Operação Zumbi

17 17 - Um plano (quase) perfeito


Observar cada um do meu grupo em silêncio, queimando seus neurônios para encontrar uma saída para mim e para o meu problema me fez perceber o quanto tinha sorte por tê-los comigo. Não que eu fosse dizer isso em voz alta, mas ao ver todos os outros se divertindo no fundo, sem nem mesmo conhecer sua equipe ou até mesmo sem se importar com isso, me deixou feliz. A lua estava no topo de nossas cabeças, iluminando agora o outro lado da cidade deserta que nos cercava, deixando os cabelos do meu grupo prateados e o de Parker mais brilhantes. Ele ergueu os olhos encontrando os meus por acidente, me fazendo desviar sem conseguir disfarçar.

— Você acha que a notícia já chegou ao Presidente? – ele perguntou.

— Acho que não. Quando o médico falou sobre a Cura, John chamou de maluquice mas quando ele explicou o que aconteceu, pediu que ele investigasse e não contasse nada a George.

— E eles falaram tudo isso na sua frente? – ele perguntou confuso.

— Não! Eu entrei escondida na sala do médico e quando ele apareceu, estava com o Governador. Foi quando ouvi tudo isso.

— Como você entrou? – Parker perguntou com uma reação de incredulidade.

— Bem, isto não vem ao caso. – Tori disse rapidamente. – Cora, temos que encontrar esse tal doutor, você precisa saber exatamente tudo o que aconteceu naquele dia e desde então.

Concordei com a cabeça.

— Depois disso pensaremos em algo.

— Vocês só estão esquecendo de uma coisa. – Luke disse. – Há soldados por ai, provavelmente sabem sobre Cora, provavelmente já tem ordens de encontrá-la.

— E temos os Betas, em quem podemos confiar? – Parker perguntou nos fazendo trocar olhares um com o outro.

— Por que está dizendo isso? – quis saber.

— Não sei Cora, você confia em mim? – ele perguntou fitando meus olhos sem se importar com os outros em nossa volta.

— Não sejam idiotas, é claro que ela confia! – Tony exclamou. Mas Parker ainda me encarava sem ter certeza se aquela resposta era a verdadeira.

— Tudo bem, escutem. O plano é o seguinte... – Luke se aproximou do círculo baixando a voz.

Deixamos o muro antes que a reunião acabasse, ninguém notou pelo menos, mas com certeza sentirão nossa falta quando todos pularem no amanhecer. Voltamos para o shopping nos dividindo em dois grupos, Luke e Parker foram para o primeiro andar enquanto Tori e Tony me acompanhavam até as lojas onde se doavam roupas, sapatos e acessórios aos civis, já que eu ainda precisava de um par de botas. O segundo passo era buscar minha arma e Tony quem fez o favor de ir até meu dormitório enquanto Tori e eu esperávamos atrás do shopping. Dez, vinte, trinta minutos se passaram até que ele voltasse com o rosto branco e assustado, mas com minha CFR Whisper nas mãos.

— O que aconteceu, pirralho? – Tori perguntou se aproximando dele.

— Encontrei dois soldados parados em frente a seu dormitório. – Tony respondeu olhando para mim. – Eles perguntaram o que eu queria, menti que tinha deixado minha arma na sua casa.

— Boa. Muito obrigada Tony. – falei ao pegar minha CFR sentindo a familiar toque dela em minhas mãos, era como se simplesmente me trouxesse poder, coragem.

Cinco minutos depois Parker apareceu com uma enorme carranca, pisando forte e com os punhos fechados. Tori e Tony se entreolharam já sabendo o que poderia ter acontecido, mas eu, tinha de perguntar o que houve.

— Luke é um idiota. – foi o que Parker respondeu. – Ele está vindo com o cara.

Luke apareceu pouco tempo depois carregando alguém em um de seus ombros. O doutor não se movia, o que me fez deduzir está desacordado, isso era óbvio. Olhei para Parker desviando seu olhar para Luke e então para o corpo imóvel. É claro. Suspirei pesadamente fechando os olhos por um segundo antes de voltar a Luke.

— Metade do plano está aqui. – ele disse colocando o corpo sentado na grama, encostado na parede do
shopping.

— O que aconteceu? – perguntei erguendo a cabeça mole do doutor Robson que caía para frente. Seu rosto, machucado com ferimentos nos lábios, nariz e um dos olhos respondia a minha pergunta.

— O idiota do Parker queria matar o cara antes de sabermos sobre tudo.

— Qual é o seu problema? – exclamei me virando para Parker, que só aumentou a carranca, cruzando os braços no peito.

— Sinto atrapalhar, mas não podemos ficar aqui. – Tori disse. – Quando os Betas descerem, eles vão ver...

— Já pensei nisso. – Luke disse. – Vamos levá-lo para o galpão nos fundos do shopping.

— Aonde guardam os estoques esterilizados? – Tony perguntou surpreso.

Luke concordou com a cabeça erguendo novamente o corpo mole do doutor, nos guiando até a porta dos fundos, aberta sem qualquer proteção, nos dando passagem para o enorme e espaçoso galpão de distribuição onde tudo o que trazíamos nas Buscas eram guardados ali antes de serem disponibilizados. Parker, que vinha atrás com o último da fila, fechou a porta com cuidado para não fazer barulho. Assobiou quando parou para observar o local. Estantes que se erguiam até o teto, guardavam os produtos uma ao lado da outra formando vários corredores infinitos. Seguimos Luke por um dos corredores até estarmos no que parecia ser o centro do galpão onde um círculo se fazia entre caixas, estantes e corredores. Luzes brilhavam no teto deixando o lugar não tão sombrio assim. Cada um de nós paramos ao redor do médico, caído no chão enquanto Luke o amarrava pelos pulsos e tornozelos, para evitar fugas previsíveis. Em situações como esta, não poderíamos ser principiantes, tínhamos que por em prática tudo o que aprendemos em nossa vida na Cidade. Tínhamos de ser, por uma noite, soldados treinados.

A segunda parte do plano demorou mais do que imaginamos pois precisávamos do doutor acordado e não roncando como estava. Meia hora depois aquilo me irritou, assim como aos outros completamente cansados de esperar e apreensivos em sermos encontrados pelos soldados. Apesar de que, metade de mim estava aliviada pela demora, significava não saber de tudo sobre minha vida agora.

— Que droga, Parker! – exclamei me virando para encará-lo. – Por que você fez isso? – ele bufou, desviando seu olhar para os lados, me ignorando completamente.

— Luke? – Tori perguntou, tão curiosa para saber o motivo que nem mesmo me importei com sua intromissão.

— O médico sabia o que iríamos fazer, disse que iria te capturar de qualquer jeito.

— Não. – Parker disse rispidamente. – Ele não disso apenas isso, Luke. Você sabe. – Parker olhou para mim quando Luke desviou seu olhar para longe. – Ele disse, eu vou pegar aquela vadiazinha.

Ignorei o som de surpresa que veio de Tori e Tony me virando para o corpo imóvel deitado no chão. Para um desmaiado, ele estava confortável demais, foi o que pensei. Olhei para Parker acenando com a cabeça em direção ao médico, nem mesmo precisei falar o que queria, pois Parker sabia exatamente o que fazer. Ele ergueu o corpo do médico deixando-o sentado, a cabeça caída para frente, mas completamente imóvel. Esfreguei as palmas das mãos até sentir o calor entre elas e então, ergui um braço descendo o mais forte quanto pude. O som ecoou por todo o galpão o que seria ruim se ele chegasse a gritar. No terceiro tapa o médico acordou assustado, eu diria que completamente desnorteado com um lado do rosto extremamente vermelho e quando me viu, deixou o queixo cair em choque. Eu sorri como deveria fazer, já que eu estava no comando. Parker continuou segurando-o pelos braços, mantendo-o sentando em minha frente.

— Saudades da vadiazinha, doutor?

— Cora. – Luke me chamou atenção balançando a cabeça.

— O que você quer? O que vocês querem? – o médico perguntou desviando seu olhar para cada um de nós.

— Preciso de informações que só você poderá me dá. Preciso saber sobre a Cura, sobre...

— Eu prefiro morrer! – o doutor Robson gritou, mais um tapa me deixou completamente bem e ele, calado.

— Você sabe que podemos ficar aqui o tempo que for, sabe que estamos perto dos muros que separam você de seu maior medo e sabe que eu não irei hesitar.

— Seu pai iria ficar... – mais um tapa para que ele não falasse besteira.

— Sinceramente? Meu pai talvez iria gostar disso, pela traição que você fez com ele!

— O que? – o médico perguntou confuso.

— Sobre a Cura, como conseguiram?

— Trabalhávamos juntos no laboratório. Seu pai queria achar um modo para acabar com o vírus...

— O que você havia criado? – ele desviou o olhar sem conseguir ou querer me encarar. Podia sentir os olhares em mim do meu grupo.

— Sim. – ele respondeu choramingando desviando seu olhar para o chão. – Mas eu não queria ter criado isso.

— É. Você não queria e criou, meu pai tentou ajudar e olhe só no que aconteceu a ele.

— Foi um acidente! – ele gritou. – Com o vírus, talvez com Steven também. Nada disso deveria estar acontecendo.

— Está doutor e por que estão me procurando?

— Você sabe muito bem.

— Por que doutor?

— Eu acredito que você tenha o antidoto no sangue. – ele respondeu, olhou para mim quando acenei para que ele continuasse. – Seu pai e eu trabalhamos por anos buscando uma fórmula para reverter o que estava acontecendo. Todas as vezes que achamos que tínhamos conseguido e testamos, nunca dava certo. Até um dia quando Steven teve a certeza que havia conseguido e sua mãe se voluntariou para testar. Não sei nem mesmo como ele aceitou, só fazíamos testes em infectados. Quando ela não teve nenhuma reação, achamos que não havia dado certo, eles foram chamados para serem soldados e meses depois sua mãe estava grávida.

— Eu sei o que acontece depois.

— Mas porque só agora estão falando sobre isso? – Parker perguntou, mais para mim do que para o doutor. – Se isso aconteceu antes de Cora nascer, porque não fizeram testes quando ela nasceu?

— Você não vai ficar imune dessa maluquice, Travis! – o doutor gritou deixando Parker completamente branco, imóvel e sem foco.

Não consegui evitar olhar para ele assim como provavelmente todos no galpão. Travis era o primeiro nome de Parker? Por que eu não sabia disso? Alguém sabia sobre isso? Desviei meu olhar para Luke encontrando-o encarando Parker assim como Tori e Tony. Pobre Parker. Olhei para o doutor sorridente percebendo o que havia feito e então, para proteger um dos meus, do meu grupo, fechei o punho encarando seu nariz como alvo. O grito do doutor trouxe todos de volta a realidade, Parker ergueu seu olhar para mim surpreso, mas eu não iria baixar a guarda naquele momento.

— Você ouviu a pergunta dele, não ouviu? – sussurrei entredentes, observando sangue vivo descer rapidamente do nariz torto do doutor.

— Porque Steven me fez acreditar que Camile já não tinha o antidoto em seu sangue, que a filha era normal como qualquer outra criança. E quando eles desapareceram, nunca pensei em procurar pela filha órfã.

— Eu vi você conversando com John. – falei fazendo-o olhar assustado para mim, sabia que era desrespeito falar os nomes do Governador e Presidente na frente de qualquer pessoa, mas naquele momento eu não era nada além de raiva. E curiosidade. – George sabe do que está acontecendo?

— Crianças. – doutor Robson cuspiu o sangue que saia do nariz e caia na boca. – Não existe nada que aconteça aqui que George não saiba. Por isso estejam avisados que cedo ou tarde, alguém vai aparecer.

— Sem ameaças vazia doutor. – Luke disse. – Se todos eles sabem sobre a Cura, sabem que está em Cora, mas o que vão fazer com isso? – ele perguntou com cuidado. O médico riu, forçadamente, mas riu mostrando os dentes vermelhos e nojentos.

— Com certeza não será para salvar a humanidade, eu diria. – mais um riso forçado e ele tossiu o sangue novamente. – George provavelmente vai usar como arma e John não passa de um sonhador, pensa que pode acabar com o vírus usando a Cura.

— E não pode? – Luke perguntou. – Se é um antidoto ao vírus.

— A Cura deixa seu organismo inume ao vírus. Não acaba com ele, por isso que todos os testes que fiz em zumbis não deram certo e o único teste em Camile, pode ter dado. – todos olharam para mim ao ouvirem aquilo como se para checar que eu ouvia aquilo, aquela informação muito importante sobre mim.

— Você teve algo com o sumiço dos meus pais?

— Não. – respondeu rapidamente. Parker e eu nos entreolhamos no mesmo instante.

— Doutor Robson. – falei apertando o punho frente a seu rosto. – Você já viu o que acontece se você não responder nossas perguntas.

— Vocês são tão ingênuos. – ele gritou. – Ingênuos! Quando eu sair daqui vou...

O final da frase se perdeu quando meu punho acertou o olho direto do médico, fazendo-o cair desacordado.