Opostos Perfeitos
29 Capítulo 28
Notas iniciais
Capítulo 28
Narrado por Enzo:
Estava tudo acabado. Saí do escritório porque me sentia preso naquela sala, de mãos amarradas vendo a mulher que eu amo simplesmente deixar de lutar por nós.
— Enzo... onde você... — a pergunta de Beth ficou no ar enquanto eu ia para o elevador.
Subi até a cobertura e fui para o jardim. Parei ao lado do canteiro de margaridas e senti vontade de chorar. Sabia que não deveria, homem não chora. Mas ela estava saindo da minha vida e eu não sabia o que fazer. E doía. Doía bastante porque não era um sentimento de adolescente ou de menino. Era algo bem mais forte do que aquelas paixões que se tem na adolescência quando cada casal que se forma acredita que o amor vai ser para sempre e usam o “eu te amo” mais vezes no dia do que trocam de roupa. Como se isso fosse amar alguém de verdade. Eu podia não saber nada sobre o amor de verdade e nunca ter amado alguém mais do que a mim mesmo, mas sabia que o que eu sentia pela Rafa não eram aquelas paixões bobas de adolescentes. E não sabia o que fazer para não perdê-la.
Apertei dois dedos contra os olhos impedindo que lágrimas caíssem e respirei fundo, sabendo que era em vão tentar contê-las.
Ficou difícil até ficar ali sabendo que ela estava logo abaixo e não estávamos juntos. Resolvi sair da empresa e ir dar uma volta na praia. Desci o elevador, peguei o carro e fui. Como era sexta eu sempre deixava uma bermuda no banco de trás do carro porque gostava de passar na praia antes de ir para casa. Troquei de roupa em um banheiro, porque não iria de terno para a praia e depois fui descalço para a areia. Não tinha muita gente, era sexta à tarde ainda. Sentei perto da areia, em uma parte com grama e na sombra de um coqueiro e fiquei olhando o mar e pensando. Passei o resto da tarde assim ali e só comprei uma água de coco.
Pelas seis horas levantei e fui caminhar na beira da praia, com a água cobrindo os pés. Caminhei durante meia hora e depois voltei até onde tinha estado antes. Em um quiosque comprei dois litros de vodka e fui sentar na areia, não tinha muita gente, mesmo aquela hora porque em sextas normalmente o pessoal ia curtir a balada, deixavam a praia para o sábado e o domingo. Comecei a tomar a primeira garrafa quando o sol começava a se pôr.
— Ei... deixa eu ver, eu me lembro de você... — uma garota chegou onde eu estava e parou na minha frente com um dedo no queixo pensando.
— Eu não lembro de você. — cortei logo, devia ser alguma das que já me viu por aí e sabia quem eu era e quanto dinheiro tinha.
— Ah! Claro! O Machiello não é? Você que fingiu o sequestro no noivado com a garota que você não gosta e daí fugiu com seus amigos num carro!
Olhei para a garota assustado, quem era ela e como sabia daquilo?
— Como... você...
— Você não lembra de mim, que pensamento bobo o meu... pessoas como você são de níveis mais altos não é? — ela sorriu irônica. — Nunca lembram de quem lhes ajuda.
— Eu... sinto muito, não lembro de você.
— Meu nome é Bebel, ajudei você e seus amigos a saírem do bar onde eu trabalho quando você fugiu do seu noivado armando um sequestro... — ela sorriu.
Ah!
— Ah! Me lembro agora... Obrigado por aquele dia... — falei erguendo a garrafa de vodka e oferecendo a ela, eu já estava bem tonto depois de ter tomado quase toda a primeira garrafa sozinho.
Ela sentou ao meu lado na grama, tomou um gole e depois acendeu um cigarro.
— Então, porque está se embebedando na praia e sozinho?
— Porque eu fugi do noivado por causa de uma mulher e agora ela desistiu de mim. — dei de ombros.
— Nossa. — ela riu. — Você já bebeu bastante né?
— Tem mais uma ainda, depois vou dar um mergulho eu acho.
— Deixa de ser idiota, cara. — ela falou dando mais uma tragada no cigarro.
— Eu? Idiota? Não sou idiota. — retruquei zangado.
— Ah, claro, você vai encher a cara, não vai nem conseguir parar em pé e dai vai ir dar um mergulho para acabar com sua tristeza, morrer afogado e poder parar de lutar e não é idiota... Você realmente é um sábio, Sócrates passaria vergonha. — ela disse irônica.
— Quem você pensa que...
— Sou uma pessoa exatamente como você. O fato da sua carteira ser mais gorda que a minha não te faz nem um pouco melhor, querido. — ela me cortou.
— Escuta aqui...
— Escuta aqui você. Se eu não sou cega, a garota que estava no bar, sentada ao seu lado é a garota de quem você está falando, que desistiu de você e blá blá blá, se estou certa também, você gosta bastante dela, do contrário o mauricinho não estaria aqui enchendo a cara desse jeito. Agora de uma coisa eu tenho certeza, você encher a cara e morrer afogado não vai te trazer ela. Então você devia ser um pouco mais corajoso, como foi aquele dia no bar e enfrentar certas coisas em vez de simplesmente desistir porque está tristinho.
— Ela vai embora. Em duas semanas. — falei.
— Então faça o tempo dessas duas semanas ser inesquecível. Para você e para ela. — Bebel disse olhando nos meus olhos e depois levantou pegando a garrafa de vodka que estava cheia. — Você não se importa se eu levar isso aqui, não é? Acho que já chega de bebida por hoje, querido.
Ela levantou e foi embora caminhando pela areia. Eu fiquei ali, meio atordoado com o que havia acabado de acontecer. Mas ela tinha razão. Aquelas duas semanas precisavam ser inesquecíveis, para nós dois.
Levantei quando Bebel já tinha se afastado e fui para o meu carro andando um pouco tonto devido a bebida.
Entrei e percebi que estava cansado, o sono já ia começar a bater, então eu devia ir logo para casa. Liguei o som do carro, estava ouvindo um cd do Led Zeppelin e aumentei um pouco o volume.
Não sei como cheguei em casa, porque o sono estava me dominando, tinha bebido bastante. Quando entrei, passei pela sala, subi para o meu quarto e deitei na cama de qualquer jeito.
No sábado acordei com a Judite, a empregada da casa, batendo na porta do quarto.
— Entre. — murmurei.
— Enzo, seu pai pediu que acordasse você e disse para que descesse logo, creio que receberão visitas.
— Quem?
— Aprece-se. — ela saiu sem nem sequer me responder. Não se faziam mais empregadas como antigamente.
Levantei e fui tomar um banho, provavelmente seria mais algum otário que jogava golfe com ele aos sábados a tarde.
Vesti uma camiseta de linho branca e calças de moletom, estava em casa ora essa.
Desci em dez minutos. Fer estava sentada entediada no sofá e ouvi a voz estridente da Bianca.
Ah, não!
— Enzo, meu amor! — ela veio me abraçar e me deu um selinho.
— Bianca. — revirei os olhos sem que ninguém visse.
— Olá, Enzo. — o pai da Bianca me cumprimentou com um aperto de mão.
— Sr. Ruchell.
Não! Não! Não!
— Judite, prepare a mesa do almoço. — meu pai ordenou.
Ela fez um sim com a cabeça e se retirou para a cozinha.
— Bom, acho que podemos conversar enquanto isso. — meu pai sorriu cordial para o Sr. Ruchell. — Sabemos que nossos filhos se gostam e a união deles será excelente em todos os sentidos. Creio que possamos estabelecer a data definitiva para o noivado. Estava pensando em fazermos a celebração no próximo final de semana. — meu pai disse e eu fiquei mudo. Não. Não. Não!
— No próximo final de semana será complicado, sei que havíamos discutido isto ontem, mas precisarei ir a Nova Iorque, podemos marcar para o final de semana seguinte?
— Por mim está ótimo. Temos uma semana a mais para os preparativos, excelente.
Os dois passaram a discutir mais detalhes e Bianca e eu que éramos os futuros noivos não participávamos de nada praticamente, mas ela parecia completamente feliz.
Judite avisou que a mesa estava posta e fomos almoçar. Eu ainda não estava acreditando. Era o final de semana que a Rafa... Tudo estava perdido.
Depois do almoço Bianca me seguiu até a parte da frente da casa, onde havia um grande jardim e bancos artisticamente distribuídos, sentei em uma cadeira na varanda e ela sentou no meu colo.
— Bianca, por favor...
— O que há, amor? — perguntou com um jeito doce. — Você está tão estranho comigo e já faz um tempo. — ela fala como se não soubesse que não a amo, que o que sempre tivemos foi só sexo.
— Você sabe que não quero me casar.
— Você quer sim, só está com medo, amor. Isso passará quando estivermos em nossa lua de mel. — ela sorriu provocadora. — Ah propósito, que tal sairmos para jantar hoje e depois poderíamos dar um volta por ai. — ela piscou.
— Não estou muito a fim de sair hoje. — falei cortando sem olhá-la.
— Você vai fazer o que então?
— Ficar em casa, eu acho.
— Hum. Bom, então você se incomoda se eu pegar um cinema com Suzan e Amelia? — perguntou como se eu sentisse algum pingo de ciúmes dela.
— Não. Você faz o que quiser.
Um tempo depois o pai da Bianca veio até onde estávamos e se despediu, estavam indo embora, finalmente.
Voltei para dentro e fui para o meu quarto, no corredor passei pela Fer e ela viu que eu não estava bem, veio atrás de mim.
— Enzo, está tudo bem?
Ri sem humor.
— Nada está bem.
— Porque você não conversa com o papai?
— Desde quando ele escuta alguma coisa que eu diga? — olhei para ela.
— Mas você...
— Fer, ele não está nem aí para o que eu penso ou sinto. Nunca esteve, ele quer que eu me case e só. É isso que importa para ele.
— Como você quer que ele escute se você nunca diz nada a ele. Ou quando foi que você realmente disse: “EU não vou me casar com a Bianca porque não a amo”? Enzo, nosso pai acredita que você gosta da Bianca, talvez ele saiba que não a ame, mas ele acha que você é jovem e está nervoso. Ele não sabe o que você sente pela Rafa. — ela completou mais baixo. Eu a olhei.
— A Rafa vai embora.
Fer ficou muda me encarando sem entender o que eu disse,
— No outro final de semana. Esse do noivado... Ela vai para a Itália.
— Você não pode deixar ela ir, ela também gosta de você. Qualquer um percebe isso depois desse tempo.
— Ela já decidiu, Fer. — falei sem tentar esconder minha decepção. — Ontem, encontrei uma mulher, uma amiga, ela disse que eu deveria aproveitar o tempo que a Rafa continuar aqui, não sei, fazer o melhor possível para ser inesquecível, e se o que temos é real, ela voltará. Ontem eu acreditei que devia fazer isso, mas agora eu não sei. De que adianta. Se ela realmente gostasse de mim ela ficaria e lutaria.
— Enzo, posso dizer uma coisa, com bastante sinceridade? — Fer me pediu e eu concordei com a cabeça. — Se eu fosse a Rafa teria desistido há muito tempo, porque você não pode dizer que ela não lutou. Quem não fez nada foi você. Você só está aceitando a situação e ela ficou com você, mesmo que no fundo soubesse que não tinha chances, isso na cabeça dela, claro, de vocês ficarem juntos. Você não está vendo, Enzo, você não consegue ver que ela se machucou dolorosamente por você esse tempo todo? Ou você gostaria de ser só uma opção na vida dela, e se fosse ao contrário, e se ela estivesse noivando com alguém que não amasse enquanto estava com você e não fizesse nada para impedir seu próprio casamento? Eu acho que a amiga que você encontrou ontem está mais que certa. Se gosta dela, faça essas semanas serem inesquecíveis. — Fer deu de ombros com os olhos um pouco úmidos, ela era bastante emotiva no fundo.
— Você acha que eu devo propor a ela que... a gente aproveite essas duas semanas, como se fossemos um casal?
— Não, estou dizendo que vocês deveriam aproveitar essas duas semanas como se soubessem que um de vocês fosse morrer. Como se soubessem o tempo de vida de vocês. — ela sorriu.
— Você leu isso em algum livro? — perguntei tentando animar um pouco ela que já estava praticamente chorando por mim.
— Não, seu bobo. — ela sorriu. — Eu me preocupo com você, apesar de você ser um irmão muito chato, você é importante para mim. Sabe, eu gosto do seu amigo, então você sempre consegue me ajudar a dar um jeitinho de ver ele... — ela piscou sorrindo e brincando.
— Sabia que existiam segundas intenções aí. — sorri e dei um beijo no rosto dela agradecendo. Bebel estava certa, Fer estava certa. E eu já sabia o que faria a noite.
Liguei para o Leandro e pedi que me fizesse um favor, expliquei algumas coisas e ele concordou.
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