Opostos
35 03x3. Contra o tempo.
Notas iniciais
Eu ainda estava ofegante, sentada na mesa de Travis e recuperando minha realidade. Ele sentou em sua cadeira respirando fundo. O silêncio torturante fazia meu consciente gritar que a ideia de beijá-lo não foi uma das melhores que eu já tive. E que talvez... Só talvez... Ele estivesse interessado em outra pessoa, algo que era impossível imaginar agora, porque não era o que parecia.
— Eu sinto muito... Não devia ter feito isso com você. – Digo descendo da mesa e indo em direção à porta quando o mesmo me segura.
— Acha que não gostei? Só eu sei quanto tempo esperei por isso, mas...
— Mas? – Coloco meus braços em volta de seu pescoço mordendo o lábio inferior.
— Ethan está de volta e parte de mim sabe que só fez isso porque ele te magoou e você só queria dar o troco. – Sussurra próximo ao meu ouvido.
— Um belo e delicioso troco. – Murmuro sorrindo.
— Não brinque os sentimentos de uma pessoa Sophie...
— Quem disse que estou brincando com os seus sentimentos? – Pergunto puxando-o mais para mim.
Eu não estava brincando com os sentimentos de Travis, essa era a verdade. Eu estava brincando com os meus, vendo até quando eles continuaram firmes e fortes em relação a Ethan. Queria, por alguns segundos, poder gerenciar meus próprios sentimentos e apagar todos os pensamentos que me levavam até ele.
— Acredite... Você está fazendo isso agora mesmo. – Diz enquanto eu mordia o lobo de sua orelha. Meu celular toca e vejo pela tela que é Olívia. Afasto-me dele imediatamente.
— Eu sinto muito, mas preciso ir. – Digo dando um selinho nele e arrancando uma risada sua.
Entro no carro observando mais uma vez a tela do celular e dando de cara com uma mensagem dela:
P. P.S (Problemas pessoais, socorro)
Aquele era um código que há muito tempo não usávamos. Mal me lembrava porque havíamos criado aquilo mas provavelmente foi um dia de muito tédio para fazer algo tão idiota. Ligo o carro em direção a sua casa e em menos de dez minutos já batia em sua porta, em um total desespero de algo sério ter acontecido já que aquele código era mais usado por mim.
— Sophie? — Suzanna abre a porta e se assusta ao ver-me por ali.
— A Olívia está? – Pergunto baixinho e ela faz uma careta.
— Ela está no andar de cima... Chorando. – Sussurra e eu arqueio a sobrancelha.
Entro em disparada, subindo ás escadas e correndo em direção ao quarto de Olívia. Abro a porta dando de cara com ela no chão, mergulhando em suas próprias lágrimas. Assim que ela percebe corre para os meus braços e eu a guio até a sua cama e me deito ao seu lado e acariciando os seus cabelos esperando pacientemente suas lágrimas cessarem. Então ela começa a fungar, como se tentasse para o choro.
— Eu e o professor Miles terminamos. – Sussurra e eu arregalo os olhos. Eles ainda estavam juntos? Está aí algo que eu definitivamente não esperava.
— E por que ele terminaria com você? – Pergunto confusa.
— Não foi ele quem terminou... Fui eu. – Diz se levantando e limpando as lágrimas com as costas das mãos.
— Tudo bem... Mas então por que está assim?
— Eu terminei com ele porque eu beijei Pietro e... Eu senti algo. E isso não é normal porque ele é nosso melhor amigo desde... Desde...
— Sempre?
— Não me interrompa, estou no meio de um discurso dramático. – Ela faz uma careta. – Ele é nosso melhor amigo desde sempre e é meio impossível imaginar ele de outra forma, mas durante o beijo... Eu o via de outra forma... Era como se... Como se...
— Estivesse apaixonada por ele e não soubesse?
— Será que dá para parar com isso? – Ela pensa uns instantes e assentiu com a cabeça. – Mas você está certa...
— Então vai atrás dele. Pietro sente o mesmo por você há muito tempo. – Digo baixinho e ela me encara.
— Mas ele deve estar indo para Paris nesse exato momento. Atrás de Anna.
— Ele não ama ela. Nunca amou... Olívia, pelo amor de Deus abra os olhos. Está deixando ele ir embora... Vai mesmo deixar alguém ser feliz no seu lugar? – Aquele conselho servia mais para mim do que para ela e eu tive que rir daquilo.
— O aeroporto é um pouco longe, em dez minutos ele entrará no avião e para chegar lá leva vinte minutos! – Diz ela ainda espantada com o que eu havia falado se levantando depressa.
— Corrigindo você, uma pessoa normal chegaria lá em vinte minutos. Eu consigo chegar em cinco. – Balbucio com um sorriso no rosto e levantando as chaves.
— Você... Você...
— Vai limpar logo esse rosto porque tem um garoto que precisa ser impedido de entrar em um avião. – Grito sorrindo e ela quica animada até o banheiro.
Desço as escadas entrando rapidamente no carro e Olívia faz o mesmo sem tirar o sorriso do rosto. Ligo o carro e piso com força no acelerador, desviando dos carros e ultrapassando sinais. Eu não podia deixar Pietro ir embora sem saber que Olívia estava apaixonada por ele também. Saio do carro assim que estacionamos no aeroporto e Olívia faz o mesmo correndo até uma lata de lixo. Corro até ela.
— Você está bem? – Pergunto baixinho e ela me encara.
— Que isso, você corre tão devagar que nem dá para passar mal com as curvas que você dava. – Sussurra fazendo careta e eu dou uma risada.
— Vamos... O voo para Paris é daqui a cinco minutos.
Ela assentiu, respirando fundo e juntas corremos em disparada para dentro do local. Subimos às escadas e subimos algumas cadeiras procurando pelo rosto conhecido de Pietro... Mas nada. Olívia se aproxima de uma mulher loira, que brincava com seu filho sorridente.
— Desculpe interromper senhorita... Mas você sabe se o voo para Paris já saiu? – Pergunto e a mulher nos encara.
— Sim, saiu agora a pouco. – Murmura sorrindo e voltando a prestar atenção no filho.
Me afasto respirando fundo.
— Eu sinto muito Olívia. – Sussurro e ela se afasta de mim indignada, me encarando.
— Isso é uma droga sabia... – Diz ela aborrecida e vejo Pietro se aproximar de nós duas por cima dos ombros de Olívia. Sorri. – Porque ele é meu melhor amigo desde sempre e quando eu finalmente percebo que o carinho que sentia por ele era mais forte do que eu pensava ele vai embora. Ficar com essa tal de Anna. Que seja feliz com essa Anna então, eu estou bem... E sabe o que mais? Tomara que ela fique com outro garoto. Aí Pietro iria decidir voltar e a cidade não seria a droga que vai ser com ele longe daqui. Quem ela pensa que é? Eu vi ele primeiro, não ela. Eu sei tudo sobre ele. Sei que ele bagunça o cabelo quando está bravo, e que conversa em italiano enquanto dorme. Eu nunca entendo nada do que ele diz e isso irrita muito. Sei que ele odeia torta de maçã, e que o desenho favorito dele é o rei leão, mesmo ele odiando admitir isso. Sei que a risada dele é completamente escandalosa e que a mãe dele deu uma camisinha para ele em seu aniversário de treze anos e as bochechas dele ficaram tão rosas que chegou a ser engraçado. E a Anna? Aposto que aquela tosca não sabe de nada da vida dela, pelo menos não tão bem quanto eu sei e...
— Está aí uma coisa na qual eu concordo. Ela não sabe nada da minha vida como você. – Murmura ele atrás dela com um sorriso no rosto e ela se vira brava.
— Será que alguém nesse mundo não conhece o que é educação? Eu estou no meio de um... De um... Pietro?
— Está no meio de um discurso romântico que jamais pensou que poderia fazer um dia? Típico. – Ele sorri puxando-a para mais perto e eu me afasto dos dois, me sentando em uma cadeira, ao lado da mulher loira que, agora, os observava.
— O romance adolescente... É tudo sempre tão lindo não é? – Diz ela me encarando. – Deve ser incrível se apaixonar por aquele que te conhece melhor do que você mesma.
— É... É mesmo... – Sussurro baixinho sorrindo de volta.
“– Está com medo? – Pergunta rindo e eu o encaro séria.
— Claro que não, aquela história não é nem um pouco medonha. – Sussurro em resposta e ele dá de ombros, se ajeitando para dormir.
Caminho vagarosamente até a minha e deito. Aquela história não queria sair da minha cabeça e eu acabei encarando a janela onde havia um pequeno campo de flores. Fecho os olhos ao ver que as flores eram rosas vermelhas e me cubro até a cabeça com a coberta. Suspiro me virando para o lado oposto da janela. Encaro Ethan por alguns segundos que estava de costas para mim. Levanto-me indo em direção à cômoda e a arrastando para perto da chaminé, encaro Ethan mais uma vez somente para ter certeza de que ele estava dormindo. Corro até a minha cama e a arrasto para perto da dele. Arrumo minha coberta e ele acorda se virando para mim e me encarando confuso ainda sonolento. Aproveito seu braço esticado na cama e deito-me usando ele de travesseiro enquanto ele passava um de seus braços em minha cintura, me puxando mais para si, protetoramente.
— Eu sabia que você estava...
— Calado.”
— Eu preciso ir. – Digo me aproximando dos dois.
— Tudo bem, eu decidi ficar aqui mais uns dias e quero levar Olívia para casa.
— Para a sua casa não é? – Diz Olívia e as bochechas de Pietro se esquentam. Dou uma risada.
— Eu posso levar vocês se quiserem...
— Tudo bem Sophie, eu pedi um táxi. Foi bom te ver. – Sussurra e eu sorri assentindo. Era bom ver Pietro também e principalmente, ver o quanto ele e Olívia estavam felizes. Caminho para fora do aeroporto quando ouço Olívia me gritar.
— Eu estava errada... Você pode ter mudado, mas não foi para a pior e... Bem, de uma forma ou de outra eu percebo que a antiga Sophie ainda vive dentro de você. – Balbucia ela e meu sorriso se aumenta.
Entro no carro dirigindo até a mansão de Anthony que não era muito longe dali. Abro as enormes e pesadas portas da entrada e subo as escadas até o antigo quarto de Ethan. Era muito provável que ele estivesse lá e, rezando para que eu estivesse certa, bato na porta do quarto. Então ele abre a porta e vejo todas as suas malas intactas no canto do cômodo. Ele havia acabado de chegar e o barulho do chuveiro denunciava que Jolene estava lá, mas eu pouco me importava.
— Sophie...
— Será que eu posso falar com você? A sós...
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