Oposição - Série Stellium [DEGUSTAÇÃO]
6 Capítulo V
Notas iniciais
Na segunda-feira de manhã, Lilith estava extremamente abatida e desanimada, não parecia nem de longe aquela mesma menininha que chegava à escola saltitante, com os bolsos da saia do uniforme socados de balas, chicletes e enfiando todos na boca.
Estava sentada no canto da sala, junto das mochilas coloridas de heróis e personagens de desenhos dos seus coleguinhas. Abraçava a sua bolsa rosa estampada com unicórnios, fadas, arco-íris e dosada de purpurina em algumas partes plastificadas. Como a professora havia percebido que ela estava caindo de sono, aproveitou para dar-lhe o direito de ficar isolada das outras crianças, para poder descansar e não participar junto das outras crianças “normais”.
Não era ainda aula de verdade, pois ainda estavam na primeira semana depois das férias, então não havia problema em perder algumas aulas de ensinamentos básicos da Astrologia. Ela poderia pegar isso depois, coisa que, no momento, não conseguiria fazer de jeito nenhum. Seus olhos estavam vermelhos e diminutos, sua íris azulada, sempre tão brilhante e vívida, estava fosca e irritada. Havia bolsas inchadas embaixo dos olhos, ressaltando as olheiras roxas, fazendo-a ter uma aparência de quem havia acabado de levar um soco, ou dois. Parecia não dormir há semanas, estava quase igual a um zumbi. Mentira para a professora, falando que estava com aquela aparência porque viajara com a família no final de semana e não teve tempo para descansar direito, tendo, assim, ficado com aquela aparência horrível. A professora, que agradecia internamente por não precisar ficar olhando para a cara de Lilith, acreditou nela e a deixou em dispensa naquela aula, o que a fez se sentir mais horrível ainda.
A verdade era que, desde que tivera aquele sonho de sexta para sábado, ela não conseguira mais dormir sem ter aquele maldito pesadelo. Todas as vezes que caía na inconsciência, era para o lado Dele que ela era transportada, era nas mãos de Ahriman que ela estava. Era para o Inferno que ela ia, sendo sua serva para sempre. E o sonho persistia, mesmo que ela acordasse trêmula, gritando e pedindo ajuda. Talvez aquele fosse o castigo que ela merecesse por ouvir a conversa dos outros, talvez fosse por aquele motivo que as crianças não podiam saber sobre os Deuses muito cedo. Ficavam facilmente impressionadas, como ela estava. Se não ouvisse atrás da porta, nada daquilo estaria acontecendo. Não estaria sendo visitada incessantemente pelo Deus mais assustador de todos. Tinha medo de que, como ela já sabia Dele, Ele resolvesse marcá-la para tê-la quando fosse mais velha, pois era com ela adolescente que Ahriman a capturava no sonho, não adiantava ficar preocupada agora.
Engoliu em seco, escondendo o rostinho apavorado na mochila. Estava dormindo na cama de Alice desde então, o que acarretava em acordá-la e deixá-la em pânico também. Alice sempre acordava junto, sem ao menos resmungar, e a colocava no colo, cantando para ela, até que dormisse. Lilith acordava alguns minutos depois, pelo mesmo motivo e com o mesmo estado emocional, mas a mais velha parecia não se abalar. Efetuava o mesmo processo de antes, como se fosse a primeira vez e como se não estivesse nem um pouco cansada.
Isso é justo? Perturbar uma pessoa que não tem nada a ver com isso? Tomara que Alice esteja conseguindo assistir à aula, não a deixei dormir a noite inteira... Droga, não posso abusar dela todas as noites, ela não tem culpa!, pensou Lilith, se encolhendo mais junto da mochila. Evitava até fechar os olhos, sabia que aqueles grenás estavam esperando-a assim que a escuridão se alastrasse em seu campo de visão.
Mas não consigo ficar sozinha, não consigo encará-lo estando só... Pensando bem... Ele só aparece quando eu estou sozinha. Por mais que Alice fique comigo, ela não pode entrar nos meus sonhos e me proteger, muito pelo contrário. Estremeceu, lembrando-se da imagem de Alice entregando-a facilmente para Ahriman. Não, ela não faria isso. Não faria, não faria, não fari...
— Ei, Lilith, o que está fazendo aí sozinha? — perguntou aquela voz conhecida, fazendo a loira abrir os olhos, que estavam fechados com força e com medo de encarar o mundo real. Não que o mundo em sua cabeça estivesse mais atrativo.
Encontrou à sua volta três meninas cercando-a, observando-a de maneira curiosa. Pareciam estar tentando entender o que se passava com ela. Lá estavam suas três melhores amigas, as únicas crianças dentre aquelas muitas que pareciam gostar realmente dela.
A que havia chamado a sua atenção era Camilla, uma menina de olhos firmes e decididos. A pele negra tinha um tom claro e suave, seus cachos castanhos perfeitamente moldados iam até sua cintura, embora ela mesma sempre reclamasse que eles a atrapalhassem a jogar futebol e em suas brigas, já que seu adversário sempre a puxava pelo cabelo e a colocava em grande desvantagem. Corta esse cabelo então, falava Lilith, sempre que a amiga se queixava dos contras de ter um cabelo tão grande, mas Camilla sempre respondia da mesma maneira: Não posso, mamãe não deixa. Ela fala que eu já ajo como um moleque briguento. Se eu cortar o cabelo, então, vou perder toda a minha feminilidade, mesmo eu não sabendo muito bem o que isso significa... E ficava ela lá, reclamando de um cabelo que era motivo de inveja de muitas pessoas.
— Por que está nos olhando com essa cara de boboca? — uma criança de aura radiante e alegre a questionou. Ela se abaixava para ficar no mesmo campo de visão e entortava a cabeça, como se assim fosse entender melhor o que acontecia com a amiga.
Lá estava Marianna, com toda a sua jovialidade e alegria costumeira, tentando passar para as pessoas em volta um pouco da sua enorme empolgação. Era uma menina de cabelos rútilos e curtos, um penteado chanel agradável e feminino, com as pontinhas mais claras apontadas para fora. Os olhos eram vívidos e brilhantes, o sorriso quase sempre intacto em seu rosto. Era a mais alegre de todos ali, sempre com uma piadinha de humor afiado demais para a sua idade.
Camilla a olhou feio, colocando as mãos na cintura e cerrando os olhos:
— Não está vendo que ela está toda estranha? Por que a está chamando de boboca, sua tonta?
Lilith, que antes estava presa em seu mundo interno assombrado, conseguiu ser puxada de volta para a realidade pela briga inesperada — mas nada anormal — das amigas. Desde que as conhecera, o que fazia um ano, Camilla e Marianna brigavam o tempo inteiro. A culpa sempre era de Marianna, que era piadista e brincalhona demais, mas também muito provocativa. E Camilla, com aquele gênio terrível, sempre caía e se estressava com as brincadeiras da outra. Lilith não entendia como elas conseguiam brigar tanto e serem melhores amigas daquele jeito.
— Estou tentando animá-la, o que não está dando muito certo, já que você me interrompeu! — Marianna revirou os olhos.
— Esse é o seu jeito de ajudar os outros? Xingando? — Camilla replicou.
Marianna emburrou a cara.
— Não estava xingando ela! Tava brincando! — Empurrou Camilla no peito, não fazendo a outra se mexer nem um milímetro. Aquela menina era forte demais para a idade dela, não era um simples empurrão que a faria cair.
A loira piscou algumas vezes, até coçou os olhos. Era verdade aquilo mesmo? Estava vendo as melhores amigas brigando por causa daquele motivo? Entendia que Camilla era como se fosse seu anjo protetor, mas brigar porque Marianna a chamou de “boboca”? Ela devia estar com uma cara muito triste mesmo para Camilla defendê-la até de uma simples brincadeira.
Foi quando a terceira figura, que se mantivera quieta até aquele momento, resolvera se manifestar, colocando-se no meio das duas meninas que pareciam que iriam se matar.
— Ei, vocês duas, controlem-se. Vocês vieram aqui ajudar ou se matar na frente da Lilith? — Apesar das palavras severas, o tom de voz da terceira menina era calmo e controlado, o que não assustou nenhuma das outras três. Aquela era Rafaela, a mais equilibrada do quarteto. Era difícil vê-la levantando a voz, mostrando-se alterada e brigando com alguém. Uma menina tão pacífica e tímida que muitas vezes era passada despercebida por sua personalidade apagada demais.
Lilith não entendia como os outros não a notavam, não percebiam que ela era um ser vivo e não um poste. Rafaela era uma menina tão bonitinha e tinha um coração tão bom! A garotinha tinha cabelos tão longos quanto os de Camilla, mas ao contrário da amiga, o seu era negro como o carvão e ondulado, dando certo chame ao seu rosto fino. Os olhos cor de mel eram tão tranquilos, que Lilith sempre tinha a impressão de que ela havia acabado de acordar, tamanha a paz que eles transmitiam.
— Foi ela que começou! — exclamaram as duas ao mesmo tempo, se encarando por alguns segundos e virando o rosto, cruzando os braços.
Rafaela suspirou. Aquelas duas não tinham jeito mesmo.
— Em vez de vocês ficarem aí se matando, vocês tinham que estar vendo o que está acontecendo com a Lilith. — Rafaela apontou para a amiga encolhida no chão, abraçando a mochila. — Olha o estado dela, parece que não dorme há dias.
Lilith se encolheu mais ainda quando percebeu os olhares das amigas sobre si. Por um momento, não soube bem o que fazer. O que falar caso elas perguntassem? De fato, não dormia há dois dias, mas elas não podiam saber o motivo, de jeito nenhum. Crianças não podiam saber dos Deuses, aquela era uma regra clara que ela havia quebrado ao ouvir uma conversa de adultos. Se ela estava tendo aqueles pesadelos como castigo Divino, como poderia comprometer as amigas também? Se elas soubessem com o que ela estava sonhando, automaticamente elas saberiam dos Deuses e lá iriam elas embarcar no mesmo barco de pesadelos que tinha. Não, não podia deixar isso acontecer, tinha que inventar alguma desculpa, qualquer uma. Deixar as suas únicas amigas traumatizadas é que ela não iria fazer.
— O que aconteceu, Lily? — Marianna sentou ao seu lado, puxando o seu bracinho de cima da mochila para enlaçar com o seu. — Por que não está conseguindo dormir? Nem adianta negar, essas suas olheiras horríveis te denunciam!
— É, o que aconteceu? Fala pra gente... — Camilla foi para o outro lado, fazendo a mesma coisa que Marianna.
Rafaela não disse nada, apenas sentou à sua frente e tocou suas pernas ternamente, olhando-a compassiva.
A loira sentiu vontade de explodir. Não bastava a pressão que ela estava passando, ainda tinha que mentir para as amigas que estavam preocupadas com ela. Respirou fundo, concentrando-se. Usaria a mesma desculpa que usou com a professora. Não havia conversado com nenhuma das suas amigas o final de semana inteiro, ninguém sabia que ela tinha ficado em casa.
— Eu viajei esse final de semana, aí nem consegui dormir — disse vagamente, brincando com os dedos. Tinha que aparentar naturalidade. — Horas de viagem, Alice cantando enquanto ouvia música no mp3... Não deu nem pra dar um cochilo...
As amigas a estudaram. Analisaram cada cantinho de seu rosto, procurando algum vestígio de mentira, mas só encontraram sono e olheiras. Lilith estava com uma aparência tão acabada que parecia que tinha sido atropelada por um trator.
— Tá... — começou Rafaela, tentando engolir aquela história. Lilith, só de ouvir a voz da amiga, mordeu a bochecha, aflita. Ela era tão inteligente, iria perceber de cara que tinha algo errado. — Então, por que você não está dormindo agora?
Sorriu internamente, ela não percebera a brecha na sua história!
— Eu estava tentando fazer isso, mas vocês apareceram e começaram a falar comigo. — Ela deu de ombros. — Não que tenham me atrapalhado a dormir, adoro ficar com vocês, mas só não dormi porque começamos a conversar.
As três se entreolharam. A intenção não era atrapalhar a amiga e sim, ajudá-la.
— Desculpa, Lilith. — Camilla mexeu nos cabelos encaracolados, um tanto sem graça. — Vamos deixar você dormir agora e...
— Não! — Lilith se exaltou, falando alto demais e assustando as amigas. Não podia ficar sozinha, não podia voltar a dormir, não podia deixá-lo voltar a habitar os seus sonhos! Se ficasse só, do jeito que estava com sono, acabaria dormindo de novo, e, consequentemente, iria receber uma visitinha indesejada em um lugar onde ela não poderia se esconder.
— O que foi? Por que você está assim? — Marianna se aproximou, tirando a franja de sua testa e empurrando para o canto do rosto. A amiga suava. — Não quer dormir um pouco pra ficar mais descansada?
— Não, é que... — Droga!, praguejava. Aquela reação soara muito suspeita. — É que eu...
Olhou para a frente, dando de cara com o relógio branco de ponteiros dourados na parede, em cima do quadro de lousa. Sorriu ao constatar que o tempo estava a seu favor.
— Olha a hora, gente! — Apontou o dedo para o relógio. Suas amigas o seguiram. — Já vai bater o sinal, nem adianta eu dormir... — Suspirou dramaticamente, como se estivesse chateada com o fato de não conseguir descansar.
Soltou-se das mãos das amigas e se apoiou no chão para levantar. Era melhor ficar em pé, mesmo. Tinha risco de acabar dormindo se ficasse sentada no quentinho das mochilas por mais tempo. Seu corpo a trairia.
Pegou a mochila rosa e cheia de purpurina, que se destacava entre todas ali, e a pendurou nas costas, sendo seguida por suas amigas que estavam mudas e agiam tão mecanicamente quanto robôs. Talvez fosse preocupação, cogitou Lilith, culpada. Odiava ver as amigas assim, elas eram as únicas crianças que a tratavam bem, que sempre estavam ao seu lado. Era ingrato demais da sua parte não contar nada, porque elas sabiam — e Lilith sabia que elas sabiam — que o motivo da sua falta de sono não era por causa de droga de viagem nenhuma. Ela sempre fora péssima mentirosa, não seria agora, caindo de sono e quase não raciocinando direito, que iria conseguir ter postura de atriz.
Quando elas fizerem dez anos, eu contarei a elas. Espero que, até lá, Ele pare de me visitar nos meus sonhos, pensou a loira, vendo que as suas amigas já estavam com suas respectivas mochilas de grife nos ombros. Ao contrário dela, as três garotas tinham dinheiro e vinham de ótimas famílias. Estavam naquela escola pública porque era a melhor da região para o Primário, melhor até que particulares. Lilith sabia que, quando elas entrassem no Ginasial, elas iriam mudar para uma particular e ela não poderia ir. O emprego da sua mãe era bom, mas ela ficaria apertada demais se atendesse o seu capricho egoísta de mudar de escola só para ir atrás das amigas. Era melhor se contentar com o que a vida havia lhe dado. Só em ter aquelas amigas maravilhosas ela já tinha que se dar por satisfeita, mesmo que não estudassem mais juntas, a amizade continuaria.
O sinal da saída tocou.
Lilith foi arrancada em um solavanco de seus pensamentos, percebendo que as três a observavam.
— Lily, quando chegar em casa, vai dormir... — aconselhou Rafaela, andando junto com as outras em direção à porta. Como haviam pegado as mochilas antes, escaparam da confusão dos alunos desesperados para pegar o material e escapar o mais rápido possível da escola.
A menina soltou o ar, fazendo alguns fios da franja voarem.
— Não tenho uma tarde livre, lembra? — Bocejou demoradamente. — Hoje, por exemplo, tenho balé o dia inteiro.
As três se calaram. Se fosse qualquer outra pessoa, elas aconselhariam a faltar à aula. Era só uma vez, não faria muita diferença, mas não estavam falando com qualquer uma. Lilith era extremamente apaixonada por dança e seu maior amor era o balé. Era uma bailarina aplicada, responsável e, acima de tudo, talentosa. Treinava tantas horas por dia que, mesmo sendo tão pequena, estava em um nível avançado comparado às outras crianças de sua idade. O balé a fazia tão feliz que ela jamais faltava. Era como se seus pés tivessem nascido para usar sapatilhas e encantar multidões com seus movimentos tão leves que quase a faziam voar. Lilith era tão focada que já deixara de brincar de casinha com elas várias vezes, só para ficar praticando. Camilla, Rafaela e Marianna sabiam que a amiga jamais faltaria ao balé simplesmente para ir dormir, por mais sono que ela estivesse sentindo. Era algo que, se elas cogitassem, a amiga acabaria rindo, achando que era alguma piada.
As quatro andavam pelos corredores relativamente cheios da escola, desviando de uma criança ou outra. Lilith só queria sair dali o mais rápido possível. Quanto mais rápido ela conseguisse se afastar das amigas, melhor.
— Você vai sozinha? — perguntou Marianna.
— Não, eu vou com a Alice. — Bocejou. — Ela tá me esperando lá fora. Vamos almoçar juntas na cantina do curso, pra ser mais rápido.
Os olhos das meninas brilharam.
— A Alice está aqui? — perguntaram em conjunto, animadas. — Ah, não acredito! Justo hoje que nós temos que ir direto pra casa!
A loira segurou um risinho. Chegava a ser engraçado a admiração que suas amigas tinham por sua irmã. Quando elas iam à sua casa, acabavam ficando as cinco juntas.
Eu as entendo, a Alice é o tipo de irmã que toda menina gostaria de ter... pensou, vendo que as amigas ainda faziam biquinhos contrariados.
Ao chegarem do lado de fora, elas logo avistaram Alice parada no portão, com o seu uniforme ginasial, sua bolsa preta surrada cheia de rebites, broches e desenhos de corretivo branco que suas amigas faziam. Estava segurando um mp3 player e só tinha um ouvido com fone encaixado. Não conseguiu deixar de reparar que suas olheiras e sua cara de sono estavam tão marcantes quanto às dela.
Em circunstâncias normais, a irmã menor iria correndo e se jogaria com tudo em cima da mais velha, quase jogando-a no chão, mas Lilith mal se aguentava em pé. Só de pensar em correr suas pernas protestavam e falhavam, a preguiça a dominava. Era melhor ir andando mesmo, Alice também poderia estar cansada e não aguentaria o seu peso, afinal, ela, Lilith, não deixou a irmã maior dormir direito. Devia estar tão cansada — ou mais — que ela.
Porém suas amigas estavam muito bem descansadas e, quando viram Alice, não pensaram duas vezes; correram até ela, deixando Lilith para trás. Para a sorte de Alice, que já estava se encolhendo quando vira as três meninas dispararem em sua direção, elas não pularam nela, pararam bem a tempo, ficando na frente da garota, que suspirava aliviada e guardava os fones de ouvido.
— Alice! Alice! Alice! — Abraçaram as pernas dela. A morena não pode deixar de sorrir, fazendo carinho na cabeça de cada uma.
— Oi, minhas lindas, como vocês estão?
— Estamos ótimas! — responderam em coro. — Queríamos poder ficar mais tempo, mas os nossos motoristas já chegaram...
— Ah. — Alice olhou para trás, na direção em que as meninas olhavam, e viu que três luxuosas limusines estavam estacionadas. — Tudo bem, queridas. Eu já tenho que ir andando com a Lilith mesmo. Não podemos nos atrasar.
Rafaela, Marianna e Camilla fizeram bico, mas um sorriso iluminou os seus rostos quando Alice abaixou-se e as abraçou. Elas eram tão carinhosas que a maior não conseguia deixar de fazê-lo. Era inteiramente grata àquelas meninas por ficarem sempre perto da sua irmãzinha, mesmo quando o mundo inteiro a estranhava por ela ser tão diferente. Que outras crianças conseguiriam ser tão puras e amar uma outra que não seguia os padrões normais? Elas amavam Lilith incondicionalmente, era motivo o suficiente para Alice amá-las também.
— Vão lá, meninas! Eu também tenho que ir com a Lilith. — Desprendeu-se das três bonequinhas que estavam em seus braços. Antes de saírem correndo para o carro, elas viraram para trás e deram um rápido “tchau” para a quarta amiga, que se aproximava devagar, quase se arrastando.
O coração de Alice apertou tanto que ela chegou a ter falta de ar. Não estava aguentando mais ver a irmãzinha menor daquele jeito, sofrendo e não conseguindo dormir por causa do egoísmo dos Deuses. O que Lilith havia feito de tão errado para ter que sofrer sonhos daquele tipo, uma criança de apenas sete anos de idade? Ela soubera sobre Eles antes da hora, mas isto era tão terrível assim, ao ponto dela precisar ser torturada noite após noite, até virar aquele zumbi em que estava se transformando?
Era por causa daquele sentimento de revolta e angústia que fizera o que fizera. Estava preocupada com a irmã, queria conseguir ajudá-la de qualquer maneira, faria qualquer coisa por ela. Aquela menina tão bondosa e delicada não merecia sofrer aquilo. Não Lilith, não ela que colocava o mundo antes dela mesma, aquela alma altruísta a qual Alice tinha tanto orgulho. Se pudesse, trocaria de lugar com ela. Qualquer um merecia aquele tormento, menos ela. Era crueldade demais.
Antes que percebesse, Lilith já estava parada à sua frente, olhando para ela com aqueles olhos azuis e opacos. Parecia uma morta-viva. Alice mordeu o lábio e abaixou-se para abraçá-la, de um modo totalmente diferente do abraço das meninas. Tinha a intenção de reconfortá-la, mostrar que estava tudo bem, que nada iria ferí-la, que estava ao seu lado. A menor retribuiu o abraço, agarrando-se a Alice como se ela fosse uma mão estendida para ela não cair no abismo. Somente perto da irmã ela se sentia tão segura assim, sentia que nem Ele conseguiria chegar perto dela com sua irmã ao lado.
Ao lado de Alice, sentia-se protegida.
A morena suspirou fundo, tomando coragem. Tinha que ir com calma, falar com a irmã devagar e objetivamente. Se falasse de qualquer jeito, a chance de ser mal interpretada, e da menor achar que ela a estava traindo, era grande. Soltou-se do abraço e ficou de joelhos no chão, segurando-a pelos ombros, olhando-a seriamente. Tentou ignorar a vontade de chorar que sentiu ao ver as olheiras terríveis que marcavam o seu rostinho de boneca e seguiu em frente.
— Lilith, eu tenho que te contar uma coisa. — Seu tom saíra tão sério que Lilith chegara a arregalar os olhos. Um arrepio gigantesco percorreu o seu corpinho, ela chegou a tremer. Será que Alice... Será que Alice...
— O-o-o-o que é? — Mordeu o lábio inferior, seus olhos mais arregalados do que nunca. Não poderia ser aquilo que estava pensando, Alice jamais a daria de oferenda para os Deuses, que ideia maluca! Estava tão doente por aquele sonho que já o estava trazendo para a realidade.
— Eu... Eu contei para a mamãe. — Alice baixou os olhos, envergonhada, voltando a falar rapidamente, desesperada. — Eu sei que você falou para eu não contar nada, eu sei! Me desculpa! Mas, Lilith, eu não estou aguentando mais te ver assim, ver você acordando no meio da madrugada e chorando sem parar, te ver apavorada por causa Deles... É demais pra mim. Desculpa... Queria poder te ajudar eu mesma, mas estou vendo que não é tão fácil assim... — Baixou os olhos, não conseguiria encará-la depois de ter traído a confiança da sua irmãzinha assim.
A loira, que observava chocada a irmã mais velha, sorriu triste, passando a mão no rosto de Alice. Conseguia sentir a sua aflição, seu sentimento de culpa, sua preocupação. Alice era a pessoa em que ela mais confiava na vida. Se ela chegara ao ponto de contar para a sua mãe, é porque ela estava realmente preocupada e não estava conseguindo arcar com todo aquele peso nas suas costas. Mesmo sendo mais velha, Alice ainda era uma criança de onze anos.
Como poderia condená-la por isso?
— Não se preocupe, irmã. — A sua voz saíra doce e compreensiva, Alice chegara a tomar um susto. Não era para a sua irmã estar chateada, brigando e falando que nunca mais lhe contaria nada? Tinha algo errado ali. — Eu entendo... Foi até egoísta da minha parte pedir pra você segurar isso tudo sozinha, eu que tenho que te pedir desculpas... Você não tem culpa de eu ser uma criança estranha, de sete anos de idade, que sonha que está sendo capturada por Ahriman.
Alice baixou os olhos de novo, mordendo os lábios.
— Você falou pra ela que eu ouvi atrás da porta? — Lilith entortou a cabeça.
— Não, eu disse que você ouviu por engano. Não iria te comprometer assim. — Rolou os olhos.
— Ah, então está tudo bem. — Soltou o ar, aliviada. — Era a minha maior preocupação.
Alice riu. Mesmo com várias preocupações na cabeça, a primeira coisa que Lilith pensou foi se a mãe estaria brava por ela ter ouvido sua conversa com a amiga. Aquela menina não tinha jeito mesmo.
— Eu sei que você vai me odiar pelo que eu vou falar agora, mas a mamãe mandou a gente ir para casa. Ela quer conversar com você. — Levantou-se, pegando-a pela mão antes que ela pudesse reclamar e saiu andando. — Não se preocupe, ela não está brava, ela só quer conversar pra te ajudar.
Lilith gelou. Não era medo da mãe, da bronca, dos Deuses ou de quem quer que fosse que estava deixando-a apavorada, não. O seu maior medo no momento era perder a sua preciosa aula de balé.
— Mas, Alice, eu tenho balé agora! Nós temos balé! — Lilith se chacoalhava, tentando se livrar da mão firme da irmã. Em vão.
— Vamos ter que faltar — Alice falou séria. Se ficasse dando corda, ela usaria do seu poder de convencimento e derreteria mais ainda o seu coração mole. Também não gostava de faltar, mas não chegava ao nível de vício da sua irmã.
— Alice! — Estava sendo arrastada pela rua, parecia uma criança birrenta. — Alice! Não, não me leva pra casa! O curso é pra lá!
— Chega, Lilith! — Alice falou séria demais, até parando de andar. Lilith se encolheu de medo. Alice brava era um grande problema. — É só uma aula! Nós estamos querendo te ajudar! O que você prefere: perder uma aulazinha de balé ou sonhar pelo resto da vida com os Deuses? A escolha é sua, mas se escolher ir pro balé em vez de ir se tratar, não bata mais na minha porta à noite! — Estava sendo dura, mas era assim que tinha que ser às vezes com a irmã. Como esperava, Lilith resignou-se e baixou a cabeça, parando de reclamar.
— Tá bom, vamos pra casa... — Alice voltou a andar e ela acompanhou o passo, ao contrário de antes. — Mas não sei como conversar com a mamãe vai me fazer parar de ter estes pesadelos... — Fez biquinho.
Alice sorriu.
— Isso você verá quando chegar em casa.
Lilith resolveu dar um voto de confiança para a irmã. Se ela e sua mãe a estavam fazendo faltar, é porque haviam encontrado uma solução. Ela sentia que, pela primeira vez em três noites, nesta ela conseguiria dormir bem.
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