Opposite
24 Memórias
Notas iniciais

Levanto-me, com cautela, examinando cada centímetro do lugar onde vim parar. De uma coisa eu tenho certeza: estou uma campina próxima a Raven Place. O lugar parece o mesmo, exceto por alguns notáveis detalhes.
Para começar, o céu, usualmente azul e magnífico, está acinzentado e repleto de nuvens. Algumas casas, nas proximidades, têm suas paredes desmoronadas e tetos desabados. Ao que parece, foram recentemente destruídas. Mas o que realmente me deixa intrigada, além do silêncio profundo, são as centenas de corpos dispersos pelo prado. Encaro-os boquiaberta, confusa e sem reação. Todos os homens largados ao chão vestem armaduras, pretas ou brancas. Alguns estão mortos; outros, gravemente feridos.
E então, passo a ter uma leve ideia de para onde é que as lembranças de Blake Darkbloom me trouxeram: à uma das violentas guerras entre feiticeiros negros e brancos, anos antes de eu ter nascido.
Quando estou pensando em me mover, alguém surge em meu campo de visão, há pouquíssimos metros de distância: um soldado de pequena estatura, que veste uma armadura negra cobrindo todo seu corpo, inclusive a cabeça. Infelizmente, ele corre bem em minha direção.
Meu coração quase sai pela boca, afinal, é tarde de mais para tentar não ser vista. Prendo minha respiração e engulo em seco, sem saber como reagir. Conforme o soldado se aproxima, tento imaginar como é que vou explicar a ele o que é que estou fazendo aqui. Acho que “Olá, meu nome é Emily e venho do futuro.” não é a melhor coisa a se dizer. Além disso, ele carrega uma espada que tem mais da metade do seu tamanho.
No entanto, para minha surpresa, o soldado passa por mim e continua a correr, como se não notasse minha presença. De princípio acho tudo muito esquisito, porém, depois de refletir um pouco, percebo que até que faz sentido.
Estou apenas em uma lembrança, por isso, as outras pessoas por aqui não conseguem me ver. Entenda: eu não voltei para o passado, só estou em uma memória de Blake Darkbloom, dentro de sua cabeça.
Encaro ao soldado que continua a correr desesperadamente, como se fugisse de alguém, e que adentra o vilarejo em ruínas com rapidez. Algo me diz para segui-lo, mas antes que eu possa colocar em prática minha intuição, um vulto esbranquiçado surge no céu.
Ele se aproxima com rapidez e eu estreito meus olhos para conseguir identificá-lo. Com um enorme sobressalto é que eu consigo compreender: o vulto no céu não é nada mais, nada menos que um conjunto de soldados brancos em suas armaduras, montados em cavalos alados igualmente brancos.
Os cavalos, fortes e velozes, pousam com elegância e trotam até o meio da campina, carregando seus guerreiros. Encaro a cena com extremo entusiasmo, afinal, nunca havia visto um cavalo alado antes. Luke e os outros já haviam mencionado sua existência, porém nunca havia os visto até agora. Sem considerar que estou em uma lembrança, claro.
As dezenas de guerreiros brancos cavalgam silenciosamente até ficarem bem próximos de mim. Eles estão armados até os dentes, com espadas, escudos, arcos, flechas e lanças. Também parecem preparados para um novo ataque à Raven Place. Confesso me sentir um pouco receosa, apesar de saber que não estou sendo vista.
Um dos feiticeiros que está na frente, provavelmente o líder do ataque, parcebendo a calmaria, tira o seu capacete. Suas feições cansadas dão a impressão de ter lá os seus quarenta anos.
– Soldado Illuminati. – Chama, em um tom severo. O nome Illuminati faz surgir pontadas dolorosas em meu estômago.
Um dos soldados do fundo se aproxima, retirando também o capacete. Travo meus dentes superiores contra os inferiores ao visualizar a figura de meu pai no auge dos seus dezesseis anos. É alto, forte, de feições marcadas por uma beleza diferente. Seus olhos azuis acinzentados não parecem tão assustadores quanto atualmente e seus cabelos loiros estão bem mais curtos. Além disso, tenho de confessar: alguns de seus traços faciais foram herdados por mim.
Agramon chega mais perto de seu comandante, com coragem e obediência exemplares. Lembro-me de Blake ter comentado que por cause de sua força e disciplina, Agramon era um dos soldados que mais se destacava entres os feiticeiros brancos.
– Pois não, comandante.
– Soldado Illuminati, quero que verifique a tropa de feiticeiros negros nos esperando por trás desses escombros. – O comandante ordena, apontando para o vilarejo destruído. – Eu acredito que eles estejam em menor número, por conta do último ataque. – Ele dá uma risadinha debochada. – Também acredito que essa seja nossa grande chance de atacar. Entretanto, não é bom ser surpreendido. Por isso, vá em silêncio e confira quantos soldados nos aguardam do outro lado.
Agramon concorda com a cabeça, recoloca seu capacete e desce de seu cavalo alado. Ele caminha em direção ao vilarejo destruído de Raven Place, carregando uma espada e um escudo.
Estou prestes a segui-lo, mas algo me faz permanecer onde estou. Os outros feiticeiros cochicham entre si e eu passo a tentar entender sobre o que conversam. Os sussurros dizem mais ou menos a mesma coisa, isto é, que mandar Agramon para verificar os feiticeiros negros sozinho é um tanto quanto arriscado.
O comandante, percebendo que Agramon está longe o suficiente para não conseguir escutar o que dizem, responde aos sussurros:
– Pode até ser arriscado mandá-lo sozinho, ainda mais um rapaz tão jovem. Enfim, acalmem-se, eu sei o que estou fazendo. Se o soldado Illuminati for um bom soldado, voltará vivo. – Ele diz voltando a rir com desprezo, seguido por alguns dos outros soldados.
Suas palavras despertam um profundo desprezo e, por um segundo, sinto uma espécie de compaixão por meu pai. Uma compaixão que nunca pensei que fosse capaz de sentir. E como se eu fosse capaz de protegê-lo, passo a correr em sua direção até ficar exatamente ao seu lado.
Caminhamos juntos e chegamos até a entrada assolada de Raven Place. Paredes desabadas, poeira e feridos estão por todos os lugares. Tudo está quieto e calmo demais para o meu gosto e sinto que, mais cedo ou mais tarde, uma grande tropa de soldados feiticeiros negros aparecerá e capturará Agramon.
Meu coração pulsa tão rápido quanto nunca e apesar de tudo isso não passar de algo que já aconteceu, estou aflita. Estou exatamente do mesmo jeito que fico quando assisto meus seriados favoritos no mundo humano.
Agramon continua caminhando pelos escombros com cada vez mais dificuldade em não fazer barulho, o que me deixa ainda mais nervosa. O terreno por onde ele anda está coberto de sedimentos que se deslocam conforme se move. Chegamos, enfim, até uma pequena ruazinha de tijolos avermelhados que eu reconheço de minha estadia em Raven Place, alguns dias atrás.
Então, um barulho de rochas despencando, vindo das proximidades, nos faz saltar. Assustada, corro até uma das paredes que restou em pé, de onde eu possa ver melhor o que está prestes a acontecer. Agramon parece controlado, apesar de abalado. Ele empunha suas armas firmemente, procurando pelo causador do ruído.
Um vulto salta por cima da parede na qual estou encostada e cai em pé bem em minha frente. É ninguém menos que o pequeno feiticeiro negro vestido em armaduras escuras, que vi poucos minutos atrás, na campina.
Ele parte para cima de Agramon com violência, derrubando seu escudo. Meu pai reage e defende-se com a espada, já que seu escudo está no chão. Os dois feiticeiros, negro e branco, passam a duelar com agilidade, se esquivando e defendendo-se dos golpes.
Ambos são ótimos lutadores e eles ficam naquilo por minutos que mais parecem horas. Eles lutam, movendo-se em direção de uma das casas restantes em meio às ruínas e a adentram ao mesmo tempo em que batalham. É claro que eu os sigo, sem piscar por um segundo sequer.
Os feiticeiros continuam o duelo, se esbarrando e derrubando em todos os móveis da pequena casa. Até que finalmente, o feiticeiro negro desfere um golpe certeiro bem embaixo do capacete de Agramon, que voa para o outro lado do casebre. Nesse exato momento posso jurar que vejo, pela primeira vez, algo parecido com medo nos olhos arregalados de meu pai.
Com a cabeça desprotegida e furioso, Agramon redobra seus esforços. Primeiro, estica sua mão livre na direção do oponente, lançando lhe uma intensa lufada de ar, fazendo com que isso o desequilibre. Agramon avança com muito mais brutalidade, para cima do feiticeiro negro, que recua, na defensiva, até ser encurralado por uma das paredes. Sem mais o que fazer, o feiticeiro aposta seu último movimento em um golpe na cabeça desprotegida de meu pai. Um golpe previsível e errôneo.
Agramon defende-se do golpe com a espada, lançando a arma de seu oponente para longe. De repente, ele sorri com malicia, já empunhando sua espada na direção do feiticeiro em sua frente. Então, quando penso que meu pai está prestes a colocar um fim no seu adversário, acontece.
O chão começa a tremer, e a força com que ele sacode vai se tornando gradativamente maior. Confesso ficar extremamente chocada com a força dos movimentos que a terra, abaixo de nós, faz. Apesar de não me desequilibrar, consigo sentir.
Já vi meus amigos provocarem terremotos antes, mas não um como esse. E além disso, o feiticeiro não está com as mãos encostadas no chão, como meus amigos costumam fazer.
Em fração de segundos, Agramon é lançado no ar, assim como os móveis, chocando-se contra uma das quatro paredes do casebre e despencando, com um estrondo.
Os tremores cessam de repente e o feiticeiro negro, aparente vencedor da batalha, se aproxima cada vez mais de Agramon, que está estatelado no canto do casebre.
Meu pai encara seu adversário com uma mistura de assombro e confusão em seu olhar. O pequeno feiticeiro chega finalmente até bem perto de Agramon e eu posso jurar que meu coração dá cambalhotas nesse momento.
– Quem é você? – A voz de meu pai falha em meio à sua respiração irregular.
O feiticeiro negro cruza seus braços, como se estivesse pensando no que fazer com o meu pai, ignorando-o por completo. Confesso já fazer certa ideia de quem seja...
– Eu perguntei: quem é você? – Agramon volta a questionar, irritado. – Estou prestes a morrer e desejo saber quem é o sujeito que vai me matar.
– Então, é isso? – Uma voz feminina, vindo de dentro da armadura do oponente diz, confirmando todas as minhas expectativas sobre quem ele é. Ou melhor, ela. – Você não vai nem tentar implorar para te deixar viver?
O rosto de Agramon se retorce em uma careta e ele parece ainda mais desapontado. Deixo escapar uma risada baixa.
– Uma garota. Eu não acredito que vou morrer nas mãos de uma garota. – Ele resmunga, esmurrando o chão.
A feiticeira negra, ou melhor, Blake Darkbloom, ainda coberta pela sua armadura, pega sua espada do chão e a encosta bem no pescoço de Agramon, que engole em seco e passa a ficar totalmente paralisado.
– Escuta aqui seu preconceituoso, machista, desgraçado: eu não sou uma garota qualquer.
– Calminha aí. – Ele diz, gaguejando. – Isso eu percebi. Você é mais forte. A intensidade com que você fez o chão tremer... Foi muito maior do que os feiticeiros brancos costumam fazer. E você nem encostou na terra... Isso não é possível.
– Você viu com seus próprios olhos o que sou capaz de fazer.
– Certo, eu vi. Mas não entendo como.
Blake respira fundo ainda com a espada apontada para o pescoço de Agramon, provavelmente questionando se conversar com o cara que acabou de tentar assassiná-la é mesmo uma boa ideia.
– Vou te fazer uma pergunta, mas você vai ter que pensar muito bem antes de respondê-la. E por favor, não minta. – E então, finaliza, de forma ameaçadora. – Eu garanto que se você mentir, vai ser muito pior.
– Certo. – Meu pai responde, diante da ameaça.
– Você concorda mesmo com tudo isso? Com essas guerras desprezíveis entre feiticeiros negros e brancos? – Ela pergunta, séria. – Você é mesmo a favor disso? Quero que seja sincero.
– Você é uma pacifista. – Agramon conclui, sem se importar se há algo afiado espremendo-se contra sua garganta. – Não vai me matar.
– Não vou te matar, imbecil. Mas nada me impede de te apagar e te entregar aos meus líderes. – Ela cospe, extremamente irritada e, de repente, descubro de onde eu herdei toda a minha impaciência e ironia.
– Relaxa, feiticeira negra, não existe necessidade para isso. – Agramon aponta para a espada em seu pescoço. – Eu também sou pacifista, meus pais são pacifistas. Eu só estou aqui porque eu preciso estar aqui. Porque se eu não estiver, os outros soldados de Darion vão matar a mim e à minha família.
Blake parece receosa em deixar Agramon se levantar, mas ainda assim o faz. De qualquer jeito, ela é a mais forte por aqui, meu pai não conseguiria passar por ela se quisesse.
– Obrigado pela confiança. – Ele diz dando um meio sorriso, já de pé.
Agramon tem um hematoma gigantesco em sua testa, provavelmente onde bateu a cabeça quando foi atirado pelos ares. Isso sem falar nos outros arranhões pelo resto da face.
– Eu ainda não confio nem um pouco em você. – Blake responde, tão grossa quanto eu.
– Tudo bem. Do que você precisa pra acreditar em mim?
– Eu sei por que está aqui, para verificar o nosso exército. Pois bem, quero que você diga a seus líderes que estamos em muitos. E que atacar agora seria arriscado.
– E não estão? – Agramon pergunta, com as sobrancelhas levantadas, como se esperasse que os soldados negros fossem realmente numerosos.
– Há uma boa parte ferida. – Blake responde, entristecida. – Não aguentaríamos ao ataque.
Agramon permanece calado e pensativo. A resposta de Blake o pegou de surpresa, tanto quanto pegou à mim. Eu estava esperando um grande e fortificado exército de feiticeiros negros, diferente da aparente realidade.
De repente fico me perguntando se Blake fez a coisa certa ao contar a verdade a Agramon. Confesso que fico bastante apreensiva pela minha mãe e pelos feiticeiros negros.
– Eu acho que posso fazer isso. – Meu pai, finalmente diz. – Mas não sei se eles vão acreditar em mim...
– Claro que vão. Olha para você, está todo machucado... – Ela diz, apontando para o hematoma na testa de Agramon.
– É, já que somos pacifistas e vamos nos ajudar, você bem que podia ter pegado um pouco menos pesado. – Agramon comenta, tocando seu ferimento na cabeça.
– Então nós vamos mesmo nos ajudar?
– Por mim, tudo bem. Você está poupando minha vida e, além disso, não quero que seu povo seja dizimado, sinceramente.
– Obrigada.
– Eu também a agradeço, mas eu odeio o fato de estar ajudando alguém que eu não sei quem é. Você pode tirar esse capacete, por favor?
– Tudo bem.
Blake retira o capacete com rapidez e assim como Agramon, eu fico boquiaberta. Blake Darkbloom durante seus dezessete anos é simplesmente uma versão mais bonita de mim. Nós temos os mesmos olhos, a mesma altura das maçãs do rosto, a mesma pele excessivamente branca... É como se eu tivesse me olhando em um espelho, exceto pelo fato de Blake não ter olheiras, ferimentos e estar usando o cabelo, mais escuro que o meu, preso em um rabo de cavalo.
Agramon se aproxima de Blake, que parece se sentir mais ameaçada, já que tem sua cabeça desprotegida agora. Ele estende sua mão, de forma amigável e então os dois finalmente se cumprimentam.
– Sou Agramon Illuminati.
– Blake Darkbloom.
Deixo escapar um suspiro, chegando à conclusão de que esse é um épico e decisivo momento para a história de todos feiticeiros, principalmente para a minha. É o momento em que dois feitceiros de espécies distintas se conhecem e decidem se ajudar. O momento que fez com que, posteriormente, diversos acordos de paz fossem criados. O momento responsável pela, posterior, geração de um indivíduo que é a mistura entre negros e brancos. Um indivíduo que é a mistura entreágua, fogo, ar e terra.
Blake solta Agramon, livra seu braço direito da armadura que o cobre e, de repente, abre um pequeno corte na palma de sua mão.
– O que você está fazendo? – Ele pergunta, um tanto quanto confuso.
– Acha mesmo que vou acreditar em alguém que acabei de conhecer assim, sem mais nem menos? Nós vamos fazer um pacto de sangue. Agora.
Nina já havia comentado comigo sobre os pactos de sangue no mundo dos feiticeiros. Muito diferente de quando feito entre humanos, o pacto entre os feiticeiros, envolve uma espécie de encantamento. O feiticeiro que o quebrar é amaldiçoado pelo resto da vida, podendo até vir a morrer por conta da maldição. Resumindo, pacto de sangue entre feiticeiros é uma coisa muito séria.
– Tudo bem, então.
Agramon, assim como minha mãe, se livra da armadura de um dos braços e abre um corte em sua mão.
Por fim, eles unem seus ferimentos, segurando um a mão do outro com força. Ambos fecham os olhos e começam o encantamento. Palavras em uma outra língua saem pelos lábios dos meus pais com rapidez e por fim, os dois dizem simultaneamente:
– Eu juro, pelo meu próprio sangue, jamais trair a sua confiança.
E então, um flash seguido por um estalo me fazem viajar para uma outra lembrança.
***
O céu acinzentado torna-se escuro e ganha estrelas. De repente, tudo muda de lugar, como se uma espessa névoa levasse todas as casas, móveis e pessoas ao meu redor para longe. Fecho os olhos, esperando até a neblina desaparecer e o vento se acalmar novamente.
Quando volto a abri-los, descubro estar em Raven Place, bem em meio ao vilarejo. Vejo a Fogueira da Fortuna, exatamente no centro, e mais ao longe, o castelo. Para trás de mim, somente as casas, que aliás, já não estão mais demolidas, como na visão anterior. Felizmente, o reino parece ter se recuperado.
Acredito que seja tarde da noite pelo fato das ruazinhas estarem desertas, exceto por alguns guardas que caminham averiguando a paz do local.
Perco meu olhar em meio as casas e respiro fundo, procurando por alguma coisa. Até que eu finalmente encontro.
De uma das janelas das casas, um vulto salta graciosamente até o chão. Tudo é muito bem calculado, já que o indivíduo com o rosto coberto por um capuz preto, que acredito ser Blake, faz isso no exato instante em que o guarda não está no corredor de sua casa.
E com uma rapidez inexplicável, corre em direção da campina, nas proximidades. A campina da outra lembrança, quero dizer. Mas para alcançá-la, deve ultrapassar um portão dourado onde dúzias de guardas estão prostrados.
Blake corre com cautela, escondendo-se entre as casas e ultrapassando-as, sem ser vista pelos guardas. E assim que seu próximo passo é o portão dourado, ela para, se encosta na parede do último corredor de casas e respira fundo.
Finalmente, inclina-se para verificar os soldados. Parece pensativa e nervosa, mas age sem medo nenhum quando corre até uma árvore encostada no canto esquerdo do portão, bem atrás de um soldado. Blake é ágil e silenciosa e ele não a vê quando coloca suas mãos na árvore e a incenceia sem pudor.
As chamas consomem a planta de baixo à cima, chamando a atenção dos outros soldados, que se aproximam assustados. Para ser sincera, temo por Blake. Mas quando vou procurar por minha mãe, ela já não está mais ali, e sim, passando por entre as barras douradas do portão, tão ligeira, que não é nem percebida.
Ela passa por debaixo de fileiras de moitas, evitando ser vista pelos soldados negros que resmungam devido ao repentino incêndio, desconfiados de uma possível travessura de criança.
Blake continua a correr, coberta pelas plantas, e eu a sigo sem hesitar. As poucas luzes e sons ficam para trás, nos deixando apenas guiadas pela luz da lua e barulhos dos nossos passos e respirações irregulares.
Finalmente, minha mãe adentra uma floresta escura e esquisita, em que nunca estive antes. Após alguns minutos correndo, chega até um pequeno lago e passa a caminhar com calma.
Blake joga o capuz para trás, revelando suas feições assustadas e tenta controlar sua respiração e seus batimentos cardíacos acelerados. Noto que ela segura uma pequena adaga dourada em uma das mãos. Não era estúpida o suficiente para sair desarmada.
– Você conseguiu, Blake. – Uma voz em meio ao nada ecoa pela floresta.
Agramon, enfim, surge por trás de uma das infinitas árvores do lugar. Está bem mais cuidado e apresentável do que na outra memória. E até pode ser meu pai, mas tenho de admitir, seu sorriso é encantador.
Minha mãe morde seu lábio inferior com força.
– E você conseguiu me assustar, Agramon! – Reclama, abalada.
O sorriso de meu pai se desfaz e ele se aproxima de Blake numa tentativa de acalmá-la. E então, sem pensar muito, a abraça com força. Para minha surpresa, minha mãe retribui o abraço, mas se afasta rapidamente.
Ela parece hestitante e para lá de nervosa. Blake Darkbloom podia ser bastante valente para algumas coisas, mas para outras...
– Eu não ia vir até aqui. – Diz, quase que gaguejando. – Mas eu tinha que impedir você.
– Me impedir de quê? – Agramon parece desconsertado.
– De ficar tentando me contatar com suas mensagens, marcando encontros no meio do nada, no meio da noite. E se alguém te pega adentrando Raven Place? O que você vai fazer? – Blake repreende-o, com suas mãos trêmulas.
– Blake, fique tranquila. Ninguém me pegou ou vai me pegar. – Agramon suspira. – Eu vim aqui porque precisava conversar com alguém sobre um assunto, mas não posso falar com qualquer um sobre ele...
– Agramon, caso você não se lembre, só conversamos por uma vez na vida. – Blake retruca, tentando não perder a paciência.
– Tá, mas nós temos um pacto de sangue. E você é a única paficista que eu conheço, além dos meus pais.
– Tudo bem, tudo bem. – Blake deixa-se ser vencida e senta-se em um canto qualquer. – Você quer conversar? Converse.
Agramon senta-se bem ao lado de Blake, o que a deixa meio desconfortável, apesar de no fundo eu saber que ela está gostando disso.
Meu pai conta sobre sua família, especialmente sobre seus irmãos adotivos, Therion e Lilith. Blake fica, como qualquer outro, perplexa.
– Mas como é que durante uma guerra entre brancos e negros sua mãe consegue esconder dois jovens feiticeiros negros dentro de um vilarejo de brancos?! Isso é impossível, Agramon. É lindo, mas impossível.
– Exatamente. Estou começando a ficar com medo dos outros soldados do rei Darion descobrirem. – Agramon desabafa, com a cabeça apoiada em um dos ombros. – Se isso acontecer... Não consigo nem imaginar o que é que vai acontecer com a minha família. Inclusive comigo.
– Sua situação é bem complicada, cara. – Blake é sincera. Ela coloca um dos braços sobre os ombros de Agramon, como se o desse apoio.
– Eu sei disso, Blake. – Ele dá uma risadinha sarcástica.
– Estou pensando. Você não pode mandar seus irmãos para o mundo humano? Sei lá, tentar encontrar algum portal alternativo em algumas das ilhas... Eles podiam ficar por lá até essa rivalidade entre brancos e negros terminarem. – Minha mãe se afasta, colocando-se de pé.
– Não daria certo, Blake. Eles têm só dezesseis e doze anos e não possuem experiência nenhuma. Eu tento treiná-los, mas seus poderes são diferentes dos meus, é claro que não são tão ágeis assim. Além disso, até quando ficariam no mundo humano? – Agramon levanta-se e sua voz começa a ficar gradativamente mais alta, da mesma forma que ele vai ficando gradativamente mais rude. – Quer dizer, quando é que a rivalidade de brancos e negros vai terminar? Você tem uma previsão de quando é que isso vai acontecer? Por que, sinceramente, eu ia ficar bem feliz se tivesse.
A voz de meu pai ecoa pela floresta e some, deixando-os às sós com o silêncio. Os olhos de Blake cravam-se nos olhos de Agramon, como se ela estivesse supresa pelo seu tom de voz, ou melhor, como se o que acabasse de dizer tivesse acordado-a de vários de seus bloqueios.
Agramon quebra a conexão de olhares e bufa, baixando sua cabeça para encarar ao chão. Ele passa as mãos pelos cabelos, envergonhado por ter sido bruto com a única pessoa com quem tem para conversar sobre seus irmãos.
– Blake, me desculpa. Eu perco fácil a paciência quando o assunto é essa falta de respeito absurda entre as nossas raças. – Agramon se aproxima de minha mãe, que ainda está paralisada. – A culpa não é sua, você só estava tentando me...
– Não. – Minha mãe sai de seu estado de transe repentino e coloca-se a falar. – Você tem razão, Agramon.
– Do que você está falando, Blake?
E então, ela responde:
– Eu tenho sim uma aproximada previsão de quando é que a rivalidade entre nossas raças vai acabar.
Primeiro, olhos de Agramon se arregalam. Depois, um meio sorriso nasce no canto de seus lábios. Ele provavelmente acha que Blake está fazendo uma piada.
– Ah é? E quando seria isso? – Pergunta, com sarcasmo em seu tom de voz. – O tão esperado fim das guerras entre brancos e negros.
Blake continua no mesmo lugar, imóvel, congelada. Visivelmente apreensiva.
Não entendo muito bem porque é que ela está dizendo essas coisas a Agramon, nem porque está tão nervosa...
– Não sei dizer com muita precisão... – Ela começa, quase que sussurrando e sua voz falha. – Mas, definitivamente, isso vai acontencer enquanto eu estiver viva. – Finalmente, conclui.
Mas é claro! Tudo faz sentido agora. É a primeira vez que Blake conta a alguém sobre a sua missão, sobre seu propósito de estar viva. Ela é a responsável por estabelecer a paz entre as duas raças de feiticeiros, afinal.
O meio sorriso nos lábios do meu pai se desfaz no momento em que os olhos da minha mãe se enchem de lágrima. Acredito que ele não esteja entendendo nada.
– Eu também quero que aconteça enquanto estiver vivo, Blake. – Tenta consolá-la, aproximando-se com cuidado. – E como pacifista, pretendo fazer de tudo para ajudar nossa espécie alcançar a paz. E eu sei que você também vai fazer o mesmo.
– Você não entende! – Blake grita enquanto uma lágrima escorre pelo seu rosto. Sua voz ecoa pela floresta fazendo-me assustar. Agramon está ainda mais perplexo do que antes. – Eu não estou falando disso, Agramon. Não é sobre os pacifistas em geral, mas sobre mim.
Ele encara minha mãe com uma ruga entre os olhos, tentando entender porque é que ela está falando tudo isso.
– Por favor, pare de falar em códigos, Blake. Esclareça o que está querendo dizer.
Minha mãe respira fundo e noto que suas mãos estão bem trêmulas, mas enfim, ela diz:
– Eu sou filha da Fogueira da Fortuna! É por isso que sou mais forte que os outros. E, além disso, eu fui gerada com um único propósito: alcançar a paz entre nossas raças.
A expressão de assombro de Agramon é a última coisa que consigo ver antes da névoa reaparecer para me levar até uma outra lembrança.
***
O cenário, ao redor de mim, muda completamente. A atmosfera de nebulosidade da floresta é substituída pelo conforto de uma cabana, da mesma forma que a escuridão completa é trocada pela luminosidade das chamas de uma lareira.
Observo cada canto do casebre, tentando reconhecê-lo, mas não tenho sucesso. Acabo chegando à conclusão de que nunca estive nesse lugar.
A cabana misteriosa possui um único cômodo, preenchido por uma grande mesa rodeada por cadeiras em que alguns feiticeiros estão sentados.
Estão em um bom número, aproximadamente trinta. Todos vestem capas, pretas ou brancas, cobrindo suas cabeças, provavelmente para não serem identificados. Dentre eles, reconheço apenas Agramon e Blake, os únicos com os rostos à mostra, sentados um ao lado do outro. Noto também o fato de suas mãos se tocaram de forma carinhosa. Aparentemente, já estavam juntos, não como apenas amigos.
Os feiticeiros cochicham entre si, até meu pai dar início à reunião.
– Boa noite a todos vocês, meu irmãos. É com muita honra que dou início ao quarto encontro da Sociedade do Equilíbrio.
Nesse exato momento, todos os feiticeiros se levantam, em uma sincronia que me assusta, abaixam seus capuzes e voltam a se sentar.
Então Agramon e Blake, algum tempo após se conhecerem, resolveram criar uma sociedade secreta pacifista. Muito interessante...
Já que o governo de ambos os reinos não podia saber sobre os encontros da Sociedade, a localização desta cabana deve ser alguma região de Kingswood bem afastada de Raven Place ou Dove Land.
– Gostaríamos de dar às boas-vindas àqueles que estão aqui pela primeira vez. – Minha mãe coloca-se a falar. – Por favor, fiquem de pé e se apresentem.
Quatro feiticeiros se levantam. Dois deles são feticeiros brancos, um homem e uma mulher; já os outros dois, são dois feiticeiros negros.
– Eu sou Marey Phieliam. – A feiticeira branca começa a falar. – Este é meu irmão, Aris. Nós vivemos em Dove Land e lutamos para o rei Darion, porém contra a nossa vontade. Estamos aqui hoje porque acreditamos em uma Opposite em que feiticeiros negros e brancos se respeitem e convivam em harmonia.
– É uma honra saber que pensam como nós. – Blake diz, simpática. – Sejam muito bem-vindos à Sociedade, irmãos Phieliam!
Os irmãos agradecem e voltam a sentar. Então, os outros dois feiticeiros negros que estão de pé passam a se apresentar. Mas antes que comecem a falar, eu os reconheço. E fico totalmente perplexa.
– Boa noite a todos. Meu nome é Anthony Gray e este é meu irmão, Caeser. – O pai de Luke, anos mais jovem, diz. É tão parecido com o filho, que eu poderia jurar que são a mesma pessoa. – Nós viemos com um único propósito: lutar para que acordos de paz entre negros e brancos sejam estabelecidos. Creio que nunca haverá ordem, se primeiro não houver paz.
Sr. Gray continua a falar e falar. Um longo discurso sobre a paz entre brancos e negros. Sua voz vai se tornando cada vez mais baixa e percebo que as cores ao meu redor vão sumindo gradativamente. Até que finalmente tudo se apaga e eu volto a abrir os olhos.
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