Operation Swan
3 The Morning of Class
Notas iniciais
London,
January 16, 2017.
Era uma manhã qualquer de segunda-feira. A neve havia dado uma trégua, por algumas horas, mas as rodovias ainda estavam bastante escorregadias. Um carro saiu de súbito de uma transversal e quase fechou o Sportage prata que vinha passando.
— Porra! – Ron buzinou, revoltado.
— Olha a boca, Ronald! – Hermione ralhou ao seu lado.
— Se fosse pra você ficar me controlando, eu teria te deixado ir de táxi.
Ela soltou o ar dos pulmões, irritada.
— Eu só estou te pedindo pra ter um pouco mais de educação – a mulher falou, consternada – Sua filha e sua sobrinha estão dentro do carro.
Rose afundou no banco dos fundos. Ela não aguentava mais aquelas brigas.
— Não falei nada que elas já não tenham escutado – Ron replicou – Ou que não repitam por ai...
— Com uma influencia dessa, impossível elas não replicarem.
— Ah, claro...! Falou a miss perfeitinha, que não faz nada de errado!
— Por que você tem que tornar as coisas tão insuportáveis?!
— Nem vem se fazer de vítima, Hermione. Foi você que começou!
Hermione empurrou a bolsa no colo, com força. As duas garotas ruivas se olharam brevemente, sem saber o que a mulher iria fazer.
— Me deixe na próxima parada – ela disse, raivosa.
— Nada disso – ele respondeu – Você não vai descer...
— Ronald!
— Está nevando e eu vou te deixar na porta dessa maldita universidade!
— Maldita foi à hora que o meu carro resolveu quebrar!
— É, nisso você tá certíssima!
Os dois continuaram debatendo. A discussão continuaria por mais tempo se a filha do casal não resolvesse interferir.
— Ai que droga!
Ron e Hermione se calaram, assustados.
— Será que vocês não podem parar de brigar por uma horinha que seja? É tão difícil assim? – a menina indagou, retórica – Poxa, tem tanto tempo que a gente não fica junto, os três. Porque vocês sempre estragam tudo?!
— A culpa não é minha, querida – Hermione se defendeu.
— Minha muito menos – Ron também se manifestou.
Rose sabia que até isso poderia virar motivo para uma nova discussão.
— Não importa de quem é a culpa! – ela interferiu, duas vezes mais chateada – Pai, mãe, o que aconteceu com vocês dois?!
Nenhum dos dois respondeu. Ronald se concentrou no volante, enquanto Hermione apenas olhou pelo vidro embaçado da janela. A viagem foi silenciosa até o colégio onde as meninas estudavam. As duas se despediram dos adultos emburrados rapidamente e desceram do carro.
— Nossa, a situação tá pior do que eu imaginei... – Lily comentou pela primeira vez, quando elas chegaram dentro do prédio.
— Tá horrível, Li – Rose falou, entristecida, se sentando em um dos degraus – Eu não sei mais o que fazer.
— Mas eles já estão separados há um tempinho, né prima? – Lily a acompanhou – O tio Ron nem mora mais na sua casa.
— Porque ele é um teimoso!
— Algumas coisas não tem explicação, Rosie. Talvez seja melhor que eles vivam separados.
— Melhor pra quem, Lily? Me diz pra quem, por favor...
A ruiva mais nova contraiu a bochecha, sem resposta.
— Desde que o meu pai saiu de casa, ele mudou. Ele se tornou outra pessoa. O papai não ri mais com tanta frequência, nem faz piadas como antes. A vida dele agora é só trabalho e cuidar dos negócios do tio Harry – a ruiva mais velha soltou um suspiro e apoiou a cabeça na base do corrimão de concreto – E a mamãe não fica atrás nisso. Eu nunca a vi tão amargurada. Ela pensa que eu não vejo, mas varias foram às vezes que eu a peguei chorando pelos cantos.
A garota puxou as mangas do grosso casaco. Seu olhar estava distante.
— Eu não aceito. Se for pra viver dessa forma, eu prefiro voltar pra os Estados Unidos.
— Eu não sei se essa seria uma boa ideia, Rose. Esse é um assunto deles.
— Não, Li. Esse assunto é meu também, porque eu sofro junto.
O sinal tocou impedindo que Lily argumentasse qualquer outra coisa. A garota se levantou e se despediu da prima, subindo as escadas em direção a sua aula. Rose permaneceu sentada por mais alguns minutos, ignorando o barulho do corredor. O lugar já estava vazio quando ela resolveu ir para a aula. Todos já estavam dentro da sala.
— Bom dia, Mrs. Weasley – a professora a cumprimentou – Achei que a senhorita estivesse perdida.
— Desculpe, Mrs McGonagall – Rose respondeu, ignorando o sarcasmo – Eu me atrasei um pouco.
Logo depois uma voz se sobressaiu ao fundo. Um garoto loiro, de aparência mais velha, se manifestou, debochado.
— Tentando chamar atenção, Weasley?
Umas menininhas que Rose odiava riram, estabanadas, achando graça na pergunta.
— Não é da sua conta, Malfoy.
A resposta foi dada simples e direta. Boa parte da sala riu da resposta desaforada da menina. O loiro fechou a cara. Rose viu que o seu primo Alvo, irmão de Lily, dissera algo a Malfoy e o garoto rolara os olhos. Como não havia mais lugar onde costumava ficar, a ruiva se sentou nos fundos da sala, do lado oposto onde eles estavam. Ela abriu a mochila e retirou de lá o estojo e o caderno, aproveitando para se despir do gorro que estava na sua cabeça e joga-lo dentro do case. Seus vastos cabelos vermelhos se armaram, livres, como sempre. A garota não se importou.
— Bom, como eu estava falando, na natureza, além da sobrevivência, o instinto animal guia-se pela necessidade de levar os genes a diante. Isso se dá, obviamente, pela reprodução.
Algumas pessoas riram baixinho. A professora McGonagall ignorou.
— Entre os diversos filos, os animais geralmente tem um intervalo especifico de reprodução. Esse período vai variar entre as famílias e as espécies – ela andou até o quadro e escreveu algo – É o que conhecemos nos mamíferos como época do cio.
Alguém levantou a mão. Incrivelmente, a professora McGonagall percebeu mesmo estando de costas para a classe. Rose riu, achando engraçado o nível de percepção espacial da mulher.
— Sim, Mrs. Bones?
— Eu não entendi uma coisa, professora – a menina falou, com o rosto confuso – Todos os mamíferos tem cio?
— Todos.
— Inclusive os humanos?
— Inclusive os humanos – a professora repetiu.
A garota continuava sem entender.
— Como não percebemos então?
— Isso é por que você não anda com o Creevey, Bones. Ele vive no cio o ano inteiro.
Antes que McGonagall respondesse, Scorpius foi mais rápido. Quase todos os alunos riram, exceto Rose, que rolou os olhos azuis.
— Obrigado pela informação adicional, Mr. Malfoy, mas sinto lhe informar que assim como o Mr. Creevey, todos os outros meninos desta sala, e quiçá do planeta, andam constantemente no cio.
Scorpius não se abalou. Apenas levantou as sobrancelhas e sorriu encantador. Boa parte das meninas o encarou, seduzidas pelo sorriso charmoso.
— Alguém saberia me dizer o por quê?
Houve um breve silêncio até que Rose se manifestasse.
— Porque a testosterona é lançada na corrente sanguínea dos homens constantemente, todos os dias – ela disse, mecânica – E como ela é responsável pelo desenvolvimento de diversas características sexuais, também é um fator determinante no comportamento sexual masculino.
— Muito bem, Weasley – a professora a elogiou – Meio ponto extra pela colocação bem feita.
Rose sorriu, vangloriada. McGonagall continuou.
— O cio é muito importante na natureza, porque garante a variabilidade genética entre os seres. Quanto mais machos tiver acesso a aquela fêmea, maior a possibilidade da seleção natural atuar, selecionando os genótipos mais vantajosos, e, consequentemente, aumentando a probabilidade de uma prole mais saudável.
— Como assim variabilidade genética? – alguém questionou, confuso.
— Ela quis dizer que quanto maior o número de parceiros, maior a qualidade genética daquela população.
A voz do Malfoy ecoou na sala. Sua explicação foi rápida e eficiente.
— Por isso a monogamia é inútil – o garoto completou, girando displicentemente um spinner azul – No final, ninguém é de ninguém.
Rose se empertigou na cadeira, inconformada.
— Eu discordo – a ruiva se intrometeu na discussão.
— É mesmo, Weasley? – o loiro continuou girando o brinquedo, sem surpresa – Me diga por quê.
O tom de deboche não a fez recuar.
— Existem inúmeros animais na natureza que mantem sua taxa de variabilidade genética alta e são monogâmicos. Os lobos, por exemplo, são fieis a uma parceira só durante toda a vida, e são grandes em numero populacional.
— Eles devem ser os únicos. Acho que dá pra contar nos dedos o numero de animais que mantem o sistema monogâmico.
— Isso não é verdade!
— Procure na internet. Quantos você conhece? Coloca aí uns quatro mamíferos, meia dúzia de pássaros e talvez um ou dois insetos.
Rose respirou fundo. Ela odiava o fato de Scorpius Malfoy ser, além de tudo, um aluno aplicado. Às vezes ela não entedia como ele repetira o ano duas vezes. Com certeza não era por dificuldade de absorção de conteúdo. Certas coisas eram injustas no planeta Terra.
— Os seres humanos são monogâmicos... – a ruiva sibilou por entre os dentes.
— Fale por você – o loiro piscou, divertido.
Seus amigos riram cumplices. A sala inteira presta atenção na discussão, interessada. Inclusive a professora.
— Eu não falo por mim, falo pela maior parte da população do planeta. Vivemos em um sistema monogâmico, Malfoy, quer você queira, ou não.
— Ei Weasley, o que você anda assistindo na televisão? Barbie?! O diário da princesa?
Scorpius e Rose mantiveram suas posturas, decididos. Nenhum dos dois estava interessado em abrir mão do seu ponto de vista.
— Vivemos em um sistema hipócrita onde a maioria dos indivíduos diz manter relacionamento com uma pessoa só, mas no fundo, saem por aí fazendo o que bem querem.
— Isso depende de muitos fatores, inclusive do acordo que é feito por essas pessoas envolvidas na questão. Hoje em dia existe muito relacionamentos abertos, por exemplo.
— Você só reforça a minha constatação de que o casamento é ilógico. Somos egoístas. Pensamos nas nossas vontades acima das dos outros. E nessa hora, a necessidade biológica fala mais alto. Não nascemos para partilhar uma história.
— Claro que nascemos, Malfoy, somos seres sociais! Precisamos do contato pra viver, pra suprir nossas necessidades psicológicas. O casamento, por exemplo, é uma das inúmeras formas de manter esse equilíbrio!
Um silêncio estranho pairou no ambiente, por alguns segundos, enquanto os dois adolescente se encaravam, incisivos.
— Você realmente acredita nisso, Weasley?! – o loiro indagou.
Algo se passava pelos fundos dos seus olhos acinzentados. A ruiva não percebeu.
— Acredito – Rose respondeu, firme.
— Então por que tantos casais se separam, sempre pelos mesmos motivos?
Ele a atingira no local crucial. Não era o fato de tantos casais se separarem, Malfoy não estava falando disso. O ponto era que o loiro tinha conhecimento da separação dos seus pais, e era exatamente isso que, implicitamente, ele estava questionando. Malfoy fora cruel ao tocar naquela ferida.
Rose deixou seus ombros caírem. Ela não tinha uma resposta. A garota se recostou na cadeira, desgostosa, e desviou o olhar do loiro com certa vergonha. Agora ele teria um motivo a mais para incomoda-la.
— Eu não sei – Rose assumiu, com uma voz triste – Talvez você esteja certo. Talvez eles se cansem mesmo um dos outros.
Scorpius a observou mudar de postura bruscamente. Ele se agradava por ter vencido a discussão, mas algo o incomodava na reação da ruiva. O loiro fitou ao amigo, ao seu lado, sem entender o que havia acontecido. Alvo apenas suspirou, desgostoso. Isso só aumentou a sua certeza de que ele havia feito algo de errado em levantar aquele questionamento. As mil respostas que Scorpius possuía, triunfantes, para replicar a Weasley, foram suprimidas em apenas um sorriso mudo, mas arrebatador como sempre.
O sinal tocou logo em seguida. Nenhum aluno saiu do lugar.
— Bom, foi uma aula e tanto – a professora McGonagall comentou, com um ar simpático – Para a próxima semana, eu quero um estudo dirigido sobre o que foi discutido hoje e um resumo sobre o sistema reprodutor humano. Tenham um bom dia.
Com um aceno de mão rápido, a ordem de retirada foi dada. Rose, como nunca tinha feito antes na vida, foi a primeira a sair da sala, apressada. Scorpius viu o borrão de cabelos vermelhos passar pela porta, seguido logo depois por outros alunos distraídos e tagarelas. Malfoy girou o fidget spinner mais uma vez antes de coloca-lo no bolso, e decidiu fazer algo também inédito. Ele se levantou e foi atrás da ruiva.
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