Opostos

18 18. Fica.


O carro não se vira bem o suficiente, capotando algumas vezes para fora da pista. Sinto uma pontada forte no estômago e se Adam não estivesse ao meu lado para me segurar, eu teria caído no chão. Lágrimas começam a sair de meu rosto e Camille não parava de se desculpar comigo e eu não conseguia entender mais nada sobre o que acontecia a minha volta. Corro aos tropeços até o carro de Ethan gritando pelo seu nome esperando por uma resposta mesmo que mínima. Mas ele não respondia e parecia que quanto mais eu corria, mais longe estava dele. Adam corria logo atrás de mim. Finalmente chego até seu carro e me agacho procurando o rosto de Ethan. Ele estava saindo do carro e Adam o ajuda a sair. Seus olhos me observam por alguns minutos, ele conseguia se levantar, mas havia sangue escorrendo pelo seu rosto. Escuto alguém ligando para ambulância. Adam coloca Ethan deitado em meu colo no chão e eu seguro suas mãos com força.

— Eu estou aqui. – Sussurro baixinho.

— Eu sei. – Ele sussurra de volta com dificuldade. Em questão de minutos a ambulância já chega, já que a cidade é meio parada e quase não tem ligações no local. Um médico desce de lá e ajuda os outros a colocar Ethan na maca e levá-lo ao hospital.

Encaro Adam implorando em silêncio que ele fosse com Ethan. Ele me entrega as chaves do carro, já entendendo o que eu queria fazer, e eu corro até seu carro em desespero, correndo pelas ruas da cidade até finalmente chegar na casa de Harry depois de ter entregado as chaves do carro de meu pai para Camille. Eu ainda estava brava com ela e com Heather e queria entender tudo o que aconteceu. Mas eu não conseguia pensar em nada além de Ethan. Bato desesperadamente na porta e Harry a abre com cara de sono.

— Desculpe ter te acordado... – Sussurro e ele sorri amigavelmente.

— Sophie... Está tudo bem querida? – Pergunta e eu seguro o choro negando com a cabeça.

Respiro fundo antes de contar tudo para Harry que em questão de segundos entra no carro de Adam e vamos juntos até o hospital onde Ethan está. Nem sei como consegui contar para ele aquilo, eu só queria ir para o meu quarto e chorar.

— Ethan Gavin Brian. – Diz Harry para a atendente assim que chegamos no hospital.

Suspiro pesadamente me sentando em uma cadeira ali e agarrando minhas próprias pernas. Adam aparece saindo do corredor e se senta ao meu lado. Encaro-o apreensiva.

— Ele está bem. Mas vai ficar essa noite aqui em observação. – Murmura Adam e eu suspiro aliviada.

— Você sabe que Ethan é bom demais para um acidente daquele, acontecer logo com ele, não é? — Pergunto baixinho. Aquilo martelava minha cabeça.

— Era como se...

— Os freios tivessem sido cortados. – Interrompo-o e ele assentiu.

“- Ethan, pelo amor de Deus, não corra nesse carro. – Seu grito chama a atenção de todo mundo ali. Ela estava chorando e me surpreendeu saber que gente como ela chorava. – Por favor. – Repete, mas Ethan a empurra e entra no carro que já estava estacionado na chegada da pista.”

Lembro-me das palavras desesperadas de Heather e a maneira como implorava indiretamente que eu corresse. Adam me observa e assentiu como se pudesse ler meus pensamentos. Me levanto caminhando para fora do hospital e dando de cara com uma Heather preocupada no canto do estacionamento sendo acalmada por alguns amigos. Até Camille estava lá. Caminho quase que contando os passos, segurando toda a raiva que eu sentia em mim. Heather se levanta e me encara com os olhos inchados de tanto chorar como se fosse a coitada da história.

— Ethan está bem? – Pergunta desesperada e eu fecho minhas mãos em punho respirando fundo.

— Ethan? Sim... Sim, ele está bem. – Vocifero baixinho e ela engole o choro dando uma risada ao ver minhas mãos fechadas em punho.

— Acha que consegue me bater? – Questiona ainda rindo. Arqueio a sobrancelha – A culpa disso tudo é sua pentelha. Quem era para estar em uma cama de hospital é você. Ele, nesse exato momento, era para estar na minha cama.

Aquilo foi à gota d’água e quando já dei por mim, Heather estava no chão e eu estava por cima dela estapeando a mesma com toda a força que eu possuía e até mesmo com uma força que nunca tive. Adam aparece correndo até mim e segurando minha cintura e antes que me carregasse para longe dali, chuto seu estômago ouvindo-a gemer de dor. Adam me impede de voltar a espancá-la e me conduz para dentro do hospital de novo. Vejo Camille correndo até mim.

— Sophie, eu...

— Vai embora daqui Camille, e seja pelo menos uma vez na vida uma irmã legal, avisando nossos pais que vou passar a noite no hospital. – Grito antes de entrar no hospital.

Harry estava sentado na cadeira da sala de espera então Adam e eu nos sentamos ao seu lado. Eu não sabia o que dizer para Harry, pela sua expressão, ele viu toda a cena do lado de fora. Sinto lágrimas saírem do meu rosto, que tipo de pessoa eu estou me tornando? Eu não devia ter batido na Heather, mas nesse momento a raiva falava mais alto e a ansiedade de ver Ethan também.

— Harry, sinto muito por qualquer coisa que tenha visto. – Murmuro.

— Está tudo bem... Se você não fizesse aquilo eu mesma faria. Mas agora, eu sinto vontade de fazer aquilo... Só que em Ethan. – Diz Harry realmente bravo.

— Como assim? – Pergunto sem entender nada.

— Ele sabia Sophie. Ethan não é idiota. – Interrompe Adam. Fico boquiaberta por alguns segundos. – Falando nele... Ele quer te ver.

— O quarto dele é o 29 do terceiro andar. Tem um elevador no fim do corredor. – Completa Harry.

Me levanto quase que contando os passos. Então Ethan sabia. Sempre soube. Ele podia simplesmente ter me contado e nenhum de nós teria corrido. Que droga tinha dado nele? Se o que queria era me assustar, ele conseguiu fazer isso de todas as maneiras possíveis. Aquela cena atravessava meu subconsciente a cada minuto, repetidamente. Eu mal sabia o que pensar na hora e só agora eu sei a dor que senti. Não foi uma dor qualquer... Entro no quarto de Ethan e ele estava deitado apenas tomando soro na veia. Continuo parada ao pé da porta e do nada a vontade de chorar aumenta de novo e eu mal sei de onde tirei tantas lágrimas.

— Por que você não me contou? – Perguntei de uma vez e ele sorri de lado.

— Como se você fosse aceitar aquilo facilmente. – Responde ainda rindo.

— Não ri seu idiota, você me assustou. E isso não é motivo para não ter me contado que sabia. – Grito ainda chorando. E foi ali, dentre tantos momentos que já tivemos, foi somente ali que eu percebi... Que já era tarde demais.Com certeza era tarde demais porque eu já havia me apaixonado por ele. Eu havia me apaixonado pelo bruto, idiota e inconsequente que eu tanto queria odiar. Abro a porta do quarto para sair dali e me acomodar em alguma cadeira qualquer na sala de espera, mas ouço Ethan me chamar baixinho. Viro-me para encará-lo.

— Fica. – Ele sussurra tão baixo que mal consegui ouvir. Acabo sorrindo enquanto ele dava um pequeno espaço para mim naquela pequena cama de hospital e caminho até ele me deitando ao seu lado.