Operação Zumbi

14 14 - Pisando em ovos


Por três minutos inteiros enquanto caminhava em direção ao meu dormitório, pensando em mil motivos para fazer uma loucura. Seria sensato e inteligente sair sem que ninguém me veja e acompanhar meu grupo? Sair escondida e buscar sozinha o que precisavam? Ou ficar em casa e fazer exatamente nada esperando por eles? Esta não seria eu. Olhei em volta observando os soldados que passavam para seus trabalhos, olhavam para mim acenando com a cabeça sem nem mesmo imaginar o que eu estava planejando fazer.

Entrei em meu dormitório encontrando Adelle sentada no sofá lendo um livro que facilmente esqueceu quando me viu. Ela sorriu para mim, algo que normalmente não fazia, mas retribui andando em direção a meu quarto quando ela limpou a garganta.

— O soldado Vítor pediu que eu a avisasse. Ele está esperando no shopping, na ala médica. Aconteceu alguma coisa com você?

— Não. – respondi me virando para encará-la e sorrir o mais natural que poderia. – Apenas exames de rotina. Você sabe.

Adelle concordou com a cabeça voltando a seu livro mas duvidava que ela soubesse sobre os exames já que quase não saía. É claro que os exames de rotina aconteciam a cada três meses e o nosso havia sido a um mês atrás, mas não doeria mentir um pouco, não é?
Caminhei lentamente em direção ao shopping, demorar e perder a hora não importava para mim, já que não queria voltar tão cedo para aquele lugar.

— Cora! – a voz de Vítor me fez piscar para a realidade ao passas pelas portas deslizantes e vê-lo caminhando em minha direção.

— O que você tem na cabeça? – sussurrei irritada.

— O que? Por que? – ele perguntou confuso.

— Eu que pergunto. Por que você contou sobre meu pé para eles? – perguntei irritada, cruzando os braços no peito enquanto Vitor me olhava confuso e intrigado.

— Eu não contei a ninguém, só pedi que Adelle desse o recado. Eu preciso saber se você está bem. Sinceramente, – ele disse olhando ao redor para checar se tinha alguém perto o suficiente, pegou meu braço me levando até as escadas rolantes. – Conheço o doutor Robson, mas não sei se ele foi sincero quando disse o que havia injetado em você. Preciso saber se não vai aparecer nenhum efeito colateral a longo prazo...

— Estou fora! – sibilei com raiva ao ver que nos aproximávamos do primeiro andar. – Estou fora das buscas. Estou fora do meu grupo. Sou uma imprestável.

— Pelo amor de Deus Cora, drama não combina com você. – Vítor disse me levando até a primeira porta do primeiro corredor, fechando a porta quando passamos. – Os exames serão rápidos. Sangue, urina, raio-x. Aposto que amanhã você estará de volta.

— Amanhã já é tarde demais Vitor. Você sabe, não deixe para amanhã o que pode fazer hoje.

— Exato. Por isso vamos fazer os exames hoje e agora. – ele sorriu ao pegar alguns instrumentos para tirar meu sangue. Seu método parecia muito mais confiável, diferente de como o doutor Robson havia feito. Vítor ignorou minha careta amarrando um cordão de borracha em meu braço apertando-o o suficiente para parar completamente a circulação do sangue. Respirei fundo sem soltar o ar, fechando os olhos tentando pensar em algo para fugir dali.

— Pode parar Cora. Você não vai sair hoje. – ele disse me fazendo abrir os olhos no momento em que ele erguia uma seringa. – Sabe, eu estava pensando e não pude deixar de notar o modo como você ficou quando ouviu o nome do doutor Robson. Você o conhecia? – perguntou enfiando a agulha na veia da dobra do braço.

— Não. – respondi rápido demais, fazendo-o erguer o olhar para mim como se soubesse.

— Nem por seus pais? – ele insistiu. – Talvez eu lembre de tê-lo visto com seus pais. Quero dizer, todos daquela época conheciam seus pais, mas acho que já os vi juntos.

— Você os viu juntos? – perguntei, agora interessada.

— Foi apenas uma vez, eu era novo demais mas me lembro agora. E é claro, – disse olhando para mim. – fui investigar. Logo no começo da Cidade, ele e seus pais trabalhavam no laboratório, George e John nem mesmo haviam imaginado em criar grupos de busca ainda.

— O que eles faziam em um laboratório? Aqui tem um laboratório? – perguntei sem conseguir imaginar como dois grandes Betas haviam começado de um laboratório.

— É claro que tem! De onde você acha que tiram tantos remédios? Só das Buscas? Cora, por favor. E só quem trabalhou no laboratório sabia o que faziam lá. – respondeu puxando a seringa com um pouco de sangue, menos do que o doutor Robson havia tirado.

— Eu nunca soube disso. Nem sobre meus pais e muito menos sobre o laboratório, na verdade nunca parei para pensar de onde vinha tanto remédio. – falei desviando meu olhar para o teto, ignorando a terrível dormência no braço.

— Você nem mesmo era nascida na época que trabalhavam aqui. – Vítor disse com um sorriso no rosto. – Eles tinham começado a namorar, tudo aqui ainda estava se consolidando.

— Mas esse laboratório que eles trabalhavam, foi onde tudo começou? – Vitor parou no momento em que colocava a tampa na caixa com a seringa dentro para me olhar.

— Cuidado com o que diz, mocinha. Você está em terreno perigoso.

— De todas as formas você sabe que sim.

— Talvez eu saiba e não, eles não trabalhavam naquele laboratório. O fato de tudo, é que eu acho que o doutor Robson conheça seus pais melhor do que ninguém.

— Isso eu vou descobrir. – Vítor sorriu como se já esperasse por aquela resposta. Ele me obrigou a ficar deitada por alguns minutos enquanto saía para deixar a amostra de sangue. Ok, deitar seria uma boa opção agora que tenho mais uma coisa para pensar. Como se já não bastasse toda a história do CC, que fazia sentido ser meu nome e está em todas as minhas armas mas ao mesmo tempo não fazia pelo fato de eu nunca ter notado ali, e também havia a história do pesadelo com o doutor Robson, o lance estranho de Parker e minha proibição de sair da Cidade.

— Toc. Toc. – alguém falou enquanto abria a porta. Ergui os olhos para ver Nathan entrando na sala. – Soube que você ficará aqui hoje.

— Pois é, castigo. – respondi voltando a fechar os olhos.

— Até que é legal ficar aqui.

— É mesmo? – perguntei irônica. – Me diga pelo menos um motivo.

— Ah fala sério Cali, nós vamos aos muros, vigiamos as entradas...

— Realmente interessante. – resmunguei.

— Você prefere adrenalina, eu entendo. – Nathan disse sentando na ponta da maca, me fazendo afastar para o canto. – Eu queria te dizer uma coisa.

— Sim?

— Você ouviu minha conversa com Parker e nem tente negar. Eu só não sei quanto você ouviu, mas eu realmente estou...

— Por favor, não diga. – falei no instante em que Nathan disse: – Gostando de você. – nós entreolhamos por cinco segundos antes que eu fechasse os olhos novamente.

— Você não acredita em mim? – ele perguntou.

Respirei fundo e me forcei a sentar me virando para Nathan. Eu não sabia o que ele queria com essa confissão, mas com certeza o sentimento não era recíproco.

— Talvez você esteja. – falei com cuidado para não machucar seus sentimentos. – Mas você nem mesmo sabe meu nome, Nathan. – ele riu negando com a cabeça. – Sério? Você sabe meu nome de verdade?

— É Califórnia. – ele disse confiante porém totalmente equivocado.

— Não, me desculpe, mas não é. Você deve está...

— Eu sei como me sinto, está bem? – Nathan disse levantando da maca, parecia desesperado para que eu acreditasse.

— Me desculpe mas, talvez não saiba o que realmente sente. Deve ser uma atração, mas gostar? Acho que não, me desculpe.

— É o Parker? – perguntou com as mãos na cintura.

— Fala sério, nós nem conversamos direito. Eu não faço ideia do seu sobrenome e você acha que é por outro cara?

— É o Parker?

— Eu não sei, está bem? – exclamei irritada. – Eu não sei. Vocês são tão idiotas. São tão irritantes discutindo sobre mim e nem mesmo pensaram sobre o que eu quero. Vocês acham simplesmente que uma rejeição é por outro homem? Me poupe. Parker é um idiota, eu não sei se posso confiar nele, não sei se posso confiar em você. Então, sinceramente, eu prefiro confiar em mim mesma.

— Mas o que está acontecendo aqui? – Vítor perguntou parando na soleira da porta. Nathan e eu erguemos o olhar ao mesmo tempo, completamente surpresos.

— Assunto de Beta. – Nathan disse caminhando em direção a porta.

— Cora? – Vitor me chamou, como se precisasse de uma confirmação.

— Não foi nada, apenas uma informação errada.

— Informação? – Vitor perguntou erguendo uma sobrancelha, se aproximando da maca e de mim. – Infelizmente para mim, eu ouvi muito bem e será que eu preciso avisar que Parker também?

— O que? – exclamei surpresa.

— Ele estava na porta antes de eu entrar, mas eu acho que com o sinal que ele fez, talvez não fosse para eu te contar isso.

— Ótimo. Agora ele ouviu o que eu disse.

— E não era pra ouvir?

— Não desse jeito.

— Eu não entendo coisas de mulher, mas você precisa fazer pipi aqui. – Vítor disse erguendo um pequeno recipiente transparente. Olhei para ele prestes a revirar os olhos, mas ele já tinha saído da sala.