Andavam tranquilamente pelas ruas de terra do vilarejo em que viviam.

Observavam as grandiosas casas de madeira, os muros de pedra que as separavam, as carroças com humanos no lugar de cavalos, demnos andando apressados, escravos indo ao armazém para seus donos... Um dia comum em um vilarejo de demnos de alta classe como aquele. Iam lado a lado, cumprimentando vez ou outra algum conhecido da família ou demno mais simpático que gostava de dar “bom dia” para crianças tão adoráveis quanto os três. Era assim que as pessoas os enxergavam, embora fossem introspectivos, na maioria do tempo, ou estourados, isso mais no caso de Collet, que se abalava com as situações bem mais facilmente que Brunott. Isabelle era o contrário: gostava de cumprimentar e mostrar a todos que, além de ser uma garota linda, ainda era bem educada e simpática com os mais velhos.

O dia estava fresco, mesmo o sol expandindo seus raios com toda a força pelo céu, mas parecia que a quentura não atingia os transeuntes. Algum vento aparecia vez ou outra, mexendo com os cabelos e com as saias de algumas mulheres que passavam pelas ruas. Tanto o balançar das roupas de humanas quanto das mulheres demnos mexiam com os hormônios daqueles dois rapazes, que estavam na idade de começar a sentir latejares esquisitos no meio das pernas e uma vontade louca de se aliviar, e não era de xixi. Doze anos de idade parecia uma idade inocente, mas só mesmo sendo um garoto para entender que não era bem assim. Era naquela época que tudo começava a aflorar, desde a forma de encarar o sexo oposto até o corpo. Collet e Brunott ainda eram mirradinhos e baixos, como qualquer criança de sua idade, mas o corpo já começava a mostrar forma, ganhar tamanho e a voz a se transformar.

O engraçado era que o corpo dos dois estava se modificando ao mesmo tempo e na mesma velocidade, como se levando a sério demais o fato de serem gêmeos idênticos. Tinham que ser parecidos em tudo, até mesmo no tempo de se desenvolverem, o que eles achavam o máximo. Collet e Brunott não faziam o tipo de gêmeos univitelinos que odiavam ser parecidos e tentavam ao máximo tentar parecer diferentes, muito pelo contrário. Na verdade, Brunott só havia deixado o cabelo crescer a pedido de sua mãe, que não conseguia identificar quem era quem. Se fosse por ele, ficava com o cabelo parecido com o do irmão para sempre.

— Ai, ai, é meio irritante sair com vocês dois, sabia? — Isabelle comentou, rolando os olhos. — Não podem ver um rabo-de-saia que já ficam todos deslumbrados, nossa...

Os dois baixaram os olhos, constrangidos e corados, Collet mais que Brunott. Não queria que a garota tivesse uma visão errada dele, que pensasse que era um pervertido que saía por aí olhando para tudo quanto era mulher. Precisava se comportar, parecer um homem direito. Só assim para — talvez — conseguir chamar atenção do seu amor platônico. Do jeito que estava, só estava piorando a sua imagem.

Isabelle, sem saber dos conflitos internos de Collet, somente ria baixinho. Achava engraçado ver dois homens constrangidos por causa de um comentário daqueles. Brunott e Collet eram mesmo muito reservados.

— Então... O que faremos? — perguntou para quebrar aquele clima estranho entre os três.

— Não sei, o que você quer fazer? — Brunott dobrou os braços atrás da nuca, indiferente. Para ele, tanto fazia.

— Olha, eu não sei vocês, mas eu tô morrendo de fome! — Lambeu os lábios exageradamente. — Vamos caçar? Sempre tem uns humanos vagando pela floresta...

Brunott deu de ombros.

— Pra mim tanto faz. Já tomei sangue hoje antes de sair de casa, não estou com fome. — Voltou-se para o irmão. — E você, Collet?

Collet engoliu em seco. Claro que ele iria concordar, como poderia dizer não a Isabelle?

— Por mim, tudo bem. — Sorriu. — Eu não bebi nada mais cedo, estou com um pouco de fome, sim. — E olhou de modo assassino para Brunott. Se ele abrisse a boca e comentasse que ele já havia tomado sangue naquele dia, iria matá-lo quando estivessem em casa. Mas, para a sua felicidade, Brunott nada disse. Ficara quieto e o acobertara, como qualquer bom irmão faria.

— Então vamos para a floresta! — Isabelle exclamou animada, levantando um braço, na empolgação do momento.

Brunott esboçou um sorriso e fez-lhe um rápido cafuné, em uma atitude totalmente fraterna. Enxergava Isabelle como sua irmãzinha, mesmo ela tendo a mesma idade e a mesma altura que ele.

Mas o seu sorriso virou pedra quando olhou para frente e viu quem vinha em sua direção. Seu coração descompassou e a boca secou. Era como estar olhando uma maravilha da natureza.

Laura vinha andando em sua direção com toda a sua delicadeza e graça, vestindo um vestido vermelho até os pés, que combinava exatamente com os seus olhos escarlates. Seus longos cabelos lisos e prateados balançavam a favor do vento, deixando-a com uma aparência mágica, como se fosse impossível existir na vida real. Mesmo sustentando o mesmo olhar sério de sempre, Brunott não conseguia se conter em admiração! Era a mulher mais linda que ele já havia visto. Não entendia o que todos enxergavam em Isabelle tendo Laura morando no mesmo vilarejo, ela era simplesmente perfeita.

Quando conseguiu se livrar do feitiço que a mulher lhe causava, desviou o olhar para as suas mãos finas, que seguravam outra muito menor. Sorriu. A menina herdara toda a beleza da mãe e era tão linda quanto. Evelyn tinha os olhos de Laura, só que menos adultos e sérios. Eram olhinhos de criança, inocentes e assustados com o mundo movimentado ao redor. Levava os cabelos lisos presos em dois coques, com algumas flores da mesma tonalidade de seus olhos. Algumas mechas caíam de propósito em seu ombro, deixando-a com uma aparência frágil. Era uma criança adorável, impossível olhá-la sem esboçar um sorriso.

Laura, ao passar pelo trio, soltou um sorriso reservado, que combinava com aquele rosto de beleza fria. Evelyn, entretanto, resolveu ser mais simpática: sorriu largamente e estendeu a mão para os jovens demnos, balançando-a freneticamente.

Isabelle, Brunott e Collet não conseguiram evitar fazer o mesmo, aquela menina era uma gracinha!

Depois de alguns segundos, quando Laura e sua filha já estavam longe e a sua voz com certeza seria abafada pelo barulho do vilarejo, Isabelle resolveu falar:

— Tenho tanta pena dessa menininha... — lamentou.

Os gêmeos concordaram.

— Imagina só, nascer com a mesma deficiência que ela? Depender a vida toda dos outros, sempre precisando ser defendida, que cacem por ela... Nossa, eu não conseguiria. — Isabelle olhava para baixo, seus lábios tremiam enquanto descarregava toda a pena que sentia. — E ela é uma criança tão fofa, tão adorável... Não merecia isso.

— Sim, ainda bem que os pais dela são bem fortes — comentou Brunott. — Senão ela não duraria muito tempo aqui fora.

— E você, hein, Brunott? — A voz da garota se tornou maldosa de repente. — Eu vi o jeito que você olhou para a senhora Laura... — cantarolava. — Ela é casada, sabia?

Se olhassem para ele agora, perceberiam que ele estava forçando o semblante sério.

— Eu sei. — Rolou os olhos. — Eu só a acho bonita. É crime? — Seu tom saiu cortante.

Mas Isabelle somente riu.

— Tá bom, se você diz... Quem sou eu para discordar?

Brunott cerrou os olhos, tentando ignorar o que a amiga falava. Mas sabia que ela estava certa. Sim, ele tinha uma certa queda pela senhora Laura, e sabia que isso era errado. Ela era casada, tinha uma filha e era bem mais velha do que ele. Insistir naquele amor platônico só o levaria à ruína e tristeza, mas era tão difícil! Como conseguir olhar para aquela mulher magnífica e não se apaixonar? Temia ficar com aquele sentimento angustiante pelo resto da vida em seu peito, sempre vendo a mulher que ele amava seguir em frente com sua família enquanto ficava para trás. Sozinho com sua dor no lado esquerdo do peito.

— Um dia isso vai passar, meu irmão. Eu sei que vai — Collet falou do nada, calmo.

Brunott olhou para ele e sorriu melancólico. Iria passar, tinha que passar.

— Assim espero, Collet, assim espero... — disse, voltando seu olhar para o chão e mantendo a cabeça baixa.

Continuaram andando, só que em silêncio. Uma atmosfera melancólica rodeou os três por conta de Brunott. Sentiam como se fosse um crime abrir a boca para falar qualquer coisa, o clima havia ficado pesado demais para qualquer brincadeira ou fala inapropriada.

Estavam tão distraídos se embrenhando na floresta, que nem repararam uma estranha movimentação nas árvores, chegando cada vez mais perto do trio. Collet, Brunott e Isabelle só perceberam quando era tarde demais e um menino apareceu três metros à frente.

O rapaz tinha o cabelo vermelho-berrante e espetado, como se ele tivesse puxado alguns chumaços de cabelo e logo em seguida aplicado gel para ficar com aquela aparência “eletrificada”. Seus olhos eram castanhos e escuros, sorriam debochadamente junto com a sua boca fina e arroxeada. Levava as mãos nos bolsos da calça jeans e estava com uma blusa branca e rasgada. O rapaz olhou para cada um deles e só conseguiu alargar o sorriso.

— Fala aí, pessoal! — disse, indo na direção dos três e sendo recebido calorosamente por Brunott e Collet, que deram um passo à frente e cumprimentaram o amigo com um aperto de mão junto de um abraço.

— E aí, Daniel? Como é que você tá? — perguntou Collet, sorrindo para o amigo.

— É, cara! Você sumiu! Onde esteve? — Brunott passou a mão pelo seu ombro.
Daniel sorriu para os dois, coçando a cabeça.

— Ah, vocês sabem como eu sou, não consigo ficar parado em um lugar só! Esse negócio de ser “do mundo” tem as suas vantagens. — Riu para eles, tentando, de uma forma sutil, fugir daquele assunto. Seu sorriso só voltou a se alargar quando enfim prestou atenção em Isabelle.

A demno olhava para o céu, levantando cada vez mais o queixo e estampando na cara a expressão mais arrogante que ela conhecia. Aquele Daniel era tão irritante! Não entendia como seus amigos conseguiam gostar de um cara como aquele, ele não tinha classe nenhuma! Era um demno da floresta, sem casa e sem um pingo de dinheiro. Como aqueles dois conseguiam sujar sua imagem de “trio perfeito” andando com um vagabundo como aquele? Além de tudo, ele era arrogante e sentia um prazer quase mórbido em provocá-la. Daniel percebia a sua repulsa por ele e por isso mesmo ia lá e cutucava-a, até não aguentar mais. Alguém precisava dizer para aquele demno de baixa classe que ela não era do tipo que se misturava com qualquer um e fazia questão que ele esquecesse que ela existia. Seus mundos eram diferentes, era inútil ele tentar fazer a barreira entre eles se quebrar. Ela mesma se certificaria de que ele ficaria longe de seu mundo e, principalmente, dos seus amigos.

— Ahhh, Isabelle! Que bom vê-la! — Mas parecia que Daniel não estava muito disposto a deixar as suas barreiras intactas. O demno foi andando em sua direção, de braços abertos, forçando o sorriso mais sarcástico que ele conseguia dar. Isabelle, ao perceber sua intenção, preparou-se para pular para a árvore mais próxima, mas Daniel foi mais rápido e avançou, dando-lhe um grande e apertado abraço. — Que saudade eu estava de você! — disse em seu ouvido, enquanto sentia a menina se debater em seus braços. O que havia com ele? Ela era uma demno forte, por que ele sempre conseguia prendê-la tão bem?

— Mas eu não estava de você, me larga! Me larga — rechaçava a menina, tentando se libertar de seu abraço. Que nojo, estava sendo abraçada por um serzinho de baixa classe como ele!

— Pare de se fazer de difícil, Isabelle. Eu sei que você me ama, não precisa mais fingir na frente dos seus amigos! — Mordeu a sua orelha. Ao sentir a sua ação ousada em seu corpo e ouví-lo falando seu nome, enfureceu-se mais ainda.

— Me solta, seu nojento! Eu tenho nojo de você, nojo! — cuspiu as palavras, com a esperança de que ele se sentisse atingido e a soltasse.

Brunott e Collet só observavam de fora, sorrindo. Era apenas uma brincadeira inocente, não era como se Daniel tivesse realmente intenções tenebrosas para cima de Isabelle. O demno só percebia que ela o odiava e aproveitava a brecha para implicá-la. Eles admiravam Daniel por isso, pois ele era inatingível. Não importava o quanto Isabelle o agredia verbalmente, ele agia como se ela nada tivesse dito, parecia quase surdo. Quanto mais ela o repudiava, mais ele se aproximava para irritá-la.

— Você está muito tímida hoje, meu amor! Só porque eu sumi alguns dias? Você não era assim... — E largou-a, fazendo um biquinho triste, fingido.

Quando Isabelle viu-se livre dele, tratou de se afastar alguns passos e bater as mãos no vestido branco, tentando tirar os vestígios de que aquele garoto algum dia encostara nela. Seu cheiro estava em sua roupa e ela o odiava por isso. Por que aquela droga de demno tinha que ter um cheiro tão forte e característico?

Daniel, ao contrário dela, parecia bem satisfeito com o seu cheiro em seu corpo.

— Seu cheiro é tão bom, meu amor... — Fungava em seu próprio braço, olhando-a provocadoramente.

Isabelle já ia replicar com uma resposta venenosa quando Brunott a interrompeu.

— Ei, a gente não ia caçar? — lembrou o demno, olhando para o sol. — Daqui a pouco escurece...

A menina suspirou, agradecendo por Brunott lembrá-la do motivo de ter saído de casa.

— Tem razão, vamos embora. — A demno empinou o nariz e passou reto por Daniel, ignorando-o do jeito mais frio que ela conseguia. Colocou-se entre os gêmeos e sentiu-se novamente segura, como se ali aquele demno esquisito de cabelos vermelhos não conseguisse atingi-la.

Collet olhou para trás e viu que Daniel estava ali, parado, sozinho. Um sentimento de compaixão se aflorou em seu peito. Aquilo não era justo, Daniel era um demno tão gente boa... Por mais que Isabelle o detestasse, eles ainda eram amigos. Não podia deixá-lo ali, solitário, quando a única família que Daniel realmente considerava eram os dois. Seria frieza demais abandoná-lo só porque Isabelle tinha nojo de quem não fosse da mesma classe que ela. Amava Isabelle de paixão, mas era contra covardia. Passaria por cima de seu amor por ela em nome de sua amizade com Daniel, se precisasse.

— Daniel, vem com a gente — Collet chamou, movimentando a mão para o demno. — Nós vamos caçar humanos.

Isabelle protestou na mesma hora, olhando para ele enfurecida, quase soltando fogo pela boca.

— O quê? Você ficou maluco? Vai chamar esse desqualificado para andar com a gente? — ela esbravejava, enquanto gesticulava com as mãos dramaticamente e olhava feio para o demno. Sentia-se traída.

Era tudo o que Daniel queria ver, estava adorando o drama que a menina estava fazendo só por sua causa, nada poderia deixá-lo mais animado. Não estava afim de caçar, mas iria só para provocar o desgosto da demno que divertia os seus dias com os seus escândalos fúteis.

— Eu adoraria — respondeu, indo até Isabelle, tirando-a do meio dos dois e colocando-a no colo. A garota ficara tão atônita que não tivera reação. — Permita-me levá-la no colo, cara donzela. Não quero que os seus preciosos pés da realeza se cansem por tão pouco. — Ela ainda o olhava pasmada, mas assim que recobrou a sanidade e notou onde estava, voltou a se debater.

— Eu não quero o seu colo, me larga! — gritou ela, tentando fugir e sendo impedida.

— Eu sei que você não quer me incomodar, não se preocupe! — Daniel encostou o dedo indicador na ponta do nariz da menina. — Não está me atrapalhando em nada!

Collet e Brunott observavam de longe a cena, suspirando cansadamente. Lá estavam os dois brigando. De novo. Não conseguiam entender como Isabelle não percebia que esse era o jogo dele, deixá-la irritada. Se ela ao menos parasse de ligar tanto para o que Daniel fazia com ela, eles tinham certeza de que ele iria parar. A diversão de Daniel era deixá-la zangada, isso era evidente, não precisava ser um gênio para perceber. Quanto mais Isabelle o empurrasse e o xingasse, mais ele se aproximaria.

— Quanto tempo será que eles se aguentam sem se matarem? — perguntou Brunott para Collet, não desgrudando os olhos dos dois amigos que estavam quase se explodindo dois metros à frente.

— Cinco minutos, talvez... — Collet olhava assustado para a dupla. Pareciam dois selvagens se engalfinhando.

Brunott fechou os olhos e riu cansado.

— É, irmão... A tarde hoje será divertida.

Collet imitou o riso do irmão. Sim, tinha que concordar, as coisas não poderiam ficar mais animadas do que já estavam.

— Vamos puxar esses dois, senão a gente não sai daqui — disse Brunott, olhando para Collet e esperando que este o seguisse.

Ele foi logo atrás, dando de ombros. Ainda tinha dúvidas de que aquele dia seria longo. Pelo jeito que as coisas estavam, parecia que Isabelle e Daniel não estariam vivos até o pôr do sol. Brilhante ideia que tivera na hora de chamar o demno para ir com eles.

Agora o que restava era torcer para que nada desse errado.

Notas finais
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