respiro, contando até dez.

Logan sabe muito bem um que sou mais calada que uma porta com estranhos. Principalmente com pessoas como ele, da alta sociedade, conhecidas e cobiçadas. Não é só a timidez, eu simplesmente não tenho assunto. Fora que não sou uma menina bonita e.... não sei lidar com garotos. Pronto, eu admito.

– Quem é Luke, afinal?

– É um cara bem legal que conheci há pouco tempo. Ele também não é muito de falar.... Vocês vão se dar bem. – Ele diz com um otimismo que me irrita.

Penso em desistir, em sair correndo e voltar para casa, mas sou lembrada da promessa feita por Logan, que não me pediria mais nada.

Parece uma promessa boba, não é? Mas essa não é a primeira vez que ele me usa para conseguir o que quer. Já pediu para que eu fizesse coisas muito piores, e eu estou cheia disso.

– Que seja. É melhor que eu seja muito bem recompensada.

Ele se alegra e sorri, mostrando seus dentes brilhantes como se fizesse parte de um daqueles comerciais de creme dental. Finalmente, olha para o celular que toca irritantemente.

– Eu combinei com Luke de nos encontrarmos perto do bar. Fique lá e diga que não pude vir por causa do trabalho. – Diz, meio apressado.

– Vá logo se acertar com a sua namoradinha. Deixa comigo.

Meu irmão empurra alguns dólares para as minhas mãos, com pressa, sorri novamente e atende o celular, dirigindo-se para a saída.

Permaneço no mesmo lugar, observando seus movimentos. E quando ele sai, volto a cobrir meu rosto com as mãos.

***

Estou parada em frente ao bar esperando o tal de Luke.

Encosto-me no balcão, estudando os diferentes tipos de bebida expostos nos enormes e finos armários de madeira, ao fundo. O barman me pergunta se quero alguma coisa e eu respondo que não, me sentindo o ser mais idiota do mundo. Quer dizer, que tipo de pessoa, fica observando os rótulos das bebidas em uma festa?!

Diante desse pensamento, passo a observar as pessoas e sinto-me totalmente ridícula, quando uma loira de corpo escultural e cabelos ondulados passa o meu lado, exibindo seu lindo vestido azul turquesa.

Cruzo os braços e amaldiçoo meu irmão ao perceber que a loira é Stacey Richards, uma garota estúpida de minha classe. Além de ser excessivamente burra, quer se aparecer em qualquer ocasião. Usa uma roupa mais polêmica que a outra, na escola. E fora isso, me odeia.

Baixo a cabeça, torcendo para que ela não me veja, mas é inútil.

– Emily Parker? É você mesmo, querida? – Sua voz irritantemente fina ecoa em meus ouvidos.

– Oi Stacey. – Digo, sem vida.

Ela me avalia da cabeça aos pés, com um olhar de pena e zombaria e eu contenho a vontade de estrangulá-la.

– O que você está fazendo aqui? Não sabia que você vinha a esse tipo de festa. – Diz, dando uma risadinha.

Dou um sorriso forçado e digo a primeira coisa que vem à minha mente.

– Tenho um encontro.

Não acredito no que acabo de dizer, mas fico com raiva quando Stacey parece chocada. Ela até tenta me colocar para baixo.

– Interessante.... Não me diga que é um dos nerds da classe de Matemática.

– Não mesmo.

Não sei o que dizer, afinal, nem sei como é o tal Luke. E pior, ele pode estar prestes a chegar e eu aqui dizendo que estamos saindo. Devo ter mesmo sérios problemas.

De repente os olhos frios de Stacey passam para alguém atrás de mim e eu suspiro com alívio. Finalmente me livrarei dessa garota! Espero até que saia, mas para a minha surpresa, ela não o faz.

– Emily? – Uma voz masculina me faz saltar.

Olho para trás e vejo simplesmente o cara mais bonito da face da Terra. Ou talvez eu só esteja exagerando como sempre, mas que é lindo, é. É alto, forte e tem olhos verdes. Sem falar nos cabelos pretos, barba por fazer e jaqueta de couro preta.

– Desculpe pela demora. – Ele sorri e pega minhas mãos, me deixando completamente confusa.

Completamente confusa mesmo, como se uma onda de energia fluísse, dele para mim. Como se nos ligássemos.... Como se eu tivesse levado um pequeno choque, mas um choque bom. Algo que nunca senti ao tocar uma pessoa.

Por Stacey estar ali, resolvo fingir que sou normal. Dou uma olhadela para o lado e sou obrigada a segurar uma risada. Stacey está com os olhos arregalados, tão confusa quanto eu. E sem saber o que dizer, o cara gato e misterioso diz por ela.

– Pode nos dar licença?

– Claro. – Ela gagueja, e saí batendo os pés.

Espero até que Stacey se afaste e solto as mãos, envergonhada. Abaixo minha cabeça, com raiva por estar corada.

Afinal, por que aquele cara tão lindo estava tentando me ajudar a quebrar a cara da Stacey? Por que nosso toque é tão... diferente. Quero perguntar isso e outras 1001 coisas para ele, mas nada sai. Nada mesmo.

E então ele diz uma coisa que me deixa chocada.

– Olá, eu sou Luke.

– O amigo do Logan?! – Pergunto, soando idiota.

É claro que ele ri.

– Sim, acabei de ver a mensagem do seu irmão. Ele me deu um bolo e tanto, hein? Mas tudo bem.... Posso te deixar em casa se você quiser.

– Por que me ajudou? – O ignoro completamente. – Porque disse que estava saindo comigo?

Ele parece confuso, mas mesmo assim responde.

– Eu ouvi a sua conversa e daquela garota e achei que precisava de uma ajudinha.... Quer dizer, é claro que você não ia se encontrar com alguém.

Luke acaba de usar as palavras erradas comigo, atacando meu ego mais do que frágil.

Preciso dizer que fiquei ofendida? Talvez um pouco. Ou talvez, totalmente! O que Luke está pensando? O cara acaba de me conhecer e já chega jogando certas verdades na minha cara. Quem ele pensa que é?

Sei que não devo dizer nada, mas como sou estúpida o bastante, digo.

– Eu não precisava da sua ajuda, nem da de ninguém. Se você está insinuando que eu não tenho capacidade para sair com um cara, está muito errado.

Ele fica sério, e isso me deixa mais nervosa ainda. Tenho certeza de que vai me chamar de louca ou coisa pior, mas ele começa a rir. Ou pior, gargalhar.

– Ei, qual é o seu problema? Estou falando sério!

– Você é uma criança. – Ele diz, entre as risadas.

Conversar e entreter tudo bem, mas não estava me lembrando da parte em que Logan havia pedido para eu ser duramente humilhada por um carinha bonitão.

– Ótimo! Vai continuar a me ofender? – Pergunto, o fazendo rir ainda mais.

Cruzo os braços e saio, deixando-o rindo sozinho. Idiota! Que direito ele tem de zombar de mim desse jeito?!

Estou completamente irritada e arrependida de ter vindo para essa festa ridícula, com todas essas pessoas ridículas. Não aguento nem mais um segundo nesse lugar!

Pego meu celular e disco o número de Logan, mas pelo meu desespero, ele não atende.

– Ei, Emily. – Luke me chama, mas eu o ignoro. Me chama mais umas três vezes, mas eu continuo fingindo que não estou escutando.

Então ele me puxa pelo braço, obrigando-me a encará-lo.

– Vamos, vou te dar uma carona até sua casa. Logan me disse que você estava aqui para substituí-lo, mas não acho que você deva fazer isso.... Quer dizer, quantos anos você tem?

Ele está me zombando de novo.... Caramba, onde estão mesmo todas as minhas frases feitas que eu sei na ponta da língua?!

– Obrigada, mas não preciso de carona. – Digo, tentando manter o que resta de minha dignidade e saio de nariz empinado.

***

Desço os degraus até a rua, ainda não acreditando que aceitei a carona de Luke.

Normalmente sou uma pessoa extremamente orgulhosa e não aceito nada de alguém com quem eu tivesse discutido. Acontece que estou tão cansada que acabei cedendo.

Luke caminha silenciosamente, e eu o sigo. Nos afastamos cada vez mais da boate, até a música se silenciar. Estranho um pouco, afinal, quem estacionaria o carro tão longe assim?

– Onde está o seu carro? – Pergunto, meio constrangida.

– Naquela ruazinha bem ali. Na hora em que cheguei não tinha lugar para estacionar.

Olho de soslaio para ele e percebo que está bem nervoso, o que é estranho. Há poucos minutos atrás, estava gargalhando e agora está irritado. Talvez o cara seja bipolar ou algo do tipo.

Tento imaginar qual tipo de confusão Luke havia livrado meu irmão e penso até em perguntar, mas então decido ficar calada.

Seu celular de repente toca, quebrando o silencio. Luke hesita antes de atender e se volta para mim.

– Eu preciso mesmo atender. Vá andando até o carro, que irei logo atrás.

Acho tudo muito estranho, mas concordo com a cabeça e saio andando. A ruazinha sem saída é escura e tenho a leve impressão de não ser um bom lugar para uma garota de dezesseis anos estar.

Como não quero deixar Luke mais irritado do que já está, continuo andando e procurando por seu carro. Não estou com medo daquela rua sinistra e deserta, mas também não me sinto segura.

Apresso-me, olhando por tudo quanto é canto. Mas é aí que, com um sobressalto, eu percebo: Não há carro nenhum. Se não há carro nenhum, então por que diabos Luke havia me mandado vir até aqui?

Arregalo meus olhos e penso em correr, mas antes que possa colocar qualquer plano em prática, sinto braços me envolverem por trás e me colocarem contra a parede.

Levo um susto e tento me livrar, o que é inútil, já que quem está me segurando é muito mais forte do que eu. Tento gritar, mas minha voz não sai. Nada sai.

A pessoa misteriosa me vira e me coloca contra a parede. E é com o horror que eu percebo que é Luke, só confirmando o que eu já pensava sobre ele ser bipolar ou ter más intenções em me trazer a essa ruazinha deserta.

Luke parece mais nervoso do que antes e segura uma adaga brilhante. Ou talvez eu esteja tão nervosa e imagine que ela brilhe. A adaga gélida toca o meu pescoço, fazendo meu corpo estremecer.

Então ele estava me enganando esse tempo todo! E eu nem percebi. Praguejo em minha mente, xingando Logan e todas suas ideias malucas. Confesso que agora sinto muito medo.

– Luke. O que você está fazendo?! – Arquejo, extremamente assustada.

– Não vou machucá-la. – Ele começa a dizer. – Só quero que me diga onde ela está.

– Quem, Luke?!

Ela quem?! Do que diabos Luke está falando? Estou começando a entender tudo. Meu irmão tinha me mandado sair com um maluco. Que ótimo.

– Você sabe de quem eu estou falando, não me admira que esteja fingindo. – Luke sussurra, me pressionando cada vez contra a parede.

– Por favor, Luke, me solta! Você está me machucando.

– Vou soltar, mas me diga... onde...

– Não sei! Não sei de quem você está falando e nem onde está! – Falo com pavor, mas não me contenho e pergunto. – Você por acaso tá drogado?!

Ele estremece, me apertando ainda mais. Se eu conseguisse soltar pelo menos um de meus braços, talvez pudesse golpeá-lo.

– Estou falando da filha perdida de Blake Darkbloom, a rainha negra. Sei que você a conhece e sei também que está tentando me enganar, feiticeira branca.

Juro que não sei de nada do que Luke fala e tenho certeza de que é louco. Estremeço ainda mais, temendo o que possa fazer comigo..., mas quando diz o nome “Blake Darkbloom”, é como se meu corpo arrepiasse. Como se tivesse levado um choque.

Eu lembro desse nome, de algum lugar. É claro que não digo nada a Luke, ele provavelmente acharia que eu sou uma ameaça. Mais do que já parece achar.

– Não sou feiticeira. Isso é um engano. – Entro em seu jogo.

Havia visto em um filme que a melhor maneira de lidar com um louco, é entrando em sua loucura. Parece que é hora de testar essa teoria.

– É sim! Eu venho observando-a.... – Luke começa a gritar, mas é interrompido.

Um rosnado alto e feroz, vindo das proximidades nos faz pular. Luke afrouxa suas mãos, em torno de meus pulsos e eu, felizmente, consigo me soltar e correr para longe.

Para a minha surpresa, Luke não vem atrás de mim. Ele para, como se estivesse ouvindo e tentando adivinhar de onde vinham os rosnados.

– Emily! – Ele grita, mas eu o ignoro. Quero mais é dar o fora daqui.

Não sei como consigo correr com os saltos enormes que estou usando, sério mesmo. Talvez seja a adrenalina. Estou tão cheia dela que simplesmente não paro e muito menos olho para trás. Estou prestes a virar a ruazinha, quando me deparo com três enormes cães. Na verdade, parecem lobos.

Eles são realmente grandes e assustadores, como se não fossem reais e não sei o que fazer. Paro de correr imediatamente, quase caindo por me desequilibrar nos malditos saltos. Fico parada, encarando aos lobos enquanto eles me encaram de volta. São negros como a noite e seus dentes são excessivamente grandes e afiados, assim como suas garras.

Um deles se prepara para saltar e com um reflexo, cubro meu rosto com as mãos, esperando pela dor. Mas nada acontece. Não comigo.

Escuto o ganido do lobo e abro meus olhos. Ele está caído no chão, completamente ferido. E Luke, com sua adaga suja de sangue, já está lutando contra os dois outros lobos.

Fico paralisada, assistindo Luke esfaquear à sangue frio os dois enormes lobos. Ele é ágil e, por incrível que pareça, mais rápido que os animais. Como estão assustados, os dois lobos ajudam o ferido a se colocar em pé e somem em meio à escuridão.

Luke se vira e com a adaga e os braços cobertos de sangue, olha para mim.

Descubro que tenho estômago fraco, ou só esteja mesmo com muito medo e muito confusa. Tanto, que esqueço de fugir.

– Emily, você está bem?

Não entendo realmente o que ele quer dizer com “você está bem? ”. Primeiro o cara coloca uma adaga no meu pescoço, tenta arrancar informações de mim, diz que eu sou uma feiticeira e depois ele me defende e ainda pergunta se estou bem. Mas não quero discutir, então apenas respondo:

– Acho que sim.

Ele balança a cabeça, como se não entendesse e chega mais perto de mim. Tento recuar, sem que perceba.

– Por que não se defendeu dos lobisomens?

– Como?

Penso ter escutado errado, mas eu sei que Luke falou “lobisomens”. É só difícil de acreditar. Olho para o céu e me assusto com a Lua Cheia, confirmando o que temia.

– Lobisomens.... Também conhecidos como Filhos da Lua, pois quando a Lua Cheia...

– Eu sei o que são lobisomens. – Interrompo-o. – Só não sabia que existiam.

Luke parece intrigado com minhas últimas palavras. Então ele simplesmente pergunta:

– Que tipo de feiticeira é você, que não sabe da existência de lobisomens?

Balanço a cabeça, negativamente. Acho que Luke ainda não entendeu, que não sou uma feiticeira.

– Não sou uma feiticeira. Nada disso existe, ok?! – Digo, com firmeza.

– Você é uma feiticeira, sim. Isso eu posso ver e sentir.... Quando te toquei, na festa.... Eu soube que era uma delas. Das feiticeiras brancas.

Percebo que Luke está se referindo à sensação esquisita que senti quando nos tocamos. Por mais que pareça absurdamente louco, tudo faz um pequeno sentido, mas não quero pensar em nada disso agora. Esse assunto maluco só está me deixando cada vez mais aborrecida e cansada. Penso em ligar para Logan, mas são poucas as chances de ele atender.

– Chega. Luke, por favor, me leve para casa.

Para a minha desgraça, ele não responde. Fica parado bem em minha frente, estudando meu rosto. De repente nossos olhos se encontram e sou obrigada a olhar para baixo, envergonhada.

– Uma feiticeira criada por humanos. – Ele diz, quase que gritando. – Você foi criada por humanos! Não faz ideia do seu passado...

– Luke! – Grito, constrangida e irritada. – Quero ir para casa.

Ele anda de um lado para o outro, como se eu não tivesse falado absolutamente nada. Estou tão nervosa à ponto de ter um ataque, mas é claro que me controlo.

– Você não entende, eu preciso da sua ajuda.... É a única pista que eu tenho para encontrar...

– E eu preciso da sua! Por favor, me leve para casa. – O interrompo, rude.

– Tudo bem! Mas ainda não acabamos esse assunto.

Ele para de me ignorar, e felizmente anda até o carro, que por sinal está na rua de cima.

Fico parada, imaginando se devo mesmo ir com esse louco, mas acabo entrando no carro. Não tenho outra escolha, afinal.