Opposite
21 Reencontros Inesperados
Notas iniciais

Esfrego minhas mãos no tecido áspero de minha calça, tão nervosa e confusa quanto jamais estive. A última coisa que eu poderia imaginar é que minha melhor amiga humana está envolvida nisso tudo, nessa enorme confusão. Minha melhor amiga não tão humana assim, quero dizer.
Encaro Rachel, lembrando-me da última vez em que nos vimos. O dia em que me apresentou à Nina e então tudo começou.
Ela parece tão diferente do que era e não digo apenas no físico. Rachel, que costumava ser tão insegura de si, já não é mais a mesma. Vejo bravura em seus olhos, como jamais vi. Não sei se foi se foi por conta própria, ou porque foi obrigada a isso, mas Rachel se transformou em uma guerreira.
Estou muito contente em revê-la, apesar de sentir uma parcela de desconfiança e frustração por ter sido, aparentemente, traída por minha amiga.
Seus cabelos louros que sempre foram tão longos e ondulados estão na altura de seu queixo e não deixo de notar as várias cicatrizes e hematomas espalhados pelo seu corpo.
Ela dá um passo na minha direção e os lobos ao seu redor a acompanham, na defensiva. Como se eu fosse fazer algum mal à minha melhor amiga... Se bem, que eles têm sua parcela de razão, já que agi de forma violenta todas as vezes que nos encontramos...
Ainda a encaro boquiaberta, sem me mover. Rachel vai se aproximando cada vez mais e eu noto lágrimas brotando em seus olhos.
– Por favor, me diga que não sabia de tudo isso por todos esses anos... – É a única coisa que consigo dizer e acaba soando um pouco mais ríspido do que eu espero.
Rachel para de andar no mesmo momento e balança a cabeça em negação, para o meu alívio. Porém, agora suas lágrimas escorrem pelo seu rosto e eu me sinto um tanto culpada por isso.
– É claro que não sabia, Emy! Se soubesse sobre Opposite, sobre você, não hesitaria em contar! – Ela suspira. – E só para você saber, me tornei lobisomem depois do seu desaparecimento.
A culpa vem como um soco no meu estômago e agora sou eu quem se aproxima. Chego mais perto de minha amiga e a envolvo com meus braços.
A abraço com força e não consigo dizer mais nada. Não tenho forças para me desculpar pelo meu desaparecimento e nem coragem para perguntar como se transformou em lobo.
– Depois que li sua carta me senti tão preocupada, Emily. Eu simplesmente não soube o que fazer... Pensei que nunca mais fosse voltar a vê-la. – Rachel se afasta um pouco, limpando suas lágrimas com uma de suas mãos.
– Me desculpe, Rach! Eu não queria que fosse assim. Tudo aconteceu tão rápido e quando me dei conta, era hora de partir. Tentei entrar em contato de todas as formas, mas você não atendia o telefone... Você não faz ideia do quão culpada me senti por ter ido embora sem dizer absolutamente nada.
Coloco uma de minhas mãos em seu ombro, como forma de consolação.
– Não precisa se desculpar. – Ela diz, já se recompondo. – Eu sei de tudo pelo que você vem passando e não seria justo se eu a culpasse. O que estou querendo dizer é que a culpa não é sua no fim das contas. Você não pediu para que nada disso acontecesse.
De certa forma, suas palavras fazem com que eu me sinta mais leve, apesar de continuar extremamente curiosa pelo fato da minha melhor amiga ser uma licantropo.
– Você não sabe o quão feliz estou em revê-la! Apesar de não querer que isso acontecesse nessas condições... – Digo, fazendo uma pausa. Logo depois continuo a dizer. – Não queria perguntar, mas por acaso Agramon Illuminati é o seu líder?
Tenho um tanto de receio pela resposta e encaro o chão esperando que seja negativa.
– Não, claro que não! Somos contra Agramon e seu exército de demônios... Nosso líder é alguém que também a procura, Emily. Alguém que nos mandou para buscá-la.
Isso me alivia de certo modo, exceto pela parte que o líder dos lobos também procura por mim e para ser sincera, não sinto a menor vontade de conhecê-lo.
– Então é mesmo verdade sobre Agramon ter um exército de demônios... – Murmuro, chateada. – Estamos todos perdidos, não é mesmo?
– Não totalmente. – Ela diz, com um sorriso animado em seus lábios. – Ainda temos uma chance.
Isso me pega de surpresa por um momento e eu arregalo os olhos com a surpresa.
– Temos?
Rachel não responde minha pergunta, mas vira-se e encara aos lobos ao seu redor, com um sorriso sugestivo nos lábios, coisa que não entendo. Depois, volta-se para mim novamente.
– Temos. – Ela concorda, com toda a certeza do mundo. – É por isso mesmo que nosso líder a quer.
Tenho uma certa impressão de que isso tem a ver com o que meu pai sempre me diz quando nos encontramos nos meus pesadelos: sobre eu ser poderosa. E sobre eu ser a chance de dominar Opposite. No caso, para Rachel, ser a chance de destruir meu próprio pai. Isso tudo é tão insano!
Antes de conhecer meus dons de feiticeira negra, eu não conseguia ver tanta grandeza nos meus poderes. Eu sempre fui sim, um pouco mais forte, mas não acreditava que era forte o suficiente a ponto de dominar duas nações de feiticeiros, fora as outras criaturas, ou então, destruir um exercito inteiro de demônios. Porém, agora, sabendo sobre minhas origens e meus verdadeiros poderes, tudo faz um certo sentido.
Talvez Rachel ou Agramon estejam certos sobre mim e sobre minha força. E talvez acreditar no meu potencial seja uma boa ideia, embora a ideia ainda me assuste um pouco.
Dezesseis anos vivendo à sombra das pessoas e completamente do nada me surgem centenas de responsabilidades e vidas para salvar. Não é fácil saber que praticamente tudo depende de você.
– Promete que ele não vai me machucar? Digo, o seu líder. – Pergunto a Rachel, um pouco receosa.
Um sorriso ilumina o seu rosto e os lobos ao nosso redor se agitam, como se estivessem prestes a alcançar o seu objetivo principal.
– Prometo. – Ela diz. – Você não sabe o quão contente ficará em vê-la. Acredito que você também fique.
Contando com o fato de que eu odeio conhecer gente nova, principalmente pessoas misteriosas que mandam dúzias de lobisomens atrás de mim sabe-se lá para quê, acho que não, não ficarei contente. É claro que meu bom senso me impede de dizer isso à Rachel.
– Tudo bem. – Digo, relutante. – Vou confiar em você.
– Não vai se arrepender. – Ela diz e anda até os lobos, dando a entender que vai se transformar novamente. – Apenas nos siga.
Corro até o filhote de dragão, meu novo parceiro de briga que parece completamente confuso com tudo o que está acontecendo, e escalo suas escamas novamente. Envolvo parte de suas costas com os braços, dando-lhe um tapinha carinhoso.
– Hora de seguir os lobos. – Sussurro.
Ele rosna soprando um pouco de fogo, querendo dizer que está preocupado e que não é uma boa ideia seguir os licantropos. Talvez não seja mesmo, mas não tenho o que discutir. Preciso libertar Peter, nem que isso signifique ter de enfrentar o líder dos lobos.
Eu acredito em Rachel, porém tenho minhas dúvidas. Desde que minha vida virou de cabeça para baixo e eu descobri não ser quem eu sempre pensei que fosse, passei a desconfiar de absolutamente tudo o que acontece. Estou sempre com o pé atrás e provavelmente seja melhor assim.
– Calminha, garoto. – Acalmo o dragão, sem muita certeza do que estou dizendo. – Vai dar tudo certo.
Olho para frente e percebo que Rachel ainda está em sua forma humana. Sem esperar mais um segundo, aproveito a oportunidade para perguntar:
– Ei, Rach! Como você se transformou? – Tento ser o mais direta possível.
Ela olha para mim e morde seu lábio inferior, como se não quisesse falar sobre isso. Ou melhor, como se não soubesse como falar sobre isso. De repente sinto que não devia ter perguntado.
– Eu contarei mais tarde. É um tanto complexo... Envolve outras pessoas. – Rachel diz e faz uma pausa. Ela parece um tanto pensativa quando volta a falar. – A propósito, tem alguém conosco que você vai gostar de ver.
Suas palavras me fazem arrepiar e eu não faço a menor ideia de quem esteja falando. Me pego pedindo pela minha amiga humana de volta e me sinto culpada por isso, afinal, como amiga, devo aceitar Rachel independente do que seja.
E então, com um salto, a garota de cabelos curtos e claros se transforma num enorme lobo. É algo inacreditável e tenho de estreitar os olhos para ter certeza de que estou mesmo vendo uma garota tão delicada virar um animal tão bruto.
Todos os lobos passam a correr e adentram a mata. Meu amigo dragão parece um pouco relutante, mas ainda assim segue os licantropos. A brisa volta a atingir meu rosto e a sensação de liberdade me enche mais uma vez.
Os lobisomens são bem rápidos e temos de fazer um esforço extra para acompanhá-los. Os seguimos por poucos minutos, em meio à floresta até encontrarmos uma enorme caverna.
Não reconheço o local e me dou conta que mesmo estando na ilha por quase uma semana, ainda não estive por aqui.
A caverna é realmente grande e há um acampamento bem em sua entrada, com algumas barracas enfileiradas e uma fogueira no centro delas. Me dou conta que é o acampamento dos lobisomens.
Há alguns deles sentados envolta da fogueira, provavelmente tomando conta do acampamento na ausência dos outros. Noto que estão em sua forma humana. Há três homens e duas mulheres. Eles estavam conversando, mas param com a nossa chegada.
Ao chegarmos, os lobos, pouco a pouco, vão voltando para suas formas humanas. Homens, mulheres, adolescentes e até mesmo uma criança.
Um menino de olhos amendoados e pele morena, que deve ter nove ou dez anos de idade. Fico me perguntando como poderia ter se transformado em um lobo. O garoto se junta à sua mãe, uma mulher alta e igualmente morena, porém de olhos claros. Percebo que ambos me encaram, então simplesmente desvio o olhar.
Os lobos, que já não são mais lobos, se juntam ao redor da fogueira e passam a me fitar, montada no meu amigo dragão. Resolvo descer, meio envergonhada, já que sou o centro das atenções.
Vejo Rachel de longe, conversar com um cara loiro e bem alto. Um dos que estavam sentados à fogueira quando chegamos. Decido andar até ela e permanecer em sua companhia.
Dou um tapinha de leve nas escamas do dragão ao meu lado, despedindo-me e vou ao encontro da minha amiga licantropo.
Não sei se fiz a coisa certa ao aproximar-me, já que ela discute com o cara louro e alto. Discute como se tivesse tratando de algo sério e quando eu chego, se assusta. Não entendo o porquê de sua reação até reconhecer o cara com quem está discutindo.
Com um sobressalto percebo que é ninguém menos do que o garoto que foi criado a vida toda como meu irmão mais velho. Arregalo meus olhos, já cheios de lágrimas e fico completamente sem reação. Finalmente ele me abraça, passando a mão em meus cabelos.
Não pensei que fosse vê-lo novamente e nem sei ao menos se estou feliz em vê-lo aqui. Mas tudo o que importa é que está vivo e a salvo.
– Você não faz ideia do quão aliviado eu estou em saber que ainda está viva. – Ele diz, me apertando em seus braços.
Mas eu solto-me com um movimento brusco e limpo minhas lágrimas com rapidez. Não me importo que os outros estejam olhando, afinal, estou confusa demais para isso.
– Logan, o que diabos você também está fazendo aqui?!
E mais uma vez eu aprendo que sim, as coisas podem piorar.
***
Adentramos cada vez mais a enorme caverna em silêncio. Rachel carrega uma tocha, iluminando nosso caminho. Estou bem atrás dela e Logan atrás de mim.
Devo admitir que apesar do reencontro com meu irmão e Rachel, estou levemente irritada e curiosa. Eles ainda não me explicaram o porquê de estarem aqui e o porquê de serem lobisomens.
Ainda não consigo acreditar no fato de que as únicas pessoas que pensei estarem livres de toda essa confusão, não estão. E ao que parece estão tão envolvidos quanto eu, já que sabem de coisas que ainda não faço ideia.
Isso não me agrada nem um pouco, para falar a verdade. Não queria meus amigos humanos aqui, correndo riscos. Apesar de não serem mais tão humanos assim...
Eles me levam até o seu líder, com a promessa de que irão me explicar tudo o que está acontecendo. Fico ansiosa com a última parte, mas não muito com a primeira.
Vozes ecoam de dentro da caverna e eu consigo idenficar a de Peter, com um certo alívio. A outra, é uma voz de mulher, e também não me é muito estranha.
O grande corredor dentro da caverna é dividido em dois caminhos e noto que as vozes vem da passagem da esquerda.
Rachel para de andar e vira-se para encarar Logan. Eles se entreolham como se precisassem conversar sobre algo que provavelmente não posso saber e isso me deixa para lá de irritada.
É estranho ver sua melhor amiga e seu irmão mais velho tão amiguinhos, quer dizer, Rachel e Logan mal se cumprimentavam quando ela estava em nossa casa e agora, já têm um monte de segredos. Talvez eu esteja sendo um pouco egoísta e ciumenta, mas com certa razão, já que ainda não me explicaram o que exatamente está acontecendo por aqui.
– Emy, vai ter de esperar aqui. Creio que nosso líder já sabe de sua presença, porém, temos de ter certeza que ele quer conhecê-la agora. Logan pode te fazer companhia.
Concordo dando de ombros e me encosto na parede rochosa, ignorando o cansaço repentino que toma conta de mim.
Rachel entrega a tocha a Logan e continua caminhando. Como eu previa, segue o caminho das vozes, que é o da esquerda. Logan anda até mim e se apoia na parede, ao meu lado. Ele dá um tapinha carinhoso no alto de minha cabeça e sorri. Percebo o quão cansado está e fico tentando imaginar como meu irmão veio parar aqui.
– Logan, por que você está aqui? – Pergunto de uma vez por todas.
Seu sorriso desaparece instantaneamente e seus olhos passam do meu rosto para o chão, como se falar sobre isso não fosse agradável.
Qualquer pessoa no mundo poderia ser transformada em licantropo e acredito que não foi mera coicidência de que isso tenha acontecido ao meu irmão e minha melhor amiga. Estremeço ao tentar imaginar o quanto sofreram com o acontecido.
– Alguns dias depois que você partiu, Rachel me procurou. Ela estava preocupada. – Logan, para a minha surpresa, começa a falar. – Mencionou algo sobre você e Luke naquela noite de sexta-feira em que pedi que fosse à festa e então, logo percebi que ela sabia de algo. Você tinha contado metade da história à Rachel e ela não entendia como eu poderia estar tão tranquilo com o seu desaparecimento. Ela pensou que você tivesse sido sequestrada por Luke, ou algo assim.
Me pego sentindo levemente culpada por ter causado tanta preocupação à minha amiga. Encaro meus pés sujos de lama e cruzo meus braços.
– Eu contei à Rach sobre a noite de sexta-feira. – Confesso. – Estava assustada e confusa, e não sabia dizer se estava louca. Aquilo estava me consumindo...
A mão de Logan vai até um dos meus pulsos. Encaro seus olhos acinzentados assim que me toca.
– Sinto muito por ter feito você passar por aquilo, Emy. Eu devo ser o pior irmão mais velho do mundo, mas eu prometo que vou te compensar. – Ele diz, com tanta certeza que me assusta. – Eu vou te proteger.
Um sorriso brinca nos meus lábios e eu me pego feliz com as palavras de meu irmão. Quando era mais nova, tudo o que eu sempre quis, era um irmão que me protegesse. Logan geralmente pegava no meu pé e nós vivíamos brigando. Quem diria que isso um dia finalmente mudaria?
Noto também que Logan está muito diferente da última vez em que o vi. Ele parece mais destemido e responsável. Há alguns meses, tudo o que importava para meu irmão eram festas, dinheiro, garotas, bebida e agora parece tão diferente! Talvez mais maduro, eu não sei. Outro que se transformou em tão pouco tempo, mas uma transformação boa. É, às vezes há males que vêm para o bem.
– Você não me deve nada, Logan. – Falo, já segurando sua mão. – Só o fato de te ver mudado assim já me alegra.
Minhas palavras o pegam de surpresa e ele sorri com o meu quase elogio.
– Estou mudado, é?
– Demais, cara. Parece até outra pessoa. – Digo com convicção. – Mas foi uma mudança boa, quer dizer, você parece finalmente o meu irmão mais velho... Mais responsável.
Logan ri com as minhas palavras e sou obrigada a acompanhá-lo.
– Nunca pensei que fosse dizer que sou responsável.
– Eu também não. Agora, continue.
Ele passa uma de suas mãos em seus cabelos loiros bagunçados e volta a falar com seriedade.
– Como Rachel estava desesperada, tive de contar a verdade. Contei sobre você não ser filha de Carl e sobre ser uma feiticeira. Tentei, pelo menos, fazer com que ela acreditasse, mas a história em si é tão absurda que é óbvio que Rachel achou que eu estava tentando enganá-la. Chegou até a pensar que eu estava envolvido no seu sumiço.
“Você não vai acreditar se eu te disser que Rach ameaçou-me, dizendo que se não contasse onde você estava, me entregaria para a polícia. Para falar a verdade, não conhecia esse lado dela – corajoso e preocupado – e acredito que você também não o conheça. Pensei que Rachel logo me esqueceria e desistisse de arrancar a “verdade” sobre o seu desaparecimento, mas não. Confesso que me surpreendi quando percebi que estava me espionando, seguindo-me para qualquer lugar que eu fosse.”
Realmente, não consigo visualizar mentalmente Rachel, que era um tanto tímida e insegura, perseguindo o suposto sequestrador de sua melhor amiga. Talvez eu consiga imaginar a licantropo de cabelos curtos fazendo isso, mas a Rachel humana, não.
– Era engraçado, porque apesar dos seus inúteis esforços, não conseguia encontrar nada que pudesse me incriminar. Não havia crime, afinal.
“Senti um tanto de pena e acabei ligando para ela. Marcamos de nos encontrar em um café e eu finalmente tentaria convencê-la sobre a verdade, sobre você ser uma feiticeira e eu não ter nada a ver com o seu sumiço.”
“Meu plano não funcionou e acabamos discutindo feio no meio de todo mundo, dentro do estabelecimento. Rachel estava completamente convencida de que eu era o culpado, apesar de não ter nenhuma prova concreta.”
“Era tarde de noite e estavamos saíndo do café. A ruazinha estava vazia quando de repente eles apareceram: Animais estranhos, bem altos e negros. Alguns eram misturas de humanos com víboras, que tinham presas afiadas. Outros, misturas estranhas de gorilas e morcegos, que voavam e também cospiam fogo. E não eram apenas esses, haviam várias misturas esquisitas de animais sombrios, os demônios, e com eles, o seu líder. Agramon Illuminati.”
O nome do meu pai ecoa em minha mente como se fosse uma espécie de palavrão e não consigo nem descrever o tamanho do ódio que sinto ao saber que ele teve a ousadia de ir atrás dos meus amigos humanos, sendo que um deles era meu irmão adotivo.
– É claro que ele estava atrás de você. – Logan diz, soando magoado e preocupado. – Mas como você já estava em Opposite, não conseguiu te encontrar. Eu só digo uma coisa, Emy: Luke chegou na hora certa para te tirar daqui. Se não fosse por ele, talvez você estivesse morta, ou aliada ao seu pai.
Encaro ao chão me sentindo completamente culpada ao lembrar de que deixei meus amigos para trás e vim tentar resgatar Peter por conta própria. Algo me diz que ainda terei de ouvir muito por causa disso...
– Eu preferiria estar morta do que aliada a Agramon Illuminati.
– Temos que agradecer por não ter acontecido nenhuma das duas opções à você, não é mesmo? – Ele diz, olhando para mim com certa preocupação. – Agramon é o pior ser vivo que já conheci em toda a minha vida, Emily. Eu sei que é seu pai e tudo o mais, mas... Ele não tem piedade, entende?
– Ele não é meu pai. – Cuspo, com ódio.
– Agramon mandou que seus demônios capturassem a mim e Rach, que finalmente acreditou no que eu havia dito, sobre você ser feiticeira e tudo mais, e nos trouxe para sua mansão em Opposite. Ele nos trancafiou em uma espécie de calabouço e nos torturou para que contássemos sobre o seu paradeiro. É claro que ficamos calados.
Essas palavras me pegam desprevenida e me fazem entender o porque das tantas cicatrizes espalhadas tanto no corpo de Rachel, como no de meu irmão bem à minha frente. A imagem de meus dois amigos humanos sendo feridos pelos demônios por minha causa fazem meu estômago doer de forma que eu tenho de andar e tomar um ar para poder continuar a conversa.
– E por que você não me entregou logo? Eu estava com os meus amigos feiticeiros e nós tinhamos mais chance de vencê-los do que vocês, humanos! – Grito, de repente, com tanta informação a processar.
Logan olha para baixo, com certa tristeza e depois respira fundo, como se tivesse algo a mais a contar. Como se só os castigos físicos não fossem a única punição que Agramon encontrou por meus amigos não me denunciarem.
Ando até meu irmão mais velho, exageradamente mais alto do que eu e seguro uma de suas mãos com força.
– Eu só queria te proteger, do jeito que eu nunca fiz. – Ele murmura sem olhar diretamente para mim.
– Agradeço pelos seus atos, mas por favor, não se arrisque mais assim por mim, Logan. Tenho de falar com Rachel também... Vocês não deviam ter se arriscado tanto. Eu sei que Agramon não parou por aí... O que mais ele fez?
A respiração do meu irmão mais velho falha por um momento e sinto que é algo mais doloroso do que eu espero.
– Meu pai está morto. – Ele diz com um suspiro. – Pensei que Agramon estivesse apenas ameaçando, mas não. Quando bati o pé e disse que não sabia onde você estava, ele matou meu pai sem se quer hesitar. Tudo isso na minha frente.
Apesar de ter meus ressentimentos quanto a Carl, não queria que tivesse sido assassinado. Em primeiro lugar, porque era pai de Logan e eu não queria ver meu irmão sofrer como parece estar sofrendo e, em segundo, porque foi ele quem me sustentou por dezesseis anos. Mesmo eu nutrindo um certo ódio por Carl, desejava uma vida longa e boa para ele. Eu devia bastante a ele, afinal.
Sinto uma certa pena de Logan e o abraço de leve, sem coragem de dizer que sinto muito ou algo assim. Um sentimento estranho, algo como ódio, tristeza e culpa juntos em um só, tomam conta de mim. E fazem com que eu tenha uma vontade tremenda de me vingar. Me vingar de Agramon.
– Ele matou algum parente de Rachel também? – Pergunto, com raiva em minha voz.
Logan balança a cabeça negativamente, fazendo com que eu me sinta parcialmente aliviada.
Fecho minha mão em punhos e cerro os dentes quando digo:
– Eu ainda vou me vingar desse cara.
– Não vou permitir que chegue perto dele. – Logan me repreende com o olhar. – Emily, ele é capaz de qualquer coisa e além do mais, é obsecado pelo seu poder.
“Pensei relamente que fôssemos morrer ali, naquela cela sombria, mas então os lobos armaram um plano e conseguiram se infiltrar na mansão de Agramon. Seu líder os mandou atrás de nós, ele sabia que tínhamos sido sequestrados.”
“Os lobos nos salvaram, nos levaram até o seu líder, que nos convenceu a nos transformarmos. Se voltássemos a viver nossa vidinha de sempre na Terra, como humanos, Agramon voltaria a nos perseguir. O jeito era viver como lobo, sob o comando do nosso líder e te procurar para dizer que nós, lobos, sempre estivemos do seu lado e que podemos te proteger.”
Essas palavras de Logan fazem me lembrar do ataque na caverna subterrânea a qual inundei e aos lobos que assassinamos durante toda essa confusão. Sinto-me culpada, muito culpada em saber que ataquei seres que só queriam me ajudar, e entre eles estavam meu irmão e minha melhor amiga.
– Puxa, Logan, e pensar que nós agimos de forma tão violenta com o seu bando... Agora entendo porque estavam me encarando lá fora.
– A culpa não é sua. Rachel e eu concordamos que a forma de abordagem dos lobos parecia violenta e qualquer um que pensasse ser atacado por licantropos tentaria se defender. Nós deveriamos ter tentado conversar na nossa forma humana, porém a maioria do nosso grupo não concordou, pois se sentiam ameaçados estando como humanos.
Faz um certo sentido apesar de eu continuar me sentindo culpada.
– Eu sinto muito por ter privado a vida de vocês a esse ponto, Logan. Vocês tinham tanto para viver pela frente...
Logan dá de ombros e ri levemente, de repente não entendo porque.
– Eu odiava meu trabalho, de qualquer jeito. – Ele diz, sorrindo com o canto dos lábios. – Era um irresponsável e a maioria dos meus amigos andavam comigo por interesse. Acho que me sinto melhor no bando, pelo menos aqui tenho pessoas que se importam comigo de verdade. Estava conversando com Rach esses dias e nisso ela concorda comigo.
– Me sinto menos pior em saber que vocês pensam assim. E a mãe de Rachel, o que vocês fizeram quanto à ela?
– Nosso líder cuidou para que ela fosse morar em uma cidadezinha da Inglaterra, próximo da cidade onde seu pai vive. Teve de usar a hipnose, claro. Ela acha que Rachel está estudando em outro país ou alguma coisa assim.
Hipnose. Pelo que Nina me disse, somente feiticeiros são capazes de hiponotizar humanos. Então o líder dos licantropos certamente é um feitceiro... Não sei por que, mas quanto mais Logan fala, menos gosto desse tal líder.
Penso em me desculpar novamente e prometer que me vingarei de Agramon mas antes que possa dizer qualquer coisa, Rachel está de volta e parece mais apressada e séria do que estava. Anda até nós e puxa a tocha acesa da mão de Logan.
– Está pronta, Emy? – Ela pergunta, me encarando com seus olhos claros.
Estar eu não estou, mas não tenho uma outra escolha, tenho?
– Claro. – Minto, mordendo meu lábio inferior.
Logan e eu nos levantamos em um salto e em outro, já estamos seguindo minha amiga licantropo e mais agitada que o normal.
Seguimos a passagem da esquerda e atravessamos um curto corredor. Na extremidade dele, há uma espécie de entrada bem estreita a qual nos aproximamos cada vez mais.
Tenho o pressentimento que esteja ali o líder dos lobisomens e por um momento me pego assustada.
Lembro das palavras do meu irmão, de que me protegeria e tranquilizo-me de certa forma. Meus amigos não estariam me levando para o abate, e mesmo que o seu líder estivessem enganando-os, não acho que o deixariam me machucar.
Sigo Rach até o fim do pequeno corredor e atravessamos a entrada estreita com facilidade. Logan tem de se encolher para passar, devido à sua altura.
Olho para frente e me deparo com uma espécie de cômodo. Parece uma pequena sala dentro da caverna, o que é completamente esquisito. Há dois sofás avermelhados e uma mesa no centro deles. Há também uma grande estante no canto, com alguns livros empoeirados e um tapete cor de sangue enfeitando o local. Um buraco no alto da parede faz com que a claridade entre.
Noto também um grande espelho com detalhes em dourado no canto e uma outra passagem ao seu lado, como se o cômodo continuasse.
Há uma pessoa sentada em um dos sofás e logo a reconheço. Peter. Ele tem uma xícara em suas mãos e sorri ao me ver.
Tenho vontade de andar até meu amigo e abraçá-lo. Vontade de dizer o quão preocupada estive e lhe passar um sermão sobre desaparecer e desesperar amigos. Tenho apenas vontade, porém não o faço.
Sinto-me ameaçada pela presença de uma outra pessoa bem ao lado do espelho de detalhes dourados que está completamente de costas para nós. É mais alta do que eu esperava e com uma decepção noto que se trata de uma mulher.
– Sua líder é uma mulher? – Pergunto, sussurrando o máximo que posso.
Rachel sorri, sem graça, mas me dá um tapinha no ombro quando diz:
– Não podia dizer que era. Você é esperta demais, logo adivinharia.
Não consigo imaginar ninguém que eu conheça nessa capa preta e cabelos negros arrumados em um coque alto. Usa também algumas jóias douradas e para uma líder, parece mais nervosa do que eu pensei que estivesse.
Finalmente, a mulher vira-se, mostrando seu belo rosto não tão desconhecido por mim. Seus olhos azuis são tão vivos que me deixam de certo, atordoada.
Tenho de reprimir uma vontade imensa de gritar quando a reconheço. Meus olhos se arregalam e meu coração está tão acelerado quanto jamais esteve.
Ela é bem mais bonita do que estava na imagem do Oráculo e um pouco mais baixa do que eu imaginava, apesar de ser, ainda assim, bem mais alta do que eu.
Minha mão direita vai diretamente ao pingente de rubi, pendurado ao meu pescoço. O seu pingente.
Ela sorri e não deixo de notar as lágrimas formando no canto de seus olhos tão azuis quanto os meus. Estranho-as já que é conhecida por ser uma mulher, ou melhor, feiticeira tão forte.
Não sei o que fazer, nem mesmo o que dizer. Estou boquiaberta encarando a mulher que acredito ser minha mãe e que não pensei que fosse encontrar com tamanha facilidade.
Blake ainda sorri quando diz com sua voz doce e de tilintar de sinos, que reconheço de repente:
– É um enorme prazer revê-la, Emily. Minha filha.
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