Vitor me levou até o térreo do shopping me deixando em uma mesa, o mais longe possível dos civis, para pegar algo para comermos. Sozinha ali, observei Vitor se distanciar, passar por mesas com civis sentados comendo algo e por soldados que observavam tudo ao redor. Respirei fundo lembrando dos minutos anteriores, com certeza voltaria naquele lugar para fazer algumas perguntas, para saber quem era o paciente 104 e o motivo de eu ter tido pesadelo com o médico que eu nunca tinha visto antes, até aquele momento.

Vi Vitor no segundo stand de três que havia ali com comida, lá se fazia hambúrguer, delicioso como nenhuma outra comida na Cidade. Mamãe costumava dizer que antes do fim do mundo se vendia inúmeros hambúrgueres, de vários tipos e tamanhos, em Nova Iorque e no mundo inteiro. Era o prato preferido de crianças, jovens e adultos que se reuniam em lanchonetes e segundo mamãe, engordavam. Ela não gostava daquele tipo de comida e foi a parti dela e de outras mulheres que criaram o stand de comida natural, sem gordura, óleo ou ingredientes prejudiciais a saúde, basicamente verduras e frutas que colhiam na plantação. Mas a maioria dos Betas gostavam do hambúrguer, já os civis conseguiam dividir um dia para uma comida diferente, era como nosso Presidente havia dito sobre manter uma vida saudável para o futuro e então, todos o obedeciam cegamente.

Vitor voltou mais rápido do que pude esperar com uma bandeja, em uma das mãos, com o duplo de copos com refrigerante, fritas e hambúrguer. Na outra mão ele segurava um par de botas militares. Agradeci pegando rapidamente o copo para tirar o gosto ruim da boca, foi naquele momento que percebi o quanto estava faminta.

— Está melhor? – Vitor perguntou ao me ver morder várias vezes o hambúrguer. Balancei a cabeça concordando sem conseguir abrir a boca cheia de comida. – Jura? – perguntou encarando meus olhos. – Eu fiquei realmente assustado, principalmente quando você gritou.

— O que? – a surpresa foi tamanha que me fez engasgar com um pedaço de carne. – Eu gritei? – perguntei em um sussurro, depois de engolir.

— Logo antes de apagar. Eu nem mesmo sei o que pensei naquele momento, eu congelei.

— Estou bem agora. – falei distraída com os tubinhos de batata frita.

— É sério Cora, eu fiquei assustado. Eu me sinto responsável por você. Seus pais nunca me perdoariam se...

— Vitor, meus pais estão mortos. – falei delicadamente. – E você cuidou bem de mim, é sério, eu estou bem. Na verdade, eu estou ótima. – falei tentando não olhar para ele. É claro que não iria falar sobre o pesadelo e sobre ter dúvidas quanto ao que aquele médico fez ou vai fazer. – Aliás, obrigada pelas botas. – Vitor assentiu mordendo seu hambúrguer.

— Cali! – a voz de Nathan ecoou milhares de vezes pelo salão. Vitor e eu erguemos nossos olhares em direção ao grande homem que se aproximava da nossa mesa, seu cabelo raspado e suas cicatrizes de luta no queixo e sobrancelha eram a definição de soldado. – Que bom te ver. Você está bem? – olhei para Nathan que segurava um copo grande de refrigerante e para seu rosto que mostrava felicidade. Ele cumprimentou Vitor com um aceno de cabeça e logo seus olhos estavam sobre mim novamente.

— Estou ok.

— Legal! Ei, posso falar com você depois? – olhei rapidamente para Vitor no instante em que ele ergueu uma sobrancelha para Nathan, concordei com a cabeça sem pensar em uma resposta rápida para rejeitar o convite. – Então nos vemos...

— Eu estava procurando você. – Parker apareceu nas costas de Nathan. Por um instante achei que ele estivesse falando comigo, até mesmo Vitor revirou os olhos para mim, mas Parker nos ignorou completamente dando tapinhas nas costas de Nathan, acenando com a cabeça para que ele o seguisse e saiu como se eu não estivesse ali, como se Vitor não estivesse ali. Nathan sorriu antes de sair seguindo Parker até as portas do shopping.

— Seus admiradores? – Vitor perguntou se virando para mim.

— Não mesmo.

— Fala sério, Cora.

— E estou! Não quero me envolver com esses idiotas. – respondi ainda observando o caminho que fizeram.

— Bem... – Vitor disse levantando da mesa. – Não esqueça que estes idiotas são seus companheiros e que você é um deles. – sorriu e virou em seus calcanhares me deixando encarar suas costas, incrédula sem saber que ele havia me insultado ou me dado uma lição de moral.

Observei Vitor seguir até as escadas rolantes de volta ao trabalho enquanto suas palavras pulavam enlouquecidamente em minha mente. Por eu ser um Beta não significava que eu era idiota como eles e nisso eu tinha certeza. Comi o restante das batatas fritas levantando inconscientemente para jogar as embalagens no lixo, sem nem mesmo lembrar que havia quase perdido o pé e todos os sentidos com o remédio que o médico havia injetado em mim. Olhei para meus pés no meio do caminho, estavam tão normais quanto poderiam ser e descalços no piso frio. Voltei para a mesa depois de guardar a bandeja, calçando as botas rapidamente para evitar os olhares curiosos sobre a Beta que andava descalço ali. Caminhei até as portas do shopping parando bruscamente frente ao vidro quando meus olhos encontraram Parker e Nathan a uns poucos metros dali, conversando ao lado de um pequeno parquinho onde crianças brincavam de descer no escorregador e balançar nos bancos presos à cordas.

Em outras ocasiões vê-los juntos seria completamente normal, ver Parker correr como um cachorrinho atrás de Nathan era completamente aceitável, mas depois do que aconteceu no muro, na recepção da ala médica e agora pouco na frente de Vitor, eu estava curiosa sobre o assunto que conversavam. Olhei para os lados disfarçando quando um casal de idosos passou por mim e sorriu, sorri de volta segurando as portas deslizantes para que passassem como uma boa Beta que era. Voltei a observar Parker e Nathan não me contentando apenas com aquilo, já que ouvir o que estavam falando seria muito mais interessante.

Passei pelas portas mas ao invés de ir em direção ao dormitório, afinal eu teria que passar por eles, continuei andando em linha reta indo em direção as casas dos civis. Olhei em direção aos dois e nenhum pareceu ter me visto, pus as mãos nos bolsos da calça jeans agindo naturalmente, acenando com a cabeça para as pessoas que me cumprimentavam e até as que não. Parei na calçada da rua para observar o parquinho mais próximo do que imaginava, caminhei devagar sorrindo para algumas crianças cada vez em que se aproximava dos dois, parei frente a uma das cadeiras de balanço tentando ouvi-los apesar da gritaria e a gargalhadas estridentes. Mesmo pequenas, faziam um enorme barulho.

— Eu já pedi para você parar.

— Por que eu faria isso, Parker? Só por que você quer?

— Não. Não é só por mim, é por ela. Você nem mesmo gosta dela.

— Alguém te disse ou você, com sua mente brilhante, deduziu isso?

— Eu conheço você a anos, eu sei quando está brincando e era apenas uma vez. Uma!

— Uma? Você me implorou para falar com ela e agora quer que eu volte atrás? Qual é a sua? Está gostando da Califórnia tanto assim para não me querer por perto? Ou tem medo que ela me escolha ao invés de você?

Engoli duro piscando os olhos para a menina que sorria para mim inocente do que se acontecia em seu playground, ela sentou no balanço em minha frente segurando com força as cordas para não cair. Ela olhou para trás, para mim, como um pedido. Muito devagar empurrei suas costas para frente para que ela pegasse impulso, a garota gritou alto em euforia me deixando assustada, empurrei um pouco mais sendo repreendida por uma única palavra: – Forte! – ela gritou sobre os ombros. Sorri empurrando mais forte, tentando ouvir a resposta de Parker. Nada. Forcei todo meu ser para não virar a cabeça ali mesmo só para checar se ainda estavam lá, continuei empurrando a garotinha fingindo ser uma coisa natural, afinal a Cora também tinha sentimentos.

— Tudo bem, vá escorregar. – falei dando uma última empurrada antes de virar, completamente ansiosa para saber se ainda estavam ali.

Na verdade não havia ninguém aonde Nathan e Parker conversavam. Nem mesmo uma sombra. Me virei para voltar para casa encontrando-os de braços cruzados enquanto me encaravam.

Um ao lado do outro.

Isto eu não esperava.