Operação Zumbi
12 12 - Símbolo de família
— Está tudo bem? – Tori perguntou ao meu lado, desviando seu olhar para o zumbi no chão.
— Estou. – foi tudo o que respondi.
Luke e Tony vieram logo depois ofegantes porém prontos para lutar se fosse preciso e não foi, tudo o que fizeram foi jogar os corpos pela ponte.
— Para alguém que estava quase morrendo você realmente está mais louca. – Tori disse.
Sorri dando de ombros sem saber qual resposta ela queria ouvir com aquilo. Ergui minhas mãos na altura de meus olhos observando-as sujas de sangue e uma delas segurando a faca. Em todos os meus anos de vida nunca havia usado uma faca para matar, para mim armas eram mais eficientes por não precisar de muitos movimentos, apenas mirar no alvo e apertar no gatilho, já com facas você precisava mirar, lutar contra o inimigo e, se tiver sorte, conseguir matá-lo no lugar certo. É claro que eu tinha algumas facas na qual levava comigo, mas por precaução. Nunca imaginei que as usaria de verdade.
Olhei para a lâmina suja de sangue limpando na barra da blusa, eu só queria vê-la exatamente como era. Lâmina de prata com cabo de aço bem como usávamos na Cidade. Observei mais de perto procurando algo que nem mesmo eu sabia o que, até que um rabisco me fez engolir duro.
CC.
— Está tudo bem? – a voz de Parker invadiu meus ouvidos me fazendo piscar ao erguer o olhar para ele.
— Está. – mas foi Tori quem respondeu.
— Cora? – Parker me chamou, como se eu precisasse responder para ele acreditar.
— Está tudo bem. – falei distraída, sem conseguir tirar os olhos do rabisco igual ao da minha arma.
— O que é isso? – era a voz de Tony bem perto de mim.
— Uma faca. Onde estava? – Luke perguntou.
Pisquei uma, duas, três vezes voltando a realidade de que estávamos em uma ponte, entre centenas de armadilhas e que a cinco minutos atrás, fomos atacados por zumbis. Virei em meus calcanhares encontrando as quatro pessoas de meu grupo intrigados e ao mesmo tempo curiosos enquanto me observavam em um semicírculo quase perfeito. Luke desviava seu olhar para meu rosto e minhas mãos. Parker encarava a faca mais do que qualquer outro ali. Tony fitava meus olhos com seus olhos castanhos gentis e Tori erguia uma sobrancelha para mim. Ótimo, eu realmente queria a atenção deles?
— Vocês já viram essa faca antes? – perguntei erguendo para eles.
Observaram com atenção a faca como qualquer outra, pois realmente era como qualquer outra mas aquele símbolo fazia dela única. Me aproximei de todos erguendo a lâmina exatamente para que o duplo C ficasse visível para eles, mas nem mesmo Parker ou Luke perceberam o que eu tentava fazer.
— Vocês não estão vendo? O C?
— Sim. Esta ai. – Tony respondeu apontando para a lâmina.
Ótimo, eles não eram cegos.
— Então...?
— Não é o mesmo das suas armas? – Tori perguntou.
— Não! Eu nunca o vi antes.
— Eu... Acho que já vi antes. – Parker disse desviando seu olhar para longe de meu rosto.
— Onde? – perguntei rapidamente, sem nem mesmo perceber como ele estava hesitante. Olhava para o chão, para as armadilhas em nossa volta e não conseguia olhar para meus olhos.
— Onde você viu Parker? – Luke perguntou.
— Acho que seus pais usavam uma dessas.
— O que? – Tori, Luke e eu exclamamos em um uníssono nos virando para Parker.
— Pessoal, sem querer atrapalhar. – era Tony. – É melhor voltarmos para dentro.
Tony não precisou dizer que estávamos sendo atacados ou que os soldados haviam nos descoberto, ele não precisava explicar o que estava acontecendo pois já imaginávamos o que esperar. Perfeitamente sincronizados, viramos em direção a entrada da ponte onde alguns zumbis se arrastavam em nossa direção. Luke, como um bom líder, não precisou nos dá ordens para sair dali. Um segundo depois estávamos apressando os passos em direção a porta por onde havíamos saído.
Eu, geralmente focada demais em matar zumbis, estava completamente perdida em minhas próximas ações. Ouvir Parker falar sobre meu pai era um tanto chocante demais para um dia só. E que dia. Estava decidindo se queria realmente ouvir o que ele tinha a dizer, estava pensativa tentando entender o motivo que em apenas um dia notei aquele símbolo ou em como sonhei com um médico antes mesmo de conhecê-lo. Era tanto para pensar, para agir que não ouvi quando Tori me chamou e muito menos senti quando ela puxou a barra da minha camisa para entrarmos pela porta e nos escondermos no arbusto.
O Grupo Y ainda estava ali, escondido e esperando por nós. Nick, o líder, discretamente saiu dos arbustos em direção a tenda onde o Cabo Bosco fazia plantão naquele dia, seu grupo saiu logo atrás para se apresentar depois do trabalho, que tecnicamente nós fizemos.
Pelo menos eles nos agradeceram.
— Vamos sair discretamente. – Luke disse.
Três minutos depois Tony foi o primeiro a sair, Tori e depois Cora, se eu não estivesse tão distraída em meu canto. Parker foi em minha frente e Luke depois de mim. Caminhamos naturalmente entre os dormitórios dos soldados, conversando sobre qualquer coisa e rindo mostrando o quanto éramos unidos e aquele dia não passava de um dia normal.
Bem, poderia ser um dia normal para quem nos via. Não para nós ou para mim.
— Luke, Parker está se saindo melhor do que você para pensar antes de agir. – Tony falava sorridente, o único que sorria com mais frequência em nosso grupo.
— Há. Há. Duvido que ele pense antes disso... – Luke falou dando-lhe um murro no braço de Parker, fazendo Tony rir.
— Se isso for seu melhor murro, eu estou ferrado se precisar de você para lutar. – Parker respondeu esfregando discretamente a mão no braço.
— Cara, temos armas. Nem sempre músculos nos ajudarão. – Tony disse.
— É claro que ajudarão! Pense na disposição e agilidade que teria se soubesse lutar. – era Tori, soltando o cabelo fazendo-o cair lisos sem qualquer lembrança que haviam sido presos. Diferentes dos meus que sempre ficavam marcados pelos elásticos. – Aliás, vamos correr amanhã? O que acham?
Talvez fosse uma lei universal achar que garotas eram mais frágeis do que garotos e mesmo que todas as garotas Betas lutassem e soubessem usar uma arma, sempre éramos vista como frágeis e para os garotos, nos ter no grupo não só dizia que precisaríamos de heróis como também que iríamos conversar sobre bobagens. Tori gostava de falar sobre o quanto deveria se exercitar, lutar ou treinar, o que era o oposto do que os garotos esperavam e chegava a ser engraçado o modo como eles a olhavam, como se não vissem uma garota naquele corpo.
Quando chegamos em nossos dormitórios paramos logo em frente a entrada da casa onde Parker morava com Tony e Tori, era o único lugar que poderíamos nos reunir com privacidade e eles sabiam que era o que eu queria depois de passar o caminho inteiro em silêncio e pensativa. Entramos na sala, Tori fechou a porta e Tony abriu as cortinas para que víssemos quando alguém se aproximava, e para sermos vistos. Era sempre assim, deixar a vista, não fazer alarde e parecer normal para que não surgissem suspeitas.
As vezes as pessoas não percebiam o que está bem em frente ao seus olhos.
— Reunião? Ok. – Parker disse caindo no sofá.
— Você disse que viu o duplo c com meus pais. O que quis dizer? Como? – perguntei sem a mínima vontade de esconder o quanto estava curiosa.
— Eu disse?
— Sim, você disse. Parker!
— Tudo bem, Califórnia. Não fique bravinha. – respirei fundo ignorando a última palavra. – Eu vi seu pai e sua mãe usando armas com o mesmo duplo c, como você diz.
— Igual a este? – perguntei erguendo a faca para Parker.
— É. Igual a este.
— Por que você nunca disse isso? – Luke perguntou sentando ao seu lado.
— Por que nunca precisou, achei que fosse algum símbolo de família.
— Eu nunca vi isso antes. Pelo menos nunca notei. – falei suspirando pesadamente, derrotada por talvez fazer grande caso de algo que sempre existiu e eu nunca notei.
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