Operação Roleta Russa
26 Traição
Notas iniciais

ANTES
Ela tinha catorze anos, longos cabelos negros e o corpo comum para uma adolescente daquela idade. Não havia nada de especial sobre Roxanne Domenichelli, a não ser o fato de que o pai dela era o líder da Máfia Italiana. Não que isso importasse naquele colégio interno só para garotas.
Talvez as outras pessoas ali nem soubessem desse fato, isso explicaria a coragem que as garotas tinham de tratá-la como lixo. Roxanne tentava ignorar as brincadeiras de mau gosto, as armações para que ela fosse punida e a zombaria cruel... Delatores eram covardes pelas leis da Sicília e, por isso, ela se recusava a contar para alguém, mesmo quando a encurralavam no banheiro e batiam nela, mesmo quando estragavam as coisas dela de propósito.
Greta tinha dezesseis anos, era corpulenta, líder do grupinho do bullyng e tinha uma predileção por ser violenta. Roxanne nunca soube por qual motivo era odiada daquele jeito.
Às vezes a garota Domenichelli tinha tanto ódio disso que pensava em formas de fazer a mais velha pagar, talvez ela pudesse contar para o pai o que estava acontecendo ali. Até tentou algumas vezes, mas ele nunca respondeu nenhuma mensagem e não tinha tempo para atender as ligações dela. Roxanne tentava não ficar sentida com isso, afinal, sabia que o Dom era ocupado.
Mas naquele momento, enquanto tentava desgrudar o chiclete mastigado que haviam colado em seu cabelo, e suas costelas ainda doíam dos chutes que levou quando foi jogada no chão, a adolescente desejou que seu pai fosse um homem comum, com tempo para criar a própria filha.
Sentia falta da mãe, falta de ter alguém que cuidasse dela e que se importasse com o que ela tinha a dizer, na verdade, sentia falta de ter amigos, simples assim, alguém com quem ela pudesse conversar de verdade, não apenas uma garota que riria dela na primeira oportunidade. Gostava mais do prédio infantil, aquele no qual ficou desde os dez e, que embora fosse da mesma rede, era em outra localidade e gerenciado por pessoas diferentes. Com treze anos, Roxanne foi obrigada a sair do mundo das crianças e entrou no inferno adolescente. Ela nunca desejou tanto ter parado no tempo.
A porta do dormitório foi aberta em um rompante, uma das funcionárias do local passou seus olhos severos pelo espaço.
— Domenichelli, o Diretor quer te ver. — Disse sem qualquer tipo de afeição na voz.
— Sim, senhora. — A menina se colocou de pé, ajeitando a saia rodada do uniforme e fazendo seu melhor para esconder o pedaço de chiclete ainda colado em seu cabelo.
Acompanhou a funcionária através dos corredores, nenhum único olhar ou palavra acolhedora durante todo o caminho. A mulher apenas abriu a porta do grande escritório e empurrou Roxanne para dentro.
— Senhorita Domenichelli... — A voz aveludada praticamente cantarolou.
O diretor Lazzaro Bellucci estava parado de costas, olhando para a lareira acesa que ficava à direita do cômodo. Usava um terno marrom, as mãos para trás em uma postura distinta.
— Sente-se. — Ele ordenou, assim que a porta atrás de Roxanne foi fechada e os dois ficaram sozinhos naquele escritório.
A garota se moveu devagar, assumindo o lugar na frente da grande mesa de madeira. Só então o diretor se virou, não havia nada particularmente marcante nele; era um homem beirando os cinquenta, com olhos verdes quase encapsulados pelas pálpebras. Seu cabelo estava perfeitamente alinhado e não havia um único fio de barba em seu rosto redondo.
Não era comum que ele interagisse com as garotas, poucas ficavam sozinhas com ele, Roxanne nunca esteve naquela sala e quase nada sabia de Bellucci, a não ser o fato de que era ele quem gerenciava o lugar. Todas as aulas, punições e distribuição de tarefas ficavam nas mãos das professoras ou das outras mulheres que ali trabalhavam.
Ele mediu a garota com atenção por vários instantes, não como se a visse pela primeira vez, era diferente disso. Algo que a adolescente não soube decifrar de imediato. Essa impressão se perdeu em sua mente quando Bellucci sorriu cálido e acolhedor, o tipo de gesto amigável muito difícil de se ver nos limites daquelas paredes cinzentas.
— Sabe o motivo de estar aqui? — Perguntou calmamente, ignorando a cadeira e apenas se encostando na mesa.
— Não, senhor. — A menina balançou a cabeça em negativa. Ela sabia exatamente porquê estava ali.
— Não minta pra mim, senhorita Domenichelli. Tenho certeza que você é mais esperta que isso. — O diretor retrucou, mas sua voz ainda era calma. — O carro da professora Mancinni foi depredado noite passada.
A mais nova sequer se moveu, ela sabia que isso tinha acontecido. Greta e seu grupo tinham feito aquilo, mas Roxanne não sabia a razão.
Mas isso não era novidade, as ações de Greta nunca pareciam ter um motivo.
O diretor Bellucci focou os olhos verdes na adolescente por alguns minutos e, ao ver que ela não diria nada, enfiou a mão dentro do bolso.
— Isso foi encontrado no estacionamento. — Ergueu um objeto no ar. Era um ioiô metálico com detalhes vermelhos, que imitava a roda de um carro de luxo.
Roxanne reconheceu a peça de imediato. Pertencia a Damian, a última lembrança de seu irmãozinho.
— É meu! — Ela disse em um rompante, agarrando o brinquedo da mão do diretor antes mesmo de pensar sobre isso. Com certeza Greta havia roubado o objeto e colocado na cena do crime.
Assim que notou o que tinha feito, a adolescente apertou ioiô sobre o peito e voltou a se sentar, os olhos assustados de quem sabe que vai levar uma bronca, ou pior, um castigo.
— Suas amigas falaram que viram você fora da cama noite passada. — O Diretor Bellucci não esboçou nenhuma reação enquanto falava. — Tem certeza que não quer me contar nada?
— Eu não fiz nada. — Roxanne balbuciou, encarando os sapatos do homem. Seu pai tinha sapatos como aqueles, o que indicava que deviam ser caros...
— E sabe quem fez? — A voz masculina tinha um tom quase paternal.
— Não, senhor. — A adolescente disse de imediato. Não podia renegar suas origens, era uma Domenichelli, não uma delatora.
Teve aquela sensação estranha e desconfortável de estar sendo observada, por isso ergueu a cabeça novamente. Os olhos verdes estavam fixos nela de uma forma indecifrável.
— Eu acho que você sabe exatamente o que aconteceu. — O Diretor Bellucci deixou no ar.
Ele se aproximou alguns passos, parando logo ao lado das pernas de Roxanne e se abaixando para que os olhares se encontrassem.
— Mas admiro sua capacidade de guardar um segredo. — Sorriu acolhedor, pousando sua mão direita sobre a coxa da adolescente. — Não se preocupe, vou lidar com o problema, tudo bem?
A mais jovem piscou devagar, confusa com o tom e o toque carinhoso, não estava acostumada com nenhuma demonstração de afeto, tudo que tinha naquele lugar era ódio, violência e crueldade. Mas Lazzaro Bellucci foi amável e ela se permitiu sorrir de leve.
O rosto do homem assumiu uma expressão muito satisfeita, sua mão, ainda pousada na coxa da adolescente, subindo por um único centímetro, antes que ele a tirasse dali e pegasse a mecha de cabelo negro que ainda tinha chiclete colado.
Com cuidado o diretor retirou o doce mastigado dos fios. Roxanne sequer conseguia se mover, hipnotizada pela forma metódica e ainda assim calma que o homem fazia aquilo.
Quando se livrou dos restos grudentos Bellucci sorriu, e a garota se levantou para ir embora, seu coração aos saltos por causa da atenção que recebeu. Fazia muito tempo que ninguém se importava com ela.
— Você pode confiar em mim, Roxanne. — O diretor declarou, enquanto a conduzia até a porta, com a mão espalmada nas costas dela. — Eu vou cuidar de você.
Pararam ali ela do lado de fora e ele ainda dentro do escritório.
— Vá dormir, querida. — Disse amigável.
A adolescente assentiu, um sorriso persistente no rosto. Talvez seu colégio interno não fosse tão ruim assim...
No curso das próximas semanas nada mudou realmente, Roxanne continuou sofrendo nas mãos de Greta e das outras garotas, continuou a receber olhares atravessados das professoras e funcionárias. Continuou a comer escondida no banheiro.
Porém...
O diretor Bellucci cumpriu com sua palavra, o incidente com o carro não foi mencionado nenhuma única vez e, além disso, ele a chamou no escritório novamente.
Não foi por nenhum motivo sério, embora até parecesse quando ela pisou ali, pela forma seca como ele falou com a funcionária que a trouxe. No entanto, assim que ficaram sozinhos o rosto do homem suavizou totalmente.
Ele não tinha intenção alguma de brigar com Roxanne, só a chamou ali porque queria saber como ela estava, se ela precisava de algo. A adolescente interpretou aquilo como preocupação.
E era ótimo ter alguém cuidando dela.
A partir de então eles desenvolveram o que a Roxanne de quatorze anos diria ser uma "boa amizade". Eles conversavam muito e Bellucci sempre comentava o quão madura ela era para a idade que tinha.
A jovem Domenichelli se sentia importante, quase adulta. Gostava de passar tempo ali, principalmente quando era chamada como se fosse levar uma bronca e, na verdade, havia algo especial para ela escondido no escritório. O diretor começou a trazer seus doces preferidos, revistas e livros de romance.
Ele a deixava ler ali mesmo, e ela se deitava no chão, com a barriga para baixo e os pés pra cima, entretida sob a atenção do mais velho.
Uma ou outra vez a adolescente pescava um olhar intenso que fazia o coração dela bater mais rápido.
Não demorou muito mais de um mês para jurar que estava apaixonada. Como não estaria? Bellucci era atencioso, cuidava dela, lhe dava presentes, nunca a deixava se encrencar quando Greta a culpava por qualquer coisa.
Com quatorze anos, Roxanne podia jurar que aquilo era segurança. Que aquilo era amor.
Então, quando os toques começaram e evoluíram rápido para algo muito mais íntimo, a adolescente estava muito certa de que foi ela quem quis. Afinal... "era muito madura para sua idade". Ela sabia das coisas. Ela entendia o mundo dos adultos. Ela podia tomar suas próprias decisões.
A única coisa que ela não podia era contar para alguém. Porque afinal, Bellucci deixou bem claro que as pessoas não entenderiam o amor deles, que tentariam separar os dois.
Mas Roxanne não era uma delatora. Sendo assim, foi fácil decidir que protegeria o diretor, porque ela o amava... Não é?
Ela tinha quatorze anos e é claro que amava um homem de cinquenta. Sabia exatamente o que estava fazendo porque era madura demais pra sua idade. Foi ela quem quis tudo que aconteceu a seguir; cada toque, cada beijo. Ela quis. Ela convenceu aquele homem maior, mais velho e mais esperto que o amor deles não tinha nada de errado. Foi tudo ela.
Mesmo que ele inventasse desculpas para chamá-la naquela sala fechada. Mesmo que ele soubesse exatamente quais eram as carências de sua aluna. Mesmo que fosse ele quem conduzisse e ensinasse cada coisa. Mesmo que ele fosse o diretor de cinquenta anos e ela a aluna de quatorze.
Tudo que aconteceu naqueles seis meses seguintes foi culpa dela. Porque ela era "madura demais para sua idade".
Roxanne estava feliz, ela pensou que estava. Era bom ter um segredo com o diretor, era bom receber atenção e presentes. Era bom ser cuidada, acreditar que alguém a amava. Por que aquilo era amor, não é?
O que vinha depois — a parte mais física daquelas visitas — era estranho, quase nunca bom, na maior parte das vezes desconfortável e dolorido. E a cada vez ele exigia mais dela e dava menos em troca. Mas tudo bem, porque Roxanne era madura pra idade e entendia que às vezes as coisas eram assim mesmo.
Bellucci a protegia e ela queria fazê-lo feliz. Era muito simples em sua mente. Ela tinha quatorze anos e julgava que possuía muito mais que a maioria, porque tinha um amor e isso bastava. Não é?
Não se importaria em passar mais quatro anos naquele internato, mesmo que Greta e todas as outras meninas e mulheres ali a odiassem. Quando ela fizesse dezoito, finalmente estaria livre para que seu diretor a assumisse para o mundo.
Essa era a única coisa em sua mente quando recebeu uma visita naquele verão.
— Olá, Roxanne. — O rosto conhecido lhe saudou, tirando o chapéu de forma educada.
O homem estava sentado na sala comum onde os familiares encontravam as alunas. Tinha quase trinta anos, cabelos negros e um sorriso aberto. A jovem Domenichelli o conhecia de outras vistas, e de antes disso, afinal eram primos distantes. Francesco Grego era filho da Benedetta, governanta da casa. Ele também era a única visita que a menina recebia naquele internato, mas fazia um tempo que não aparecia.
— Meu pai está bem? — Foi a primeira pergunta que a garota fez ao se sentar. Ela imaginava que Francesco só ia até o internato por ordem do Dom, naquela época estava muito longe de desconfiar que o homem aparecia quando podia, por pura preocupação.
— Ele está ótimo, ocupado, mas ótimo. — Francesco respondeu apaziguador. — Eu estava por perto e resolvi passar para ver como andam as coisas pra você. Não pude vir antes porque a Sicília pode ser caótica, você sabe.
Ele era um homem agradável, e no geral Roxanne gostava da visita, era como saber novidades de casa, no entanto, naquele instante Francesco Grecco parecia uma ameaça. Ele podia separar a garota de Bellucci, caso soubesse de alguma coisa.
— Estou ótima. — A jovem disse com segurança.
— Tem certeza? — A pergunta veio em tom mais baixo, como se fosse um indicativo que a garota poderia contar qualquer coisa. — Tem algo que esteja precisando?
— Não. Estou ótima. — Ela garantiu.
Francesco assentiu, e eles conversaram amenidades pela próxima hora. O homem gostava de falar de casa e Roxanne gostava de ouvir sobre a Sicília, porque no fundo sentia falta da ilha, do mar, do lar no qual havia nascido. Não entendia porque seu pai a mantinha tão afastada.
Naquele dia, antes de ir embora, Frank pousou suas mãos nos ombros da mais jovem e a encarou por longos instantes, como se conseguisse enxergar que algo não estava certo.
— Aqui. — Ele deu a ela um papel com um número de telefone. — Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, você pode me ligar, certo?
Roxanne quis refutar, nem seu próprio pai a atendia, claro que Francesco também estaria ocupado demais. Mesmo assim, ela se manteve calada, apenas colocou o papel no bolso de seu casaco do uniforme e acenou uma despedida.
Naquela noite ela não conseguiu dormir, ouvir sobre seu lar e lembrar de tudo que não tinha ali no internato doía mais do que nunca. Se apegou ao ioiô de Damian, mas nem isso aplacou a saudade. Ela precisava de algo que amenizasse sua dor, precisava de alguém para abraçar e dizer que tudo ficaria bem. Precisava ser amada. Por isso, silenciosamente, se levantou, vestiu o casaco, colocou o brinquedo do irmão no bolso e deixou o dormitório pé ante pé.
Não devia cruzar os corredores naquele horário, o internato tinha um toque de recolher rigoroso e a punição por ser flagrada fora da cama seria cruel, a garota sabia disso. Porém arriscou mesmo assim. Se não acendesse nenhuma luz e não fizesse barulho conseguiria chegar à sala do Diretor Bellucci. Pela janela confirmou que o carro dele ainda estava na vaga, então com certeza o homem se encontrava nas dependências do colégio.
Roxanne sabia que, por vezes, ele dormia por ali mesmo, no sofá de seu escritório. Foi para lá que ela se esgueirou o mais silenciosamente que podia.
Quando alcançou seu objetivo, com o coração aos saltos por causa da adrenalina, ela ergueu o punho pronta para bater na porta, porém um barulho lá dentro a fez franzir as sobrancelhas e desistir do movimento.
Aproximou o ouvido da madeira e escutou novamente, não havia engano algum... aquilo era um gemido. Seu coração ficou gelado, seu corpo inteiro começou a tremer, um nó se formou em sua garganta.
A voz Bellucci veio lá de dentro, coisas sujas que eram ditas em um tom que a garota Domenichelli já conhecia...
Ele não podia fazer isso. Como ele podia estar com outra, depois de dizer tantas vezes que amava Roxanne por ela ser diferente de qualquer uma?
Será que alguma professora?
Com a respiração presa na garganta e os olhos marejados, a garota se abaixou em direção a fechadura. Porém, todas as coisas terríveis que ela havia imaginado em sua mente, não chegaram nem perto de ser tão devastadoras quanto o que ela viu, ao espiar pela pequena abertura.
O Diretor Bellucci estava lá, iluminado pela claridade da lareira acesa, mas ele não estava com uma professora, tampouco com uma funcionária qualquer. Ele estava com uma aluna.
Ele estava com Greta.
Roxanne paralisou totalmente. O choque fazendo com que o corpo dela atingisse um estado de torpor estranho. Queria gritar, porém nada saiu por sua garganta; queria invadir a sala e fazer um escândalo, mas não conseguiu também. Lentamente ela foi se afastando da porta.
Como podia estar tão calma se por dentro cada parte sua estava desmoronando?
Não voltou para seu quarto, ao invés disso foi para o lado oposto do longo corredor, entrando em uma das salas que naquele momento estava totalmente vazia e escura.
Parou ao lado da porta assim que entrou, suas pernas, que mal conseguiam segurar seu peso falharam finalmente e ela desabou encostada na parede.
A sensação era desesperadora, mas ao mesmo tempo era estranhamente... vazia. Roxanne havia perdido a mãe, o irmão e tudo que um dia chamou de lar, ela estava acostumada com a devastação e com a dor, estava acostumada com a perda. No entanto, ali parada na sala escura, nenhuma única lágrima rolou por seu rosto.
Doía, é claro, mas essa dor vinha acompanhada por uma vozinha crítica e quase maldosa que dizia: você devia saber...
Era exatamente essa a sensação que sobrepujava todas as outras, como se pela primeira vez seu cérebro tivesse um pingo de clareza. Era como ler um livro de suspense e finalmente descobrir o vilão e, então, olhar para as páginas que passaram e perceber que todas as pistas estavam lá o tempo todo.
Ela só tinha sido ingênua demais para perceber.
Garotinha tola e manipulável.
Não era madura demais para sua idade, não era velha o bastante para saber o que estava fazendo, não era diferente das outras.
Roxanne era exatamente igual as outras, uma menina de quatorze anos impressionável, que acabou sendo a presa perfeita para um homem trinta e cinco anos mais velho.
E, mesmo naquele momento em que achava que tinha entendido tudo, ela ainda falhou em ter a clareza completa da situação. Apenas anos mais tarde, foi que Roxanne Domenichelli realmente entendeu que tinha sido aliciada desde o instante em que Bellucci colocou os olhos nela pela primeira vez.
Cada palavra doce, cada olhar carinhoso, cada conversa compreensiva, tudo foi apenas uma armadilha. E ela caiu em todas elas.
Ficou ali parada naquela sala por uma infinidade não contada de segundos, encarando o nada com os olhos secos enquanto sua mente repassava cada detalhe do que tinha vivido e feito com Bellucci.
Se sentia suja, usada. Não estava triste, estava com muita raiva. Por isso, quando ouviu as vozes sussurradas no corredor e abriu sua porta apenas o bastante para ver Greta sumindo em direção ao quarto, Roxanne, em sua impulsividade juvenil, decidiu fazer a coisa menos segura possível.
Ela foi confrontar o Diretor Bellucci.
Munida apenas de uma coragem inconsequente, ela invadiu a sala.
O homem mais velho se virou surpreso, assim que a adolescente entrou em um rompante, fechando a porta atrás de si.
Os dois se encararam por um segundo, ela não se deu conta do quão esperto ele era e nem da velocidade com a qual entendeu tudo que estava acontecendo. Ele sabia o que ela tinha visto.
— Todo esse tempo você vem mentindo pra mim? — Roxanne foi muito direta, se sentia traída, enganada, usada, menosprezada, isso pareceu trazer de volta toda a mágoa que guardava do próprio pai.
Por que era isso, não era? A rachadura pela qual Bellucci se infiltrou, tinha sido criada no coração da jovem Domenichelli pelo próprio pai dela. O Dom transformou sua filha na vítima perfeita; desamparada, sozinha, isolada e carente.
— Você sequer gosta de mim? — Talvez ela nem quisesse fazer aquela pergunta, não para o Diretor especificamente. Aquilo era algo que ela queria perguntar para o próprio pai.
— Roxanne, não seja tão dramática, querida. — Bellucci disse apaziguador, um sorriso cativante no rosto, enquanto ele caminhava lentamente para mais perto, a claridade da lareira acesa incidindo sobre ele e o deixando um tanto assustador.
A adolescente ergueu a cabeça, não podia se deixar enganar mais. Tinha que fazer o que era certo.
Aquilo claramente não era um caso isolado; Roxanne, Greta e quantas mais?
A jovem Domenichelli virou às costas, pronta para sair pela porta. Ficar ali e ouvir aquele homem lhe contar mentiras não ajudaria em nada.
— Onde você vai? — O diretor segurou a mais nova antes que ela pudesse abrir a porta.
— Eu vou contar tudo isso pra alguém. — Roxanne não podia mais cumprir as regras da máfia, tinha que delatar dessa vez, porém, foi ingênua o bastante para dizer isso em voz alta.
Era só uma adolescente ferida afinal, ela queria machucar de volta, mas claramente não pensou direito em suas palavras.
— Você não vai contar nada disso pra ninguém. — Bellucci apertou o pulso feminino e puxou a garota de volta. — Greta me chantageou, ela me seduziu. Ela não é nada pra mim.
Roxanne tentou se soltar, mas o homem não permitiu.
— Fica aqui, vamos conversar. — Ele ainda tentou, usando aquela voz suave. Mas agora ela já sabia que só sairiam mentiras daquela boca.
— Me solta! — Rebateu, erguendo o tom de voz. — Está me machucando!
O diretor travou ainda mais os dedos ao redor do pulso dela, de forma que os ossos chegavam a doer.
— Me deixa ir! — Tentou dar um chute na canela dele, mas isso não surtiu efeito algum. Precisava de ajuda. — Socorro!
— Calada! — A ordem veio de imediato.
Roxanne mal tinha terminado de gritar quando a bofetada atingiu seu rosto com tanta força que ela caiu sentada, sua vista ficando turva e seu ouvido zunindo com o som estridente do tapa.
Bellucci estava entre ela e a porta agora, por isso a jovem começou a rastejar para trás através do carpete, tentando se afastar, conforme o homem muito maior se aproximava com um olhar ameaçador, a encarando de cima como se gostasse daquela sensação de superioridade.
— Eu vou contar tudo isso para o meu pai e ele vai acabar com você! — A jovem Domenichelli ousou dizer.
— Ah sim, porque ele é o Dom, certo? — O diretor debochou, provando que sabia disso desde o começo, embora nunca tivesse comentado sobre. — Eu conheço muito bem o seu pai, garota. E posso dizer com convicção que ele nem liga pra você. Tudo que ele quer é que você seja disciplinada. Por isso você está aqui.
A cabeça de Roxanne rodou com aquela informação. Se Bellucci conhecia o Dom, então o quanto seu pai sabia de tudo aquilo?
Tentou se levantar e correr, mas foi impedida, seu corpo agarrado e erguido no ar enquanto ela se debatia. O diretor a acertou de novo, agarrando o cabelo feminino e empurrando a cabeça da garota de encontro a mesa tão forte que Roxanne sentiu o gosto metálico de sangue se espalhar por seu paladar.
— Ninguém se importa com você. Ninguém te ama. — Ele a prensou contra a madeira, forçando a cabeça dela a permanecer imóvel com a mão grande apoiada sobre ela. — E como amaria? Olha só pra você, uma garotinha patética implorando por atenção, acha que meninas como você valem alguma coisa? Você é só um descarte da Máfia. Todo mundo aqui sabe o que você é, por isso te desprezam.
Ela não queria ouvir, sempre pensou que ninguém soubesse por isso a desrespeitavam, mas agora entendia que sempre estiveram cientes da origem dela e por isso a odiavam.
Roxanne reuniu toda sua força e chutou a canela do homem. Quando ele se abaixou para alisar o lugar, isso deu a ela tempo para correr em direção à porta, seus olhos cheios de lágrimas agora, o pavor completo tomando conta de todos os seus instintos.
Antes que conseguisse alcançar a maçaneta, a mão grande e pesada a puxou de uma vez só pelo tornozelo, Roxanne desabou para o chão, sendo arrastada pelo carpete enquanto tentava se agarrar a qualquer coisa pelo caminho.
O corpo masculino cobriu o dela, o peso a imobilizando, mesmo que a garota ainda não tivesse desistido de se debater e gritasse a plenos pulmões.
— Meninas como você só servem pra uma coisa... — O diretor silabou e havia algo de sádico em seus olhos, enquanto ele forçava as pernas de Roxanne a se abrirem mais. — E você devia agradecer que eu quero fazer isso com você.
— Não! Me larga! — Ela tentou com tudo que tinha se soltar. Sabia o que estava prestes a acontecer e, mesmo que tivesse feito aquilo de bom grado com ele outras vezes, agora a garota sabia que sempre foi um erro.
Não podia deixar Bellucci tirar mais nada dela.
Continuou a gritar até que a mão pesada tapou sua boca de tal forma que o ar foi embora em instantes.
— Eu já mandei ficar calada! — Ele silabou descontrolado, apertando ainda mais aquela mão, enquanto usava a outra para tentar lidar com as roupas deles, embora isso fosse difícil, porque Roxanne não parava de tentar escapar. — Seus gritos não fazem diferença, ninguém vai vir te salvar. Meninas como você não são salvas. Ninguém nunca vai se importar em salvar você de nada, sua putinha da Máfia. Eu sou tudo que você tem.
Algo aconteceu com a mente de Roxanne naquele exato instante, as palavras fazendo uma marca nela. Porque, o diretor podia contar muitas e muitas mentiras, mas aquilo, aquilo era verdade. Ninguém viria por ela. Ninguém se importava o bastante. Ela estava sozinha.
Ele se forçaria para dentro dela e depois a usaria como quisesse, por quanto tempo quisesse. Roxanne não tinha para onde fugir. Estava presa naquele internato. Sem mãe, sem irmão, abandonada pelo próprio pai.
Bellucci estava certo, em qualquer lugar que ela fosse seu sobrenome chegaria primeiro, as pessoas olhariam para ela e veriam apenas a máfia. E, se nem seu próprio pai conseguia nutrir amor por ela, então quem a amaria?
Ninguém.
Ninguém viria por ela.
Roxanne desviou olhar, tentando decidir se aceitar o destino seria menos doloroso... Seus olhos bateram na lareira acessa, o ferro de mexer a lenha repousava ao lado da parede.
Não. Não podia desistir. Se ninguém viria salvá-la, então ela tinha que se salvar sozinha.
Parou de lutar, mas só porque isso lhe daria a possibilidade de mover a mão, esticando-a ao máximo pelo carpete e em direção ao ferro. Ela não pensou. Assim que seus dedos se fecharam contra o metal frio, atingiu o Diretor Bellucci do jeito de dava por causa da posição desfavorável.
A ponta afiada se prendeu na garganta masculina e, quando Roxanne fez o movimento de puxar, o sangue esguichou por todo o lado.
A garota conseguiu se arrastar para longe, enquanto o homem cambaleava para trás, as mãos desesperadamente segurando o pescoço, o fluxo de sangue o fazendo engasgar em puro desespero.
Roxanne nunca havia ferido alguém na vida, mas ali estava ela, catorze anos, coberta de sangue, enquanto o corpo do homem que havia mentido, manipulado e abusado dela — sentimental, física e psicologicamente — caía sobre a lareira acessa.
Ficou lá, parada em choque completo, com o ferro ainda firme na mão, assistindo o fogo, pouco a pouco, começar a tomar conta do cabelo loiro daquele maldito diretor. As chamas se espalhando pelas roupas dele e seguindo para o carpete.
Só quando as cortinas já estavam queimando foi que ela conseguiu se mover. Ainda petrificada, Roxanne largou o ferro no chão e caminhou em direção a saída. Cruzando o prédio até o térreo e deixando o internato por uma das janelas da cozinha.
Não acordou ninguém no caminho. Talvez tenha pensado que não valia à pena chamar por alguém que não veio em seu socorro enquanto ela gritava por ajuda. Ou, quem sabe, ela estivesse tão em choque que simplesmente não pensou em absolutamente nada.
Foi andando pela estrada, o maldito internato afastado de tudo, sem vizinhos, sem qualquer comodidade por perto. Era de madrugada e nenhum único carro passava. Então ela apenas continuou a andar, coberta de sangue, com os olhos vidrados no nada, sem saber para onde ir. Escolheu aleatoriamente uma das direções e foi, conseguindo ouvir a sirene dos bombeiros lá para trás depois de algum tempo.
Instintivamente colocou a mão no bolso do casaco, procurando pelo ioiô de seu irmão, o único pedacinho de casa que ainda tinha. Encontrou o objeto e, quando o puxou para fora, um pedaço de papel veio junto. Um número de celular.
Com o sol quase nascendo ela encontrou um desses telefones públicos e, por algum motivo, tentou ligar.
— Alô? — A voz masculina aceitou a chamada a cobrar.
— Fran-Francesco?
— Roxanne? — Ele pareceu alarmado no mesmo instante. — Roxanne, o que aconteceu?
— Eu... — Ela engoliu em seco. — Eu matei um homem.
Devia dizer isso? Devia contar para alguém? Fazia mesmo diferença contar?
— Onde você está? — A pergunta veio séria, Roxanne balbuciou a estrada e o quilometro que viu em uma placa. — Estou indo.
Ela não acreditou, mesmo assim se sentou no chão para esperar, as horas passaram e os carros começaram a ir e vir pela estrada. Absolutamente ninguém parou para ela. Porque, mesmo morto, Bellucci continuava certo. Ninguém nunca se importaria com ela.
Eventualmente Frank chegou, um olhar de profundo pavor tomando conta de sua expressão assim que ele encarou a fisionomia de Roxanne. Ele não perguntou, talvez não precisasse, talvez tivesse visto nas marcas do rosto dela, talvez já conhecesse a crueldade da vida o suficiente para deduzir a verdade.
Ele se aproximou cautelosamente e colocou seu próprio paletó nos ombros da adolescente, a levando dali em segurança.
Não conversaram sobre isso, mas o italiano estava sempre por perto em cada um dos dias que vieram naquele mês. Roxanne soube que ele havia cuidado dos detalhes do incêndio no internato, mas não perguntou como. Ela não se importava.
Haviam outras coisas em sua mente... Um maldito teste de gravidez positivo era um problema mais urgente.
Ela sabia o que tinha que fazer, ela tinha certeza, teria feito mesmo sozinha, mas agradeceu imensamente por Frank estar ao seu lado na ocasião. Sem perguntas de novo. Ele nunca pediu para saber os detalhes daquela história. Mas Francesco Greco foi todo o suporte silencioso que Roxanne podia desejar.
Anos depois, quando estava pronta, ela contou algumas partes que julgou necessárias, mas não tudo. Ninguém nunca ficou sabendo de tudo.
A culpa ela carregou sozinha, não apenas por ter sido a vítima perfeita, mas também o remorso que só veio com a maturidade. Porque com catorze anos, gravida de um maldito pedófilo manipulador, ela não tinha qualquer condição de entender a inocência que havia entre as pessoas que não lhe tratavam tão bem. Anos depois, ela conseguiu enxergar que foi responsável pela morte de Greta, das professoras, funcionárias e também de todas as outras alunas do internato.
A inocência de Roxanne morreu na noite do incêndio, de muitas e muitas formas. Ela tinha sangue inocente nas mãos agora, não apenas o sangue do culpado, mas também o das meninas tão manipuladas quanto ela. Mesmo Greta e sua violência sem motivo era um sinal claro de abuso, que Roxanne não soube reconhecer na época.
Mas ela aprendeu a farejar esse tipo de homem, e prometeu fazê-los pagar, prometeu mesmo antes de se tornar a Donna.
Com o tempo, teve que travar muitas batalhas, não só as externas, mas as internas, contra as marcas que ficaram. Teve que recuperar o controle sobre o próprio corpo, teve que se curar.
Foi uma estrada longa e cheia de percalços e ela venceu o próprio trauma, mas algo ficou bem claro desde então...
Ela nunca, nunca mais confiaria no amor outra vez.
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AGORA
Quando Roxanne abriu os olhos, o quarto ainda estava escuro. Ela se moveu sutilmente para não acordar James e tateou o celular na mesinha ao lado da cabeceira, na intenção de olhar o horário. Infelizmente esbarrou em algo que caiu no chão, fazendo um leve baque metálico. Se lembrou da aliança que antes pesava em seu dedo e apenas sorriu, sabendo que nunca mais teria que usar aquela merda e sequer se dando ao trabalho de procurar pela joia.
Acendeu a tela do telefone e notou que era pouco menos de quatro da manhã. Pensou em voltar a dormir, mas estava com fome e sem sono.
Tentou ignorar isso nos primeiros minutos, se aconchegando nos braços de James e apenas fechando os olhos, ouvindo o coração dele bater, enquanto sua mente revivia o dia anterior e o fato de que eles não haviam sequer levantado da cama.
A coisa de ser um super soldado era realmente um bônus e tanto. Sorriu para essa constatação.
Estava feliz, mergulhada em um tipo de paz que nunca imaginou que teria. Ali, deitada no colo do homem que amava, depois de dizer sim para um pedido de casamento de verdade, Roxanne se deu conta que nunca tinha vivenciado uma sensação de vitória mais palpável que aquela.
Podia não ter trazido Damian para casa ainda, mas havia vencido seu próprio passado, não se deixou sabotar pelas paranoias de sua mente.
Então era daquele jeito que a felicidade plena se parecia?
Quis rir, já estava sorrindo como uma boba, mas isso não parecia o bastante, queria gargalhar alto, queria soltar fogos. Tentou afundar um pouco mais nos braços de James para conter a vontade de gritar de alegria, tudo estava perfeito... infelizmente, seu estômago estava revoltado, afinal orgasmos não matavam a fome.
Fazendo o menos de barulho e movimento que conseguiu, ela se desvencilhou de James e se colocou de pé, ou melhor, tentou, porque antes mesmo que conseguisse tocar o chão o braço de vibranium a envolveu.
— Onde você vai? — Barnes murmurou sonolento e a puxou para perto, enfiando o nariz entre os fios escuros, aspirando longamente, como se amasse o cheiro dela.
— Eu vou fazer alguma coisa pra gente comer. — Roxanne murmurou, se virando para encontrar os olhos azuis na penumbra.
— Tudo bem, eu te ajudo. — Ele já fazia menção de se levantar.
— Não precisa, fica aqui e dorme mais um pouco, quando estiver pronto eu te trago café na cama. — Ela pousou um beijo casto nos lábios dele.
— Não precisa... eu ajudo. — Tentou segurar a italiana de novo, mas sua voz deixava bem claro que estava com sono ainda.
— Me deixa fazer algo para o meu futuro marido, faça o favor. — A Donna rebateu de forma divertida.
— Futuro marido, é? — James sorriu, foi perceptível mesmo na pouca claridade. Sua mão direita alcançou o rosto feminino com carinho e Roxanne assentiu. — Tudo bem, nesse caso eu aceito.
Ela caminhou pelo quarto, pegou a taça vazia e o celular, então vestiu uma das camisetas de manga comprida de James, caminhando até a porta em seguida.
— Eu te amo... — A voz masculina soprou baixinho, antes que ela saísse.
— Eu sei. — Roxanne sorriu. — Eu também te amo, amore mio.
Desceu as escadas sem pressa, o corpo relaxado e a felicidade evidente em cada um de seus trejeitos. Foi direto para a cozinha e já estava pegando as coisas que precisaria para um café da manhã especial, quando seu celular vibrou sobre a mesa.
A Donna pegou o aparelho e encarou o visor, onde o nome "Strovalenko" brilhava.
Ela fez uma careta, cogitou não responder, mas sabia que levantar suspeitas naquele instante não era aconselhável, ainda precisaria pensar no melhor jeito de terminar tudo com aquele maldito. Talvez pudesse atraí-lo para a Sicília uma última vez, para finalmente poder dar um tiro na cara do nazista de merda. Fim de relacionamento perfeito.
— Alô. — Disse de má vontade.
— Roxanne, onde você está? — A pergunta veio carregada de preocupação e algo mais, que imediatamente acendeu um alerta vermelho na mente da Donna.
Algo não estava certo.
— Em casa. — Ela respondeu sem saber o que esperar.
— Você está com ele?
— Ele? — Repetiu, estranhando a entonação naquela palavra em específico. Viktor nunca se referiu a James daquele jeito. — O Soldado Invernal? Claro que não, são quatro da manhã, pelo menos nesse horário eu posso ficar sozinha no meu próprio quarto.
Decidiu que bancar a inocente era a melhor estratégia no momento.
— Ele não é o Soldado Invernal, Roxanne, ele nunca foi. — Strovalenko cuspiu aquelas palavras com ódio.
— O que? — A Donna fingiu surpresa, certamente o líder da Hydra tinha descoberto que James havia se libertado do controle dele.
— Depois que você falou que aquela emboscada que eu sofri só podia ter acontecido por causa de alguma informação interna, eu comecei a investigar, recentemente, ontem para ser mais preciso, recebi um e-mail de uma fonte da CIA, com os arquivos de uma missão secreta deles chamada Operação Roleta Russa. — O homem começou a contar e, de repente, o assunto seguiu para um caminho que Roxanne não esperava.
— O que você está dizendo, Viktor? — Ainda tentou controlar a cadência da voz, mas sem perceber estava caminhando para o escritório instintivamente. Era importante, ela podia sentir.
— James Barnes nunca voltou a ser o Soldado Invernal, ele nem poderia, a programação foi retirada da mente dele com sucesso em Wakanda. No começo, eu pensei que ele tinha dito isso para o governo apenas para conseguir o perdão presidencial, mas eu recebi, junto com os arquivos, um vídeo dele logo depois do blip, quando as palavras foram recitadas sob supervisão do próprio Governo e nada aconteceu.
O coração de Roxanne ficou gelado, sua mente querendo seguir por um raciocínio que a fez prender a respiração.
— Mas você... você controlou ele. — Soprou, a negação palpável em sua voz. Não estava falando com Strovalenko, estava dizendo aquelas palavras para impedir o fluxo de seus próprios pensamentos.
— Era tudo mentira. — Viktor decretou muito seguro. — Desde o começo Barnes tem fingido ser o Soldado Invernal, ele está trabalhando com a CIA nessa Operação Roleta Russa, cujo objetivo é conseguir acesso e informações para derrubar a Hydra, aproveitando para derrubar as Máfias Russa e Italiana. Não sei como, mas foi ele quem vazou a informação sobre minha missão com os Werner no DCD. Por isso prenderam o Francesco.
O corpo feminino ficou paralisado no meio do escritório, as peças todas se encaixando. Todos os sinais que ela ignorou. Cada pequeno detalhe que havia escolhido não enxergar.
Um déjà vu macabro socou o estômago da Donna. Ela tinha catorze anos outra vez, estava novamente lendo um livro no qual tinha falhado em ver o vilão.
— Ele está mentindo desde o começo, Roxanne. Ele é um espião do Governo Americano. — As palavras decretaram a verdade.
Tudo que ela tinha vivido desde que aquele americano cruzou a porta de seu quarto lhe passou pela mente naquele instante; cada olhar, cada sorriso, cada toque, cada flerte, cada abraço, cada beijo, cada uma das vezes que ela deixou que usasse o corpo dela, cada eu te amo...
Era tudo uma mentira.
— Sei que está com medo, mas eu vou te proteger. Não o confronte, estou entrando no avião, estarei aí em algumas horas e vou acabar com esse desgraçado. — Viktor Strovalenko declarou do outro lado da linha.
A jovem Domenichelli ainda não havia se mexido, ela não conseguia, seu corpo estava totalmente petrificado, cada um dos seus músculos tensos. O passado rastejava para fora daquele lugar profundo em sua mente e colocava suas garras horrendas ao redor do pescoço dela. Não havia mais ar.
Tudo mentira...
O único homem a dizer a verdade para Roxanne ainda era aquele maldito diretor abusador. "Ninguém te ama. E como amaria? Olha só pra você, uma garotinha patética implorando por atenção, acha que meninas como você valem alguma coisa?"
Novamente tinha sido a garota ingênua que se deixou ser usada. Não havia outra forma de ver a situação, foi isso que aconteceu. Ela simplesmente não quis ver os sinais, porque estava encantada demais por receber atenção.
Tudo mentira...
— Roxanne? — A voz de Strovalenko veio impaciente.
Ah sim, o passado tinha saído da toca, mas ela não podia permitir que isso tirasse seu foco. Não podia deixar seus erros afetarem a missão de resgatar Damian. Seu irmão precisava ter um futuro, mesmo que o dela tivesse acabado de desmoronar por inteiro.
Cada segundo de felicidade que teve foi falso. Devia saber que aquele tipo de amor não existia, é claro que ninguém a amaria daquele jeito nunca.
Era tudo uma mentira.
— Entendi. — Respondeu finalmente. — Obrigada por avisar, Viktor.
Desligou em seguida, sua mente querendo fugir do foco, queria procurar verdade em meio a todas as mentiras, mas Roxanne não podia se dar a esse luxo.
Foram os pequenos luxos que ela se permitiu ter que quase foderam com tudo...
Seus olhos negros se encheram de lágrimas, mas ela não permitiu que rolassem, ergueu o queixo. A verdade era uma só, e não podia fugir dela:
Bucky Barnes era um espião. Um mentiroso. Um traidor.
E agora o destino dele estava nas mãos da Donna.
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