Opostos

31 02x5. Elogios Fúnebres.


Notas iniciais
D I S T A N T E S - Opostos pt. II

Eu estava em meu antigo quarto, e cada pedacinho considerado meu ali pareceu ter desaparecido. Minha cama já não estava mais ali e Camille insistiu em trocar o papel de parede do quarto, porque na época foi eu que escolhi e ela havia odiado. Me aproximo do meu antigo espelho rústico de cor branca que ficava próximo a porta do banheiro vendo uma pessoa acabada através do reflexo. E por baixo do vestido preto rendado, havia ódio. Um ódio tão grande que queimava como um vulcão que acaba de entrar em erupção em uma ilha. Andrew era a ilha. Minha mãe aparece no batente da porta sorrindo tristemente para mim, anunciando em silêncio o início do enterro. Suspiro pesadamente, indo com ela até o meu carro. Camille já estava lá dentro e seu choro baixinho era o único som que ouvimos até o cemitério.

Havia vários jornalistas da cidade na entrada do local e por sorte, alguns capangas de Anthony se ofereceram como segurança, mantendo-os longe do enterro, observando apenas ao longe. Sento-me vagarosamente na cadeira de plástico preta que ficava em frente ao caixão. Todos os cidadãos foram dar seus pêsames ou dizer o quanto gostavam de meu pai. Eu só queria ir embora e chorar, de uma forma que nunca fiz antes. Queria gritar alto, tirar toda a dor que havia em meu peito. Respiro fundo, sentindo o cheiro da grama molhada e das flores frescas que enfeitavam as coroas com belas mensagens de despedidas. Observo Camille por alguns segundos que encara o caixão inconsolável. Então eu engulo o choro e prometo, pela milésima vez, cuidar dela, e jamais deixar que alguém a machuque. Seguro sua mão com força e ela volta à realidade me olhando, sorrio baixinho e ela devolve o sorriso, apertando mais ainda minha mão. O pastor finalmente havia chegado e diz algumas palavras sobre a bíblia e o quanto meu pai era especial para cada um daquela cidade. Depois de alguns minutos que mal pareceram horas, ele me chama, pedindo que eu dissesse algumas palavras e eu travo, porque na noite passada havia perdido o papel onde havia o elogio fúnebre, mas ainda assim me levanto e caminho me aproximando do caixão, ficando de frente a todos.

— O meu pai já estava morrendo nos meus braços... – Algumas pessoas agitaram-se espantadas enquanto outras sussurravam entre as outras o quanto sentiam pena de mim. – Sim. É realmente uma pena afinal, não é a visão mais paradisíaca do mundo. – Digo mostrando a todos que eu havia ouvido o que disseram. – Em nenhum momento ele mostrou sentir dor, mesmo que fosse lancinante. Aliás, em nenhum momento, desde que nasci, ele demonstrou esse sentimento, pelo menos, não perto de mim. Mas quando o vi nos meus braços gemendo baixinho tentando inutilmente esconder a agonia que possuía, eu senti de todas as formas possíveis a dor que ele estava sentindo. Porque eu o estava perdendo. Pela segunda vez, eu estava perdendo uma pessoa. – Encaro Blair ao longe, sentada em um banco de mármore no canto do cemitério ao lado de Anthony. – Já é difícil esse sentimento... Dor. E nas duas vezes em que o senti, ele veio acompanhada da fraqueza. E eu posso dizer a vocês que perder uma pessoa já é horrível, mas a segunda vez é pior. Você não se sente mais fraca você se torna a fraqueza. Você não sente mais dor, você se torna a dor. Eu vi meu pai morrer enquanto contava as grandes histórias que vivemos. E enquanto eu fazia isso, me espelhava na força que ele sempre teve ao nunca demonstrar dor a mim. Me concentrei em todos os momentos felizes que já tive em toda a minha vida, e os transformei em força somente para demonstrar um sorriso, somente para dizer que estava tudo bem e que eu o amava. E quando a ambulância estava chegando, eu o vi fechar os olhos, eu o vi perder as esperanças e ainda assim, eu não queria perder a minha. Não de novo. Para vocês ele foi um pastor, um ótimo cidadão, exemplo para a sociedade. Para mim ele foi um amigo, um confidente, um pai de todas as maneiras existentes. E como uma pessoa me disse um dia... As pessoas continuaram vivendo em suas lembranças enquanto ainda se lembrar, e eu te prometo pai... Que eu nunca vou me esquecer de você.

Jolene

Ethan estaciona o carro o mais longe possível do enterro, suas mãos seguravam com força o volante quase que tentando impedir a si mesmo de ir até ela quando ouço o pastor dizer seu nome. Então aquela era a Sophie. Encaro Ethan e seus olhos tão fixos nos dela e nas palavras que ela pronunciava que pareciam piores que um soco em seu estômago me fez ver o quanto a história deles era longa o bastante para ainda deixá-los tão ligados. Sophie tinha um jeito tímido de ser e um sorriso triste brota em seus lábios. Seus cabelos eram negros e caiam como uma cascata por seus ombros, seu corpo era miúdo, os olhos castanhos mostravam toda a dor que ela sentia naquele momento, mas mesmo assim podia esconder aquilo com qualquer movimento que fizesse. Ela conseguia ser tudo que um dia eu sempre quis e parte de mim sentia raiva em ver que ela nem precisava se esforçar para isso. Então ela termina seu elogio fúnebre caminhando em direção àquela que supus ser sua mãe e irmã, as abraçando com força. E sua irmã caminha em direção ao lugar onde até então ela estava. Era sua vez de dizer alguma coisa. As palavras saiam amargas, e ela não se importava em chorar na frente de todos. Os soluços altos fizeram Sophie se levantar, e seus olhos agora demonstravam ódio, ela vira os calcanhares caminhando em direção à saída e Ethan sai do carro caminhando em direção a ela quase que contando os passos. Sinto um aperto no peito e uma vontade enorme de chorar quando uma pessoa se aproxima de Sophie. Ethan para na hora, virando os calcanhares como se arrependesse da burrada que estivesse prestes a fazer.

— Seymour. – Resmunga baixinho ligando o carro.

— Talvez ela tenha encontrado outra pessoa Ethan... – Demoro alguns segundos, pensando bem mais do que duas vezes antes de completar a frase. – Assim como você.

Pouso minha mão em sua coxa, lhe lançando um sorriso forçado, mas ele continua resmungando. Encaro a paisagem mórbida do lado de fora, tentando espantar esses sentimentos bobos.

Sophie

— O que você quer? Olha, seja lá o que eu tenha feito...

— Eu só queria dar os meus pêsames. Sinto muito pelo que você passou. – Murmura Travis com sua velha postura de delegado, me encarando intensamente com seus olhos negros. Ver Camille chorando já havia sido difícil, principalmente por eu pensar que parte daquilo era culpa minha. E agora ele vem me dizer aquilo no meu momento mais vulnerável. Tento engolir o nó que estava se formando em minha garganta e ele se aproxima, como se fosse me dar um abraço, mas eu recuo, mas decidindo abraça-lo com força e chorar bem mais que o necessário.

Seus braços fortes envolto do meu corpo tão pequeno me fez lembrar de Ethan e do quão vulnerável eu era ao seu toque. Um arrepio indesejado percorre meu corpo e eu abro os olhos vendo algumas pessoas irem embora do local, menos uma em especial que caminhava em direção a um carro preto. Havia uma garota no banco do carona, seus olhos tão fixos em mim, mas tentei não me preocupar com nada. Pelo menos, não agora. Aquele carro, a forma misteriosa do garoto ao caminhar até ela... Tão familiar. Aperto mais Travis contra mim tentando espantar qualquer pensamento que me levasse a Ethan. Pensamentos como aquele me deixavam calma, e eu queria continuar furiosa. Me afasto de Seymour.

— Desculpe, eu não...

— Sim, você queria. O fato de ter se afastado dos meus braços só demonstra que quer afastar pensamentos indesejados de sua mente e se concentrar em um mais evidente: Andrew. – Meus olhos se arregalam. – Sophie, eu não quero que faça nada. Ainda. Eu prometo te ajudar com o máximo de informação que puder oferecer, mas não use a raiva para pensar. Isso só vai destruir você.

— Seymour, eu não me importo, está bem? Por favor, não tente me impedir. – Digo caminhando até o meu carro, minha mãe disse que Blair iria levá-la e estranhei muito o fato de terem conversado no enterro, afinal, ela e Anthony estavam afastado de todos. Abro a porta bufando ao ver Seymour impedindo minha passagem.

— E se eu tentar? – Então sinto uma fisgada no braço e o encaro vendo uma agulha enorme cravada em minha pele. Calmante. Onde diabos ele havia conseguido um calmante? Olho Seymour em fúria e antes que eu pudesse gritar, um sono do qual jamais senti tomou conta de cada célula do meu corpo. Tombo em sua direção e ele me segura com força, abrindo a porta de meu carro e me colocando no banco do passageiro. Ninguém parecia ter visto aquilo e eu estava quase dormindo quando ouço a voz de Travis. – Você pode não se importar, mas eu me importo.

—/-

Abro os olhos dando de cara com Seymour sentado ao meu lado, os olhos observando cada movimento meu até mesmo minha forma de respirar, me fez dar uma risada. Era incrível como algumas horas de sono mudavam uma pessoa. Fazia dois dias que eu não dormia e me sentia um caco. Respiro fundo, me levantando ao ver que estava tarde, muito tarde.

— Eu não acredito que você fez isso ainda... – Murmuro, pegando minha sapatilha que estava jogada em um canto do quarto desconhecido. – Me lembre de te matar depois. – Calço as sapatilhas e me levanto dando de cara com Travis perigosamente próximo de mim.

— Claro, claro... Afinal, esse novo protótipo de Sophie Hamswere só pensa nisso como uma boa forma de resolver qualquer situação. – Diz baixinho, encarando meus lábios.

— De acordo com os meus estudos psicológicos, você não vê a hora de me beijar. – Descontraio imitando sua voz, sempre estudando as pessoas. Ele sorri de lado. Suas mãos percorrem minhas costas, me puxando mais para si.

— Talvez esteja certa. – Sussurra e eu engulo em seco. Talvez eu também quisesse. Meu consciente gritava.

— Não tem ninguém impedindo você. – Digo puxando seu rosto mais para mim.

— Meu consciente está. – Então ele se afasta. – Ainda está sobre o efeito do calmante. Só... Só volte a dormir. – Murmura saindo do quarto.

Abro a janela pulando a mesma após pegar as chaves do carro e saio correndo até meu automóvel, ligando para minha mãe e pedindo para passar a noite lá. Piso fundo no acelerador em direção a sua casa. Parte de mim não queria passar a noite sozinha e outra parte temia que mais alguma coisa acontecesse com mais alguém que eu amava.

Jolene

Quando Ethan finalmente abre a porta do quarto de hotel, ele joga as malas no chão e me prensa contra a parede assim que tranco a porta, suas mão vão até minhas coxas me puxando para cima e me levando até o quarto em seu colo. Seus lábios beijavam os meus famintos, como se precisasse daquilo, e eu me entreguei completamente a ele, sabendo que a cada beijo e toque mais delicado, ele pensava nela.