Operação Zumbi

1 O Começo de Tudo


Estive sentada por muitas horas nesta janela velha, deste prédio velho e neste lugar velho. Segurei firme minha CFR Whisper na mesma posição desde o que? Quatro horas? Talvez. Talvez mais. Talvez menos. Porém, a mesma posição.

Olhei pelo visor as sombras que se arrastavam pela parede, algumas delas se arrastavam para longe, outras para perto, mas nunca perto o bastante. Deitei de barriga no chão na escada de incêndio do lado de fora do prédio e observei a rua silenciosa em minha frente apertando os dedos em volta de minha espingarda, umas das melhores que eu tinha no armário. Na verdade, a melhor e não deixe minha AK47 ouvir isso. Esta era a de longe, minha mais velha amiga e... Não me chame de louca, minha única confidente.

Observava as ruas, os prédios e carros mal colocados no meio da rua imaginando como deveriam ter sido antes de tudo. Tudo que começou antes mesmo de eu nascer e mesmo que estivéssemos terminantemente proibidos de falar sobre o assunto pré-apocalíptico, ordens do Presidente que afirmava sobre pensarmos no futuro ou invés de recordar o passado – ele acreditava que deveríamos recrutar quantos jovens forem preciso, abater o maior número do inimigo e viver o suficiente para fazer isso –, eu arriscava tentar imaginar como eram antes.

Nada deve está fazendo sentindo, não é?

Nossa Cidade era um quadrado perfeito. Não como sempre havia sido, mas um quadrado. É uma base militar que nosso Presidente – um militar forte o bastante para intimidar qualquer um –, e nosso Governador – outro militar forte, porém mais sensível – achavam mais adequado chamarmos de Cidade, onde viveríamos normalmente como se tudo aquilo fosse normal e como se estivéssemos em perfeita ordem. Mas a ideia de camuflar o que estava acontecendo em nossa volta era totalmente desnecessária já que metade da população sabia de tudo e a outra iria descobrir a qualquer momento.

Meus pais, aqueles que faziam parte da metade que sabia de tudo, haviam visto com seus próprios olhos como tudo mudou, como o mundo que antes era cheio de vida, de brilho e felicidade se tornou sombrio e tenebroso. E eu que nasci cinco anos depois de toda a bagunça e por alguns anos vivi na metade que iria descobrir o que estava acontecendo além dos muros da Cidade, estava ali observando de cima em mais uma das incontáveis saídas de buscas.

Segundo a história que meus pais me contaram um dia, eles ainda não se conheciam quando um rumor se espalhou pela cidade antiga de que havia um laboratório estudando sobre imunidade do ser humano. Mas o rumor não falava apenas de um estudo ingênuo para o bem da humanidade e sim de uma droga que provavelmente seria nosso fim. Para os crentes em teorias da conspiração aquele boato significava que tudo teria um motivo oculto e que nem todos sabiam e por acreditarem nisso eram tidos como loucos, já os descrentes se achavam pessoas normais e inteligentes, bem que eu queria vê-los naquele momento para rir em suas caras. Meus pais estavam inseridos na primeira opção e lutavam como loucos para abrir os olhos dos alienados que passavam frequentemente na quinta avenida e foi em uma dessas lutas que eles se conheceram, mas eu pularei esta parte.

Segundo eles, tudo piorou quando o tal laboratório foi estranhamente destruído em uma explosão que para algumas pessoas havia sido intencional, mas ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo lá dentro. Ou, o que aconteceu já que todos que trabalhavam nele morreram.

Quando nasci o mundo já estava esse monte lixo, um caos espalhado por todos os lugares e um vírus da morte por todos os lados contaminando homens, mulheres, crianças transformando-os em algo indescritível. Algo sem coração. Sem cérebro. Sem consciência e sem vida. O país estava divido e o nosso lado era o menor entre as duas partes, quem nascia daquele momento em diante não conhecia nada além de medo e morte. Eu mesma gostaria de ter conhecido o mundo de antes e mesmo tentando imaginar como era com as histórias que meus pais contavam, nunca era o bastante, como se não passassem de histórias fantasiosas. Papai dizia que quando o caos se instalou derrubou governos e monarquias, e com a criação da Cidade, pessoas encontraram um meio de sobreviver.

Muitas pessoas seguiram George, na época coronel do exército e atualmente nosso Presidente, com seus discursos inspiradores e esperançosos, foi ele quem construiu os muros ao nosso redor, derrubou prédios para transformar em várias casas, treinou adultos e jovens a usarem armas enquanto protegia os idosos e crianças. Naquele momento todo um legado começava permanecendo até hoje com a nova geração de soldados, novas regras e novas estratégias para tudo.

Percebeu que os loucos tinham razão sobre o fim do mundo?

Percebeu que os loucos são tidos como loucos por que ninguém quer aceitar a verdade?

Todos aqueles que vivem na Cidade são tidos como loucos, os civis rezavam reunidos à mesa antes do jantar em suas casa, jogavam Frisbee no quintal, eles sorriam uns para os outros e dão bom dia como se realmente fosse um bom dia enquanto jovens de quatorze anos eram recrutados para fazerem parte do exército. Na verdade os civis não se preocupavam com o que estava do lado de fora dos muros por que acreditavam nas palavras de um homem que, se fosse para escolher seria o último homem da terra só para se manter vivo e eu não poderia culpá-las por fugirem da realidade, afinal, seus filhos e netos estavam cuidando muito bem da segurança de todos.

Voltei a olhar pelo visor encontrando as mesmas sombras se arrastando pela parede. Algumas se afastando, outras se aproximando, mas nunca o bastante. Suspirei. Sentei alongando as costas, os braços, balançando os ombros, estralando o pescoço, inspirando e expirando. Limpei o suor das palmas das mãos no jeans.

Relaxei. Voltei a deitar e observei.

Nossa Cidade era dividida em três partes: Alfa, a parte nobre onde nosso Presidente e Governador moravam em duas casas grandes e luxuosas. Beta, para os soldados e pequenos aprendizes e Gama, para os civis – aqueles que fingiam não está acontecendo nada demais no mundo. Meus pais e eu morávamos em uma casa na parte Gama até eles desaparecerem em uma busca, não demoraram muito para me tirarem de casa e me colocarem em um quarto com outros soldados Beta.

Contei que nosso país estava divido em dois? E que nossa parte era a menor?

Por isso nem sempre tínhamos alimentos e remédios o suficiente para todos que moravam ali e com isso três grupos eram divididos para saírem e procurarem o que precisavam no momento. Na época dos meus pais apenas as pessoas mais bem treinadas, fortes e ágeis eram escolhidas para formarem os grupos, mas hoje em dia, os melhores aprendizes faziam o trabalho difícil enquanto os soldados Beta apenas vigiavam os muros e entradas, observavam os civis, treinavam outros Betas e aprendizes, organizavam a divisão de comida e roupa, como também eram divididos na ala médica da Cidade.

No dia em que meus pais desapareceram eu estava na escola, não uma escola para se aprender matemática, história ou geografia como meus pais haviam contado que existia na cidade antiga. Nossa única escola ensinava a como ser um soldado. Em meus três anos sabia como usar uma pistola, em meus dez anos sabia como desmontar em dez segundos uma XM177 e montá-la em cinco. Com onze anos tive minha primeira aula prática de tiro com todas as armas que nosso exército disponibilizava e com quinze, sai pela primeira vez em uma busca com meu grupo atual. Eu sabia que, para qualquer um que saía em uma busca, as chances de voltar vivo e sem o vírus eram menos zero. Para meus pais não seria diferente, mesmo experientes como eram. Eu estava com cinco anos quando dois soldados impecavelmente fardados apareceram na porta da sala de aula, nosso professor se aproximou deles como o único que havia notado sua presença já que as crianças estavam fascinadas demais com o que tinham nas mãos para desviarem seus olhares e eu era uma delas. Achava incrível segurar uma arma, sentir o poder que ela transmitia e mesmo minha consciência gritando que aquilo não era normal, meu corpo inteiro a ignorava. O professor se aproximou de mim colocando uma de suas mãos em meu ombro tendo minha atenção naquele momento.

O senhor Carter era um homem forte demais para demonstrar qualquer sentimento, mas naquele momento pude ver tristeza em seus olhos. Ele preferiu não dizer a uma criança de cinco anos de idade que seus pais estavam desaparecidos, provavelmente mortos e que ela estava sozinha no mundo. Não, ele deixou que os dois outros soldados me dissessem aquilo o que foi duas vezes mais terrível. Nenhum deles parecia se importar, mesmo com a mão direita no peito esquerdo, mesmo mostrando sentirem muito, nada parecia ser sincero. O que eu fiz naquele momento? Chorei como uma garotinha. Chorei com a arma em minhas mãos trêmulas. Chorei por cinco minutos até perceber que, não valia a pena chorar por meus pais. O que valia a pena era seguir o legado que eles haviam deixado, deixá-los orgulhosos aonde quer que estivessem.

E cá estou eu fazendo o trabalho que provavelmente papai fazia enquanto mamãe reunia a maior quantidade de coisas necessárias que a bolsa conseguia suportar. Eu gostava desse trabalho, gostava da adrenalina e da forma como me idolatravam por isso.

Eu era uma Beta, uma aprendiz de soldado e para os civis que viviam em nossa Cidade aquilo significava um símbolo de luta, de que estariam a salvo. Depois do que havia acontecido com meus pais o Presidente decidiu que os mais jovens seriam mais ágeis, fortes e inteligentes o bastante para fazerem exatamente o que lhes mandavam. Para o Presidente, meus pais foram descuidados em não seguir o plano de pegar somente o necessário e voltar para a Cidade. Nada de olhar para os lados. Nada de checar o andar de cima. Nada de seguir os zumbis para a sede oficial deles. Se é que tinham uma.

Apesar de acharem que eu seria curiosa como meus pais, eu gostava de ficar do lado de fora observando tudo em minha volta ao invés de entrar e arriscar encontrar o que eu não queria encontrar.

Zumbis...

Ou meus pais zumbis.